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14.12.13

EMILY DICKINSON


The Poets ligh but Lamps
Themselves — go out — 
The Wicks they stimulate —
If vital Ligh

Inhere as do the Suns — 

Each Age a Lens 
Disseminating their 
Circunference —

[c. 1864]


Os Poetas acendem Lâmpadas —
Mas eles próprios — se apagam —
As Torcidas que espevitam —
Se Luz vital

Como aqui são as dos Sóis —
As Eras Lentes
Disseminando a deles
Circunferência.


(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas, edições 70, 1979)


Não faz mais do que acender Lâmpadas —
O Poeta — e vai-se embora —
São os Pavios que ele activa —
Se a Luz vive

Sempre, como um Sol —
Cada Época é uma Lente
Disseminando a sua
Esfera —


(tradução de Nuno Júdice, in Poemas e Cartas, Livros Cotovia, 2000)


Os Poetas apenas ateiam Chamas —
Eles próprios — extinguem —
Os Pavios que acendem —
Se a Luz vital 

E inerente como nos Sóis —
Cada Idade uma Lente
Disseminando-se
Circularmente —


(tradução de Cecília Rego Pinheiro, in Esta é a Minha Carta ao Mundo e outros poemas, Assírio & Alvim, 1997) 


Os Poetas só Lâmpadas acendem —
Eles próprios — extinguem-se —
E os Pavios que estimulam —
Se a Luz da vida

De si mesma se gera como os Sóis —
Cada Era uma Lente
Disseminando a sua
Circunferência —


(tradução de Ana Luísa Amaral, in Cem Poemas, Relógio d'Água, 2010)


11.11.10

HAN SHAN




Humana vida estar na poeira agitação

Exactamente como bacia meio insecto

Todo o dia avançar girar girar

Não deixar sua bacia meio

Imortais não poder obter

Preocupações planos sem esgotado

Anos meses como corrente água

Num instante estar velho




A vida humana situa-se na agitação da poeira
Exactamente como um insecto no meio de uma bacia

O dia todo avança girando girando
Não sai do meio da bacia

Os imortais não podem ter
Preocupações planos sem fim

Anos meses são como água que corre:
De repente está-se velho


(in O vagabundo do Dharma / 25 poemas de Han-Shan, Caligrafias de Li Kwok-Wing; Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau; Versões poéticas de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, 2003)


Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.


(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 e 2010 - Assíria)

2.5.10

[mais uma, para juntar a estas]

WILLIAM SHAKESPEARE


XV


Quando observo que todo o ser vivente
Por pouco tempo atinge a perfeição,
Que os astros influem secretamente
Nas peças que no grande palco vão.
Que homens, plantas, dependem por igual
Das vaias e vivas do firmamento.
Cheios de seiva, de nada lhes vale,
Tudo perdem e cai no esquecimento -
Neste estado de mudança repentina,
Surge então tua juvenil figura,
Em que o tempo com a morte combina
Dum jovem dia fazer noite escura -
Contra o tempo luto deste modo:
O que ele te rouba eu reponho logo.


(tradução de António Simões, in Soneto de Água e outros, Manhã Nova edições, 1994)

12.6.08

[para juntar a estes]

ARTHUR RIMBAUD

Vogais


A negro, É branco, I vermelho, U verde, Ó azul: vogais,
Direi um dia destes vossas ocultas origens:
A, negro colete peludo das moscas infernais
Voltejando em volta de fedores que dão vertigens,

Golfos de sombra. É, canduras de tendas e vapores evanescentes,
Lanças de glaciares orgulhosos, reis brancos, arrepios de umbelas,
I, púrpuras, sangue cuspido, riso de bocas belas
Em plena cólera ou bebedeiras penitentes.

U, ciclos, vibrações divinas dos mares malcheirosos
Paz dos pastos cheios de animais, paz das rugas
Por alquimia impressas na fronte dos grandes estudiosos;

Ó, clarim supremo, cheio de ruídos e estranhas fugas,
Silêncios atravessados pelos Anjos e pelos Mundos:
- Ó Ómega, raio violeta dos seus olhos fundos!

(“subvertido para português” por Manuel Alegre, em Rouxinol do Mundo, publicações Dom Quixote, 1998)

4.6.08

RUI MANUEL AMARAL

História do homem que perdeu a alma num café


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.
Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.
De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.
José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.
Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.

