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14.6.13

FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA


O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!

1.4.09

FRANCISCO SÁ DE MIRANDA

(final do) Dialogo em Prosa
Da mentira e desquerição.


(…)
Disquerição. Ora te digo que em estremo me espanto com usares tam facilmente cousas dos môres inimigos que tens, porque claro está que o natural contrairo da mentira é a verdade; pois em verdadeira amizade e licita obrigação quem viu mentira? pelo qual cada vez mais e mais me espanto de assi domesticamente usares esses vestidos, assi que para meu desenleo te rogo dizer me queiras: isto como é?
Mentira. Como te eu já disse? eu sou fea e negra e manca e finalmente tam torpe que muitos me têm por estremo de fealdade e torpeza, de maneira que, pera cobrir estas tachas que em mim conheço haver, era necessário andar vestida; e achando me sem vestidos, detreminei a alguem os furtar; e já nisto detreminada, correu me á memória que, pera effeituar meus desejos, nenhums trajos erão milhores que os que menos meus parecessem. Assi que, isto considerado, achei erão certos os da verdade. A qual causa conhecendo, detreminei de palpar todas as vias que para os haver achasse. E foi me nisto a fortuna tam favoravel que com pouco trabalho pus em obra meu desejo porque, como deus criou a verdade tam fermosa e clara, preza se muito d'andar despida pera milhor se enxergarem suas perfeiçõis, e o mesmo fazem a obrigação e amizade, que também estimão pouco estes vestidos, assi que eu tenho tempo pera os poder furtar pera me d'eles aproveitar quando d'eles tenho necessidade.
Disquerição. Também queria saber, se te aprouvesse, de que são estes vestidos? e como se chamão?
Mentira. Estes vestidos são de boas palavras, perfeitas oraçõis que soão bem ás orelhas; chamão lhe algums eloquencia, outros oratoria. E finalmente outros lhe chamão: saber exprimir os conceitos da vontade.
Disquerição. Assaz de contente estou do que sei de teus trajos; queria agora saber donde naceste? e quem gerou tam torpe cousa?
Mentira. A mim fizerão me os homens, minha mai foi a desculpa. E fica te embora, que não posso mais deter me, que vejo la vir quem me destruirá se me achar.
Disquerição. Torna ca, mentira, dize me de que foges?
Mentira. Ou tu es cega ou não es a desquericão como eu cuidava! Pois não vês a pressa com que o tempo vem trazendo a verdade ás costas? polo qual eu não posso mais aguardar.
Disquerição. Vai embora! que assaz de pouco juizo tem quem te ouve, e menos quem te cre, e nenhum quem comtigo trata. Que posto que ás vezes tarde em lhe dar o pago, a ousadas, que não vão sem lho dares como sua bestialidade merece, por se abraçarem comtigo deixando a verdade, em cuja busca eu tanto tempo tenho andado, sem em nenhuma parte a achar. E pois aqui vem, quero a ir receber e abraçar como é rezão que faça, todas as vezes que a vir, e mais sendo esta a primeira.

(in Poesia de Francisco de Sá de Miranda, edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, reprodução em fac-simile do exemplar com data de 1885 da Biblioteca Nacional, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989)

6.2.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA

Soneto XIII


Não sei que em vós mais vejo e não sei que
Mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
Não sei que vejo mais tê no calar
Nem, quando vos não vejo, a alma que ve?

Que lhe aparece, onde quer que ela esté,
Que olhe o ceo, que a terra, o vento, o mar?
E triste aquele vosso sospirar
Em quanto mais vai, que direi que é?

Certamente não sei: nem isto que anda
Antre nós, se é ele ar como parece,
Se fogo d'outra sorte e d'outra lei.

Em que ando? de que vivo? e nunca abranda
Por ventura se à vista resprandece?
Ora o que eu si tam mal, como direi?

(fixação do texto de Carolina Michaelis de Vasconcelos)

LUÍS DE CAMÕES

Presença bela, angélica figura,
Em quem quanto o Céu tinha nos tem dado;
Gesto alegre, de rosas semeado,
Entre as quais se está rindo a Fermosura;
Olhos onde tem feito tal mistura
Em cristal branco e preto marchetado,
Que vemos já no verde delicado,
Não esperança, mas inveja escura;
Brandura, aviso e graça, que aumentando
A natural beleza c'um desprezo,
Com que, mais desprezada, mais se aumenta:
São as prisões de um coração, que preso,
Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
Como faz a Sereia na tormenta

(fixação do texto de Hernâni Cidade)

PEDRO DE ANDRADE CAMINHA

Soneto XXXVII


Passa o dia e a noute, o mês e o ano,
Segue ó brando verão o inverno duro;
O dia agora é claro, agora escuro,
O sol ora aproveita, ora faz dano

Na calma á doce sombra, o alegre engano
De seu amor chora a ave em canto puro;
Depois o tempo, que em nada é seguro,
Lhe dá triste silencio e desengano.

Tudo tem suas mudanças, corre o tempo
Ora assi, ora assi; se de dureza
Ontem usou, oje usa de brandura.

Em mim só ua tristissima tristeza
Sinto sempre tam firme, grave e dura
Que não a abranda ou muda ano nem tempo.

(fixação do texto de J. Priebsch)

Frei AGOSTINHO DA CRUZ

Da contemplação


Dos solitarios bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
Nesta Serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais fermosura.

Que tem quem tem na terra mor ventura,
Nos mais altos estados arriscada,
Se não tem a vontade registada
Nas mãos do criador da criatura?

A folha, que no bosque verde estava,
Em breve espaço cai, perdida a cor.
Que tantas esperanças sustentava.

Por isso considere o pecador,
Se quando na pintura se enlevava
Não se enlevava mais no seu pintor.

(fixação do texto de António Gil Rafael)

Sóror VIOLANTE DO CÉU

A el Rei D. João IV de Portugal

SONETO EM DIÁLOGO

Que logras Portugal? um Rei perfeito,
quem o constituiu? sacra piedade,
que alcançaste com ele? a liberdade,
que liberdade tens? ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? honra, e proveito,
que é o novo Rei? quasi Deidade,
que ostenta nas acções? felicidade,
e que tem de feliz? ser por Deus feito.

Que eras antes dele? um laberinto,
que te julgas agora? um firmamento,
temes alguém? não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? ua só sinto,
qual é? não ser um mundo, ou não ser cento,
para ser mais capaz de tal Monarca

(fixação do texto de Margarida Vieira Mendes)