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10.12.08

SEAMUS HEANEY

Da república da consciência


I

Ao aterrar na república da consciência
o silêncio era tal quando os motores pararam
que ouvi um maçarico, bem alto sobre a pista.
No balcão da imigração, o funcionário
era um velho que puxou de uma carteira
do seu saco artesanal, e me mostrou
uma fotografia do meu avô.
A mulher na alfândega quis que eu declarasse
as palavras ancestrais das nossas curas
e feitiços contra a mudez e o mau-olhado.
Nem um carregador, intérprete ou táxi.
Cada um transportava o seu fardo, e os sintomas
de insinuante privilégio em breve desapareciam.


II

Por lá, o nevoeiro é um augúrio temido,
mas o relâmpago promete o bem
universal, e os pais penduram bebés
nas árvores durante as trovoadas.
O sal é um mineral precioso.
E as conchas levam-se ao ouvido quando nasce
ou morre alguém. A base de toda e qualquer
tinta e pigmento é a água do mar.
o seu símbolo sagrado é um barco
estilizado. A vela é uma orelha, o mastro
uma caneta inclinada, o casco a forma
de uma boca, a quilha um olho aberto.
Ao tomarem posse, os dirigentes públicos
juram respeitar as leis não escritas, e choram
para expiar a presunção de ter um cargo –
e para afirmar a sua confiança
em que toda a vida nasceu das lágrimas
choradas pelo deus dos céus após sonhar
que a sua solidão não tinha fim.


III

Regressei dessa frugal república
de mãos a abanar, pois a mulher da alfândega
insistiu que a única mercadoria
que eu podia trazer era eu próprio.
O velho ergueu-se e olhou-me o rosto fixamente
e disse ser assim o reconhecimento
oficial da minha nacionalidade
dupla. Desejou pois ao regressar a casa
eu me considerasse representante
daquele país, e em seu nome falasse
na minha própria língua. As suas embaixadas
encontravam-se, disse, por todo o lado,
mas actuavam de forma independente,
e nenhum embaixador jamais seria
dispensado das suas funções.

(in Da Terra à Luz – Poemas 1966-1987, tradução de Rui Carvalho Homem, Relógio d’Água editores, 1997 – original de The Haw Lantern, 1987)

16.2.08

[Pretendo continuar #7. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

SEAMUS HEANEY

RAPARIGAS NO BANHO, GALWAY, 1965


Bóiam na espuma da ondulação, avançam
em roda catarina, braços, mãos;
nítidas como bolas, as cabeças balançam.
Aqui na praia os guinchos ficam vãos.

Nenhuma Vénus foi milagre estranho
de lácteos membros na costa ocidental.
Uma rainha pirata em fato de banho
é o nosso mito forte. As ondas por sinal

vazam umas nas outras e cada ano adeja
invisível pelo espaço a viajar.
Onde as cristas se desfraldam como espuma de cerveja
a roupa da rainha já se desfez no mar.

E gerações que têm suspirado
nos renques de sal onde a onda explodiu
vivem no medo da carne e do pecado
porque o tempo se cumpriu,

como onde há pé nos seus trajes sucintos,
pernas nuas, ombros suaves, costas em maré-viva,
chapinham até à praia, aos pulos, dando gritos.
E Vénus vem assim, objectiva.

(de Antologia Poética, selecção e tradução de Vasco Graça Moura, Campo das Letras, 1998 – original de Door into the Dark, 1969)

3.1.08

[para uma antologia de bicicletas - 14]

SEAMUS HEANEY

GUIÃO PARA UM FILME


Eles pedalam afastando-se do que podia ter sido
em direcção ao que nunca será, num plano aguentado:
Professores em bicicletas, falantes da terra em saudação,
entrando nos anos vinte como se fosse no futuro.

Ainda a pedalar, já lá no fim das lentes,
não indo a parte nenhuma e não desaparecendo.
Mistura fúcsia que 'segue a linguagem'.
Longa sequência sem som. Panorâmica e desfoca.

Então vozes sobrepostas, em diferentes Irlandeses,
discutindo tarefas de tradução e taxas linha a linha;
como os marcos miliários de oitocentos em bermas de relva,
ocorrência de nomes como R. M. Ballantyne.

Grande plano do olho de gato de um botão
seguido de abertura para a capa de uma sotaina,
barrete de padre, colarinho de volta, maçã de Adão.
Parar no rosto inexpressivo. Pôr os créditos

e mesmo quando parece que é o fim -
focar o rasto da longa vaga que vai galgando a margem
e se desfaz no ponto em que uma vara escreve e escreve
palavras no velho guião na areia que se escapa.


(tradução de Vasco Graça Moura, in Antologia Poética, Campo das Letras, 1998 - original de The Haw Lantern, 1987)