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20.7.14



LEOPOLDO MARÍA PANERO


TRÊS HISTÓRIAS DA VIDA REAL

I. A CHEGADA DO IMPOSTOR FINGINDO SER LEOPOLDO MARÍA PANERO

Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos crus, alguém chamou da minha porta dizendo chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de convicção para desempenhar o papel, os seus abundantes silêncios, os seus equívocos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, a pouca graciosidade das suas graças, convenceram-me de que se tratava de um impostor. De imediato, fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, e na presença de todo o regimento, foram-lhes arrancados os galões, o fecho de correr, e deitado ao lixo o seu batom, para ser fuzilado logo de seguida. Assim acabou o homem que fingiu ser Leopoldo María Panero.

II. O HOMEM QUE ACREDITAVA SER LEOPOLDO MARÍA PANERO

Chovia e chovia sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Ali, o filho mais novo de De Kooning, levantou-se nervoso da cama, vestiu um roupão e foi para o quarto do seu pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto pelo filme Chávarri El Desencanto, não teve outra alternativa senão chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistiu no seu delírio, imaginava cenas de infância, ruas de Astorga, sinos, a pancada do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar ser Eduardo Haro, uma pequena variante da primeira figura. De imediato começou a coxear e a tossir e então afirmou ser Vicente Aleixandre. Enquanto isso, na casa do De Kooning, por entre o ruído de correntes, continuam a multiplicar-se as aparições.

III. O HOMEM QUE MATOU LEOPOLDO MARÍA PANERO (THE MAN WHO SHOT LEOPOLDO MARÍA PANERO)

O meu querido amigo Javier Barquín sempre irá acreditar que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas isso não é verdade. Ninguém nesse tempo tinha coragem para o fazer. O sujeito tinha aterrorizado a cidade inteira. Tinha raptado várias mulheres e ameaçara torturá-las. Por isso nessa tarde tomei a decisão, fui à espingardaria do Jim e comprei um revólver calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero tentava mais uma vez extorquir Javier Barquín, disparei de longe. Como Javier também tinha sacado de uma pequena pistola, supôs ter sido ele a fazer justiça. Toda a sua vida irá acreditar que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Mas não foi assim. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.


(tradução minha – original in Estaciones, 2 otoño-invierno, 1980-81 / reproduzido in Poesia Completa 1970-2000, edic. de Túa Blesa, Visor Libros, 2004)

14.7.14

ELOY SÁNCHEZ ROSILLO


O ABISMO

Há neste ir deixando que se passe
a vida sem dar fruto, nesta voluntária
renúncia de fazer em que tantas vezes
me mantenho e que não tem, no meu caso,
nenhuma relação com a preguiça,
nem com o ermo cepticismo, nem
com essa aridez do coração que a muitos,
na minha idade, para sempre nega a palavra,
há nesta abstenção deliberada, porventura,
não sei, como que um bizarro amor ao perigo,
como que um obscuro afã irreprimível
de tentar a sorte seguindo pela berma
de um abismo espantoso. Certas vezes, passam
largos meses inteiros em que nada escrevo,
em que me oponho inexplicavelmente
a cumprir o dever que justifica
o meu existir. E digo-me: «Já há muitos anos
que deixei de ser jovem; vai-se encurtando o tempo
de que talvez disponha para levar a cabo
o labor ainda pendente: os poemas
que porfiam e aspiram ao ar e à luz
e que sem forma habitam nas sombras
do meu silêncio. Não há maior tristeza
do que a daquele que querendo ascender
não cresce nem se transforma em flor, em vida
que se afirma e que canta». No entanto, persisto
na inactividade, olhando, absorto,
cheio de culpa e de desassossego,
o fundo do abismo: o nada que desmente
as minhas velhas ilusões, a fé que me susteve,
a minha vontade de ser diante da morte.


