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25.4.10

FERNANDO SYLVAN


NATAL PORTUGUÊS


Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.

O dia estava certo, o mês, porém, não.

«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»

Menino Jesus, Menino Irmão:

Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.


(de Meninas e Meninos, 1979)

10.6.08

[da raça III]

FERNANDO SYLVAN


janeiro 72



PORTUGAL

Portugal não é só o povo de oitocentos anos vividos
mas também o de oitocentos e oitocentos para viver.
É o que se busca finalmente em fronteiras espirituais mais largas
entre os povos do novo milénio.
O seu estandarte não é já só a Cruz de Cristo
nem o seu missal a biografia do Infante.
Portugal é agora o de novas rotas
para além das de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral
e o de novas esperanças para além do Quinto Império.
Portugal é agora o que despreza o desprezo de Mouzinho pelos pretos
e o dos homens que se erguem na defesa da liberdade em toda a Terra.

Portugal será maior menosr

e pátria das nações de língua portuguesa
que já não cabem n'Os Lusíadas.





lisboa dia da raça junho 72



CORRIGENDA

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que souber viver
E pelo amor que tiver para dar.


(de Tempo Teimoso, 1974)

25.4.07

FERNANDO SYLVAN

NATAL PORTUGUÊS


Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.

O dia estava certo, o mês, porém, não.

«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»

Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.

(de Meninas e Meninos, 1979)

24.12.05

FERNANDO SYLVAN

MENINO JESUS DA MINHA COR


Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?!
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak
E perfume de coco,
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.

E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.
- Ínan, quem é?
- É o Maromak-Filho e teu Irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu Irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu Irmão: Firma-lhe bem teus olhos, meu Amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo nEle.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!

(de 7 poemas de Timor, 1965)


Ínan = mãe
Kuda = Pequeno cavalo
Maromak = Deus

25.12.03

FERNANDO SYLVAN

Nasceu em 1917, em Díli, Timor-Leste.
Morreu no dia de Natal de 1993.

Infância

as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar

(de Tempo Teimoso, 1974)

12.12.03

JOSÉ ALEXANDRE GUSMÃO

PEDAÇO DE MUNDO - COLÓNIA


Guarida doentia de neo-pensadores
activistas de barriguismo
(herança de tradições viciosas)
e
defraudados
que exibem maquiavelismo político

- túmulo de origem etno-geo-cultural -
empacotado no país modelo
a esportular concessões de democracia,

descambando em sacrílegas declamações
propensas de cabotinismo fácil

PEDAÇO DE MUNDO - 1/2 DE ILHA

acervo de miopias
na encenação

da incapacidade humana/impotência do solo,
paraplexia de espíritos receosos
da derrocada da aristocracia injuriosa
ou
chafurdeiros
a inquinar a mente, o raciocínio

de centenas de almas

PEDAÇO DE MUNDO - FRENTE

...luta aberta
de almas jovens

que tua decisão - mutação - responsabilidades
não decline a arroubo estéril
mas orgulho tenaz e fecundo -
complemento da intrepidez e labor do povo
e confiança no potencial,
em potencial,

inexplorado,
antes identificado improdutividade,
limitada em esmolas irrisórias
a definir degraus, em despojos irreverentes.
à mão estranha


PEDAÇO DE MUNDO - TIMOR-LESTE

Incoação vibrante
em ombro-a-ombro terra-povo,

geração ufana
suando s/ liberdade no trabalho

clamor de ordem
a emoldurar teu empenho...
Bandeira a tremular
no écran

de CRENTES e DESCRENTES

Timor-Leste, 1974

(da antologia Timor-Leste / poesia, Instituto Nacional do Livro e do Disco, Maputo, 1981)
BORJA DA COSTA

Nasceu em 1946, em Timor Leste.
Morreu no dia 7 de Dezembro de 1975, em Díli, durante a invasão.

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Calai
Montes
Vales e fontes
Regatos e ribeiros
Pedras dos caminhos
E ervas do chão,
Calai

Calai
Pássaros do ar
E ondas do mar
Ventos que sopram
Nas praias que sobram
De terras de ninguém,
Calai

Calai
Canas e bambus
Arvores e "ai-rús"
Palmeiras e capim
Na verdura sem fim
Do pequeno Timor,
Calai

Calai
Calai-vos e calemos-nos
POR UM MINUTO

É tempo de silêncio
No silêncio do tempo
Ao tempo de vida
Dos que perderam a vida

PELA PÁTRIA
PELA NAÇÃO
PELO POVO
PELA NOSSA
LIBERTAÇÃO
CALAI - UM MINUTO DE SILÊNCIO...



