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30.11.11


VICENTE ALEIXANDRE


QUERO SABER

Diz-me depressa o segredo da tua vida;
quero saber porque a pedra não é pluma,
nem o coração uma frágil árvore,
nem porque essa criança que morre entre duas veias-rios
não parte para o mar como todos os barcos.

Quero saber se o coração é uma chuva ou orla,
o que fica de lado quando dois se sorriem,
ou se é apenas a fronteira entre duas jovens mãos
que cingem uma pele ardente e imutável.

Flor, risco ou dúvida, ou sede ou sol ou látego.
O mundo inteiro e único, a ribeira e a pálpebra,
esse dourado pássaro que dorme entre os lábios
quando a alba penetra no dia lentamente.

Quero saber se uma ponte é ferro ou é desejo,
esse esforço para unir duas carnes íntimas,
essa separação dos peitos atingidos
por uma flecha nova surgida dentre a folhagem.

Musgo ou lua são o mesmo, o que a ninguém surpreende,
essa lenta carícia que de noite os corpos
percorre como uma pluma ou lábios que agora chovem.
Quero saber se o rio se afasta de si mesmo
cingindo as formas em silêncio,
cataratas de corpos que se amam como espuma,
até desembocarem no mar como o prazer consentido.

Os gritos são chibatas, eriçados espinhos,
vivo desespero de ver os curtos braços
erguidos para o céu suplicando à lua,
doloridas cabeças que no alto dormem, vogam,
sem respirar sequer como lâminas turvas.

Quero saber se a noite vê em baixo
brancos corpos de tela estendidos na terra,
falsas rochas, papelões, fios, pele, água parada,
pássaros como lâminas cravadas no chão,
ou ruídos de ferro, floresta virgem do homem.

Quero saber, altura, mar vago ou infinito,
se o mar é essa oculta dúvida que me embriaga
quando o vento trespassa transparentes crespões,
sombra, pesos, marfins, longas tempestades,
o esquálido cativo além invisível debatendo-se,
ou matilha de doces armadilhas.


(de A Destruição ou o Amor, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

18.7.11

[a Guerra Civil de Espanha começou há 75 anos]


PABLO PICASSO



Guernica, 1937
349×776 cm
Museo Reina Sofia, Madrid



ANTONIO MACHADO


SONETO


Odiosa mão traçou, oh minha Espanha
— vasta lira, ante o mar, entre dois mares—,
zonas de guerra, cristas militares,
em planícies, outeiros e montanha.

Manes do ódio e da cobardia
cortam a lenha de teus azinhais,
pisam bagos de ouro em teus lagares,
moem o trigo que o teu solo cria.

Outra vez — outra vez! — oh triste Espanha,
quanto se afoga em vento, em mar se banha,
joguete de traição, quanto se encerra

nos templos de Deus mancha o olvido,
quanto acrisola o íntimo da terra
oferece-se à ambição, — tudo vendido!


LEÓN FELIPE


HÁ DUAS ESPANHAS


Há duas Espanhas: a do soldado e a do poeta. A da espada fratricida e a da canção vagabunda. Há duas Espanhas e uma só canção. E esta é a canção do poeta vagabundo:

Soldado, tua é a fazenda,
a casa,
o cavalo
e a pistola.
Minha é a voz antiga da terra.
Tu ficas com tudo e deixas-me nu e errante pelo mundo...
Mas eu deixo-te mudo... mudo!
E como vais tu colher o trigo
e alimentar o fogo
se eu levar a canção?


PEDRO SALINAS


QUE PÁSSAROS?


O pássaro? Os pássaros?
Há um único pássaro no mundo
que voa com mil asas e que canta
com incontáveis trinos, sempre só?
São a terra e o céu espelhos? É o ar
espelho do ar, e o grande pássaro
único multiplica
a sua solidão em aparências mil?
(E por isso
lhe chamamos os pássaros?)