(de Caravana, Angelus Novus, 2008 – Microcosmos)


PAULO KELLERMAN

Lixo


Era uma vez um homem que passava uma parte considerável dos seus dias a mexer no lixo alheio.
Explicava, a quem desejasse saber, que procurava uma alma. Perdera a sua e, por isso, precisava encontrar outra com urgência.
Acrescentava que o local mais óbvio para procurar era entre o lixo dos outros. Pois se a bondade apenas se destaca quando contraposta à maldade, se a virtude apenas o é em relação ao pecado, se a verdade apenas existe enquanto a mentira existir, em que outro local procurar a pureza senão entre a impureza?
Sorria e continuava a revolver o lixo.

(de Miniaturas, edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão, 2001)


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ALMA PERDIDA


Sigefredo botou anúncio classificado, dizendo que perdera sua alma, com promessa de gratificar quem a encontrasse. Não explicou - nem podia - como a tinha perdido.
Apareceram algumas pessoas trazendo pacotes com almas, e nenhuma era a dele. Não se ajustavam a seu corpo, e mesmo que ele quisesse fazer experiência, era evidente que não combinavam com o jeito de Sigefredo. E ele era muito ocupado. Não tinha tempo a perder.
Já se resignara a viver mesmo sem alma, quando uma noite encontrou a desaparecida, à porta de um bar, com aparência de pobreza, mas tranquila.
Seu primeiro impulso foi recolhê-la, mas pensando melhor achou que não valia a pena. A alma de Sigefredo também não manifestou interesse em voltar para ele. Dir-se-ia que aprendera a viver por conta própria, e mesmo naquele estado era independente.
Sigefredo passou por sua alma sem cumprimentá-la, entrou no bar e pediu o drink habitual. Ao sair, viu a alma, a pequena distância, dar alguns passos e saírem dos ombros duas asas, com que ela se alteou, voando para a Zona Norte.

(de Contos Plausíveis, José Olympio editora, 1981)

28.3.07

WILLIAM SHAKESPEARE

Sonnet XV


When I consider everything that grows
Holds in perfection but a little moment,
That this huge stage presenteth nought but shows
Whereon the stars in secret influence comment;
When I perceive that men as plants increase,
Cheered and check'd even by the selfsame sky,
Vaunt in their youthful sap, at height decrease,
And wear their brave state out of memory;
Then the conceit of this inconstant stay
Sets you most rich in youth before my sight,
Where wasteful Time debateth with Decay
To change your day of youth to sullied night;
And all in war with Time for love of you,
As he takes from you, I engraft you new.



Se considero quanto é fugitiva
A perfeição de tudo que prospera,
Dos astros sinto a direcção furtiva
Sobre o palco da vida, essa quimera;

Se vejo homens e plantas a medrar
Que o mesmo Céu anima e prejudica,
Enche de seiva, aumenta, faz minguar,
E a fama do que foram sacrifica,

A própria sensação desta inconstância
Me faz ver-te mais rico em juventude,
Pois quero que resistas à ganância
Do decair, que sofres amiúde;

E o Tempo a guerrear, por teu amor,
Se te consome, eu dou-te mais vigor.

(tradução de Maria do Céu Saraiva Jorge, in Os Sonetos de Shakespeare, 1962)


Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;

se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;

então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.

Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que el' te rouba, eu te reponho aqui

(tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 seculos, 1978)


Se considero tudo quanto cresce e apenas
por um fugaz momento na perfeição avulta,
e se este palco enorme não mostra mais que cenas
que os astros acompanham por influência oculta;
se vejo que igual céu anima e desanima
tanto homens como plantas que a par se desenvolvem,
juvenil seiva eleva-os e ao fim tombam de cima,
e logo da lembrança tais glórias se dissolvem;
então o conceber desta inconstante essência
te põe ante meus olhos mais rico em juventude,
enquanto o tempo pródigo se alia à decadência
para que o teu jovem dia na treva vil se mude.
Só por amor de ti, co tempo guerreando,
quanto ele te roubar te vou reenxertando.

(tradução de Vasco Graça Moura, in 50 Sonetos de Shakespeare, editorial Presença, 1987)


Se considero tudo quanto cresce
E a perfeição atinge um só momento,
Que cada cena que este palco oferece
Dos astros tem secreto assentimento;
Que cada homem medra como planta
P’lo mesmo céu amado e repelido,
Na seiva juvenil se agiganta,
E do cume declina, em breve olvido:
A ideia deste estado sempre vário
Traz-te a meus olhos, rico em juventude
Em quanto à ruína o templo perdulário
Disputa que o teu dia em noite mude:
Co’o tempo em guerra por amor de ti,
O que el’ te rouba, eu reenxerto aqui.

