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3.11.11


VASCO MIRANDA


RECUSA
a Alberto de Serpa
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a mão aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
Não falarei de minha poesia.
Não rimarei minha angústia
Com a solenidade de suas questões.
A poesia não está na discussão.
A poesia não está no não estar com este ou com aquele.
A poesia está em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a vida renasça.
A poesia está em gritar do alto dos arranha-céus
E das planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo vai acabar
Que o mundo está maduro para o sangue
Que o mundo perverso e caótico vai vagar.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo defendendo sua solidão
De todos os truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar
E exigir a expulsão imediata
Do último vendilhão do Templo,
Em nome da religião,
Em nome da estética,
Em nome da dignidade amarfanhada,
Em nome da polícia se preciso for.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo anunciando a verdade
A repassar de gelo os corações narcotizados.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar,
Porque o fim do mundo está próximo.
Os poetas rendilheiros e os poetas vaidosos estão maduros para o sangue.
Já estão cevados para a morte.
Eles esquecem (perdão, não é blasfémia!) a sentença do Cristo:
— «Destruí este Templo e eu o reedificarei em três dias.»


(de A Vida Suspensa, 1953)

17.9.09

VASCO MIRANDA

3


Rios de sombra e ciúme
Cavalgando a antemanhã
E nas esporas de meu canto
Velas de barcos aportando
Velas de todos os ventos
Velas de todos os cais
Velas de todas as lotações
Poeta e navio singrando
Nas ondas submergidas
As moídas canções de regresso
Tatuagens a cobardia e silêncio
Nas gargantas enrouquecidas
De vermes encadernados
Rios de sombra e ciúme
Como de inúteis distâncias
Poeira de ventos apenas
Dispersas mortes errando


(de Invenção da Manhã, 1963)

3.1.09

VASCO MIRANDA


POEMAS EM PROSA


PRIMEIRO POEMA


Hoje pensei dois versos com a mesma naturalidade com que um botão se abre em flor. Se amanhã pensar outros dois igualmente intensivos e desigualmente naturais, poderei enfim convencer-me de que estou metido numa fogueira que me põe ao rubro e não consome.

SEGUNDO POEMA

Meteu o punhal dentro do bolso e saiu para a noite deserta. Deserta e escura. Seu desejo assassino era somente apunhalar as trevas e riscá-las de luz.

TERCEIRO POEMA

Quando as balas rasgaram a carne em estilhaços, o monstro ficou ali, na noite escura, para pasto dos corvos. Mas quando, ao acordar da manhã, lhe arrancaram a capa manchada de sangue e uma estrela riscou no azul a sentença decisiva, caíram fulminados pelo ódio do desespero ao ódio cego. Tinham morto o Poeta.

QUARTO POEMA

Nos bairros destruídos, nas casas pilhadas, nas moradias de lata, nos reféns amordaçados, nos presidiários humilhados, nas mulheres vendidas, em tudo ponho a minha assinatura. Acrescento-a simplesmente da palavra - perdão.

QUINTO POEMA

Avançam de todos os lados como para nos esmagar. Corcéis de fogo! Galope audaz! Marcha violenta na manhã carregada de sombras. Vozearia e fumo. Canções e trovão. A vida já não é recusa. O problema não é o da quadratura do círculo. O sol faz um desvio de graus. Só eu tenho a chave desta explosão que anda na boca de toda a gente. Porquê, então, voltar tragicamente as costas?...

SEXTO POEMA

Aceito a vida com a mesma força com que um crente tem fé. E porque a fonte é pura não careço de reacção. Nas minhas águas lavam-se os frutos. Posso mordê-los e dar a comer... Ah, que prazer sentir-me na terra como uma cerejeira que tem os braços erguidos para o céu e as cerejas a oferecer-se, pendentes, ao primeiro caminheiro errante!...
Isto, sim, é Alegria e estar Presente.

(de Alfa e Ómega, 1951)

24.12.07

VASCO MIRANDA

ANUNCIAÇÃO



Amigo: a tua próxima presença
Anuncia-me o mistério ainda não revelado.


Virás como o sonho, na noite, caído sobre as pálpebras
E como a alvorada debruçada sobre o mundo...
Virás com o teu verbo quente e a tua mão leal
Para o aperto solidário que nenhum poder separará.
Virás juntar a tua vida à minha vida,
Comer o mesmo pão, sugar o mesmo sol.


E virás, com o silêncio das horas em que as nossas bocas não saberão falar,
Para selarmos num poema eterno o milagre das nossas almas reveladas,
A fecundar a poesia viva as nossas vidas que não queremos estéreis e ignoradas.


(de Luz na Sombra, 1946)

19.10.05

[dia da Terra]

VASCO MIRANDA


DEMISSÃO


Se pudesse escrevia um poema sem palavras.
As palavras não existem. Já nada dizem
Do que antes era. Antes
Quando o medo era sombra inexistente
E era possível aos homens falar de amor.
Agora há só o espantalho do medo,
As bocas negras, a fome negra,
E o uivo dos cães mudos nas noites desertas e distantes.
Antes havia feras e cristão para as feras.
Agora, ou porque tudo são feras,
Ou porque já não há cristãos
(E há só o medo, o pavor, a fome,
As cumplicidades carnais ao topo dos ventos,
E o ridículo de se ter medo: o pasto das trevas)
A semente de Deus anda à deriva sem leira onde se acoite.

- Espuma, sonho, aurora, canto? - palavras ausentes.
No galeão da vida, haverá de novo bodas de sangue
Para que do Mar volte para a Terra
O viço e a alegria das novas sementes.