Ou não haverá um pássaro?
E são eles,
fatal plural imenso, como o mar,
bando inúmero, uma enorme onda de asas,
onde a vista procura e a alma quer
distinguir a verdade do pássaro único,
da sua essência sem fim, do uno belo?


VICENTE ALEIXANDRE


DESTINO DA CARNE


São, não é isso. Não olho
um céu do outro lado do horizonte.
Não contemplo uns olhos tranquilos, poderosos,
que acalmam as águas ferozes que aqui bramam.
Não olho essa cascata de luzes que descem
de uma boca até um peito e umas mãos suaves,
finitas, que este mundo encerram, entesouram.

Por toda a parte vejo corpos nus, submissos
ao cansaço do mundo. Carne fugaz que porventura
nasceu para ser chispa de luz, para abrasar-se
de amor e ser o nada sem memória, a formosa
redondez da luz.
E que está aqui, está aqui, flacidamente eterna,
sucessiva, constante, sempre, sempre cansada.

É inútil que um vento distante, com forma vegetal, ou uma língua,
lamba devagar e lentamente o seu volume, o aguce,
o lime, o acaricie, o exalte.
Corpos humanos, rochas cansadas, pardos vultos
que à beira-mar consciência sempre
tendes de que a vida não acaba, não, e se transmite.
Corpos que amanhã repetidos, infinitos, rolais
como uma espuma lenta, desiludida, sempre.
Sempre carne do homem, sem luz! Sempre rolados
desde além, de um oceano sem origem que envia
ondas, ondas, espumas, corpos cansados, orlas
de um mar que não se acaba, sempre ofegante em suas margens.

Todos, multiplicados, repetidos, sucessivos, amontoais a carne,
a vida, sem esperança, monotonamente iguais sob os céus foscos que impassíveis se herdam.
Sobre esse mar de corpos que aqui brotam sem trégua, desabrocham
nitidamente e, mortais, ficam nas praias,
não se vê, não esse rápido batel, ágil veleiro
que com quilha de aço, rasgue, torça,
abra sangue de luz e impetuoso fuja
rumo ao fundo horizonte, rumo à origem
última da vida, ao extremo do oceano eterno
que, humanos, espalha
seus corpos cinzentos. Para a luz, para essa escada ascendente de brilhos
que de um peito benigno para uma boca sobe,
para uns olhos enormes, totais, que contemplam,
para umas mãos silenciosas, finitas, que prendem,
onde cansados sempre, vitais, ainda nascemos.


FEDERICO GARCÍA LORCA


MORTE DE ANTONITO EL CAMBÓRIO


Vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
Vozes antigas que cercam
voz de cravo varonil.
Cravou sobre as suas botas
dentadas de javali.
Nessa luta dava saltos
esfregados de delfim.
Banhou com sangue inimigo
sua gravata carmim,
mas eram quatro punhais
e teve que sucumbir.
Quando as estrelas espetam
rojões na água de cinza,
e quando os novilhos sonham
com verónicas floridas.
vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
*
António Torres Herédia,
Cambório de dura crina,
moreno de verde lua,
voz de cravo varonil:
Quem te roubou tua vida
perto do Guadalquivir?
Meus quatro primos Herédias
filhos de Benamejí.
O que em outros não invejavam
já o invejavam em mim.
Sapatos cor de corinto,
e medalhões de marfim,
e esta pele amassada
com azeitona e jasmim.
Ai Antonito el Cambório,
digno duma Imperatriz!
Lembra-te agora da Virgem,
que estás prestes a partir.
Ai Federico Garcia,
procura a Guarda Civil!
Já meu tronco se quebrou
como uma cana de milho.
*
Três golpes de sangue teve
e agonizou de perfil.
Viva moeda que nunca
se haverá de repetir.
Um anjo pálido põe-lhe
a cabeça num coxim.
Outros de rubor cansado
acenderam um candil.
E quando seus quatro primos
chegam a Benamejí,
vozes de morte cessaram
perto do Guadalquivir.


