Caminhamos agora por uma recta extensa. Passam à nossa beira camponeses escuros, um ou outro pedinte de viagem com a face das misérias bíblicas. Ao fundo, barrando o horizonte, ergue-se a montanha, que recua, vagarosa, diante de nós, como para nos atrair à sua verdade de génese. E, suspenso sobre ela, unido ao cântico dos homens, que já não ouço, eis que se me abre um coral longínquo, eco de que paz triunfal numa manhã solene, esperança sem fim, esperança eterna? ‘Messias’. Haendel.
Behold the Lamb of God, that taketh away the sin of the world.
E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária. Gente estropiada, escarros de humilhação, e a fome, e o remorso, e o cansaço, e a loucura que emerge como um incêndio na noite, e a lepra, e a angústia da interrogação, velhos da idade do sofrimento, gente que espera, gente que sonha… De que abismos esta mensagem? A montanha vibra na sua massa branca ao apelo da ansiedade. Vozes de longe, cantando, cantando. Marcha sem fim, ó coro da desgraça de sempre! Que força absurda vos ergue para a esperança do que não há?
Surely He hath borne our griefs, and carried our sorrows!
Como o sabeis? Como o sabeis? Ah, a vossa dor tem a medida da eternidade. Mas a a esperança renasce-vos sob as mesmas cinzas e a mesma ruína… Eis-vos cantando como doidos para a distância do céu nublado. Mas vós acreditais que uma estrela nascerá por detrás das nuvens…
O coro morre ao longe entre o silêncio das fragas. E quem avança para a montanha e para a mão que dela se ergue sou eu só. Esperança de nada, só a relembra agora a névoa da música irreal, onde de mim?, em que encontro impossível com a paz e a plenitude? (excerto de Aparição, 1959)
6.10.13
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
FANTASIA PARA VIOLA
Ouvi uma das noites deste outono
as fantasias para viola de Henry
Purcell. Já as conhecia. Pela
noite de Óbidos
Savall ia apresentando um por um
os intérpretes, e dizia um pouco
sobre a história de cada viola da
gamba dedilhada, e também sobre
o violone tocado pelo senhor
Lorenz Duftschmidt, austríaco a
quem, e não sei por que razão
oculta, fixei o nome. Quando
chegou a Montserrat Figueras, que
entre as peças cantou além de
Purcell, Byrd, talvez com o sentido
de amenizar o tempo que era
necessário, entre as fantasias,
para o afinamento das violas que
obrigavam a rápidos desacertos, à
fuga de uma nota áspera na húmida
igreja de S. Tiago, intramuros. E
ele disse de Montserrat Figueras
«o único instrumento contemporâneo,
a sua voz».
Ninguém poderá saber como chegaram
as harmonias das violas que tocaram
Purcell
a este castelo que foi o centro do
mundo da minha infância; eu sei
ou julgo que sei todas as cores que
pelo outono descem o pano das
muralhas até ao mar,
do alto das ameias vê-se que não é
longe, basta seguir o áspero
caminho dos sentidos e depois tudo
se passará como quem descobre o
parentesco entre deus e o mundo.
Castelo e muralhas já não são
pedras de nenhum destino, a voz
foge da pressão da vida, queria
que cantasse sempre,
sem parar,
eternamente.
(de Não É Certo Este Dizer, Editorial Presença, 1997 / colecção forma)
7.7.12
JOÃO RUI DE SOUSA
FRAGMENTOS PARA DEBUSSY Evocando o Prélude à l'après-midi d'un faune
Cíclica vertigem
aquecida ao rubro do teu canto
- espero e invoco.
Sinais de búzios,
compassados ecos,
completos sempre
em vegetal memória.
Esperar? Exacto
- que há sempre mais e mais
na voz da água pura.
Pedir? Também
- que é sempre cheia e grave
a face que escolheste.
Querer mais? Muito mais?
