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13.5.10

[poemas com o Papa por cá - III]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


A presença mais pura


Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


(de A Que Distância Deixaste o Coração, 1998)

24.12.08

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Nascemos, nascemos, nascemos



Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.

Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.

Nascemos muitas vezes ao longo da infância
quando os olhos se abrem em espanto e alegria.

Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.

Nascemos na sementeira da vida adulta,
entre invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.

Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.


Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.


Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.

Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas.

Nascemos na prece e no dom.

Nascemos no perdão e no confronto.

Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.

Nascemos na tarefa e na partilha.

Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.

Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.


O que Jesus nos diz é: "Também tu podes nascer",
pois nós nascemos, nascemos, nascemos.


(in boletim da Agência Ecclesia, 23/12/2008)

15.12.08

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A noite abre meus olhos


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só.

(de A Estrada Branca, 2005)

15.12.07

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

CLAREIRA


Um branco lunar, prestígios sem certezas
os galos lutadores arrebatam o jardim
é tão rápido um lugar enquanto avança o vento
debaixo de que árvore se pode ver

a chama pousada por um brado
mais forte, mais fraco
passagens de cor vermelha
intensidades, torções

teus olhos buscam na clareira o ponto invisível
um único sentido, infinitas vezes

através de que perguntas, de que respostas
se regressa à partes inseparáveis?

(de A Estrada Branca, Assírio & Alvim, 2005)

9.11.05

[hoje, na Terra, o Tim e o Fernando falam duma ciência ameaçada]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Furtivos lírios


Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão


quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas


(de Baldios, 1999)

16.6.05

[post anacrónico]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Hotel Inglês


Aprendo muito quando o verão acaba
para lá das coisas habituais
o sinal ardente, primitivo:
uma espécie de abandono sem socorro
diferente da rendição

apercebo-me do frio pela primeira vez
no vento, na água
alugamos bicicletas para chegar à costa
à procura do que resta
uma estação
onde as imagens não naufraguem
a cada instante

também eu me recuso a dizer apenas
o que pode ser dito

(de A que Distância Deixaste o Coração, 1998)

3.5.05

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

[...]

1. Se cada frase... cada gesto, de repente, são, perto de ti, cada vez mais perto de ti...

2. Dizes-me que por isso não pudeste regressar?

1. Digo-te que não pude deixar de prosseguir, partigiano.

(final da peça Perdoar Helena, Assírio & Alvim, 2005)




(imagem do filme Paisà de Rosselini)

10.7.04

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

SEGREDOS


Segredos de uma espécie tão rara
na altura das grandes migrações
a vida pobre os bosques
o vento arrasa nuvens pelo céu
sem outro saber

O tempo era maior
do que se dizia
e ela dispunha-se a contar tudo
do mesmo modo delicado

para Maria de Lourdes Pintasilgo

(de De Igual para Igual, Assírio & Alvim, 2001)

8.4.04

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

(...) espantam as palavras de Jesus que nesta quinta-feira santa, especialmente, se recordam. Ele pegou no pão e disse: "Tomem e comam dele, pois este pão é o meu corpo entregue por vós". A Eucaristia, por vezes repetida como mero culto devoto, rotineiro signo de uma pertença sociológica implícita, é, na verdade, o lugar vital da decisão sobre o que fazer da vida. Todas as vidas são pão, mas nem todas são Eucaristia, isto é, oferta radical de si, entrega, doação, serviço. Todas as vidas chegam ao fim, mas nem todas vão até ao fim no parto dessa utopia (humana e divina) que trazem inscritas. É disto que a Eucaristia fala.

(vale a pena ler o texto completo)

1.3.04

[personagens recorrentes I]

CHARLES SIMIC

ÁLGEBRA DO INÍCIO DA NOITE


A louca prosseguia desenhando Xs
Com um pau de giz escolar
Nas costas de pares inadvertidos,
De mãos dadas rumo a casa.

Era inverno. Já escurecera.
Não se conseguia ver-lhe a cara,
Embuçada como estava e furtiva
Como se fosse levada pelo vento, com asas de corvo.

O giz ter-lhe-ia sido dado por uma criança.
Tentava-se descobri-la na multidão,
Esperando que fosse muito séria, muito pálida,
Com uma lasca de ardósia negra no bolso.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002)

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

TEOREMA


Diante do espelho vê rostos além do seu
e a loucura é reconhecê-los entre os mortais
esses rostos silenciosos e esquivos
tão fácil seria chamá-los
celestes

Mas ela era terrena tão por terra
conduzia a ondulação dos sentimentos
não a entendem?
Ela deixava quebrar os vasos só para os ouvir
porque tudo tem uma voz mesmo as coisas mudas
e o silêncio é uma ímpia forma de desobediência
Ela marcava um por um
Umbrais códices colheres
Para que tudo estivesse unido
Sob o frio ordenado do visível

De noite porém afundava-se no lago
e lá adormecia
De noite levava a espingarda à janela
e ficava a ouvir não os tiros
mas o incrível silêncio que sucede a cada tiro
De noite dizia-se vacilante e perdida

Depois vinha o dia e a rasura
a repetida ordenação que os acentos concedem
às palavras
a quase paixão que jamais tocava os seres
sempre só a sua representação

(de Longe Não Sabia, Presença, 1997 - colecção forma)

15.12.03

[para o padre Tolentino, no dia do seu aniversário]

VIRGIL GEORGHIU

Os moços, os poetas e os padres devem dizer a verdade, sem cálculos se essa verdade lhes é proveitosa ou se os leva à morte. Não se regateia a sinceridade quando se é moço, padre ou poeta.

(de O Homem que Viajou Sozinho, Bertrand editora, 1954 - tradução de Vitorino Nemésio)

6.12.03

[mais um que se apercebeu do sagrado do mundo no olhar de um transeunte]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Calle Principe, 25


Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

(de Baldios, Assírio & Alvim, 1999)

22.10.03

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Concerto dos Tindersticks

Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos

pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto

dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte

(de Baldios, Assírio & Alvim, 1999)

26.9.03

OSSOS FRÁGEIS

Há cerca de um mês, entre Tiziano e Goya, encontrei o padre Tolentino, que me pagou um café ("paga-me um café e conto-te a minha vida") e me apresentou o padre Mário Rui Oliveira.
Fico agora feliz por os rever numa equipa que, além de outros inclui também o meu caro amigo Paulo do Vale.

A frase soa estranha, mas é sincera: bem vindos, Intrusos!