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2.10.13

WALLACE STEVENS


XIX

Quem me dera que pudesse reduzir o monstro a
Mim mesmo, e pudesse então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais do que parte
Dele, mais do que o monstruoso tocador de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não ser
Só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas em simultâneo numa,
E tocar do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor, não de mim mesmo de modo algum,
Mas de algo como a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Perante o leão encerrado em pedra.


(de O Homem da Viola Azul, tradução de Maria Adelaide Ramos, Relógio d'Água, 2005 / The Man with the Blue Guitar, 1937)

17.4.10

WALLACE STEVENS


SEIS PAISAGENS SIGNIFICATIVAS


I

Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuis e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.


II

A noite é da cor
Do braço de uma mulher:
Noite, a fêmea,
Obscura,
Fragrante e flexível,
Encobre-se.
Uma lagoa brilha,
Como uma pulseira
Agitada numa dança.


III

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.


IV

Quando o meu sonho estava perto da lua,
As pregas brancas da sua túnica
Encheram-se de luz amarela.
As plantas dos seus pés
Ficaram vermelhas.
O seu cabelo encheu-se
De certas cristalizações azuis
De estrelas,
Não distantes.


V

Nem todas as facas dos postes de luz,
Nem os cinzéis das longas estradas,
Nem os maços das abóbodas
E torres altas,
Podem esculpir,
Brilhando através das folhas da videira.


VI

Racionalistas de chapéus quadrados,
Pensam, em salas quadradas,
Olhando para o chão,
Olhando para o tecto.
Restringem-se
A triângulos rectos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, linhas ondulantes, elipses -
Como, por exemplo, a elipse da meia lua -
Os racionalistas usariam sombreros


(in Ficção Suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queirós de Campos, Assírio & Alvim, 1991 - Gato Maltês / original de Harmonium, 1923)

2.1.06

WALLACE STEVENS

Nasceu em 1879, em Reading, estado da Pensilvânia (EUA).
Publica os primeiros poemas em 1897, quando frequentava a Universidade de Harvard, onde concluiu os cursos de Inglês e de Direito.
Publicou oito livros de poesia e um de ensaios, tendo recebido diversos prémios.
Morreu em 1955.


O DOMÍNIO DO NEGRO

À noite, ao lume,
As cores das sebes
E as folhas caídas
Repetindo-se
Volteavam na sala
Tal como essas folhas
Volteando no vento.
Sim: mas a cor dos graves teixos
Avançava a passos largos
E eu lembrei-me do grito dos pavões.

As cores dos seus leques
Eram como essas folhas
Volteando no vento,
No vento do poente.
Giravam pela sala
Como ao soltar-se dos ramos dos teixos
A caminho do chão.
Ouvia-os gritar: os pavões.
Um grito contra o poente?
Ou contra essas folhas
Volteando no vento,
Volteando como as chamas
Volteavam no lume,
Volteando como os leques dos pavões
Volteavam no lume que se ouvia,
Que se ouvia como os teixos
Cheios dos gritos dos pavões?
Ou um grito contra os teixos?

Pela janela
Vi como os planetas se reuniam
Tal como essas folhas
Volteavam no vento
Vi como a noite chegava,
Avançando a passos largos como a cor dos graves teixos
E tive medo.
E lembrei-me do grito dos pavões.

(tradução de Alberto Pimenta e Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, in As Escadas não têm Degraus 3 - Março de 1990)


TEORIA

Sou o que me rodeia.

As mulheres compreendem isto.
Não se é duquesa
A cem metros de uma carruagem.
Estes, então, são retratos:
Uma antecâmara preta;
Uma cama alta protegida por cortinas.

Isto são meros exemplos.


O SENTIDO SIMPLES DAS COISAS

Depois das folhas terem caído, regressamos
A um sentido simples das coisas. É como se
Tivéssemos chegado ao fim da imaginação,
Inanimados num inerte savoir.

É difícil até escolher o adjectivo
Para este frio vazio, esta tristeza sem causa.
A grandiosa estrutura tornou-se numa casa menor.
Nenhum turbante caminha através dos soalhos degradados.