(tradução minha - original de La Vida, Tusquets Editores, 1996)

16.12.13

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


AQUELA FLOR

Viste que nada era duradouro
desde muito menino. Que uma flor
se abre se arroga de aroma e brilha
e cai depois no jardim.
E ainda que outras flores logo apareçam
- muito semelhantes - nenhuma delas
será a flor que despertou
os teus sentidos: aquela flor.
Pessoas meses chuvas e ânsias
se escaparam de ti em bicos de pés
para não te magoarem. Mas tu
aprendeste com a flor única
o amor ao que perece
e a ferida do que já morreu.



(tradução minha; original de Como los trenes de la noche, 1994)

16.11.13

ROGER WOLFE


DE CERTEZA QUE A ELIOT NÃO ACONTECIAM COISAS DESTAS

Fumando um cigarro.
Lendo um livro que comecei
há seis meses. Esperando
que alguém telefone.
A vida esta tarde torna-se-me
tão monótona, tão insuportável
como três gerúndios no início
de um poema.


(tradução minha / original de Hablando de pintura con un ciego, 1993)

14.10.13

BEN CLARK




(chanson)

Há sacos do lixo com asas e sem asas.
Há sacos do lixo com perfume
e outros feitos de fécula
de batata (rompem-se num instante).
Há sacos de cozinha e outros sacos
para um contentor comunitário.
Há sacos de design que parecem aquários
mas estes também são apenas lixo.


(tradução minha - original de Basura, Editorial Delirio, 2011)

6.10.11

TOMAS TRANSTRÖMER


UM HOMEM DO BENIM

(sobre uma foto de um baixo-relevo em bronze do século XVI do reino negro do Benim, mostrando um Judeu Português)

Quando a escuridão caiu eu estava tranquilo
mas a minha sombra esmagada
contra a pele do tambor do desespero.
Quando as batidas começaram a morrer ao longe
eu vi a imagem de uma imagem
de um homem chegando apressado
à página da futilidade
que permanecia aberta.
Como se caminhasse diante de uma casa
abandonada há muito tempo
e alguém aparecesse à janela.
Um estranho. Ele era o navegador.
Ele parecia atento.
Aproximou-se sem caminhar.
Com um chapéu que se moldou
para imitar o nosso hemisfério
com uma aba no equador.
O cabelo dividido em duas partes.
A barba pendendo ondulada
como a retórica na sua boca.
Agarrou o braço direito dobrado.
Era magro como uma criança.
O falcão, que outrora permanecera
no seu braço, cresceu
nas feições do seu rosto.
Ele era o embaixador.
Interrompido a meio de um discurso
que continuou no silêncio
com um vigor ainda maior.
Três tribos estavam silenciosas nele.
Ele era a imagem de três pessoas.
Um judeu de Portugal,
que navegou com os outros,
à deriva e a fazer tempo,
o revirado bando
na caravela que foi
a mãe dos seus baloiços de madeira.
Desembarcou numa estranha fragrância
que tornou o ar velado.
Observado no mercado
pelo conjurador negro.
Por muito tempo na quarentena dos seus olhos.
Renascido na corrida ao metal:
«Vim para conhecer
aquele que eleva a sua lâmpada
para se ver em mim.»

(tradução minha, a partir da tradução de Robert Bly, in Micromegas – Vol IV, No. 1 [s. d.])

18.1.11

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


y hoy
te consume
el tédio

Como una nube turbia corrompiéndose
en lentas gotas de barro o de melancolia
como una lluvia antigua
que empapa hasta a los muertos más mezquinos
así el tédio resbala por los muros
forma charcos groseros en las calles
penetra en las iglesias y en los cines
y se filtra en las casas con su olor a desastre.
Un aire de fastidio y de humedad entonces
se apodera de gestos y palabras
se cuelga de los trajes
preside los encuentros de família
viaja en los sucios autobuses
y envuelve la tristísima cíudad desconfiada.
Ah testigo implacable de las horas vacías
aburrimiento enorme que no ocultan
ni la música ambígua de las salas de fiesta
ni el clamor dei estádio
ni el tintineo y charla de las mesas de bar.
Y en médio de una edad de hastío y podredumbre
de espera y rabia oculta
tan solo algunos ninos se divierten
jugando a destruirse por buhardillas de sueno
mientras que afuera sigue
esa lluvia cayendo desconsoladamente
sobre la piel de un mundo en bancarrota.