Não sei. Fértil e exacto
o que me dão, nada mais me cabe.
*
Se invoco um nome grato
é porque, à luz com que eu encontro
a claridade em castos olhos,
invoco, julgo, um nome com o meu sangue.
Se invoco um nome afável
- guitarra harpa
astro puro areia -
é porque sei ou sinto
que é aí - está aí -
a paisagem que me abrange.
*
De novo surges
como névoa ao sol da vida,
estrídulo arco,
como um papel branquíssimo
sobre a areia.
De novo surges...
*
Singelo e ao vento, persigo-te
(nos ramos, na flor, na aragem)
até encontrar a oculta voz,
o espírito puro
com que tudo se move e dilui
- para beijá-lo.
(de Circulação, 1960)
22.5.12
LUÍS QUINTAIS
Vivaldi
Depois de Vivaldi cessará toda a miséria.
Há músicas assim. Vêm até nós
para nos guiarem ao sítio lento
onde a alma se redefine, muda de pele,
já não para o ressentimento, mas para
uma alegria súbita e sem tempo
com a qual a entrevista paisagem
de prenúncios trágicos se suspende,
e uma dança transfigura os mínimos sinais
da celebrada maldição
e os lança aos imensos ventos
da miséria cultivada,
como se lhe oferecesse o voraz alimento
procurado, o que, por estratégia
ou diversão, te roubará ao desespero.
Para que se descreva a partitura,
o testemunho do porvir
onde tumultuados céus se extinguem,
sentirás, com o teu sangue, que alguém —
Vivaldi — cantou prodigiosamente
no alto das falésias do tempo,
e conhecendo por antecipação a tua mágoa
cantou para ti e para mais nenhum outro.
(de Angst, livros Cotovia, 2002)
31.3.12
FERNANDO ESTEVES PINTO
Improvisas uma forma de aceitação enquanto escreves.
Por exemplo o tempo a semear estacas
em redor do teu pensamento.
Também Ellington sopra pregos harmoniosos
numa intensa dança ao ritmo do medo.
Uma imagem de alicerce a ruir:
tudo o que reúnes na tua loucura.
Como um programa de entretenimento
os rostos fermentados num silêncio ofensivo
os aplausos do desespero quando a razão
é a arte das palavras interiores.
Nenhuma multidão é um antídoto
para os múltiplos rostos que exibes
em confronto com o fragmento feliz.
(de Área Afectada, Temas Originais, 2010)
DUKE ELLINGTON
3.9.11
VASCO FERREIRA CAMPOS
CUM VOX SANGUINIS*
A chama na tua fronte
trazia confiante uma dor pura
íntima da luz e dos teus passos.
Com o rosto graduado de bênçãos
viste o que cresceu no sangue
e no poema
a medida remota de cada céu.