A estufa nunca precisou tanto de tinta.
A chaminé tem cinquenta anos e está inclinada para um lado.
Falhou um esforço fantástico, uma repetição
Numa repetitividade de homens e moscas.

Contudo a ausência da imaginação tinha
Ela própria de ser imaginada. O lago grandioso,
O seu sentido simples, sem reflexos, folhas,
Lama, água como vidro sujo, expressando silêncio

De certo tipo, silêncio de um rato saindo para ver,
O lago grandioso e a sua imensidade de nenúfares, tudo isto
Tinha de ser imaginado como um conhecimento inevitável,
Exigido, como uma necessidade exige.

(de Ficção Suprema, tradução e prefácio de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio & Alvim, 1991 - Gato Maltês)


NÃO IDEIAS SOBRE A COISA, MAS A PRÓPRIA COISA

Logo ao findar o Inverno,
Em Março, um grito magro do exterior
Pareceu-lhe ser um som dentro da mente.

Ela sabia tê-lo ouvido,
Um grito de ave à luz do dia, ou antes,
Nos primeiros ventos de Março.

O sol nascia às seis,
Não já topete em ruínas sobre a neve...
Teria sido no exterior.

Não partiu do vasto ventriloquismo
Do desbotado papel pardo do sono...
O sol vinha do exterior.

Esse grito magro - era
Um corista cujo c precedia o coro.
Era parte do sol colossal,

Que os seus anéis corais cercavam,
Ainda longe. Era como
Um novo conhecimento da realidade.


DO MERO SER

A palmeira, onde a mente acaba,
Para lá do último pensamento, ergue-se
Na distância do bronze,

Um pássaro de penas douradas
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Sem sentir humano, uma canção estrangeira.

Então tu sabes que não é a razão
Que nos faz felizes ou infelizes.
O pássaro canta. As penas brilham.

A palmeira ergue-se à beira do espaço.
O vento move-se nos ramos lentamente.
Pendidas, oscilam as penas do pássaro ornadas de fogo.

(in Leituras - poemas do inglês, prefácio e tradução de João Ferreira Duarte, Relógio d'Água, 1993)


A CASA ESTAVA SILENCIOSA E O MUNDO ESTAVA CALMO

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo,
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página.

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)


TREZE MANEIRAS DE CONTEMPLAR UM MELRO

I
Entre as vinte montanhas nevadas
A única coisa movendo-se
Era o olho do melro.

II
Eu tinha três almas
Como a árvore
Em que há três melros.

III
Os melros rodopiaram nos ventos outonais.
O que era uma pequena parte da pantomima.

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro,
São um.

V
Não sei que preferir -
A beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
O melro que gorjeia,
Ou o depois.

VI
Pingos de gelo enchiam a vasta janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Cruzava-a, de cá para lá, de lá para cá,
A situação
Traçava uma sombra
Um curso indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais pássaros de ouro?
Não vêdes como o melro
Passeia à volta dos pés
Das mulheres à vossa volta?

VIII
Sei de nobres tons
E de lúcidos inescapáveis ritmos;
Mas também sei
Que o melro está envolvido
No que eu sei.

IX
Quando o melro desapareceu da vista,
Marcou o limite
De um de vários círculos.

X
À vista de melros
Voando na luz verde
Até os alcoviteiros da eufonia
Gritariam desafinados.

XI
O homem atravessou o Connecticut
Num coche de vidro.
Uma vez, um terror o trespassou,
E foi quando tomou
A sombra dos cavalos
Por melros.

XII
O rio move-se.
O melro deve estar a voar.

XIII
Foi entardecer toda a tarde.
Nevava
E estava a ponto de nevar.
O melro pousado
Nos ramos do cedro.

(Tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, de Thomas Hardy a C.V.Cattaneo, 1978)


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO

I
Entre vinte montanhas cheias de neve
a única coisa que se mexia
era o olho do melro.

II
Eu era de três mentes
como uma árvore
onde há três melros

III
O melro rodopiava no vento de Outono.
Era uma pequena parte da pantomima

IV
Um homem e uma mulher
são um só.
Um homem, uma mulher e um melro
são um só.