(tradução de Jorge Vilhena Mesquita, in Di Versos 5, Outono-Inverno de 2000-2001)


Quando penso que tudo quanto cresce
na perfeição só breve instante avulta,
que ao vasto palco só de cenas desce
lá das estrelas a influência oculta;
se vejo homens e plantas como anima
e desanima o céu e em tal pujança,
à seiva jovem, urna vez em cima,
cai o esplendor bem longe da lembrança;
a ideia então desta inconstante estada
deixa-me ver-te em glória juvenil,
e lutam tempo e queda a qual degrada
teu jovem dia numa noite vil.
Co tempo cm guerra por amor de ti,
quanto te roube eu to enxerto aqui.

(tradução de Vasco Graça Moura, in Os Sonetos de Shakespeare, 2002)

10.2.07

EUGÉNIO DE ANDRADE

(...) Quanto ao Enzensberger, traduzi à pressa os poemas que aí estão para lhe oferecer, como um par de rosas, num jantar para que me convidou, tendo-me ele dado em troca o primeiro exemplar da tradução portuguesa do Almeida Faria. Estivemos a comparar a versão daquele poema onde as palavras são sementes de álamo, ele fascinado com as diferenças, cujo responsável era um cubano amigo dele, de nome Herberto Padilla. Não emendei a minha tradução, naturalmente, para sua alegria.
(...)

(excerto da nota inicial a Trocar de Rosa, Na Regra do Jogo, 1980)


HANS MAGNUS ENZENSBERGER

RAJADA


há palavras
leves
como sementes de álamo

erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não

(tradução de de Eugénio de Andrade in Trocar de Rosa, idem)


ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

(tradução de Almeida Faria, in Poemas Políticos, publicações Dom Quixote, 1975)

18.4.06

[para acrescentar às outras três versões]

DYLAN THOMAS

A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...


A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos decidiram a sorte,
Duplicaram os mortos, dividindo um país;
Foram cinco reis a dar a um rei a morte.

A mão poderosa levou a um ombro caído
Quando as falanges dos dedos se crisparam;
Um bico de pato pôs fim ao crime
Que pôs fim àqueles que falaram.

A mão que assinou o tratado trouxe febre,
Fez crescer a fome, vieram gafanhotos;
Grande é a mão que determina
Com um garatujar, o número de mortos.

Os cinco reis contam os mortos mas não saram
Chagas que já endureceram; nem podem afagar.
A mão governa a dor como outra mão o céu;
Nas mãos não há lágrimas que chorar.

(tradução de Victor Palla in Poemas do Inglês, Ler editora, 1985)

2.1.06

WALLACE STEVENS

Nasceu em 1879, em Reading, estado da Pensilvânia (EUA).
Publica os primeiros poemas em 1897, quando frequentava a Universidade de Harvard, onde concluiu os cursos de Inglês e de Direito.
Publicou oito livros de poesia e um de ensaios, tendo recebido diversos prémios.
Morreu em 1955.


O DOMÍNIO DO NEGRO

À noite, ao lume,
As cores das sebes
E as folhas caídas
Repetindo-se
Volteavam na sala
Tal como essas folhas
Volteando no vento.
Sim: mas a cor dos graves teixos
Avançava a passos largos
E eu lembrei-me do grito dos pavões.

As cores dos seus leques
Eram como essas folhas
Volteando no vento,
No vento do poente.
Giravam pela sala
Como ao soltar-se dos ramos dos teixos
A caminho do chão.
Ouvia-os gritar: os pavões.
Um grito contra o poente?
Ou contra essas folhas
Volteando no vento,
Volteando como as chamas
Volteavam no lume,
Volteando como os leques dos pavões
Volteavam no lume que se ouvia,
Que se ouvia como os teixos
Cheios dos gritos dos pavões?
Ou um grito contra os teixos?

Pela janela
Vi como os planetas se reuniam
Tal como essas folhas
Volteavam no vento
Vi como a noite chegava,
Avançando a passos largos como a cor dos graves teixos
E tive medo.
E lembrei-me do grito dos pavões.

(tradução de Alberto Pimenta e Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, in As Escadas não têm Degraus 3 - Março de 1990)


TEORIA

Sou o que me rodeia.