(de Taller de Arquitectura, 1977)


e hoje
consome-te

o tédio


Como uma nuvem turva a corromper-se
em lentas gotas de barro ou de melancolia
como uma chuva antiga
que ensopa até os mortos mais mesquinhos
assim o tédio escorre pelos muros
forma charcos grosseiros nas ruas
penetra nas igrejas e nos cinemas
e se infiltra nas casas com seu odor a desastre.
Um sopro de náusea e de humidade então
apodera-se de gestos e palavras
suspende-se das roupas
preside aos encontros de família
viaja nos autocarros sujos
e envolve a tristíssima cidade desconfiada.
Ah testemunho implacável das horas vazias
enfado enorme que não é ocultado
nem pela música ambígua dos salões de festas
nem pelo clamor do estádio
nem pelo tilintar e conversa das mesas dos bares.
E a meio de uma idade de fastio e podridão
de espera e raiva oculta
apenas algumas crianças se divertem
brincando a destruir-se em recantos de sonho
enquanto lá fora continua
aquela chuva que cai desconsoladamente
sobre a pele de um mundo em bancarrota.


(tradução minha)

25.9.10

ANTONIO BENEYTO


6

Existe algo naquele homem. Parece que não deseja ver-me e transforma-se numa mesa. Sabe que escrevo sobre uma coisa plana e quer que o faça sobre ele. E não sabe ou não compreende que escrevo a carta a Genoveva no local onde me encontro: por vezes, em cima de uma flor; ou sobre o ramo de uma árvore, fazendo equilíbrio. Que formosura. Quando o outro homem, o que está vestido de azul, me chamar já serei muito velho. Por onde ou com quem estiver nesse preciso momento. Faz tempo que não rezo e o Natal está aí, nas patas da mesa. Penso que rezar é caminhar pela vida; movendo o corpo e fazendo com que o teu sapato se desgaste de imediato. E também a mesa onde se escreve e que as unhas da alma já não cresçam, e que ninguém, absolutamente ninguém, te recorde. E ver a regra, e a carteira cheia de envelopes, e de papéis, e pisa-papéis, e Pisamorena*, e papéis escritos, e use esta papeleira, e pegadas desconhecidas. Existe tanto silêncio quando se quer rezar, quando se quer fazer o amor à fêmea que brutalmente, desconcertadamente, se abre e se fecha como o camião do lixo. Ela coseu-me com beijos depois de me coser o forro do casaco. Agora descanso.



* Bar em Barcelona onde se dança Flamenco.

(tradução minha - original de Textos para leer dentro de un espejo morado, 1975)

22.4.06

[outros melros XXXIV - creio ser a este poema que se refere Mário de Carvalho no texto antes aqui publicado]

JEAN-BAPTISTE CLÉMENT

Le temps des cerises


Quand nous chanterons le temps des cerises,
Et gai rossignol, et merle moqueur
Seront tous en fête.
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au coeur...
Quand nous chanterons le temps des cerises,
Sifflera bien mieux le merle moqueur

Mais il est bien court, le temps des cerises,
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreille !
Cerises d'amour aux robes pareilles,
Tombant sur la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises,
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant!

Quand vous en serez au temps des cerises,
Si vous avez peur des chagrins d'amour,
Evitez les belles.
Moi qui ne crains pas les peines cruelles,
Je ne vivrai point sans souffrir un jour...
Quand vous en serez au temps des cerises,
Vous aurez aussi vos peines d'amour.

J'aimerai toujours le temps des cerises :
C'est de ce temps là que je garde au coeur
Une plaie ouverte.
Et dame Fortune, en m'étant offerte,
Ne pourra jamais fermer ma douleur...
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au coeur.


