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21.1.16

VERGÍLIO FERREIRA


Caminhamos agora por uma recta extensa. Passam à nossa beira camponeses escuros, um ou outro pedinte de viagem com a face das misérias bíblicas. Ao fundo, barrando o horizonte, ergue-se a montanha, que recua, vagarosa, diante de nós, como para nos atrair à sua verdade de génese. E, suspenso sobre ela, unido ao cântico dos homens, que já não ouço, eis que se me abre um coral longínquo, eco de que paz triunfal numa manhã solene, esperança sem fim, esperança eterna? ‘Messias’. Haendel.
Behold the Lamb of God, that taketh away the sin of the world.
E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária. Gente estropiada, escarros de humilhação, e a fome, e o remorso, e o cansaço, e a loucura que emerge como um incêndio na noite, e a lepra, e a angústia da interrogação, velhos da idade do sofrimento, gente que espera, gente que sonha… De que abismos esta mensagem? A montanha vibra na sua massa branca ao apelo da ansiedade. Vozes de longe, cantando, cantando. Marcha sem fim, ó coro da desgraça de sempre! Que força absurda vos ergue para a esperança do que não há?
Surely He hath borne our griefs, and carried our sorrows!
Como o sabeis? Como o sabeis? Ah, a vossa dor tem a medida da eternidade. Mas a a esperança renasce-vos sob as mesmas cinzas e a mesma ruína… Eis-vos cantando como doidos para a distância do céu nublado. Mas vós acreditais que uma estrela nascerá por detrás das nuvens…
O coro morre ao longe entre o silêncio das fragas. E quem avança para a montanha e para a mão que dela se ergue sou eu só. Esperança de nada, só a relembra agora a névoa da música irreal, onde de mim?, em que encontro impossível com a paz e a plenitude?

(excerto de Aparição, 1959)


6.10.13

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


FANTASIA PARA VIOLA

Ouvi uma das noites deste outono
as fantasias para viola de Henry
Purcell. Já as conhecia. Pela
noite de Óbidos
Savall ia apresentando um por um
os intérpretes, e dizia um pouco
sobre a história de cada viola da
gamba dedilhada, e também sobre
o violone tocado pelo senhor
Lorenz Duftschmidt, austríaco a
quem, e não sei por que razão
oculta, fixei o nome. Quando
chegou a Montserrat Figueras, que
entre as peças cantou além de
Purcell, Byrd, talvez com o sentido
de amenizar o tempo que era
necessário, entre as fantasias,
para o afinamento das violas que
obrigavam a rápidos desacertos, à
fuga de uma nota áspera na húmida
igreja de S. Tiago, intramuros. E
ele disse de Montserrat Figueras
«o único instrumento contemporâneo,
a sua voz».
Ninguém poderá saber como chegaram
as harmonias das violas que tocaram
Purcell
a este castelo que foi o centro do
mundo da minha infância; eu sei
ou julgo que sei todas as cores que
pelo outono descem o pano das
muralhas até ao mar,
do alto das ameias vê-se que não é
longe, basta seguir o áspero
caminho dos sentidos e depois tudo
se passará como quem descobre o
parentesco entre deus e o mundo.
Castelo e muralhas já não são
pedras de nenhum destino, a voz
foge da pressão da vida, queria
que cantasse sempre,
sem parar,
eternamente.


(de Não É Certo Este Dizer, Editorial Presença, 1997 / colecção forma)


7.7.12

JOÃO RUI DE SOUSA


FRAGMENTOS PARA DEBUSSY
Evocando o Prélude
à l'après-midi d'un faune

Cíclica vertigem
aquecida ao rubro do teu canto
- espero e invoco.

Sinais de búzios,
compassados ecos,
completos sempre
em vegetal memória.

Esperar? Exacto
- que há sempre mais e mais
na voz da água pura.

Pedir? Também
- que é sempre cheia e grave
a face que escolheste.

Querer mais? Muito mais?
Não sei. Fértil e exacto
o que me dão, nada mais me cabe.

