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11.7.08

VASKO POPA

Ao ladrão de rosas


Um faz de roseira
Alguns de filhas do vento
Outros de ladrões de rosas

Os ladrões de rosas aproximam-se da roseira
Um deles apodera-se de uma rosa
E no coração a esconde.

Aparecem as filhas do vento
Vêem a beleza violada
E põem-se a perseguir os ladrões

A cada um deles abrem o peito
Nuns encontram um coração
Noutros palavra de honra que não

Elas começam a abrir-lhes o peito
Até lhes descobrirem o coração
E nesse coração a rosa roubada


Às escondidas

Um esconde-se do outro
Sob a língua dele se escondeu
Busca o outro debaixo da terra

Ele escondeu-se na fronte do outro
O outro procura-o no céu

Escondeu-se no próprio esquecimento
O outro vai procurá-lo nas ervas

Ele procura-o, procura-o em vão
Procura-o sabe-se lá onde
À força de procurar ele próprio se perde


Ao jogo do agarra

Uns arrancam aos outros
O braço o pé seja o que for

Agarram aquilo entre os dentes
Fogem o mais depressa possível
E enterram-no em qualquer parte
Os outros dispersam-se pelos quatro cantos
Buscam cheiram buscam cheiram
Revolvem a terra toda

Se por sorte descobrem os braços
Ou antes um pé ou seja o que for
São eles então, que têm de morder

O jogo prossegue com animação

Enquanto houver braços
Enquanto houver pés
Enquanto houver seja o que for


Depois do jogo

Por fim as mãos agarram o ventre
Para que não rebente a rir
Mas o ventre já lá não está

Uma das mãos mal pode levantar-se
Para enxugar o suor da fronte
A fronte já lá não está

A outra mão agarra o coração
Para evitar que o coração salte do peito
O coração já lá não está

As duas mãos tornam a cair
Caem ociosas sobre o colo
Mas já não há colo

Sobre uma das palmas está chover
Sobre a outra palma rebentam ervas
Não me perguntem mais nada


(traduções de António Ramos Rosa, in Voz Consonante: traduções de poesia, edições Quasi, 2006 – O Barco Ébrio)


[ao editar este post, ocorreu-me, sem razão específica, que este poemas seriam particularmente do agrado da minha Amiga Ana Salomé]