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13.4.05

(entre o Nobel e os Óscares - post com algum atraso)

W. B. YEATS

A ILHA DO LAGO DE INNISFREE

Sim, partirei já, partirei para Innisfree,
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.

E alguma paz desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.

Ergo-me e vou, parto com a noite, parto com o dia,
Oiço as águas do lago, o seu murmúrio junto à costa;
Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Oiço esse murmúrio no mais fundo do coração.

(de Uma Antologia, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1996 - o original pertence a The Rose, 1893)

26.8.04

W. B. YEATS

A Prayer for Old Age


God guard me from those thoughts men think
In the mind alone;
He that sings a lasting song
Thinks in a marrowbone;

From all that makes a wise old man
That can be praised of all;
O what am I that I should not seem
For the song's sake a fool?

I pray - for fashion's word is out
And prayer comes round again -
That I may seem, though I die old,
A foolish, passionate man.


(de A Full Moon in March, 1935)


Uma Oração à Velhice

Deus me guarde daqueles pensamentos que os homens têm
Sozinhos no seu pensar;
Aquele que canta uma canção duradoura
Pensa num osso suculento;

De tudo o que torna sábio um velho
Isso pode ser o mais louvável;
Oh que sou eu que não devia parecer
Para que a canção crie um tonto?

Eu rezo - pois a vã palavra foi-se
E a oração volta a surgir -
Para que possa parecer, ainda que morra velho,
Um homem tonto e apaixonado.

(tradução minha)

17.3.04

W. B. YEATS

Nasceu em Geogeville, perto de Dublin, em 1865.
Viajou pelos EUA e pela Itália. Recebeu o Prémio Nobel em 1923.
Morreu em 1939.

ACERCA DE UMA CASA AMEAÇADA PELA AGITAÇÃO DA TERRA

Como seria mais feliz o mundo se esta casa,
Onde paixão e rigor se fundiram em
Tempos imemoriais, em ruínas transformada
Deixasse de criar o olho sem pálpebras que ama o sol?
E os doces e alegres pensamentos de águias que crescem
Onde asas contêm memória de asas, tudo
O que vem do melhor se une ao melhor? Embora
Os pobres pilares mais fortes na queda se tornassem,
Que grande sorte teria de ser a sua para alcançar
Os dons que governam os homens, e mais ainda
O último dom do Tempo sucessivo, discurso escrito
Forjado em alto riso, encanto e paz?

(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)

MEDITAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA

Numa pulsação de artéria,
Sentado naquela velha pedra cinzenta,
Debaixo da velha árvore quebrada pelo vento,
Soube que o Uno é animado,
A humanidade inanimada fantasia.

(de Michael Robartes and the Dancer, 1921)
(traduções de José Agostinho Baptista, in Uma Antologia, Assírio & Alvim, 1996 - documenta poetica)

SEM SEGUNDA TRÓIA

Não a censuro pelos sofrimentos
De que me encheu a vida, ou por tentar
Levar a turba a gestos tão violentos,
Ou a ruelas contra as ruas atirar
Se o desejo lhes desse o atrevimento.
Não a deixa ser plácida a nobreza
Que lhe apurou, qual fogo, o pensamento,
E o arco tenso que é a tua beleza,
Fora do natural da nossa era,
Por sublime e solitária e austera.
Sendo o que é, que podia ela fazer,
Sem outra Tróia para pôr a arder?

(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)

O GRANDE DIA

Viva a revolução e mais tiros de canhão!
Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo a pé.
Viva a revolução o canhão que voltou!
Os mendigos mudam de lugar, o chicote ficou.

O QUE SE PERDEU

Canto o que se perdeu, temo o que se ganhou,
Entro numa batalha uma vez mais travada,
Meu rei um rei perdido, perdidos meus soldados;
Corram os passos para Poente ou Madrugada,
Batem sempre sobre a mesma pedra de nada.

(de Last Poems, 1936-1939)
(traduções de Joaquim Manuel Magalhães e Maria Leonor Telles, in As Escadas não têm Degraus 3 - Março de 1990, livros Cotovia)