*

Se invoco um nome grato
é porque, à luz com que eu encontro
a claridade em castos olhos,
invoco, julgo, um nome com o meu sangue.

Se invoco um nome afável
- guitarra        harpa
                               astro puro        areia -
é porque sei ou sinto
que é aí - está aí -
a paisagem que me abrange.

*

De novo surges
como névoa ao sol da vida,
estrídulo arco,
como um papel branquíssimo
sobre a areia.

De novo surges...

*

Singelo e ao vento, persigo-te
(nos ramos, na flor, na aragem)
até encontrar a oculta voz,
o espírito puro
com que tudo se move e dilui
- para beijá-lo.


(de Circulação, 1960)



22.5.12



LUÍS QUINTAIS


Vivaldi

Depois de Vivaldi cessará toda a miséria.
Há músicas assim. Vêm até nós
para nos guiarem ao sítio lento

onde a alma se redefine, muda de pele,
já não para o ressentimento, mas para
uma alegria súbita e sem tempo

com a qual a entrevista paisagem
de prenúncios trágicos se suspende,
e uma dança transfigura os mínimos sinais

da celebrada maldição
e os lança aos imensos ventos
da miséria cultivada,

como se lhe oferecesse o voraz alimento
procurado, o que, por estratégia
ou diversão, te roubará ao desespero.

Para que se descreva a partitura,
o testemunho do porvir
onde tumultuados céus se extinguem,

sentirás, com o teu sangue, que alguém — 
Vivaldi — cantou prodigiosamente 
no alto das falésias do tempo,

e conhecendo por antecipação a tua mágoa 
cantou para ti e para mais nenhum outro.


(de Angst, livros Cotovia, 2002)

31.3.12

FERNANDO ESTEVES PINTO


Improvisas uma forma de aceitação enquanto escreves.
Por exemplo o tempo a semear estacas
em redor do teu pensamento.

Também Ellington sopra pregos harmoniosos
numa intensa dança ao ritmo do medo.

Uma imagem de alicerce a ruir:
tudo o que reúnes na tua loucura.

Como um programa de entretenimento
os rostos fermentados num silêncio ofensivo
os aplausos do desespero quando a razão
é a arte das palavras interiores.

Nenhuma multidão é um antídoto
para os múltiplos rostos que exibes
em confronto com o fragmento feliz.


(de Área Afectada, Temas Originais, 2010)


DUKE ELLINGTON


 


3.9.11




VASCO FERREIRA CAMPOS 


CUM VOX SANGUINIS* 

 A chama na tua fronte
trazia confiante uma dor pura
íntima da luz e dos teus passos.

Com o rosto graduado de bênçãos
 viste o que cresceu no sangue
 e no poema

 a medida remota de cada céu.
* Híldegard von Bingen 

(de O Coração Sabe, Hissopo, 2003)

18.4.11




JOÃO CANDEIAS


o testemunho dos olhos


esta gargalhada de mulher não existe
na garganta, sementeira de gargalhadas
mortas e de penas de aves migradoras.
pendente a cabeça passa sobre nuvens
e o torvelinho das vozes sufoca à nascença
o gesto ritual entre os vaga-lumes de nicotina.
é de noite: seja dia: tanta noite, tanto dia.
nas horas do néon a loura seara do corpo, o corpo
ágil, o corpo-desejo estreito, haurindo o sumo
das bocas ígneas de lábios sôfregos, circulares
diálogos estriados de paladares e sons, sede
de lábios no recesso da língua viajando
sensitivas eternidades, língua que resguarda
a voz do sono e as armas que sempre sobram
dos sonhos rebeldes.
perturbante humidade, que chove na rua incontida.
a música, pacific 231 de arthur honegger, toca.
as gatas dançam o ritual do cio e há algures
no espaço um sol que acende luas citrinas
e outro que é pela noite consumido.
a mulher desta gargalhada não existe.
afirmaria afinal a ausência do diálogo
em que apenas participam partículas de som
como campânulas iníquas, implosões de bramidos
e a distância (ab)surda de estar nos olhos fixos
no gume das baionetas vitoriosas, nas esquírolas
das palavras que génios-profetas eternizam.
só os olhares, o testemunho dos olhos

