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16.1.14


RUY BELO, entrevistado por MARIA TERESA HORTA


— Acha que a poesia não pode, ou melhor, não deve ser ambígua, difícil, mas sim clara, fácil?

A poesia é por natureza difícil. Como o futebol. Desculpe a alusão. Mas não é descabida. Porque é que eu leio muito jornais desportivos? Porque os nossos maiores jornalistas são Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio ... Este último fez uma reportagem notável no Popular sobre o último Campeonato do Mundo de futebol. A anotar muito bem o concreto, o pormenor, como o melhor Hemingway. E Fernando Pessoa nunca será conhecido por tanta gente como Eusébio. E acho bem. O êxito.


(in «A Capital», de 18 de Setembro de 1968, e reproduzido em Na senda da Poesia, 1969)

7.9.11

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS


Em tempos de crise, o Surrealismo faz falta?
Claro que faz. Só se é gente quando se protesta. Só se é gente quando se quer dar um passo em frente. Só se é gente quando se tem um ponto de vista próprio. E isso tudo estava no Surrealismo. Infelizmente, neste século XXI a Humanidade ainda cai nas ratoeira do futebol e afins, vivendo alheada. O que é difícil de perceber, depois de experiências tão duras como as que viveu nas últimas décadas.

(excerto de entrevista a Luís Ricardo Duarte, in JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1068 - de 7 a 20 de Setembro de 2011)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #6]

RUY BELO

Ao escrever poesia, nunca me deixei levar por circunstâncias acidentais. Mas, menos paradoxalmente do que parece, circunstâncias acidentais explicam em parte e de certo modo essa poesia: a minha educação católica e mesmo mística, a reorganização da minha vida já perto dos trinta anos, a minha crise actual. Isto para só falar de mim. Mas, embora sem isso constituir um programa, tenho reagido às injustiças que vejo à minha volta e, como a poesia é por natureza revolucionária – renovação da sensibilidade, da linguagem –, não é de estranhar que por vezes sublinhe temas ou motivos participantes. A realidade imediata não se absorve, porém, de tal maneira, que não me continue a preocupar por exemplo o sentido da vida. Já em Aquele grande rio Eufrates havia linhas de ruptura, mas todo esse livro foi escrito num clima a que não tenho mais acesso. Boca bilingue é duplamente um livro de crise: nos temas e nas formas. E, em alguns poemas que posteriormente escrevi, soltei tais apelos que só me admira que certos profissionais da salus animi ainda não tenham tentado lançar-me uma mão.

(excerto de Entrevista 2, in Na senda da poesia, 1969 – original publicado em 1968, no jornal Notícias da Covilhã)

9.2.08

ANA HATHERLY

(...)
Quem é esta Neo-Penélope que “Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera por nenhum Ulisses”?
É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói – Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado – nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido do amor.
(...)
Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso?
Sou a gata.

(excertos da entrevista a Ana Marques Gastão, Diário de Notícias / suplemento DN gente, 9 de Fevereiro de 2008)

30.7.07

Vamberto Freitas - Bem sei que esta pergunta se torna cansativa, mas aí vai ela: achas que ainda existe espaço para a intervenção político-cultural de um poeta e/ou escritor na sociedade actual, ou o reinante economicismo do momento vai vencer(-nos) todos?

Emanuel Jorge Botelho - A luta entre economicismo (nomeadamente na sua versão tecnocrática e castradora) e a intervenção do escritor, do poeta, é uma luta desigual.
O poeta está (de longe...) à frente. Mas só poderá erguer o troféu da palavra quando a sua sede encontrar, não o coice do vinagre, mas a água do afago, e do desejo.
Jean Cocteau escreveu que "o poeta não procura nenhuma admiração; quer ser acreditado."
Engatando Cocteau na tua questão, eu diria, metaforicamente, que nada se resolverá enquanto a "crença" dos destinatários não for capaz de (assumidamente) destronar os idolatras do "credito".

(entrevista conduzida por Vamberto Freitas, datada de 1993 e recolhida em Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, edições Salamandra, 1998)