O RASTO DA TUA PASSAGEM

Silenciaste minha razão
Na razão das tuas leis
Sufocaste minha cultura
Na cultura da tua cultura
Abafaste minhas revoltas
Com a ponta da tua baioneta
Torturaste meu corpo
Nos grilhões do teu império
Subjugaste minha alma
Na fé da tua religião

SAQUEASTE
ASSASSINASTE
MASSACRASTE
ESPOLIASTE
PILHASTE

Minha terra, minha gente
Banhada em sangue
Escorraçada, exangue

Barbaramente civilizaste na demagogia da tua grei
Brutalmente colonizaste na ambição da tua grandeza

Na ponta da tua baioneta
Assinalaste o rasto da tua passagem
Na ponta da minha baioneta
Marcarei na História a forma da minha
LIBERTAÇÃO.


(da antologia Timor-Leste / poesia, Instituto Nacional do Livro e do Disco, Maputo, 1981)

28.11.03

RUY CINATTI

PROPÓSITO INADIÁVEL


O que magoa é ver o pobre
timorense esquálido beber
água do pântano,
onde se escoam lixos,
comer poeira
e saudar-me, quando
rodo na estrada,
deus ocioso.

Tantos e tantos outros,
timorenses esquálidos,
olham-me como se dever fosse
abrir covas,
plantar repasto
de milho, arroz e carne,
encher copos vazios,
de bebedeira e sonho,
que não magoe,
mortifique o ócio,
reanime o tempo.

Fugir é melhor que prometer
esperança em melhores dias.

Fugir é atrasar
o discurso limite
travado pelas rodas
da dúvida maníaca.

Eu não prometo nada.
Invoco os montes
feridos pela luz,
o mar que me circunda
em Díli terra-tédio e de má gente.

Afino-me pelo timbre
limpo das almas
dos timorenses esquálidos
que me soletram vivo.

E sigo,
limpo na alma e no rosto,
sujeito à condição que me redime.
Os timorenses só terão razão
quando me matarem.

(de Uma Sequência Timorense, 1970)


REALISMO POLÍTICO

Se os Timorenses quiserem ser Indonésios,
passem para o outro lado.

Se os Timorenses quiserem ser Portugueses,
têm-me a seu lado.

Se os Timorenses quiserem ser independentes,
construam-se.

30/6/74

(de Timor-Amor, 1974 - na versão original a última palavra deste poema era "sumam-se". Porém, esta é a versão definitiva, incluída na antologia editada pouco depois da morte de Cinatti pela Presença e organizada por Joaquim Manuel Magalhães, que dele recebeu o encargo da substituição)
JOÃO APARÍCIO
Nasceu em Díli, Timor Leste, em 1968.

PÁTRIA

Díli, 23-3-1987

A pura beleza
Minha úma lúlik
Infinda música
Ternura e fogo de um amor invencível
Flor universal de pétalas morenas.

[nota: úma lulik significa, literalmente, casa sagrada]


TIMOR FORTE

Díli, 10 de Junho de 1985

Quando fores perpetuamente livre,
Voa, Timor, voa! E mantém-te
Lá no firmamento, altura dos planetas.

Ergue fortaleza dos teus filhos,
Tece para as suas gerações uma ilha poderosa,
Para que nem por um só instante
Elas te digam, um dia:
Só nos legou uma casa,
Sem paredes, nem tecto,
Ó casa vazia!...

(de À Janela de Timor, editorial Caminho, 1999)

14.8.03

FERNANDO SYLVAN

Nasceu em Dili, Timor-Leste, em 1917.
Veio para Portugal aos 6 anos. A sua vida ficou marcada pela constante luta pela liberdade e dignidade dos povos, tendo sido participante de inúmeros encontros e signatário de várias petições e protestos. Foi desde 1975 até à morte presidente da Sociedade de Língua Portuguesa.
Morreu na véspera de Natal de 1993.



IN MEMORIAM

O Dia chegou
mas
quantos
não chegaram ao Dia

(in Boca do Inferno nº 5 - Maio de 2000)



lisboa dia da raça junho de 72

CORRIGENDA

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que soube viver
E pelo amor que tiver para dar



junho 72

POEMA HORRÍVEL

- Posso falar?
- Não!

(de Tempo Teimoso, edição do Autor 1974)


HISTÓRIA PARA AS CRIANÇAS PORTUGUESAS

Era uma vez
um país que nunca mais o era...
E estava à vossa espera.

E está.

(de Meninas e Meninos, edição do Autor, 1979)


MANIFESTO MAUBERE

A cultura é a memória
de um povo que não morre!

A acção é a história
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

A vida é a liberdade
de um povo que não morre!

A independência é a vontade
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

A justiça é a oferta
de um povo que não morre!

A luta é a descoberta
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

(de Cantogrito Maubere, edição do Autor, 1981)