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26.1.15

WENCESLAU DE MORAES


Eu tenho aqui um gato, um companheiro, um amigo, um grande amigo. Num livreco meu, relativamente recente ('O Bon-Odori em Tukushima'), que corre mundo... pelas tendas, fiz o elogio da gata, não do gato, como companheiro do homem solitário. Convém dizer que não mudei de aviso; mas a minha gata morreu, deixando-me um filhito, que me vi naturalmente obrigado a proteger, conservando-o no meu lar.
Ora, em cada Verão, o meu gato impõe-me a árdua tarefa de catar-lhe as pulgas que o mofino vai apanhar, aos cardumes, não sei onde, nos seus passeios vagabundos, atrás de gatas vadias, por estes quintais fora... O bicho, mercê do hábito, sujeita-se pacientemente, de ordinário, à operação; posto que por vezes se irrite, quando me dou ao trabalho melindroso de sacar do pêlo a pulga morta, ou quase morta; pois vou juntando todas, contando-as após, o que me dá útil informe, em referências ao acréscimo, ou decréscimo, nas tendências invasoras do desagradável parasita. Se o gato então se enfada muito, eu brado-lhe em voz bem alta, meio-agastado, meio-irónico: - «É para a estatística!» - E desato logo a rir, lembrando-me que muitos chefes de secretaria do meu burocrático Portugal, cavalheiros graves, engravatados, com óculos fixos nos narizes, irão importunando os seus amanuenses com a confecção de enfadonhas listas de bagatelas, de insignificâncias, e bradando-lhes também, como eu brado ao meu gato: - «É para a estatística!» - Pobre gato e pobres amanuenses!...


(in Wenceslau de Moraes, selecção de textos e introdução de Armando Martins Janeira, Portugália Editora, 1971 / original de Ó-Yoné e Ko-Haru, 1923)

7.4.10

WENCESLAU DE MORAES

A BELEZA DAS PEDRAS


Os Japoneses, admiradores por excelência de todos os aspectos da criação, mesmo nos seus detalhes mais miúdos, revelam um gosto estético supremo para ajuizarem da beleza de um pedra, pequena ou grande, pois são de somenos importância as dimensões.
Apresenta-se, mostra-se a um japonês um pedregulho. Olha-o, fita-o, estuda-o. Para ele, o pedregulho tem feições, fisionomia individual, implicando a ideia de atributos sentimentais, pois há pedras tristes, pois há pedras sorridentes, pois há pedras amigas, pois há pedras arrogantes: cada pedra tem o seu carácter, talvez pudesse dizer: — a sua alma. — Pois nada disto escapa ao japonês, no seu exame do exemplar que tem em vista. Se convém dar colocação ao pedregulho, seja na sala de visitas, sobre uma prancha de charão, seja no chão de um jardim, entre plantas, não hesitará o japonês em distinguir-lhe a face anterior, e a face posterior, e a parte superior e a parte inferior, não cometendo a irreverência de pousá-lo numa posição ridícula, ou inconveniente, ou contrária às leis da estética, de cabeça para baixo, e pernas para o ar, por exemplo... se a frase aqui é permitida, tratando-se de um pedaço de rocha bruta, ao qual nós, loiros da Europa, não concedemos o direito de ter cabeça e de ter pés. No entretanto, entre japoneses, as coisas passam-se de uma maneira diferente.

(O Bon-Odori em Tokushima, 71-72.)

(in Antologias Universais: Wenceslau de Moraes, Selecção de textos e introdução de Armando Martins Janeira, Portugália editora, 1971)