* Híldegard von Bingen
(de O Coração Sabe, Hissopo, 2003)
18.4.11
JOÃO CANDEIAS
o testemunho dos olhos
esta gargalhada de mulher não existe na garganta, sementeira de gargalhadas mortas e de penas de aves migradoras. pendente a cabeça passa sobre nuvens e o torvelinho das vozes sufoca à nascença o gesto ritual entre os vaga-lumes de nicotina. é de noite: seja dia: tanta noite, tanto dia. nas horas do néon a loura seara do corpo, o corpo ágil, o corpo-desejo estreito, haurindo o sumo das bocas ígneas de lábios sôfregos, circulares diálogos estriados de paladares e sons, sede de lábios no recesso da língua viajando sensitivas eternidades, língua que resguarda a voz do sono e as armas que sempre sobram dos sonhos rebeldes. perturbante humidade, que chove na rua incontida. a música, pacific 231 de arthur honegger, toca. as gatas dançam o ritual do cio e há algures no espaço um sol que acende luas citrinas e outro que é pela noite consumido. a mulher desta gargalhada não existe. afirmaria afinal a ausência do diálogo em que apenas participam partículas de som como campânulas iníquas, implosões de bramidos e a distância (ab)surda de estar nos olhos fixos no gume das baionetas vitoriosas, nas esquírolas das palavras que génios-profetas eternizam. só os olhares, o testemunho dos olhos
(de Ignição Ozone, espiral, 1984)
9.7.10
ALEXANDRE O'NEILL
CARTA-PREFÁCIO PARA VINICIUS DE MORAES
Amigo:
Quando estiveste, da primeira vez, por aqui dando show, umas granfas (loiras e morenas notáveis, como diria Mestre Carlos, mas granfas), comentando os preços da boate onde, em duas ou três sessões, te produziste com a tua turma, disseram ou fizeram dizer: «Quem não tem dinheiro, não tem Vinícius.» Vinícius, vícios... Não ligues. Olha que elas dispunham de muito bago. Estavam era a ser desajeitadas na maneira de te homenagear. Algumas conheciam de ti o poeta encaixilhado no sério. Charmoso, mas, apesar de tudo, respeitável-respeitoso. Usavam o teu «Soneto do Amor Total», não como tabatière à musique, nem como máquina de pensar, mas como caixinha de arroubos, entre as muitas outras que sempre trazem na molinha, com coisinhas para pôr ou tirar dor de cabeça.
Dessas, umas quantas mostraram-se decepcionadas, ofendidas contigo por teres descido do livro à boate, do soneto ao samba. E fizeram constar a decepção, a ofensa que sentiam. Não ligues. Estavam era mordidinhas de inveja perante a quantidade de liberdade que tu, em cada noite, produzias!
Marcus Vinicius, eu vi-te aquém e além-palco, con-vivi-tigo. No Alentejo, que agora, mais que nunca, ai de nós, é um adjectivo, vi-te, convivi-te no teu simplório convívio. Estavas em construção, como sempre não definitivo. Tua felicidade, teu riso mais riso, era entre esse pessoal amigo.
Há muita gente ainda por aí (tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze, quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar, que afinal é o mesmo: tocantar.
Perceba, por uma vez, essa gentalha, que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!
São
o operário
em construção
Abração
ALEXANDRE O'NEILL
Lisboa, Nov. 75
(in Vinicius de Moraes, O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)
VINICIUS DE MORAES
Pátria Minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria. Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: Não sei. De fato, não sei Como, por que e quando a minha pátria Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água Que elaboram e liquefazem a minha mágoa Em longas lágrimas amargas. Vontade de beijar os olhos de minha pátria De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias De minha pátria, de minha pátria sem sapatos E sem meias pátria minha Tão pobrinha! Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria, eu semente que nasci do vento Eu que não vou e não venho, eu que permaneço Em contato com a dor do tempo, eu elemento De ligação entre a ação e o pensamento Eu fio invisível no espaço de todo adeus Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido De flor; tenho-te como um amor morrido A quem se jurou; tenho-te como uma fé Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito Nesta sala estrangeira com lareira E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra Quando tudo passou a ser infinito e nada terra E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz À espera de ver surgir a Cruz do Sul Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha Amada, idolatrada, salve, salve! Que mais doce esperança acorrentada Que mais doce esperança acorrentada O não poder dizer-te: aguarda... Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para Rever-te me esqueci de tudo Fui cego, estropiado, surdo, mudo Vi minha humilde morte cara a cara Rasguei poemas, mulheres, horizontes Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta Lábaro não; a minha pátria é desolação De caminhos, a minha pátria é terra sedenta E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular Que bebe nuvem, come terra E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem Uma quentura, um querer bem, um bem Um libertas quae sera tamem Que um dia traduzi num exame escrito: "Liberta que serás também" E repito! Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa Que brinca em teus cabelos e te alisa Pátria minha, e perfuma o teu chão... Que vontade de adormecer-me Entre teus doces montes, pátria minha Atento à fome em tuas entranhas E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha Teu nome é pátria amada, é patriazinha Não rima com mãe gentil Vives em mim como uma filha, que és Uma ilha de ternura: a ilha Brasil, talvez. Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia Que peça ao sabiá Para levar-te presto este avigrama: «Pátria minha, saudades de quem te ama... Vinicius de Moraes.»