As mulheres compreendem isto.
Não se é duquesa
A cem metros de uma carruagem.
Estes, então, são retratos:
Uma antecâmara preta;
Uma cama alta protegida por cortinas.

Isto são meros exemplos.


O SENTIDO SIMPLES DAS COISAS

Depois das folhas terem caído, regressamos
A um sentido simples das coisas. É como se
Tivéssemos chegado ao fim da imaginação,
Inanimados num inerte savoir.

É difícil até escolher o adjectivo
Para este frio vazio, esta tristeza sem causa.
A grandiosa estrutura tornou-se numa casa menor.
Nenhum turbante caminha através dos soalhos degradados.

A estufa nunca precisou tanto de tinta.
A chaminé tem cinquenta anos e está inclinada para um lado.
Falhou um esforço fantástico, uma repetição
Numa repetitividade de homens e moscas.

Contudo a ausência da imaginação tinha
Ela própria de ser imaginada. O lago grandioso,
O seu sentido simples, sem reflexos, folhas,
Lama, água como vidro sujo, expressando silêncio

De certo tipo, silêncio de um rato saindo para ver,
O lago grandioso e a sua imensidade de nenúfares, tudo isto
Tinha de ser imaginado como um conhecimento inevitável,
Exigido, como uma necessidade exige.

(de Ficção Suprema, tradução e prefácio de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio & Alvim, 1991 - Gato Maltês)


NÃO IDEIAS SOBRE A COISA, MAS A PRÓPRIA COISA

Logo ao findar o Inverno,
Em Março, um grito magro do exterior
Pareceu-lhe ser um som dentro da mente.

Ela sabia tê-lo ouvido,
Um grito de ave à luz do dia, ou antes,
Nos primeiros ventos de Março.

O sol nascia às seis,
Não já topete em ruínas sobre a neve...
Teria sido no exterior.

Não partiu do vasto ventriloquismo
Do desbotado papel pardo do sono...
O sol vinha do exterior.

Esse grito magro - era
Um corista cujo c precedia o coro.
Era parte do sol colossal,

Que os seus anéis corais cercavam,
Ainda longe. Era como
Um novo conhecimento da realidade.


DO MERO SER

A palmeira, onde a mente acaba,
Para lá do último pensamento, ergue-se
Na distância do bronze,

Um pássaro de penas douradas
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Sem sentir humano, uma canção estrangeira.

Então tu sabes que não é a razão
Que nos faz felizes ou infelizes.
O pássaro canta. As penas brilham.

A palmeira ergue-se à beira do espaço.
O vento move-se nos ramos lentamente.
Pendidas, oscilam as penas do pássaro ornadas de fogo.

(in Leituras - poemas do inglês, prefácio e tradução de João Ferreira Duarte, Relógio d'Água, 1993)


A CASA ESTAVA SILENCIOSA E O MUNDO ESTAVA CALMO

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo,
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página.

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)


TREZE MANEIRAS DE CONTEMPLAR UM MELRO

I
Entre as vinte montanhas nevadas
A única coisa movendo-se
Era o olho do melro.

II
Eu tinha três almas
Como a árvore
Em que há três melros.

III
Os melros rodopiaram nos ventos outonais.
O que era uma pequena parte da pantomima.

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro,
São um.

V
Não sei que preferir -
A beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
O melro que gorjeia,
Ou o depois.

VI
Pingos de gelo enchiam a vasta janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Cruzava-a, de cá para lá, de lá para cá,
A situação
Traçava uma sombra
Um curso indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais pássaros de ouro?
Não vêdes como o melro
Passeia à volta dos pés
Das mulheres à vossa volta?

VIII
Sei de nobres tons
E de lúcidos inescapáveis ritmos;
Mas também sei
Que o melro está envolvido
No que eu sei.

IX
Quando o melro desapareceu da vista,
Marcou o limite
De um de vários círculos.

X
À vista de melros
Voando na luz verde
Até os alcoviteiros da eufonia
Gritariam desafinados.

XI
O homem atravessou o Connecticut
Num coche de vidro.
Uma vez, um terror o trespassou,
E foi quando tomou
A sombra dos cavalos
Por melros.

XII
O rio move-se.
O melro deve estar a voar.

XIII
Foi entardecer toda a tarde.
Nevava
E estava a ponto de nevar.
O melro pousado
Nos ramos do cedro.

(Tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, de Thomas Hardy a C.V.Cattaneo, 1978)


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO

I
Entre vinte montanhas cheias de neve
a única coisa que se mexia
era o olho do melro.

II
Eu era de três mentes
como uma árvore
onde há três melros

III
O melro rodopiava no vento de Outono.
Era uma pequena parte da pantomima

IV
Um homem e uma mulher
são um só.
Um homem, uma mulher e um melro
são um só.

V
Não sei de que gosto mais,
se da beleza das inflexões
ou da beleza das sugestões,
quando o melro assobia
ou imediatamente a seguir

VI
Sincelos enchiam a enorme janela
de vidro bárbaro.
A sombra do melro
atravessava-a, de um lado ao outro.
O estado de espírito
traçava na sombra
uma causa indecifrável.

VII
Ó homens franzinos de Haddam
para quê imaginar pássaros doirados.
Não vêem como o melro
passeia em redor dos pés
das mulheres à vossa volta?

VIII
Sei de nobres acentuações
e de ritmos lúcidos inescapáveis;
mas também sei
que o melro está contido
naquilo que eu sei.

IX
Quando o melro voou para fora da vista,
marcou o cimo
de um de muitos círculos.

X
À vista dos melros
voando numa luz verde
até os malabaristas da eufonia
seriam capazes de feitos.

XI
Foi pela estrada até ao Connecticut
num carro de vidro.
Uma vez, ficou varado de medo
Quando confundiu
a sombra dos seus apetrechos
com melros.

XII
O rio já corre.
O melro deve ter começado a voar.

XIII
Ficou noite toda a tarde.
Nevava
e continuaria a nevar.
O melro ficou
nas pernadas do cedro.

(tradução de Helder Moura Pereira, in O Fazer da Poesia de Ted Hugues, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

26.12.05

DYLAN THOMAS

The Hand that Signed the Paper


The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

(publicado pela primeira vez em 25 Poems, 1936)


A MÃO ASSINOU O PAPEL

A mão assinou o papel e abateu uma cidade;
Cinco dedos soberanos colectaram a respiração,
Dobraram o globo de mortos e desertaram meio país;
Estes cinco reis fizeram morrer um rei.

A mão poderosa leva a um ombro curvado,
Os nós dos dedos crispam-se com cal;
Uma pena de ganso pôs fim ao assassínio
Que pôs fim às falas.

A mão assinou o tratado e gerou uma febre,
E cresceu a fome e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que tem domínio sobre
Os homens por um nome garatujado.

Os cinco reis contam os mortos sem suavizar
A crosta da ferida, sem acariciar o rosto;
Mão que governa a mágoa qual a mão que governa o céu;
As mãos não têm lágrimas para chorar.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, in Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1981 - Cadernos Peninsulares / ensaio)


A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

(tradução de Fernando Guimarães, in A mão ao assinar este papel, Assírio & Alvim, 1990 - Gato Maltês)


A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...

A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;
cinco soberanos dedos tributaram a respiração,
de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país:
estes cinco reis provocaram a morte de um rei.

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;
sofrem de cãibras as junturas dos dedos engessados.
Uma pena de pato pôs fim ao morticínio
que tinha posto fim às negociações.

A mão que assinou o tratado engendrou febre,
e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:
grande é a mão que sobre todos impera
com o gatafunho de um nome.

Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam
a crosta das f'ridas nem a fronte afagam.
Há mãos que regem a piedade, outras o céu:
só não as há que vertam lágrimas.

(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)

30.1.05

HART CRANE

À Ponte de Brooklyn


Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de emergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade -

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
- Até que os elevadores nos libertem do nosso dia...

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, -
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram...
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa... tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, -

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro...

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóboda sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

(de A Ponte, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água editores, 1995 - original: The Bridge, 1930)


RUI DINIZ

POEMA PARA HART CRANE


Este outono foi-me dado ver-te, no
parapeito de uma ponte, sobre o reno.
À tua volta o céu avolumava as negras
nuvens, prenunciando uma tempestade.
Passei pelo café la voile e enquanto lia os blues
de kaufman, a conselho de um amigo,
tive a nítida impressão da tua vinda
e, em breve, da tua presença naquele lugar.
O vento batia nos vidros e eu voltei a
mim. A tua existência parecera-me sempre
uma simples dedicatória num vaso de
barro, um verso, um único verso, repara,
que o estilete gravara uma potterie.
O vento aumentava de violência e ninguém
ousará contrariar-me se eu afirmar
que esse ruído era o de
milhares de mãos tamborilando
mármore. Repetia comigo:
o outono, o outono, e isso conduzia de
repente o meu pensamento até à Nova
Inglaterra onde lovecraft vivera e morrera.
A terra parecia sedenta. O teu rosto,
quando o pude ver, parecia macilento
e decidido. Pareciam as tuas mão verdadeiras,
nodosas e ágeis. Desde então pouco
me afastei desse instante de recordação.
Ainda hoje, nas portas sumptuosas que
se abrem para cada outono, eu digo
em voz sumida o teu nome, e
saio de mim.