O tempo das cerejas

Quando cantarmos no tempo das cerejas,
E o feliz rouxinol mais o melro gozão
Andarem em festa.
As formosas terão tolice na testa
E os namorados sol no coração...
Quando cantarmos no tempo das cerejas,
Assobiará melhor o melro gozão

Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Quando os namorados colhem, a sonhar,
Brincos de princesa!
Cerejas de amor de igual beleza,
Caem sobre as folhas, qual sangue a pingar.
Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Brincos de coral colhidos a sonhar!

Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Se tiverdes medo das coitas d'amor,
Evitai formosas.
Mas eu que não temo penas dolorosas,
Não hei de perder um só dia de dor...
Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Haveis de ter também vossas coitas d'amor.

Sempre adorarei o tempo das cerejas:
Guardo desse tempo no meu coração
Uma chaga aberta.
E mesmo a Fortuna, posta como oferta,
Jamais poderá tirar-me esta aflição...
Sempre adorarei o tempo das cerejas
E esta memória no meu coração.

(tradução minha)
MIGUEL DE UNAMUNO

VII


Cerré el libro que hablaba
de esencias, de existencias, de sustancias,
de accidentes y modos,
de causas y efectos,
de materia y de forma,
de conceptos e ideas,
de nóumeros, fenómenos,
cosas en sí y en otras, opiniones,
hipótesis, teorías...
Cerré el libro y abrióse
a mis ojos el mundo.
Transpuesto había el sol ya la colina;
en el cielo esmaltábanse los álamos
y nacían entre ellos las estrellas;
la luna enjalmaba el firmamento,
cuyo fulgor difuso
en las aguas del río se bañaba.
Y mirando a la luna, a la colina,
las estrellas, los álamos,
el río y el fulgor del firmamento
sentí la gran mentira
de esencias, de existencias, de sustancias,
de accidentes y modos,
de causas y de efectos,
de materia y de forma,
de conceptos e ideas,
de nóumenos, fenómenos,
cosas en sí y en otras, opiniones,
hipótesis, teorías;
esto es, palabras.

Sobre el libro cerrado
que yacía en la hierba
por la luna su pasta iluminada,
mas su interior a oscuras,
descansaba una rana
que iba rondando su nocturna ronda.
¡Oh, Kant, cuánto te admiro!

(de Rimas de dentro, 1923)


VII

Fechei o livro que falava
de essências, de existências, de substâncias
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias...
Fechei o livro e abriu-se
a meus olhos o mundo.
Transposto tinha o sol já a colina;
no céu esmaltavam-se os álamos
e nasciam entre eles as estrelas;
a lua branqueava o firmamento,
cujo fulgor difuso
nas águas do rio se banhava.
E observando a lua, a colina,
as estrelas, os álamos,
o rio e o fulgor do firmamento
senti a grande mentira
de essências, de existências, de substâncias,
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias;
isto é: palavras.

Sobre o livro fechado
que jazia sobre a erva
pela lua a sua capa iluminada,
mas seu interior às escuras,
descansava uma rã
que ia rondando na sua nocturna ronda.
Oh, Kant, quanto te admiro!

(tradução minha)

