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7.1.06

Urinol de Marcel Duchamp atacado com um martelo

Um cidadão francês de 77 anos passou a noite sob custódia, em Paris, depois de atacar com um martelo um dos famosos urinóis de Marcel Duchamp. A peça, que faz parte da colecção do Centro Pompidou e se encontrava exposta no âmbito de uma exposição sobre o movimento Dada, ficou ligeiramente danificada na sequência da agressão de quarta-feira. Segundo a polícia francesa, o mesmo homem já tinha urinado na mesma peça em 1993, quando esta se encontrava exposta em Nîmes, no Sul de França. O agressor terá declarado que o ataque com o martelo foi uma performance que o próprio Marcel Duchamp teria apreciado.

(no Público de hoje)

26.5.04

ROGÉRIO RIBEIRO

Quando fui para a António Arroio para entrar para a Escola de Belas Artes tive um professor que foi uma sorte grande que me aconteceu: o Mestre Abel Manta. Um dia apareci numa aula dele com uma folhinha de papel Ingres e ele perguntou-me se eu era rico, e depois mandou-me ir comprar papel de cenário. Disse-me então que desenhasse "aquele casaco que está ali atrás da porta". Essa iniciação - eu começo a desenhar o casaco atrás da porta, ele apaga aquilo com a mão, limpa o carvão todo, desenha por cima, e depois pede-me para desenhar outra vez - foi fabulosa. E de facto o ensino é isto, é nós exercermos treinos, é aprender a ver, e a registar. Não é coleccionar.
(...)
Quanto a mim, a escola está esvaziada de sentido, encheram-na de uma carga teórica terrível (...). Os alunos hoje já sabem o que querem, já sabem o que vão fazer, portanto isto é um trânsito e apenas isso. Quem é que estuda os pintores de hoje? Ninguém.

(excertos da entrevista a Sarah Adamapoulos, publicada na revista Os Meus Livros n.º 20, de Maio de 2004)

20.3.04



Na Fundação Gulbenkian (galeria do piso 0, escadas, hall, galeria do piso 01, casa de banho das senhoras e parte do jardim) pode ser revisitada (ou descoberta) a obra de Antony Gormley.
Numa das instalações deparamo-nos com a figuração de "uma dor apocalíptica e devastadora".
A entrada é gratuita e vale a pena ir ver.

4.2.04

Jorge Listopad, no seu blogue em papel de jornal, Sol & Sombra, fala de duas das exposições que referi a semana passada:

23 de Janeiro - A fotografia de Gérard.
Gérard Castello-Lopes, amigo de muita gente porque gosta, é (excelente) fotógrafo, pela mesma razão. Quando não gosta, não fotografa. Homem feliz. Actualmente, expõe sob o título "Oui Non" no CCB: 150 ou mais fotografias desde 1956, pretos nos brancos.
Observemos o que observa o fotógrafo e como o faz. Dos plongés sedutores do início, de vidas distantes, até chegar mais perto, aos bancos públicos, horizontais sem horizonte: eis a agitação aparentemente tranquila do mundo. De ligeiros toques neo-realistas até à arquitectura da solidão. Tudo real - tudo ficção. Tudo ficção - tudo real.
Em síntese: do primeiro processo de assimilação ocasional em evolução até ao processo selectivo e exclusivo. Uma vida de pudor: o seu documento; o alibi fotogénico.

28 de Janeiro - Noronha da Costa
Não haverá muitos dias para ver (rever) a exposição de Noronha da Costa no Centro Cultural de Belém. Mas imaginemos, essa pintura tão anti-euclidiana, sem sustentação de ângulos, se fosse apresentada em espaços deformados, ambíguos, as superformas soberanas, embora tudo mal definido, em vez dessas paredes regulares iluminadas regular e correctamente. Imaginemos a exposição de Noronha da Costa dramatizada, encenada: que grande teatro do heterocosmo. Que simulação de outro mundo sem vertical, sem horizontal.