(in O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)
4.2.10
The Great Gig in the Sky (Pink Floyd)
Fixa os olhos no grande bloco de basalto E escuta atentamente. Este alçapão para onde te deixas ir
É a voz de uma mulher. Uma voz inteira. Oscila e avança, É a pele de um corpo enorme, suspenso
A fazer-te arriscar o que tens de céu Com os golpes agudos de metal Maleáveis, a ferir os ouvidos.
Não deixes de olhar a grande pedra à tua frente, A voz é um grito a absorver o tacto, A concentrar a luz no imo da garganta.
E faz doer os músculos De quem não tem outra dor para sentir, Como se fosse uma palavra recorrente
Misturada com o vento Portador da angústia das ruas E a fixar-se nos passos de cada um.
O que ouves é a multidão, O peso já sem melodia – apenas fôlego –, Um rumor denso diante dos olhos
Acessível à mão. É o instrumento com que arrancas Algo cravado no teu peito,
Uma voz a simular o firmamento A ocupar os espaços vagos na tua alma Que continua a ouvir-se depois de terminar.
(in Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009)
9.11.09
[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]
(voz de João Afonso)
JOSÉ AFONSO
UTOPIA
Cidade Sem muros nem ameias Gente igual por dentro Gente igual por fora Onde a folha da palma afaga a cantaria Cidade do homem Não do lobo, mas irmão Capital da alegria
Braço que dormes nos braços do rio Toma o fruto da terra É teu a ti o deves lança o teu desafio
Homem que olhas nos olhos que não negas o sorriso, a palavra forte e justa Homem para quem o nada disto custa Será que existe lá para os lados do oriente Este rio, este rumo, esta gaivota Que outro fumo deverei seguir na minha rota?
(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)
27.10.09
(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)
SÉRGIO GODINHO
Chuvas de Cabo Verde
Há quantos meses não chove parece que nove parece que nove se chover nos três que resta parece que há festa parece que há festa
Beleza de Cabo Verde não se vê do avião país que é novo tem sede do que faz fazer o pão este socalco foi milho e aquelas pedras, feijão ensinava a mãe ao filho repete o filho ao irmão
Há quantos meses não chove parece que nove parece que nove se chover nos três que resta parece que há festa parece que há festa
Beleza de Cabo Verde está na maneira de olhar árvore que tinha sede foi-se também emigrar nela encostado, o emigrante trinca do fruto da morna não há nenhum que não cante a vez em que à terra torna
Beleza de Cabo Verde está na razão de cantar música não mata a sede mas se pudesse matar com água por melodia e por batuque irrigado
(do álbum Aos Amores, 1989)
(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)
2.8.09
[faria hoje 80 anos]
22.7.09
ADRIAN HENRI
ESTA NOITE AO MEIO-DIA (*)
(para Charles Mingus e os Clayton Squares)
Esta noite ao meio-dia Os supermercados anunciarão DESCONTO em tudo Esta noite ao meio-dia As crianças de famílias felizes serão mandadas para um asilo Os elefantes contarão uns aos outros anedotas humanas A América vai declarar paz à Rússia Generais da Grande Guerra venderão capacetes nas ruas no 11 de Novembro Os primeiros narcisos do Outono hão-de aparecer Quando as folhas caírem para as árvores
Esta noite ao meio-dia Os pombos vão caçar gatos pelos quintais Hitler dir-nos-á que lutemos nas costas e nas praias Um túnel será aberto sob Liverpul Serão avistados porcos voando em formação sobre Woolton e Nelson não só receberá o olho de volta mas também o braço Os Americanos brancos exigirão igualdade de direitos em frente da Casa Preta e o Monstro acaba de criar o Dr. Frankenstein
Moças em bikini estão a banhar-se na lua Canções populares estão sendo cantadas por autêntico povo As galerias de arte são interditas a maiores de 21 anos Os poetas vêem os seus poemas no Top 20. Os políticos são eleitos para manicómios Há empregos para todos e ninguém os quer Em ruelas escusas amantes adolescentes beijam-se à luz do dia Em campas esquecidas em toda a parte os mortos calmamente enterrarão os vivos e Tu dir-me-ás que me amas Esta noite ao meio-dia
* O título deste poema é tirado dum L. P. de Charles Mingus ‘Tonight at Noon’, Atlanta 1416. (Nota do Autor).