19.8.05

LEOPOLDO MARÍA PANERO

A CANÇÃO DO CROUPIER DO MISSISSIPI


«Fifteen men on the Dead Man's Chest.
Yahoo! And a bottle of rum!»
Canção Pirata


Fumo muito. Demasiado
Fumo para friccionar o tempo e por vezes oiço rádio
e oiço passar a vida como quem muda de estação.
Fumo muito. No cinzeiro há
ideias e poemas e vozes
de amigos que não tenho. E tenho
a boca cheia de sangue,
e sangue que sai das fendas do meu crânio
e toda a minha alma sabe a sangue,
sangue fresco não sei se de porco ou de homem que sou,
em toda a minha alma retalhada por mulheres e crianças
que se movem ingénuos, torpes, por
esta vida que eu já sei.
Apalpo-me no peito prontamente, nervoso,
e não sinto o coração. Não há,
não existe em ninguém essa coisa a que chamam coração
senão talvez no álcool, nesse
sangue que eu bebo e que é o sangue de Cristo,
o único sangue neste mundo que não existe
que é como o Mal programado, ou
como fábrica de vida ou um alfaiate
que não esqueceu quem é e segue vivendo, ou
porventura o relógio e as horas passam.
Apalpo-me, nervoso, os olhos e os pés e o dedo grande
da mão que coloco no olho, e estou sujo
e a minha vida vai fedendo.
E sonho que vivi e que me chamo qualquer coisa
e que esta história está certa, este absurdo
que denunciam os meus olhos,
este delírio em Vera Cruz, e que este
país está certo, este lugar parecido com o Inferno,
a que chamam Espanha, ouvi
aos mortos que o Inferno
é melhor que isto e mais bem parecido.
Digo a mim mesmo que sou Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
digo a mim mesmo que estar bêbado é não o estar
toda a vida, é
estar bêbado de vida e não de morte,
é um sangue distinto desse outro
espesso que se gruda pelos telhados e pelas paredes
e pelos buracos da vida.
E acontece que não há outra comunhão
nem outro espasmo senão este do vinho
e nenhum outro sexo nem mulher
senão o jarro de álcool beijando-me nos lábios
senão este jarro de álcool que levo no
cérebro, nos pés, no sangue.
Senão este jarro de vinho obscuro ou branco,
de genebra ou de rum ou do que seja
-genebra e cerveja, por exemplo-
Que é como a infância, e não é
Fuga, nem evasão, nem sonho
Mas a única vida real e tudo o que é possível
e agarro de novo o copo como o pescoço da vida e conto
a um qualquer ser que é provável que esteja
por aí a vida dos deuses
e nuns dias sou Caim, e noutros
um jogador de póquer que bebe whisky perfeitamente e noutros
um caçador de dotes que noutro lugar fui
mas no meu é como em «O doce pássaro da juventude»
um caçador de dotes formoso e alcoólico, e noutros dias,
um assassino tímido e psicótico, e noutros
alguém que morreu sabe-se lá há quanto tempo,
ou em que cidade, ou entre marinheiros ébrios. Alguns me
ocorrem, dizem
com o copo na mão, falando muito,
falando para poderem existir que
não há nada melhor que dizer
a si mesmo uma proposição de Wittgenstein enquanto sobe
a maré do vinho no sangue e na alma.
Ou então alguém nas galerias do espelho
procurando a sua Noiva. E doutras vezes
sou Abel que tem um plano perfeito
para resgatar a vida e restaurar os homens
e também por vezes choro por não ser um escravo
negro no sul, chorando
por entre as plantações!
É tão bela a ruína, tão profunda
conheço todas as suas cores e é
como uma sinfonia a música da conclusão.
Como música que tocam no mais além,
e já não tenho sangue nas veias, mas álcool,
tenho sangue nos olhos de bêbado
e a alma invadida por sangue como quando se vomita,
e vomito a alma pelas manhãs,
depois de passar toda a noite a jurar
diante de uma boneca de borracha que Deus existe.
Escrever em Espanha não é chorar, é beber,
é beber a raiva de quem não se resigna
a morrer pelas esquinas, é beber e mal-
dizer, blasfemar contra Espanha
contra este país sem deuses mas com
estátuas de deuses, é
beber na igreja com música de órgão
é cair de bêbado nos recitais e manchar de vinho
tinto e sangue Le livre dês masques de Remy de Gourmont
tombar húmido babando-se e tonto e
derrubar-se como uma árvore perante os farolins
deste arraial cultural. Escrever em Espanha é manter
até ao limite no sangue este álcool de loucura que já
não justifica nada nem ninguém, nenhuma sombra
das que ali havia ao início.
E dizer ao morrer, quando tiver
já na boca e na cabeça a baba do suicídio
gritá-lo às sombras, a todas as que houver e fantasmas
neste paraíso para espectros
e também aos cervos que vi no bosque,
e aos pássaros e aos lobos na rua e
vigiando nas esquinas
«Fifteen men on the Dead Man's Chest.
Fifteen men on the Dead Man's Chest.
Yahoo! And a bottle of rum!»