DÁMASO ALONSO


DURA LUZ DE MORTE


A morte não tem passadas
cautelosas, nem gadanha.
A morte é a luz. Que funda
a luz do verão, amada!

Como se adensa nos hortos
que com a sesta se inflamam!
Como o conhecem as rosas!
Botão que desponta, canta-o.

Que profundeza de luz!
Massa de chumbo inflamada,
sobre o sonho da existência,
como pesa, como ameaça!

Quanta sombra num verão,
na luz de um verão! Oh quanta
morte nessa sombra fúlgida,
inexorável, diáfana!

Tal como um cão acossado,
meu coração bate em ânsia
— ardente ferver de terra —
sobre terra, sob a brasa

do céu. Do céu absorto
— rosa de cristal estática —
que vai estalar em estrias
de luz. Pára, luz, aguarda!

Dura terra, terra mãe,
protege-me com teus ramos,
encanta-me com tuas flores,
dilui-me nas tuas águas!

Pois dá inda sombra o álamo
e ainda há flores na sarça,
e a água brota e dois olhos
mudos — ai, amor — me falam.

...Contudo, arestas da tarde
já estalam em cal árdua,
fogos brônzeos, clarins híspidos
e lanças incendiadas.

No fundo da minha angústia
soam trombetas de caça!:
hirtas almas, nos outeiros,
fogem, fogem para nada...

Piedade! Afasta, terra,
minha destruição, olha, cantam
ainda as aves junto ao álveo,
trémulo o vento nas canas!

Nas ramarias dos álamos
— ora tremem, ora param —
há entre jogos de brisa
um frenesi de esperança.

E, amor, em teus tristes olhos,
que terna luz tamisada,
ai como me chama a vida,
que imperiosa me chama,

enquanto desfia a acéquia
— canavial, harpa e flauta —
seu doce engano de música,
piedoso engano! Graças,

álveo, amor, árvores! Jovem,
a minha vida, embalai-a
como a uma folha pequena,
como uma fibra de nada.

Que durma bem! Que não veja
como, soturna, prepara
esses ocres funerais
a fosca luz acerada


RAFAEL ALBERTI


BALADA DO QUE NUNCA FOI A GRANADA


Que longe por mares, campos e montanhas!
Já outros sóis olham minha cabeça branca.
Nunca fui a Granada.

Minha cabeça branca, tantos anos perdidos.
Quero achar os velhos, apagados caminhos,
Nunca vi Granada.

Dai à minha mão um ramo de luz esverdeado.
Uma rédea curta e um galope largo.
Nunca entrei em Granada.

Que gente inimiga povoa seus adarves?
Quem os claros ecos livres de seus ares?
Nunca fui a Granada.

Quem seus jardins hoje aprisiona e põe
cadeias à fala que sai de suas fontes?
Nunca vi Granada.

Vinde vós, que nunca fosteis a Granada.
Há sangue caído, sangue que me chama.
Nunca entrei em Granada.

Há sangue caído do melhor irmão.
Sangue pelos mirtos e água dos pátios.
Nunca fui a Granada.

Do melhor amigo, nas murtas distantes.
Sangue pelo Darro, pelo Genil sangue.
Nunca vi Granada.

Se altas são as torres, alta é a coragem.
Vinde por montanhas, por campos e mares.
Entrarei em Granada.


MANUEL ALTOLAGUIRRE


ELEGIA A FEDERICO GARCÍA LORCA


Esqueço-me de viver se te recordo,
reconheço-me como pó da terra
e incorporo-te em mim, tal como faz
a parte mais próxima de tua campa,
essa terra insensível que suplanta
o amoroso afã de teus amigos.

Acabada tua vida, permanece
com seu total contorno desenhado:
não há porta que ao futuro te conduza.

A árvore de teu nome floresceu
numa incalculável primavera.

A morte é perfeição, acabamento.
Somente os mortos podem ser nomeados.
Nós que vivemos, não possuímos nome.

