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14.7.10

SILVA CARVALHO


O POEMA COMO AUSÊNCIA DE POEMA

É como se não houvesse mundo,
é como se não houvesse homem,
mas o quê? Ignoro-o. A noite
alastra perdidos os seus mantos
no conluio das figuras e dos tropos,
a noite perpassa como um silêncio
que se desconhece de tanto passar
despercebido. É como se não houvesse mundo,
é como se não houvesse homem
na possibilidade deste poema,
que haverá então?

Algum cão ladra lá fora e distrai o pensamento,
algum relógio faz-se notar no silêncio
do apartamento, mas o que me apraz assinalar
é a luz de um candeeiro difluindo pela sala
até que o seguimento "de estar"
se instala
na evidência da língua e do homem.
Algum mundo sem homem existe na imensidão
do firmamento, galáxias descobertas
onde se descobre a perplexidade do homem.
É como se não houvesse noite, haver dia
a dia a experiência de uma presença
que dói até onde não há mais sensibilidade
para o sofrimento.

Até que. Até onde. Até aqui nada mal
para o bem que se deseja, viver na plenitude
da consciência a consciência plena
de um homem, mesmo se através de um mau poema.
São os ritmos que me encantam, são
as subidas e as descidas de um tom,
pena não haver notações musicais
na convenção poema!
Pena não haver um poema onde há
tantas palavras perplexas por não alcançarem
um sentido, pávidas por se sentirem exploradas
na explosão de uma mais íntima emoção.

É como se houvesse um homem e um mundo
onde há apenas o desespero na sua dimensão
mais casual, menos abstracta, mais nociva.
É como se houvesse na noite uma noite outra
impossível de ser identificada, uma noite
do mundo no homem, uma noite do homem
no mundo: é como se não houvesse poema no poema!

27/5/93


(de A EXPERIÊNCIA DA EXPERIÊNCIA, in TETRALOGIA FÁTICA, edições Aquário, 2005)

17.4.09

SILVA CARVALHO

A TARDE ILEGÍVEL ALEGRIA


A tarde ilegível, meu olhar roto de azul
perplexo na entidade da luz que em ramos
de árvore volteia verde e tremulina.
Sente-se a água num antegosto do ser,
mas que presença, nos arvora ou define?
Uma nitidez total, quem está aqui é aqui
mais do que texto ou pura necessidade,
a linguagem infiltra-se de súbito silêncio
e sente-se mentalmente a dor da mentira.
Venho até mim como uma apoplexia da sombra,
este calor atávico perdido nos sentidos
que se buscam e acham no perímetro do fogo,
não me reconheço de tanto me desejar vivo,
nenhum passado para nenhum futuro, mas o horror,
o súbito amor, estar presente como árvore
ou azul de céu irremediavelmente objectivo.
Preciso, cicio, voltar atrás, ao zelo e ao sigilo
da infância destituída ou pela memória cega,
uma origem que me abra, uma fonte que me diga
de onde a onde respiro, onde me encontro,
qual o lugar a festejar na pele da terra,
que tempo me inclui na sua desmedida.
Há possivelmente uma outra palavra exacta
para o que não é loucura nem age como acaso,
em que língua a possuir, em que canto revivê-la?
Nunca como agora o simulacro da vida me feriu
tanto de tão diversa maneira, até sentir
a morte me advém impossível ou difícil,
como se se tratasse de uma ideia ou de um mito,
do inexistente que galvaniza os poderes
do que se eleva como mediocridade e história.
Passei por muitos olhares seduzido pelo olhar,
nada me bastou ou foi peremptoriamente essencial,
como justificar tal ingratidão dos sentidos?
Que monstro se apossou de minha alma?
Voltar atrás, refazer caminho, sem lembrança
nem ilusões, soletrando pela primeira vez
uma estadia possível toldada por esta alegria.


7/1/87

(de Da Estupidez, Brasília editora, 1988)