V
Não sei de que gosto mais,
se da beleza das inflexões
ou da beleza das sugestões,
quando o melro assobia
ou imediatamente a seguir

VI
Sincelos enchiam a enorme janela
de vidro bárbaro.
A sombra do melro
atravessava-a, de um lado ao outro.
O estado de espírito
traçava na sombra
uma causa indecifrável.

VII
Ó homens franzinos de Haddam
para quê imaginar pássaros doirados.
Não vêem como o melro
passeia em redor dos pés
das mulheres à vossa volta?

VIII
Sei de nobres acentuações
e de ritmos lúcidos inescapáveis;
mas também sei
que o melro está contido
naquilo que eu sei.

IX
Quando o melro voou para fora da vista,
marcou o cimo
de um de muitos círculos.

X
À vista dos melros
voando numa luz verde
até os malabaristas da eufonia
seriam capazes de feitos.

XI
Foi pela estrada até ao Connecticut
num carro de vidro.
Uma vez, ficou varado de medo
Quando confundiu
a sombra dos seus apetrechos
com melros.

XII
O rio já corre.
O melro deve ter começado a voar.

XIII
Ficou noite toda a tarde.
Nevava
e continuaria a nevar.
O melro ficou
nas pernadas do cedro.

(tradução de Helder Moura Pereira, in O Fazer da Poesia de Ted Hugues, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)
Há duas semanas, Eduardo Pitta anunciou a publicação, por cá, de dois novos livros de Wallace Stevens: «ambos sob chancela da Relógio d'Água: uma Antologia, organizada por Maria Andresen de Sousa, a partir de seis livros do autor (e mais dois poemas isolados); e O Homem da Viola Azul, da responsabilidade de Maria Adelaide Ramos. Trata-se, naturalmente, de edições bilingues.» (o texto segue com uma curta, mas elucidativa, apresentação.)

Stevens foi para mim uma descoberta fantástica, aos 19 ou 20 anos, quando li os catorze poema que constituem a recolha Ficção Suprema (por sinal, foi também a primeira vez que estive em contacto com a belíssima colecção Gato Maltês).
Fui descobrindo depois algumas (todas?) das raras traduções desse grande poeta americano e com a internet fiquei a conhecer melhor a sua obra, arriscando mesmo a traduzir os seus Treze Modos de Olhar um Negro Melro.
Este Natal trouxe-me mais uma tradução sua, curiosamente integrada numa colectânea chamada Vozes da Poesia Europeia.

24.9.03

WALLACE STEVENS

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

Treze Modos de Olhar um Negro Melro

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.


Em vinte montes nevados
Um só movimento:
Era o do olho do melro.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.


Eu estava com três ideias,
Como uma árvore
Onde se encontram três melros.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.


Rodopiou o melro em ventos outonais.
Era uma pequena parte da encenação.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.


Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.


Não sei qual preferir,
A beleza das inflexões
Ou a beleza de insinuar,
O melro assobiando
Ou logo depois.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.


O sincelo cobriu a vitrina
De um vidro agressivo.
A sombra do negro melro
Cruzou-a de um lado ao outro.
O ânimo
Marcou na sombra
Um motivo indecifrável.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?


Oh magros homens de Haddam,
Porque imaginais aves d'oiro?
Então não vêdes que o negro melro
Circula à volta dos pés
Das mulheres junto a vós?


VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.


Sei de ilustres ênfases
E de claros, inevitáveis ritmos;
Mas sei também
Que o melro está misturado
Com as coisas que sei.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.


Quando o melro voou para além do olhar,
Marcou o limite
De um de muitos círculos.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.


À vista dos melros
Voando numa luz verde,
Até os palavrões de eufonia
Hão de bradar aguçados.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.


Atravessou o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um medo trespassou-o
Certa vez em que confundiu
A sombra do seu equipamento
Com negros melros.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.


O rio está em movimento.
O melro tem de estar em voo.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.


Houve crepúsculo toda a tarde.
Estava nevando
E ainda ia nevar.
O melro pousou
Nos limites do cedro.

(tradução minha - poema original recolhido na internet e publicado pela primeira vez em Collected Poems of Wallace Stevens, de 1954)