Os fundeiros míticos da fama
atiram os cantos do teu nome ao mundo
e o lago da vida abre seus olhos
com pálpebras de vidro intermináveis:
Não há montanha ou céu, não há planície,
que em círculos concêntricos não aumente
o eco de teu nome iluminado.

Não é dor fraternal, ou pena humana,
é parte, meu pesar, do sentimento
que faz das estrelas pensativas
flores sobre a noite que te cobre.
Escrevo-te estas palavras separado
do quotidiano sonhar da minha vida,
escrevo de um astro distante onde sofro
tua perda irreparável soluçando.


(in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

3.9.09

VICENTE ALEIXANDRE

O MAR LIGEIRO


O mar fustiga asperamente o ruído das botas
que passam sem receio de pisar os rostos
daqueles que ao beijarem-se sobre a areia lisa
tomam a forma de conchas bivalves.

O mar rebenta sozinho como um espelho,
como uma ilusão de ar,
esse cristal a prumo onde a secura do deserto
finge uma água ou um rumor de espadas perseguindo-se.

O mar, encerrado num cubo,
desencadeia a sua fúria ou uma gota prisioneira,
coração cujos bordos inundariam o mundo
e que só podem estancar-se com um sorriso ou um limite.

O mar palpita como a flor do cardo,
como essa facilidade de voar aos céus,
aérea ligeireza do que a nada se prende,
leve arfar dum peito juvenil apenas.

O mar ou enfeitiçada pluma,
ou pluma desatada,
ou gracioso descuido,
o mar ou pé veloz
que encerra o abismo e foge de corpo ligeiro.

O mar ou palmas frescas,
as que gostosamente se deixam nas mãos das virgens,
as que repousam nos peitos esquecidos das profundidades,
deliciosa superfície que um suave vento faz ondular

O mar ou talvez o cabelo,
o adorno,
o derradeiro toucado,
a flor que balança numa fita azulada,
da qual, se se desata, voará como pólen.

(de A Destruição ou o Amor, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

28.8.05

(Diego Rodríguez de Silva y Velázquez - Los borrachos, 1629)


VICENTE ALEIXANDRE


«LOS BORRACHOS»

A solidão conjunta poucos deixa fora, e cai nos rostos.
Ali se vêem olhos excitados. Há muito sol, e cobre se diria
a tez de quase todos, couro curtido largamente. Terra?
Argila? O sangue gira. E quase transparece?
Mas não. Grossa é a pele, e sob a polegada, rotundo rubro estala,
carmesim. Não, mais vivo, álacre, oh sim: espirituoso.
E a face brilha, quase delira, a par dos dois olhos.
Bêbados os direis. E em cima são os pâmpanos
torcidos. E o barril. Desnudo um torso,
quase veríeis resvalar o vinho, veloz, quente
por um corpo, que se palpita é terra e anuncia.
Esta cabeça é prata. Pálida também muito junta cobre espessa,
protege o pensamento pobre que ali insiste.
Pobre porém bem fundo: quase um jacto de ouro até a uns lábios.
Vinho ardente. Gozai. A tarde é jovem.
Essa mão essa malga levanta transbordante.
A vide, e entre outros pâmpanos os olhos.
Uma jovial donzela escapa incógnita.

Eles não vêem. Se olham vêem bolhas.
Sob o azul molhado o Sol reparte
sumo ou raios por igual. Resvala
sobre os ombros, lambe os peitos, brilha em gotas vividas
entre as suas sombras. Banha total o corpo a chama e veste
de inflamada realidade os bustos.

Velásquez! Embora jovem pintou um conhecimento,
já entalhando com o pincel. Acreditou? Enganou-se?
Quem sabe! Ainda era preto o ar,
antes de que analítico se abrisse
o que na síntese final se alcance.

(tradução de António Manuel Couto Viana, in Por Outras Palavras, Vega, 1997)