(na última página do JL que saiu hoje)

29.1.04

NORONHA DA COSTA

O meu trabalho paciente, pior ou melhor, não tem sido senão e só esse: uma tentativa de peneiramento da imagem, um decantamento dentro do meu encanto da imagem, até porventura poder aproximar-me, com maior ou menor felicidade daquilo que João Sousa Monteiro [...] chamará a «solidão absoluta da imagem». Talvez, se isto tiver alguma consistência, e se se entender que o pensar-se da imagem é ainda a forma última do pensar, entendido ocidentalmente como ver (ter à nossa frente), então, talvez a fuga em frente não seja a única possível, e que as fugas laterais, que nos não levam felizmente a nada, também ainda tenham (ou devam ter) o direito de existir.

(excerto de um texto incluído em Noronha da Costa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982 - série catálogos)
A exposição Noronha da Costa Revisitado (1965-1983) está no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até ao dia 19 de Fevereiro.


JOÃO SOUSA MONTEIRO

Em Noronha da Costa, porém, a estudada indefinição das formas não é obtida por desfocagem, mas por difusão. Noronha da Costa não perturba a visão clara dos objectos recorrendo a um «filtro» que entreponha entre o observador e o objecto representado. Ele torna deliberadamente difusa a própria percepção do representado para poder, à causa da sua destruição, construir aquilo em que inteiramente se concentra: a imagem. Monet pinta os efeitos de luz sobre os objectos. Está fixado num ponto único: a representação visual do tempo, traduzida na linguagem da experiência sensível através da mutação contínua dos efeitos de luz sobre eles. Noronha da Costa, pelo contrário, não pinta o objecto, nem nenhuma sua particularidade representável: pinta a outra vertente, ainda largamente inexplorada, da história da pintura, aquela que se ocupa da força abstracta da imagem. Apesar destas diferenças essenciais quer nos propósitos, quer nos meios, quase toda a pintura de Noronha da Costa continuamente trai - e continuamente esconde - uma profunda cumplicidade com Claude Monet. Em quase todas as suas telas se pressente, com uma clareza por vezes tocante, uma amizade silenciosa e um respeito profundo por esse genial pintor do Tempo.

(excerto de um texto incluído em Noronha da Costa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982 - série catálogos)

27.1.04

As formas do Espírito é a exposição que está até Abril no Palácio da Ajuda, em Lisboa. É composta por obras de arte sacra vindas da diocese de Beja. Obras que refletem a variedade de manifestações da religiosidade cristã ao longo dos séculos naquela zona do Alentejo: a arte mais popular convive com a mais "erudita"; a simplicidade e o fausto harmonizam-se para o culto religioso; os vestígios de simbologias "estranhas" deixam perceber que as influências do islão, e também do judaísmo, foram (são?) mais do que meros pormenores etnográficos num espaço cultural que soube manter, apesar da dureza dos tempos, muito das suas raízes mais profundas.

*

De salientar, a propósito, o excelente trabalho, desenvolvido ao longo de vários anos, pelo Departamento do Património Histórico-Artístico da Diocese de Beja, de que esta exposição, em colaboração com o IPPAR, e que já passou por Roma, é apenas um bom exemplo.
No Domingo passado visitei várias exposições: a que está no Palácio da Ajuda e as do Centro Cultural de Belém. Hoje e nos próximos dias tentarei dizer alguma coisa sobre elas.

5.1.04

A imagem com que o Miguel da Cibertúlia deu as Boas Festas na véspera de Natal fez-me voltar a pensar nas questões que se puseram a propósito dos quadros de Paula Rêgo na capela do Palácio de Belém, encomendadas pelo Presidente da República. Nas secções de correspondência dos jornais houve católicos a manifestar a sua indignação, a considerarem uma afronta à figura de Nossa Senhora e à Igreja.