(de Ossuário, & etc, 1977)


HELDER MOURA PEREIRA

HART CRANE: A ÚLTIMA VIAGEM


Avistando a ponte de Brooklyn
sobre a manhã de inquieta
noite, caminhando nos descuidos
entre os primeiros automóveis
e os sinais. Já na idade
da necessária casa não havia
isso que os outros tinham
e a escola ensinava ser
a família. O imenso país, como
de um sonho chegado, corria
a seus olhos e levava-o
a versos, levava-o à meditação
de uma veloz história ainda
a acontecer. Avistando a ponte
de Brooklyn segue os passos
adivinhados de um avisado
corpo e nenhuma palavra
lhe sairá da boca, fica
ecoando muito tempo, virá
a ser tão natural como uma
laranja ou uma árvore, assim
se fixará no mundo. A solidão
era uma fama que a morte foi
buscar, murmúrios breves
não sobem no ar que o mar
afastou. Tão forte esse apelo,
essa branca espuma a superfície
de mais funda vida. Onde
te acalmas se vence o destino
e a ilusão, entre as águas
azuis ainda sorris. Capitão
desse navio ninguém o sabia
e agora o Orizaba vai voltar.

(de Esta Passagem, 1985)

16.5.04

[três versões para um mesmo poema]

EMILY DICKINSON

The poets ligh but Lamps -
Themselves - go out -
The Wicks they stimulate -
If vital Ligh

Inhere as do the Suns -
Each Age a Lens
Disseminating their
Circunference -

c. 1864



Os Poetas acendem Lâmpadas -
Mas eles próprios - se apagam -
As Torcidas que espevitam -
Se Luz vital

Como aqui são as dos Sóis -
As Eras Lentes
Disseminando a deles
Circunferência.

(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas de E. D., edições 70, 1978)

Os Poetas apenas ateiam Chamas -
Eles próprios - extinguem -
Os Pavios que acendem -
Se a Luz vital

É inerente como nos Sóis -
Cada Idade uma Lente
Disseminando-se
Circularmente -

(tradução de Cecília Rego Pinheiro, in Esta é a Minha Carta ao Mundo e outros poemas, Assírio & Alvim, 1997 - Gato Maltês)

Não faz mais do que acender Lâmpadas -
O Poeta - e vai-se embora -
São os Pavios que ele activa -
Se a Luz vive

Sempre, como um Sol -
Cada Época é uma Lente
Disseminando a sua
Esfera -

(tradução de Nuno Júdice, in Poemas e Cartas, edições Cotovia, 2000)

7.5.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

ARTHUR RIMBAUD

Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges:
- O l'Oméga, rayon violet de Ses Yeux!



VOGAIS

A negro, E branco, I vermelho, U verde, O azul: vogais,
Algum dia direi desses vossos ocultos nascimentos:
A, negro corpete felpudo em que as moscas, aos centos,
Revolteiam por onde os cruéis fedores se sentem mais,

Golfos de treva; E, canduras dos vapores e das tendas,
Cumes de altivos glaciares, reis brancos, trémulas sombrinhas;
I, púrpuras, sangue cuspido, as belas bocas escarninhas
Em sua cólera ou, da embriaguez, percorrendo as sendas;

U, ciclos, divino ondular dos mares verdejando sem fugas,
Paz das campinas polvilhadas pelo gado, paz das rugas
Que a alquimia imprime na alta fronte dos estudiosos;

O, Supremo Clarim, pleno de raros estridores facundos,
Silêncios atravessados por Anjos e por Mundos:
- O, o omega, a emanação violeta dos Seus Olhos! -

(tradução de Ângelo Novo)


VOGAIS

A negro, E branco, I vermelho, U verde, O azul:
Das vogais direi um dia os partos latentes:
A, veloso corpete negro de luzentes
Moscas que rondam fétido e cruel paul,

Golfos de sombra; E, canduras de fumo e tendas,
Lanças de altivos gelos, reis brancos, tremor
De umbela; I, púrpuras, cuspo e sangue, furor
No riso dos lábios belos, ébrias emendas;

U, ciclos, vibrações divinas dos virentes
Mares, paz de pastos e gados, das pacientes
Rugas que a alquimia imprime em sábios sobrolhos;

O, Clarim supremo de estranhos gritos fundos,
Silêncios cruzados por Anjos e por Mundos:
- O de Ómega, raio violeta dos Seus Olhos!