(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de Tonight at Noon, 1969; o tema no vídeo é do álbum referido em nota)
18.7.09
6.7.09
[para uma antologia de bicicletas – 16 e 17]
KATIE MELUA
HUGO MILHANAS MACHADO
KATIE MELUA
Nove milhões de bicicletas em Pequim muitas muitas bicicletas em Pequim e bom são afinal bicicletas ou todas as bicicletas e bem vendo aqui triste e aqui assim tão poucas bicicletas aquelas bicicletas nove milhões de bicicletas em Pequim e aqui arrumadas ao pé da letra aqui tão poucas bicicletas
se Katie Melua oh Katie Melua tantas bicicletas são nove milhões de bicicletas nove nove milhões de bicicletas em Pequim.
(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)
29.4.09
LUDWIG VAN BEETHOVEN
Piano Concerto No 2
(Berlin Philharmoniker, conduzida por Claudio Abbado; Solista: Mikhail Pletnev)*
Beethoven, concerto número dois para piano. Com um canivete corta-me devagar por dentro a parte da alma mais encostada à carne. O prazer que a Camões também doía e as palavras de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu- merar: como quem coloca cada som depois do outro e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me por dentro das próprias veias no meu corpo desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que existem e é delas que se extrai a revolta com que vou nascendo para ver-me de pé enquanto reaprendo a não esquecer que um dia finalmente tudo terá passado. E esta aventura de estar aqui hoje há-de perder-se no tempo que consome tudo e nos consome a nós no uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu corpo cada dia mais definitivamente à imagem da pequena morte que nos chega que toca os olhos na retina os ouvidos na membrana do tímpano e passa a circular no sangue com a embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo, Claudio Arrau pianista chileno vai pontuando o tactear da lâmina no meu corpo e eu sentado contemplo as cores dos objectos à minha volta e vou dando pelo espanto de assistir à passagem de mim mesmo pelo que me rodeia.