(de Ignição Ozone, espiral, 1984)

9.7.10

ALEXANDRE O'NEILL

CARTA-PREFÁCIO
PARA VINICIUS DE MORAES

Amigo:

Quando estiveste, da primeira vez, por aqui dando show, umas granfas (loiras e morenas notáveis, como diria Mestre Carlos, mas granfas), comentando os preços da boate onde, em duas ou três sessões, te produziste com a tua turma, disseram ou fizeram dizer: «Quem não tem dinheiro, não tem Vinícius.» Vinícius, vícios... Não ligues. Olha que elas dispunham de muito bago. Estavam era a ser desajeitadas na maneira de te homenagear. Algumas conheciam de ti o poeta encaixilhado no sério. Charmoso, mas, apesar de tudo, respeitável-respeitoso. Usavam o teu «Soneto do Amor Total», não como tabatière à musique, nem como máquina de pensar, mas como caixinha de arroubos, entre as muitas outras que sempre trazem na molinha, com coisinhas para pôr ou tirar dor de cabeça.
Dessas, umas quantas mostraram-se decepcionadas, ofendidas contigo por teres descido do livro à boate, do soneto ao samba. E fizeram constar a decepção, a ofensa que sentiam. Não ligues. Estavam era mordidinhas de inveja perante a quantidade de liberdade que tu, em cada noite, produzias!
Marcus Vinicius, eu vi-te aquém e além-palco, con-vivi-tigo. No Alentejo, que agora, mais que nunca, ai de nós, é um adjectivo, vi-te, convivi-te no teu simplório convívio. Estavas em construção, como sempre não definitivo. Tua felicidade, teu riso mais riso, era entre esse pessoal amigo.
Há muita gente ainda por aí (tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze, quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar, que afinal é o mesmo: tocantar.
Perceba, por uma vez, essa gentalha, que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!

São


o operário


em construção


Abração

ALEXANDRE O'NEILL

Lisboa, Nov. 75



(in Vinicius de Moraes, O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)





VINICIUS DE MORAES


Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
«Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes.»

(in O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)

4.2.10



The Great Gig in the Sky (Pink Floyd)


Fixa os olhos no grande bloco de basalto
E escuta atentamente.
Este alçapão para onde te deixas ir

É a voz de uma mulher.
Uma voz inteira. Oscila e avança,
É a pele de um corpo enorme, suspenso

A fazer-te arriscar o que tens de céu
Com os golpes agudos de metal
Maleáveis, a ferir os ouvidos.

Não deixes de olhar a grande pedra à tua frente,
A voz é um grito a absorver o tacto,
A concentrar a luz no imo da garganta.

E faz doer os músculos
De quem não tem outra dor para sentir,
Como se fosse uma palavra recorrente

Misturada com o vento
Portador da angústia das ruas
E a fixar-se nos passos de cada um.

O que ouves é a multidão,
O peso já sem melodia – apenas fôlego –,
Um rumor denso diante dos olhos

Acessível à mão.
É o instrumento com que arrancas
Algo cravado no teu peito,

Uma voz a simular o firmamento
A ocupar os espaços vagos na tua alma
Que continua a ouvir-se depois de terminar.

(in Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009)

9.11.09

[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]


(voz de João Afonso)

JOSÉ AFONSO

UTOPIA


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)

27.10.09

(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)


SÉRGIO GODINHO

Chuvas de Cabo Verde


Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão

Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna

Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado

(do álbum Aos Amores, 1989)



(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)

22.7.09




ADRIAN HENRI


ESTA NOITE AO MEIO-DIA (*)

(para Charles Mingus e os Clayton Squares)

Esta noite ao meio-dia
Os supermercados anunciarão DESCONTO em tudo
Esta noite ao meio-dia
As crianças de famílias felizes serão mandadas para um asilo
Os elefantes contarão uns aos outros anedotas humanas
A América vai declarar paz à Rússia
Generais da Grande Guerra venderão capacetes nas ruas no 11 de Novembro
Os primeiros narcisos do Outono hão-de aparecer
Quando as folhas caírem para as árvores