Eu, que sou católico, devoto de Nossa Senhora e também apreciador de arte (ainda que sem grande formação além do que o acaso me traz e das exposições que vou vendo), não me sinto nada ofendido com aqueles quadros.
Nos contextos cristãos (católico, ortodoxo e até mesmo em muitos espaços da Reforma) as várias artes têm sido um meio privilegiado de divulgação da fé como método catequético, de manifestação religiosa e elemento essencial da(s) liturgia(s). Cada tempo e cada lugar transportaram os acontecimentos da fé para o seu próprio contexto e visão do mundo, criando aquilo a que os mais "realistas" chamarão anacronismos.
Um Rei Mago oriundo de Terras de Vera Cruz, com penacho de índio e tudo; um Cristo crucificado gordo à imagem de Buda; o Menino Jesus a brincar com uma hélice renascentista; o apóstolo Pedro vestido de brocados e com tiara papal – nada disto choca os mais renitentes conservadores das "tradições católicas".
Por outro lado a iconografia religiosa nunca foi do uso exclusivo das ortodoxias religiosas nem do teologicamente correcto. Desde cedo que as imagens e símbolos dos cristãos ganharam formas mais populares e simplificadas e extravasaram do contexto próprio em que nasceram ao mesmo tempo que se cristianizavam realidades vindas de muitos lados, numa espécie de troca espontânea, prejudicada pelas tentativas de uniformismo cultual e cultural.

Toda a arte é, em princípio, subversiva. Paula Rêgo tem demonstrado, no desenvolvimento da sua Obra, que sabe canalizar essa subversidade com pertinente ironia e provocação. No caso destes quadros sobre a vida de Nossa Senhora não me parece que haja uma intenção de provocação. Quem leu a entrevista da Grande Reportagem há uns meses, ficará esclarecido (se quiser...) quanto às intenções da pintora. A vida de Maria é usada enquanto história de um imaginário não exclusivamente cristão, deixando de lado teologias ou interpretações religiosas para dar relevo a uma dimensão humana, que passa, obviamente, pela mediação subjectiva da autora.

Tenho para mim que este pode ser um bom exemplo de que a forte influência da cultura cristã na Europa não se resume às estruturas eclesiásticas e que chega a muitos outros ambientes, mesmo aos mais refratários a estas coisas da fé. Assim nas artes como nos valores morais ou nas ideias políticas.

Não podemos ter medo daquilo que em nós começou, antes devemos procurar conhecer o sentido e dar testemunho daquilo em que acreditamos.

Acho que poderia rezar diante de alguns daqueles quadros.

20.10.03

O Museu da Fundação Arpad Szénes-Vieira da Silva tem neste momento duas excelentes exposições temporárias a decorrer:

- uma selecção de desenhos que Júlio Pomar fez para a Guerra e Paz há quarenta e tal anos e que nunca tinha sido expostos;

- "Fenosa e o seu amigo Picasso", que reúne uma série de obras dos dois artistas (Picasso considerava Fenosa como o seu filho de mãe desconhecida) e fotografias de ambos, sobretudo da fase em que viviam em Paris.

Entretanto, nunca é demais olhar para a Biblioteca em fogo de Maria Helena (é um prazer tentar descobrir as associações possíveis para as iniciais nas lombadas dos livros) ou para as praias de Arpad.

Lembro que à segunda-feira a entrada é gratuita!

(com um bocado de sorte podem ouvir os seguranças a falar sobre jogos de consola durante a vossa visita)

25.8.03

[ontem, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto pude constatar como um simples busto de gesso pode transmitir o espírito sofrido de uma obra inteira. Refiro-me ao busto de Ruben A. pelo escultor Salvador Barata Feyo]

RUBEN A.

Nasceu em Lisboa em 1920.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi: professor do ensino secundário; leitor em King's College, Universidade de Londres; funcionário da Embaixada do Brasil; Administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda; Director-Geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura, depois do 25 de Abril.
Foi ainda ficcionista, dramaturgo, historiador, crítico literário e divulgador cultural.
Morreu em Londres, em 1975.