O CAMPEÃO DE ROLAND GARROS
Esta tarde sou eu o homem da raqueta mágica. A minha juventude resplandece no terreno central de Roland Garros. Ergo o braço vigoroso, olho fixamente o meu adversário ao fundo sobre a linha a saltitar. Lanço a bola ao ar e bato com força, vejo-a rasar a rede, quem poderia pará-la e devolver-ma perigosamente? O público aplaude e eu limpo o suor do rosto com a mão, tomo posição de novo e vou bater a bola com a mesma convicção. A minha perna esquerda suporta o peso do corpo, a mão direita segura na raqueta com energia e o braço corta o ar veloz enquanto o ruído seco da bola batendo na terra soa no silêncio como a música da perfeição. Mais quinze pontos. Dentro de pouco tempo tenho mais um jogo ganho. Para isso passei as manhãs em exercícios, me privei do álcool e do fumo, das distracções fugazes e inúteis. Se o olhar das raparigas não me escapa, nem os belos dentes brancos que elas têm, nem os seus braços nus, os seios redondos, a minha preocupação maior é respeitar o andamento deste concerto, responder ao meu adversário com o rigor dos gestos que surpreendem e causam admiração. Dói-me como o problema do desemprego nas sociedades modernas escravas do lucro e da vontade de produzir a bola mal batida que sai fora das linhas brancas deste jogo. Tem-me atormentado noites inteiras a devolução defeituosa que fiz de uma bola fácil que me enviara um jogador medíocre. Às vezes impede-me de comer a sensação que tenho de não poder colocar todas as bolas no interior do rectângulo. Mas o homem é um ser imperfeito apesar de todas as horas de aprendizagem, de todos os minutos passados a aperfeiçoar os gestos mais simples. Erros de cálculo, a bola que devia passar a rede e não passou, ou a que vai sair ligeiramente ao lado dos limites fixados. Esta tarde, porém, a sorte sorri-me. Ou antes: os meus gestos são de uma perfeição à medida da minha lucidez e energia. A consciência que eu tenho de dominar os elementos inebria-me e em cada corrida que dou crescem-me asas e aumenta a minha confiança nos limites e capacidades humanas. Estou contente comigo mesmo. Não sou vaidoso, estou apenas satisfeito com este rigor. O meu adversário é obrigado a deslocar-se de um canto do terreno para o outro a toda a velocidade. Às vezes, claro, não chega a tempo. Terá trabalhado tanto como eu, passado tantas horas a ensinar o corpo a obedecer-lhe, a não traí-lo? A atenção, a enorme concentração é que explicam em grande parte a minha precisão. Conheço também as manhas e manias das bolas que batidas vêm a rodar sobre si mesmas ao encontro da minha raqueta. O meu jogo de pernas, segundo os entendidos, assemelha-se ao de um jogador de golfe, ou de hóquei, ou de boxe. A mim parece-me que sobretudo é idêntico ao gesto do violinista que percorre a corda e cria o som de um rigor e intensidade que penetram em todas as fibras do espírito. A minha única vaidade é estar contente. Bem sei que à margem deste campo desportivo (com gente sentada nas bancadas a seguir atentamente o mais pequeno dos meus gestos) existem outras coisas. O desemprego dos jovens, a ameaça atómica, a vida absurda nas cidades modernas, porém, não me são desconhecidos. Sei também que a beleza é um pássaro excessivo ao lado da miséria e dos defeitos físicos. Ao ver-me agir, porém, e ignorando quanto da minha imperfeição se esconde na facilidade com que executo estes gestos rituais e calorosos, quantos não terão sentido por momentos que a força secreta que governa o nosso destino se podia finalmente libertar? Nunca discuto a decisão do árbitro, mesmo se o público assobia, mesmo se vi a bola cair dentro ou fora ao contrário do que ele diz: o jogo é humano e os homens erram, tenho muitas bolas e toda a tarde para provar o meu talento e a minha força. É altura de pôr em jogo bolas novas. Vejo-as brancas a saltitar na terra vermelha e tomo-lhe o peso, sinto na mão a aspereza nova dos seus pêlos. Ah, ser sempre jovem. Bato-as com força e o meu adversário do outro lado da rede não consegue resistir durante muito tempo à pressão que eu exerço. A dado momento acaba por enervar-se, pensa que vai surpreender-me, e lança a bola para lá do risco. Paço depressa quarenta pontos. O jogo está muito perto do fim. Admiro o jogador que me faz correr a mim e me obriga a ser inteligente, é ele o instrumento da minha glória e do meu contentamento. É ele, também, quem me impede de atingir enfim a perfeição divina. É por isso que não sorrio por fora, que nem sequer deixo o entusiasmo ganhar-me muito por dentro? Continuo sem perturbar-me a executar da maneira mais austera esta partição.
(de Na Pista Entre as Linhas, Gota de Água e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982 - Plural)
* Aparentemente, o Concerto No 2 é o único de Beethoven que não se encontra no YouTube interpretado por Claudio Arrau, o intérprete referido no poema.