Esta noite ao meio-dia
Os pombos vão caçar gatos pelos quintais
Hitler dir-nos-á que lutemos nas costas e nas praias
Um túnel será aberto sob Liverpul
Serão avistados porcos voando em formação sobre Woolton
e Nelson não só receberá o olho de volta mas também o braço
Os Americanos brancos exigirão igualdade de direitos
em frente da Casa Preta
e o Monstro acaba de criar o Dr. Frankenstein

Moças em bikini estão a banhar-se na lua
Canções populares estão sendo cantadas por autêntico povo
As galerias de arte são interditas a maiores de 21 anos
Os poetas vêem os seus poemas no Top 20.
Os políticos são eleitos para manicómios
Há empregos para todos e ninguém os quer
Em ruelas escusas amantes adolescentes beijam-se
à luz do dia
Em campas esquecidas em toda a parte os mortos calmamente
enterrarão os vivos
e
Tu dir-me-ás que me amas
Esta noite ao meio-dia


* O título deste poema é tirado dum L. P. de Charles Mingus ‘Tonight at Noon’, Atlanta 1416. (Nota do Autor).

(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de Tonight at Noon, 1969; o tema no vídeo é do álbum referido em nota)

6.7.09

[para uma antologia de bicicletas – 16 e 17]

KATIE MELUA





HUGO MILHANAS MACHADO

KATIE MELUA


Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas

se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.

(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)

29.4.09

LUDWIG VAN BEETHOVEN

Piano Concerto No 2


(Berlin Philharmoniker, conduzida por Claudio Abbado; Solista: Mikhail Pletnev)*



(continua aqui, aqui e aqui)


JOÃO CAMILO

NÚMERO DOIS


Beethoven, concerto número dois para piano.
Com um canivete corta-me devagar por dentro
a parte da alma mais encostada à carne.
O prazer que a Camões também doía e as palavras
de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina
o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu-
merar: como quem coloca cada som depois do outro
e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me
por dentro das próprias veias no meu corpo
desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que
existem e é delas que se extrai
a revolta com que vou nascendo para
ver-me de pé enquanto reaprendo
a não esquecer que um dia finalmente
tudo terá passado. E esta aventura
de estar aqui hoje há-de perder-se
no tempo que consome tudo e nos consome
a nós no uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu
corpo cada dia mais definitivamente à imagem
da pequena morte que nos chega que toca
os olhos na retina os ouvidos na membrana
do tímpano e passa a circular no sangue com a
embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo,
Claudio Arrau pianista chileno vai
pontuando o tactear da lâmina
no meu corpo e eu sentado contemplo as cores
dos objectos à minha volta e vou dando pelo
espanto de assistir à passagem de mim
mesmo pelo que me rodeia.



