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7.8.08

SANDRA COSTA

Por vezes, junto à claridade da manhã,
descubro que as palavras não me pertencem,
que o sopro que lhes dou é ainda
mais aparente do que certas imagens
reveladas pelos espelhos e que usá-las,
por exemplo, para descrever a melancolia
é esperar demais dos lábios - porque o que
se quer é só o esforço de contemplar uma flor
ou uma pedra na berma da estrada –

(de A vocação dos homens silenciosos, Cosmorama, 2006)

21.3.04

[deste dia da poesia fica um soneto feito em colaboração]

Reparo nas tuas mãos profundas de violência
em contraste com as superfícies frias dos teus versos
lembro os dias lúcidos da sabedoria e a penumbra
o assombro depois dos silêncios mais tardios

Reparo no som das ondas quando chegam às rochas
em como as palavras não evitam a paisagem
ao desfazerem-se em dispersão líquida
(se me atingem os lábios os hábitos do desassossego)

Reparo no sono dourado dos que passam de noite
e na distância intacta que levamos entre os quatro pés
porque se repetem fluidos pela calçada os nomes
das estátuas e das flores que matas pela primavera

Durmo devagar nos terrenos da solidão repetida
mas adivinhas gumes e medos como na primeira vez

(Sandra Costa e Rui Almeida)

6.1.04

POESIA E BLOGUES (III)

SANDRA COSTA


Nasceu em São Mamede de Coronado, em 1971.
É professora de história e mantém, com a Cláudia Caetano o blog Tempo Dual.


POR ONDE COMEÇAR?

Por Onde começar quando a cor do poema
é um rumor de sal que se agarra aos meus dedos?

Quando o brilho da lua é um fio de maresia
que erra explora se espanta e se desfaz
na claridade marítima dos meus seios?

Quando o perfume das magnólias é um possível cúmplice do vento
que se abriga nos meus teus olhos numa lágrima de ternura?

Por onde começar?...


VEM UM VENTO DO MAR

e a melancolia dança pelos pedaços das cortinas
onde quase-anjos prendem os véus do tempo

Vem um vento do mar

e a solidão interrompe-se nos poros da madeira enegrecida
e nos trilhos que espreitam a janela desde a água

Vem um vento do mar

e há um respirar de espera nas rugas da casa que não se vê


FALÉSIA

A falésia é uma escada para o mar
onde a morte dos dias demora
e as noites acontecem como um presságio.

É um outro horizonte onde os barcos
se perdem em ausências e os filamentos
das anémonas e dos corais se agarram
para que o tempo não caia em desuso.

É um mesmo silêncio que o mar também
sente. Uma mulher que vai pela praia
em lentos passos de pedra e o olhar

náufrago
na maresia.

A falésia é um reflexo do mar.

(de Sob a luz do mar, Campo das Letras, 2002 - Campo de Estreia)


NADA SE SABE DAS PROFUNDEZAS
(primeiro estudo para uma duplicidade)


#1
À superfície do mundo
a ondulação do desejo:

uma pedra - o amor - submersa.

#2
pode o poema permanecer
em círculo água em movimento
e sempre insuficientes as pálpebras
susterem o silêncio?

#3
talvez esta seja a textura dos dias
que se aproximam das profundezas:
a agitação sob a luz nada revela
e criam-se estratificações nebulosas
junto ao olhar como se a inquietude
- a água - fosse o único ritual
capaz de criar o mundo.

#4
[quero] toda a poesia é assim:
um lugar onde a superfície
esconde mais do que revela
e a morte é a pedra possível dentro da água
ao alcance do braço se nada se sabe das profundezas

(texto integral de um livrinho de 8x5,5 cm, com projecto gráfico e fotografias de Paulo Gaspar Ferreira e editado pela in-libris, em 2003)

26.12.03

As meninas duais passaram-se... e passaram-se bem!
Já não bastavam as coisas boas que nos têm dado, arranjaram maneira de dar prendas personalizadas a uma multidão de amigos.

A prenda que me calhou foi esta:

SANDRA COSTA

caridade


tudo falta, inevitavelmente,
se a noite dos néons cria um círculo fechado
sobre as ruas e de fora fica a cintilação
dos corações que amam o próximo

(acrescento ao poema um interminável silêncio
que um arqueólogo encontrou junto de velhas ânforas
que um dia deram de beber aos lábios)