(de A Vida Suspensa, 1953)

22.9.03

VASCO MIRANDA

Vasco Miranda é padre. E não pretende ser um «príncipe dos poetas», como quase todos os poetas se pretendem, mesmo os de condição poética proletária. Posto o que me suspendo, a ouvir o correr de livros que se fecham. E com os que ficarem ainda abertos vou continuar. Direi que os que me acompanham se não arrependerão?
Porque a seu modo, Vasco Miranda é único entre os nossos poetas de hoje. Vem-lhe tal singularidade não apenas de resolver a sua poesia, apesar de padre, num domínio terreno em que podemos reconhecê-lo da nossa condição humana - mesmo aqueles dentre nós que lhe não entendemos a fé -, mas ainda porque os seus versos lhe exprimem uma «aprendizagem» adentro mesmo da dimensão dessa «fé».

(Vergílio Ferreira, no prefácio a Dizer, Amar)

(...) A sua poesia veemente e indignada, ou de uma cruciante pungência sempre apaixonada, que se espraia em alguns dos mais belos versos livres portugueses que têm sido escritos em português (...), é de uma expressão directa, que apenas se preocupa com um desataviamento total e uma limpidez que atinge tons de profetismo bíblico. Menos paradoxalmente do que poderia parecer, este católico e sacerdote é, com as suas grandes qualidades humanas e o seu desembaraço apaixonadamente lírico, talvez o melhor exemplo actual de um catolicismo moderno, que encontra acentos vigorosos para dizer o que certo neo-realismo só frouxamente realizou. (...)
(Jorge de Sena, nas Líricas Portuguesas, II volume - texto provavelmente de 1975)

Nasceu em 1922, em Junça, aldeia do concelho de Almeida.
Foi ordenado padre em 1943.
Morreu em 1976.


PALCO

Dadas as mãos,
Enlaçados os dedos,
Unidos os destinos,
Ficámo-nos extáticos, frente ao altar do universo,
Como se fora no princípio do mundo!...

- No começo da Vida!

Um canto de ave, ante a manhã, voou sobre as nossas cabeças
E perante o Sol que rompia no horizonte largo
Gozámos o poema inédito do Primeiro Dia,
Renascido das cinzas dum mundo velho e apodrecido
Como Eva redentora saída das costas inconscientes do novo Adão.

(de Luz na Sombra, 1946)


HISTÓRIA PARA OS NOVOS

Porque pudemos, enfim,
Mudar o ritmo da vida,
Olhando as coisas de alto,
Lídia e eu passearemos de mãos dadas
Todas as tardes, ao cair da noite.
Haverá risos à nossa passagem
Se bem que não andemos reinventando o paraíso.
(O poeta Rimbaud, esse, sim, quis reinventar o amor!...)
Mas não importa.
Indiferentes aos olhos cúpidos e aos risos escarninhos
- Poeta e Musa -
caminharemos seguros de nosso gesto
certos de não sentir o gosto amargo da maçã.

(de A Vida Suspensa, 1953)


Olha Jorge quando vier a morte
E virá cedo
«Não deixes fechar-me os olhos»
Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas
Para queimar as mãos que fechar-mos queiram
- Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela
Inventou em cada dia uma madrugada
E eis tudo quanto deixo a quem me herde
Não Jorge não deixes fechar-me os olhos
Não deixes roubar-me a luz que em vida
Neles sempre tive
Estendido no caixão sereno e impoluto
Irei de olhos abertos
Porque eu quero e sei que hei-de morrer
Como quem vive

1956

8

De alimentar-me de Ti como Jonas do ventre da baleia
De inserir-me em teus braços chicoteados de infinitos horizontes
De beijar-Te o rosto como uma chaga de luz
De amar-Te de um amor qual nunca amado
Na humana carne em que temerário confio
Por uma humanidade possível que o impossível não desmente
Aceito inscrever-me a fogo no teu Rosto
E ser vomitado ao fim do terceiro dia
Na cruz de sol de todos os milénios futuros

(de Invenção da Manhã, 1963)


VIII

Junto às muralhas de Babilónia Elsa sorri.
Os olhos de Elsa são duas cigarras verdes
E as mão de Elsa um salmo entornado
De lábios queimando na vertigem do mar
Salgado. Mar Morto mare-moto rubro denso mar
No separar de águas vermelhas
De paixão. Mar de Elsa olhos-cigarras
Na salmódia digital entrelaçada
De voluptuosa placidez peso sensorial
De moléculas-corpo na febre de milénios
Devindo noosféricos e ao fim o ponto Ómega.
Junto às muralhas de Babilónia e nem lá
Os olhos de Elsa são duas crateras
De tráfico cigano em rosas opiado.
Junto às muralhas de Babilónia e nem lá
Minha Nossa Senhora do céu e da Terra
Minha Nossa senhora dos olhos de Elsa
Rogai por mim e por nós nos olhos dela
Rogai por mim e por nós nas duas cigarras verdes!
Junto às muralhas de Babilónia Elsa sorri.
Minha nossa Senhora, Rainha, acordai no bronze
Do silêncio intérmino espacial
A voz da vossa eternidade presente.
Porque vos vi e amei nos olhos dela
(Com Ezra Pound declaro: «o paraíso não é artificial»!)
A minha alma, Senhora, mais fundo vos sente.

Poetas do mundo, acordai nos olhos d'Elsa,
Que o mundo, na carne d'Elsa, não mente!

(de O Ciclo de Elsa, 1971)


[poemas retirados de Dizer, Amar, Portugália editora, 1971 - colecção Poetas de Hoje]