O CAMPEÃO DE ROLAND GARROS

Esta tarde sou eu o homem da raqueta mágica.
A minha juventude resplandece no terreno central
de Roland Garros. Ergo o braço vigoroso, olho fixamente
o meu adversário ao fundo sobre a linha a saltitar.
Lanço a bola ao ar e bato com força, vejo-a rasar a rede,
quem poderia pará-la e devolver-ma perigosamente?
O público aplaude e eu limpo o suor do rosto com a mão,
tomo posição de novo e vou bater a bola com a mesma convicção.
A minha perna esquerda suporta o peso do corpo, a mão direita
segura na raqueta com energia e o braço corta o ar veloz
enquanto o ruído seco da bola batendo na terra soa no silêncio
como a música da perfeição. Mais quinze pontos. Dentro de pouco
tempo tenho mais um jogo ganho. Para isso passei as manhãs em exercícios,
me privei do álcool e do fumo, das distracções fugazes e inúteis.
Se o olhar das raparigas não me escapa, nem os belos dentes
brancos que elas têm, nem os seus braços nus, os seios redondos,
a minha preocupação maior é respeitar o andamento deste concerto,
responder ao meu adversário com o rigor dos gestos que surpreendem
e causam admiração. Dói-me como o problema do desemprego
nas sociedades modernas escravas do lucro e da vontade de produzir
a bola mal batida que sai fora das linhas brancas deste jogo.
Tem-me atormentado noites inteiras a devolução defeituosa
que fiz de uma bola fácil que me enviara um jogador medíocre.
Às vezes impede-me de comer a sensação que tenho de não poder
colocar todas as bolas no interior do rectângulo. Mas o homem
é um ser imperfeito apesar de todas as horas de aprendizagem,
de todos os minutos passados a aperfeiçoar os gestos mais simples.
Erros de cálculo, a bola que devia passar a rede e não passou,
ou a que vai sair ligeiramente ao lado dos limites fixados.
Esta tarde, porém, a sorte sorri-me. Ou antes: os meus gestos
são de uma perfeição à medida da minha lucidez e energia.
A consciência que eu tenho de dominar os elementos inebria-me
e em cada corrida que dou crescem-me asas e aumenta
a minha confiança nos limites e capacidades humanas. Estou
contente comigo mesmo. Não sou vaidoso, estou apenas satisfeito
com este rigor. O meu adversário é obrigado a deslocar-se
de um canto do terreno para o outro a toda a velocidade. Às vezes,
claro, não chega a tempo. Terá trabalhado tanto como eu, passado tantas horas
a ensinar o corpo a obedecer-lhe, a não traí-lo? A atenção,
a enorme concentração é que explicam em grande parte a minha precisão.
Conheço também as manhas e manias das bolas que batidas
vêm a rodar sobre si mesmas ao encontro da minha raqueta.
O meu jogo de pernas, segundo os entendidos, assemelha-se ao de um
jogador de golfe, ou de hóquei, ou de boxe. A mim parece-me
que sobretudo é idêntico ao gesto do violinista que percorre a corda
e cria o som de um rigor e intensidade que penetram
em todas as fibras do espírito. A minha única vaidade é estar contente.
Bem sei que à margem deste campo desportivo (com gente sentada nas bancadas
a seguir atentamente o mais pequeno dos meus gestos) existem
outras coisas. O desemprego dos jovens, a ameaça atómica, a vida absurda
nas cidades modernas, porém, não me são desconhecidos. Sei também
que a beleza é um pássaro excessivo ao lado da miséria e dos defeitos físicos.
Ao ver-me agir, porém, e ignorando quanto da minha imperfeição se esconde
na facilidade com que executo estes gestos rituais e calorosos,
quantos não terão sentido por momentos que a força secreta
que governa o nosso destino se podia finalmente libertar?
Nunca discuto a decisão do árbitro, mesmo se o público assobia,
mesmo se vi a bola cair dentro ou fora ao contrário do que ele diz:
o jogo é humano e os homens erram, tenho muitas bolas
e toda a tarde para provar o meu talento e a minha força.
É altura de pôr em jogo bolas novas. Vejo-as brancas
a saltitar na terra vermelha e tomo-lhe o peso, sinto
na mão a aspereza nova dos seus pêlos. Ah, ser sempre jovem.
Bato-as com força e o meu adversário do outro lado da rede
não consegue resistir durante muito tempo à pressão que eu exerço.
A dado momento acaba por enervar-se, pensa que vai surpreender-me,
e lança a bola para lá do risco. Paço depressa quarenta pontos.
O jogo está muito perto do fim. Admiro o jogador
que me faz correr a mim e me obriga a ser inteligente,
é ele o instrumento da minha glória e do meu contentamento.
É ele, também, quem me impede de atingir enfim a perfeição divina.
É por isso que não sorrio por fora, que nem sequer deixo o entusiasmo
ganhar-me muito por dentro? Continuo sem perturbar-me
a executar da maneira mais austera esta partição.


(de Na Pista Entre as Linhas, Gota de Água e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982 - Plural)


* Aparentemente, o Concerto No 2 é o único de Beethoven que não se encontra no YouTube interpretado por Claudio Arrau, o intérprete referido no poema.