Mostrar mensagens com a etiqueta gatos mortos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta gatos mortos. Mostrar todas as mensagens

27.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

RUI MANUEL AMARAL


O gato morto


Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.

(daqui)
[recuperando séries antigas - gatos mortos]

INÊS LOURENÇO


FELINUS


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.


(de Coisas que nunca, &etc, 2010 - originalmente publicado aqui / mais sobre a gata Tobias aqui)

26.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

BOHUMIL HRABAL

[...] O tio Pepin ficava sentado toda a noite, junto do aparador, completamente imóvel, atrás dele sentava-se o velho gato Celestino, roído pelo tempo do mesmo modo que a cara do tio; aquele gato, quando era novo, dormia sempre debaixo das roseiras e das peónias do jardim, sozinho, ele tinha tratado de quase todas as gatas dos arredores... bastava-lhe ficar fora de casa quinze dias. Ao regressar das suas escapadelas, gritava durante todo o caminho: «Abram a porta, vou para casa! Preparem o melhor que têm para me oferecer!...», e tinha tudo o que queria, como o tio Pepin... arisco, não deixava que lhe fizessem festas e, se tal acontecia, o Celestino atacava imediatamente e vencia sempre, como o soldado austríaco, chegou até a atacar o pai, saltando-lhe para as costas, quando este o repreendia com a vassoura na mão. Tinha a cara tão marcada das brigas como o tio Pepin tinha a cara cheia de rugas por causa das vadiagens nocturnas e do levantar de manhã cedo, do trabalho pesado na lavagem dos tonéis, nas caldeiras, nos frigoríficos e nos esgotos. Agora lá estavam sentados lado a lado, o tio Pepin apalpou a cabeça do gato e perguntou baixinho: «Estás aqui?», e o gato ronronava e rezingava, sentado, encostado atrás do tio, como um mocho nos ombros de uma vidente, o gato estava feliz e o tio também. Todas as noites se sentavam assim, sozinhos, falavam apenas um com o outro, já não conseguiam comunicar com mais ninguém. Depois aconteceu que, por duas vezes seguidas, o tio não conseguiu encontrar, às apalpadelas, a cabeça do Celestino e, por duas vezes, ninguém respondeu grunhindo à pergunta: «Estás cá?». Então o tio Pepin deixou definitivamente de andar, já nem se levantava da cama, exactamente como o Celestino, o velho gato, que já não voltou a casa, porque os velhos gatos não morrem em casa.

(excerto de A Terra onde o Tempo Parou, tradução de Ludmila Dismánova e Mário Gomes, edições Afrontamento, 1990 - fixões)

31.5.04

[A propósito de um texto que o meu amigo Carlos trasladou da extinta Quinta Coluna para as Partículas Elementares, lembrei-me que, tal como nas auto-estradas, também na poesia se podem encontrar alguns gatos mortos; já desde o Antigo Egipto, mas ficam só três exemplos recentes na nossa língua]

EUGÉNIO DE ANDRADE

RENTE AO CHÃO


Era azul e tinha os olhos de deus
o meu pequeno persa
- agora rente ao chão onde iria?,
a voz quebrada,
o peso da terra sobre os flancos,
a luz deserta na pupila.

(de Rente ao Dizer, 1992)


JORGE DE SENA

Morreu Dom Fuas, gato meu sete anos,
pomposo, realengo, solene quase inacessível,,
na sua elegância desdenhosa de angorá gigante,
cendrado e branco, de opulento pêlo,
a cauda como pluma de elmo legendário.

Contudo, às suas horas, quando acontecia
que parava em casa mais que por comer
ou visitar-nos condescendentemente como
a Duquesa de Guermantes recebendo Swann,
tinha instantes de ternura toda abraços,
que logo interrompia retornando
aos seus passos de império, ao seu olhar ducal.

Nunca reconheceu nenhuma outra existência
de gato que não ele nesta casa. Os mais
todos se retiravam para que ele passasse
ou para que ele comesse, eles ficando
ao longe contemplando a majestade
que jamais miou para pedir que fosse.

Andava adoentado, encrenca sobre encrenca,
e via-se no corpo e no opulento pêlo,
como no ar da cabeça quanta humilhação
o sofrimento impunha a tanto orgulho imenso.
Por fim, foi internado americanamente,
no hospital do veterinário. E lá,
por notícia telefónica, sozinho, solitário,
como qualquer humano aqui, sabemos que morreu.

A única diferença, e é melhor assim,
em tão terror ambiente de ser-se o animal que morre,
foi não vê-lo mais. Porque ou nós morremos,
como dantes se morria em público,
a família toda, ou toda a corte à volta, ou
é melhor que se não veja no rosto de qualquer
- mesmo ou sobretudo no de um gato que era tão orgulhoso em vida -
não só a marca desse morrer sozinho de que se morre sempre
mesmo que o mundo inteiro faça companhia,
mas de outra solidão tecnocrata, higiénica
que nos suprime transformados em
amável voz profissional de uma secretária solícita.

Dom Fuas, tu morreste. Não direi
que a terra te seja leve, porque é mais que certo
não teres sequer ter tido o privilégio
de dormir para sempre na terra que escavavas
com arte cuidadosa para nela pôres
as fezes de existir que tão bem tapavas,
como gato educado e nobre natural.
Nestes anos de tanta morte à minha volta,
também a tua conta. Nenhum mais
terá teu nome como outros tantos gatos
antes de ti foram já Dom Fuas.

18/12/1977

(de 40 Anos de Servidão, 1978)


VINICIUS DE MORAES

SONÊTO DO GATO MORTO


Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de electricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

(de O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)