(tradução de Gaetan Martins de Oliveira)


VOGAIS

A negro, E branco, I carmim, U verde, O azul:
vogais, de vós direi as matrizes latentes:
A, peludo corpete negro de luzentes
Moscas volteando em pútrido, cruel paúl,

golfos de sombra; E, tendas, graça dos vapores,
lanças do gelo, brancos reis, tremor de umbelas;
I, púrp'ras hemoptises, rir de bocas belas
na cólera, em remorsos embriegadores.

U, ciclos, vibrações divinas do verdeado
mar, paz dos apascentos, paz do enrugado
que a alquimia imprime às frontes sobre os fólios;

O, supremo Clarim, cheio de silvos fundos,
silêncios trespassados de Anjos e de Mundos:
- O de Ómega, raio violeta dos Seus Olhos.

(tradução de Jorge Vilhena Mesquita)


VOGAIS

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Hei-de um dia cantar vossa origem latente:
A, o negro de um veludo onde o enxame fervente
Das moscas diga a podridão, sombras letais;

E, tendas de alvejar, a névoa lactescente,
Brancos reis sobre a neve e lanceiros irreais;
I, sangue aos borbotões, riso em lábios mortais,
O vermelho da raiva ou de uma dor pungente;

U, vibração do mar nos verdes horizontes,
Paz dos pastos sem fim, paz das rugas nas frontes
Dos que sondam da ciência os íntimos refolhos;

O, supremo clarão em que estridulam brados,
E o silêncio em que passa um anjo, Aléns povoados,
- O, o Ómega, essa luz violeta dos seus Olhos!

(tradução de Pedro da Silveira)


VOGAIS

A negro, E alvo, U verde, O azul: vogais,
Direi um dia destes os vossos nascimentos latentes:
A, negro corpete peludo das moscas resplandecentes
Que tangem à volta dos cheiretes e fedores fatais,

Enseadas de sombra; , inocências de vapores e tendas,
Feras-lanças dos glaciares, reis alvos, tremer de umbelas;
I, púrpuras, escarros rubros, riso dos lábios belos
Na cólera ou nas extasias penitentes;

U, ciclos, vibração divina dos mares esverdeados,
Paz dos prados semeados de animais, paz das rugas
Que a alquimia imprime nas poderosas grandes mentes;

O, supremo Clarim, fonte de estridências estranhas,
Silêncios atravessados por Mundos e por Anjos:
- O o Ómega, raio violeta dos Sete Olhos Videntes!

(tradução de Maria Gabriela Llansol)

1.3.04

[personagens recorrentes I]

CHARLES SIMIC

ÁLGEBRA DO INÍCIO DA NOITE


A louca prosseguia desenhando Xs
Com um pau de giz escolar
Nas costas de pares inadvertidos,
De mãos dadas rumo a casa.

Era inverno. Já escurecera.
Não se conseguia ver-lhe a cara,
Embuçada como estava e furtiva
Como se fosse levada pelo vento, com asas de corvo.

O giz ter-lhe-ia sido dado por uma criança.
Tentava-se descobri-la na multidão,
Esperando que fosse muito séria, muito pálida,
Com uma lasca de ardósia negra no bolso.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002)

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

TEOREMA


Diante do espelho vê rostos além do seu
e a loucura é reconhecê-los entre os mortais
esses rostos silenciosos e esquivos
tão fácil seria chamá-los
celestes

Mas ela era terrena tão por terra
conduzia a ondulação dos sentimentos
não a entendem?
Ela deixava quebrar os vasos só para os ouvir
porque tudo tem uma voz mesmo as coisas mudas
e o silêncio é uma ímpia forma de desobediência
Ela marcava um por um
Umbrais códices colheres
Para que tudo estivesse unido
Sob o frio ordenado do visível