(...)
Eu preocupei-me sempre comigo, essa é a principal razão da minha existência. Fui assim e pelos anos que me restam tenho cá ainda muito material para trabalhar. Não ofendo ninguém com esta maneira de ser; deixo mesmo a outros mais matéria para se espraiarem, não meto o bedelho na vida alheia - e isto dói àqueles que desde o pequeno-almoço se preocupam com o que os outros fazem. Eu só me preocupo comigo, o resto é uma paisagem humana com altos e baixos, rios e desertos, lagos e oceanos. O que me interessa sou eu, ver cá para dentro e debruçar-me no poço fundo. Ao começo não se enxerga quase nada, daí a pouco os olhos ficam mais habituados e as formas a desenhar-se; aparecem limos, umas flores nascem dos sítios mais ingratos, o reflexo sobe e desce, a atmosfera ilumina-se de uma luz muito especial que os nossos olhos atiram por aquele mundão abaixo. Pois esse poço não tem fundo; por mais que eu lhe beba os ingredientes não consigo secá-lo. Surge sempre matéria inesperada, que nasce de geração espontânea; das paredes do poço coisas novas ressumam que se vão precipitando na fundura.
Posso dizer, pela experiência que tenho tido, que viver assim debruçado cá para dentro é apaixonante. Mundo que não conhece maldades, não se perverte de encontro a outros, que se deslumbra ao registar vários eus transitando em várias épocas e enriquecendo a estrutura de um eu que vai progredindo, incólume, exacto, fio de navalha na sua própria alma.
(...)

(do prólogo a O Mundo à Minha Procura, 2ª ed: Assírio & Alvim, 1992 - 1ª ed: 1966)

2.7.03

HORA DE ALMOÇO NA CULTURGEST

Duas belas exposições.

Uma: A Arte dos Artistas . As colecções privadas dos artistas. Começa logo com um Duchamp pertencente a Julião Sarmento, que aliás poderia ser confundida com uma obra sua. Vamos por aí fora, num ambiente de variedade e diversidade fascinante. Jorge Martins tem um anagrama do seu nome feito por Maria Helena Vieira da Silva. Michael Biberstein uma colecção de 9 gravuras de Turner (excelentes para quem ainda tem a exposição da Gulbenkian fresca na memória). Paula Rego aparece nas colecções de Graça Morais e de Ruth Rosengarten.
Com peças de novos e consagrados, podemos redundar dizendo que os artistas têm bom gosto.
[Já agora: está lá uma obra pertencente a Pedro Portugal, cujo autor é de certeza um famoso anónimo bloguista que toda a gente anda a tentar descobrir quem é].

Outra: Viagens Fotográficas de Carlos Afonso Dias. Um fotógrafo que eu não conhecia. A mesma perspicácia e sensibilidade a fotografar pessoas na Nazaré e nos bairros antigos de Lisboa, nos anos 50, a Angola profundamente negra e as ruas de Hollywood, nos anos 60, ou as novas paisagens da nova Lisboa dos anos 90.

Estão as duas até Agosto: vou lá voltar.

25.6.03

Um dos museus mais bonitos da cidade de Lisboa não cobra entradas à segunda feira, exactamente o dia em que os outros todos estão fechados.
Trata-se do Museu da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva.
Vale a pena lá ir: a exposição permanente nunca perde interesse e as temporárias são sempre de grande qualidade.

Fez no domingo oito dias, terminou uma exposição belíssima com gravuras de Marc Chagall e agora estão lá as obras integradas no prémio Celpa / Vieira da Silva.
O prémio Consagração foi atribuído a Jorge Martins e estão expostas obras seleccionadas pelo próprio. É particularmente significativo um conjunto de quadros de 1975/76 representando o World Trade Center (esse mesmo: as torres gémeas) - NYC WTC BY LIGHT.
O prémio Revelação é de facto revelador de que a arte continua a ser significativa. O prémio foi atribuído a Adriana Molder e além disso estão representados outros artistas.
Vale a pena lá ir frequentemente.
Eu à segunda aproveito para lá ir à hora de almoço. Só me admiro de lá estar sempre tão pouca gente, apesar da borla.

[como digo, o Arpad - Vieira é um dos mais bonitos museus de Lisboa, mas a qualquer dos que conheço se poderia aplicar a expressão]