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27.10.09

(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)


SÉRGIO GODINHO

Chuvas de Cabo Verde


Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão

Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna

Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado

(do álbum Aos Amores, 1989)



(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)

10.6.08

[da raça I]

SÉRGIO GODINHO

DE CORAÇÃO E RAÇA


"Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça"
(De um conhecido hino)

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário prá despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento prá morte
vou pró leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte.

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

(do álbum À queima-roupa, 1974)

25.4.08

SÉRGIO GODINHO

ISTO ANDA TUDO LIGADO


Ainda não vi a impressionante mariposa ainda não
Ainda não vi a pretendente pesarosa ainda não
Ainda não vi a tarde morna e vagarosa ainda não
Ainda não vi ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá

Ainda não vi o riso que tudo desvenda ainda não
Ainda não vi o reverendo e a reverenda ainda não
Ainda não vi o leão ferido e a sua senda ainda não
ainda não vi a face clara da possível confusão

Ainda não vi a hora H
ainda não vi a mão em V
ainda não vi o dia D
em que a guerra final começará

Quando eu nascer para a semana ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado

Ainda não vi as artimanhas da saudade ainda não
Ainda não vi a caravana na cidade ainda não
Ainda não vi a incorruptibilidade ainda não
ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá

Ainda não vi o abraço à porta da taberna ainda não
Ainda não vi a ideológica lanterna ainda não
Ainda não vi a mão que avança para a perna ainda não
ainda não vi a face clara da possível confusão

Ainda não vi a hora H
ainda não vi a mão em V
ainda não vi o dia D
em que a guerra final começará

Quando eu nascer para a semana ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado

Ainda não vi a grossa lágrima ao espelho ainda não
Ainda não vi o grande chefe e o seu grupelho ainda não
Ainda não vi o azul-turquesa e o vermelho ainda não
Ainda não vi ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá
Quando eu nascer para a semana ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado

(do álbum Na Vida Real, de 1987 e do álbum O Irmão do Meio, de 2003, com Da Weasel e Gabriel O Pensador)

15.2.05

[fatal como eu, na Terra da Alegria de Hoje]

SÉRGIO GODINHO

CASO FATAL

É a mais pura verdade o caso que eu vou contar
quem quiser pode nem acreditar

Sé bem que, aviso já
mentiroso eu não sou
quem quiser pode ir lá ver
que eu não vou.
De mais a mais porque é
que eu havia de ir ver
o que já lá vi com estes dois
por quem sois
crêde em mim
vou contar-vos enfim
o tal caso verdadeiro:
aí vai, tim-tim por tim-tim

Verdadeiro ou não
só posso chamar-lhe atroz
este caso que me estrangula a voz

Não penseis que exagero
nem julgueis que é demais
ou que abuso de pimentas e sais

Não, bem pelo contrário
a minha musa indigente
nem sequer está à altura
e faz figura bem triste
mas bom, já que se insiste
estou disposto a revelar
no que este caso consiste

Ora bem foi assim
este caso fatal
que foi p'ra pior
depois de estar mal

Não me lembro da hora
nem se era noite ou dia
só sei que algo no ar se pressentia

E os pressentimentos
são a modos que mosquitos
a esvoaçarem no ar
esmagar dois ou três
se alivia o freguês
não anula o problema
nem o resolve de vez

Então seguiu-se o resto
do que estava p'ra vir
nem vos conto, p'ra vos não combalir

Foi um ver se te avias
um vai-vem muito louco
um toma-lá-dá-cá e fica com o troco

Teve um pouco de tudo
e foi pouco p'ro que teve
sem ter mais nem porquê
já se vê p'lo aparato
que foi de esfola-gato
este caso que no meu modesto verso relato

Bem, e agora que já
estais familiarizados
com o assunto e seus assins e assados
e que tendes presente
a complexidade
de apartar do mexerico a verdade
podereis ter ficado
com a estranha sensação
que eu nada disse, e porém...

Também muitos doutores
falam bem fazem flores
mas não dizem nada, nada
ao discursar: Meus senhores...

(do álbum Coincidências, 1983)

25.6.04

SÉRGIO GODINHO

ESPECTÁCULO (excerto)


Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar

(do álbum Campolide, 1979 e, em dueto com Manuela Azevedo - e os Clã - em Coincidências, 2001)

17.2.04

[Ale e Nébia mudaram a canalização para aqui - ponho a tocar uma canção para dar sorte]

SÉRGIO GODINHO

O BAÚ DE SIGMUND FREUD


A religião é uma maneira de explicar tudo
o surrealismo é uma maneira de não explicar nada
entre a prece e a charada
há-de haver uma outra estrada
que eu ainda hei-de percorrer
(isto disse o doutor Freud)

Não nego que olhar para dentro
não digo que olhar p’ro ego
não desmanche o fingimento
não faça ver quem é cego

Mas que trabalho, que canseira (não há maneira)
nos salões do inconsciente
há baús de tantas cores
tanto pó por sobre as dores
tanto dos nossos insides
que nos sai desnaturado

Eu sei, eu sei, Freud explica
O b-a-bá do baú
mas
se eu fosse a ti Segismundo
não teria vindo ao mundo
pra nos fazer vir a nós
que quem quiser vir a si
vai ter que abrir o baú

Outro dia levantei-me tão bem disposto
até o espelho sorria ao olhar para o meu rosto
deitei-me logo outra vez
há que ser poupado e parco
pra não lhe perder o gosto
pra não afundar o barco

Tanta cobrança afectiva
vinda a boiar do passado
fica um sujeito à deriva
sem saber do que é culpado

Mas que trabalho, que canseira (não há maneira)
nos salões do inconsciente
há baús de tantas cores
tanto pó por sobre as dores
tanto dos nossos insides
que nos sai desnaturado

Eu sei, eu sei, Freud explica
O b-a-bá do baú
mas

se eu fosse a ti Segismundo
não teria vindo ao mundo
pra nos fazer vir a nós
que quem quiser vir a si
vai ter que abrir o baú

O cobarde é uma pessoa que foge para trás
o herói é uma pessoa que foge pra frente
em maior ou menor grau
todos nós fugimos
ao medo que faz o cobarde
ao medo que faz o valente

O certo é que quando te olhas
Te entregas à introspecção
Nem que seja a saca rolhas
(passe o vulgar da expressão)

Mas que trabalho, que canseira (não há maneira)
nos salões do inconsciente
há baús de tantas cores
tanto pó por sobre as dores
tanto dos nossos insides
que nos sai desnaturado

Eu sei, eu sei, Freud explica
O b-a-bá do baú
mas
se eu fosse a ti Segismundo
não teria vindo ao mundo
pra nos fazer vir a nós
que quem quiser vir a si
vai ter que abrir o baú

(do álbum Aos Amores, 1989)