De noite porém afundava-se no lago
e lá adormecia
De noite levava a espingarda à janela
e ficava a ouvir não os tiros
mas o incrível silêncio que sucede a cada tiro
De noite dizia-se vacilante e perdida

Depois vinha o dia e a rasura
a repetida ordenação que os acentos concedem
às palavras
a quase paixão que jamais tocava os seres
sempre só a sua representação

(de Longe Não Sabia, Presença, 1997 - colecção forma)

10.6.03

MATSUO BASHÔ
Matsuo Munefusa ou Kinsaku nasceu em 1644, em Ueno, no Japão (Província de Iga).
Quando um seu discípulo lhe ofereceu uma pequena bananeira adoptou para si o nome dessa planta – Bashô – da qual disse gostar precisamente pela sua inutilidade.
Foi viajante e poeta.
Morreu em Osaka em 1694.

O MESMO POEMA, VÁRIAS VERSÕES

Le plus illustre de cet haïku se contente d'évoquer le "ploff!" de la grenouille dans l'étang, qui accroît encore, en l'interrompant un instant, cette liquide, cette muette sérénité.
(Margueritte Yourcenar)

furuike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto


[furu=velho / ike=tanque / ya / kawazu=rã / tobikomu=pula para dentro / mizu no oto=de água barulho – Paulo Franchetti]

Versões em português:

(Wenceslau de Moraes:)

Ah, o velho tanque! e o ruído das rãs atirando-se para a água!…

*

Um templo, um tanque musgoso ;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água. Mais nada…

(Jorge de Sena:)

Quebrando o silêncio
Do charco antigo a rã salta
N’água – ressoar fundo.

(Haroldo de Campos:)

o velho tanque
rã salt’
tomba
rumor de água


(Armando Martins Janeira:)

Ah! O velho poço!
uma rã salta
som da água.

(Stephen Reckert:)

O velho charco…
som da água
onde a rã mergulha

(Casimiro de Brito:)

No velho tanque
uma rã salta – mergulha.
ruído na água.

(Egito Gonçalves:)

Uma rã mergulha.
Um velho tanque.
Ruído de água

(Liberto Cruz:)

Um charco antigo
uma rã mergulha
o murmúrio da água

(Paulo Franchetti e Elza Taeko Doi:)

O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água

(Ana Hatherly:)

Velho tanque sonolento
rã que salta
som de água

(Paulo Rocha com a colaboração de António Reis:)

ah! o velho lago!
e repentina a rã no ar –
…o baque na água

(Jorge de Sousa Braga:)

O velho tanque
Uma rã mergulha
dentro de si

(já agora, a minha versão:)

(eis o poço antigo)
o som do salto da rã
ao entrar na água

Versões em castelhano:

(Octavio Paz:)

Um viejo estanque:
salta una rana izás!
chapaleteo.

(Anónimo?:)

Una rana salta al agua, escucha el sonido.

Versões em inglês:

(R. H. Blyth:)

The old pond:
A frog jumps in, –
The sound of the water.

*

The old pond;
The sound
Of a frog jumping into the water.

*

The old pond
The-sound-of-a-frog-jumping-into-the-water.

(Lafcadio Hearn:)

Old pond – frogs jumped in – sound of water

(Curtis Hidden Page:)

A lonely pond age-old stillness sleeps…
Apart, unstirred by sound or motion… till
Suddenly into it a lithe frog leaps.

(Edward G. Seidensticker:)

The quiet pond
A frog leaps in,
The sound of water

(William J. Higginson:)

old pond…
a frog leaps in
water’s sound

(Allen Ginsberg:)

Th’old pond – a frog jumps in. Kerplunk!

(Bernard Lionel Einbond:)

frog pond…
a leaf falls in
without a sound

(Stryck:)

Old pond
leap - splash
a frog.

(Beilenson:)

Old dark sleepy pool
quick unexpected frog
goes plop! Watersplash.

(Anónimo:)

At the ancient pond
a frog plunges into
the sound of water

(Anónimo:)

old pond
frog jumps in
the sound of water...

(kkizer:)

Listen! A frog
jumping into the stillness
of an ancient pond!

Versões em francês:

(Anónimo:)

Dans le vieil étang
Une grenouille saute
Un ploc dans l'eau

(René Siffert:)

Le vieil étang
une grenouille y saute
plouf

(Etiemble:)

Une vielle mare - Une raine en vol plongeant et l'eau en rumeur