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12.10.13

VASCO GATO


Regras do esquecimento

Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.


(de Imo, Quasi edições, 2003)

20.2.12


VASCO GATO


SCALINATELLA

7.

Tinha do mundo a imagem de
um vermelho espesso, grumoso.
Não descobria nele razões
para dissociar o crime
do prazer.
Tudo era apenas
algo que apetecia trincar
para lhe extrair todo o sumo,
todo o benefício.
Desde os quinze anos que
se decidira, todas as manhãs,
a esmagar morangos com os olhos.


(de Napule, Tea for One, 2011 – colecção matéria mínima)

20.11.10

VASCO GATO


IMPREVISTO NO MAPA


Que estranho
estar a visitar-te onde não estás
recuar de repente para que passes
e tudo tão imóvel
tudo tão estreito
tão repreensível

e porém uma figura se desembaraça
da treva
e é o magneto
o grito avermelhado que fica
a rodar no anfiteatro
em que eu sou o louco
e tu a vírgula que não me deixa
terminar

(abriu-se a gaveta
as sombras têm o mesmo tamanho
os nervos andam à solta)

agora que te vejo
até onde não te vejo
e essa é a extensão dos meus sentidos
agora que me esquivo
do golpe silencioso dos teus braços
descubro que me coube
a parte mais terrível da aurora
aquele minuto que se comprime
e sangra pelos cabelos
aquele erguer-se a rua
pela rosácea
da expectativa

um espectáculo existiu
e cada um sabia o seu papel
funâmbulos ou piruetas ao acaso
não importa
eu tinha os teus lábios
tu encontravas-me como um velho relógio
de parede
ao entrar no mar
os grandes olhos do nosso entendimento
verdes olhos de vagabundo ao sol
para unicamente
esta noite

para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer
que eu sou o homem no escuro
eu sou o sol a aquecer-se nos teus bolsos
eu trago a minha canção aberta
à radiação dos últimos vestígios
do corpo
sessenta mil velas
para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer

os holofotes acenderam-se
os holofotes acenderam-se

as minhas mãos viram as tuas mãos


(de Prisão e paixão de Egon Schiele, &etc, 2005)

20.3.10

VASCO GATO

5


Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.

(de Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre, 2009)