(tradução minha - original de Last river together, 1980)

1.8.05

ÁNGEL CRESPO

COMO LOS INOCENTES ANIMALES


Como los inocentes animales

no comprenden el fuego

y, espantados, se alejan de sus lenguas,

que son luz e consumen

-de igual modo temblamos

ante el brillo interior de las palabras,

hijos, al fin y al cabo, del silencio

que procura envolvernos entre redes

para recuperar su eternidad.


Como los animales:

mas de dentro del fuego nos contempla

la salamandra ambigua

que habita el interior de las palabras.


(de Donde no corre el aire, 1981)


TAL COMO OS INOCENTES ANIMAIS

Tal como os inocentes animais
não compreendem o fogo
e, espantados, se afastam das suas línguas,
que são luz e consomem
-do mesmo modo trememos
perante o brilho interior das palavras,
filhos, ao fim e ao cabo, do silêncio
que nos procura envolver nas redes
para recuperar a sua eternidade.

Tal como os animais:
mas de dentro do fogo contempla-nos
a salamandra ambígua
que habita o interior das palavras.

(tradução minha)

3.6.05

RAIMOND CARVER

Bobber

On the Columbia River near Vantage,
Washington, we fished for whitefish
in the winter months; my dad, Swede-
Mr. Lindgren-and me. They used belly-reels,
pencil-length sinkers, red, yellow, or brown
flies baited with maggots.
They wanted distance and went clear out there
to the edge of the riffle.
I fished near shore with a quill bobber and a cane pole.

My dad kept his maggots alive and warm
under his lower lip. Mr. Lindgren didn't drink.
I liked him better than my dad for a time.
He lets me steer his car, teased me
about my name "Junior", and said
one day I'd grow into a fine man, remember
all this, and fish with my own son.
But my dad was right. I mean
he kept silent and looked into the river,
worked his tongue, like a thought, behind the bait.

Bóia de Pesca

No rio Columbia ao pé de Vantage,
Washington, íamos à pesca do salmão branco
nos meses de inverno; o meu pai, Swede-
o Sr. Lindgren-e eu. Eles usavam carretos,
longas chumbadas, moscas vermelhas, amarelas
ou castanhas, com engodo de larvas.
Eles queriam distância e saíam dali
para junto dos rápidos.
Eu pescava na margem com bóia de ouriço e uma cana.

O meu pai mantinha as larvas vivas e quentes
debaixo do lábio inferior. O Sr. Lindgren não bebia.
Por uns tempos, gostei mais dele do que do meu pai.
Deixou-me dirigir o seu carro, implicava
com o meu nome "Junior", e dizia
que eu havia de me tornar num tipo decente, lembrar
tudo isto e pescar com o meu filho.
Mas o meu pai tinha razão. Refiro-me
a ele manter silêncio e olhar o rio
movendo a língua, como uma ideia, por trás do isco.

(tradução minha)

23.4.05

LEOPOLDO MARÍA PANERO

IX
LECTURA


Yo no hablo del sol, sino de la luna
que ilumina eternamente este poema
en donde una manada de niños corre perseguida por los lobos
y el verso entona un himno al pus
Oh, amor impuro! Amor de las sílabas y de las letras
que destruyen el mundo, que lo alivian
de ser cierto, de estar ahí para nada,
como un arroyo
que no refleja mi imagen,
espejo del vampiro
de aquel que, desde la página
va a chupar tu sangre, lector
y convertirla en lágrimas y en nada:
y a hacerte comulgar con el acero.

(de Piedra Negra o del Temblar, 1992)


IX
LEITURA

Eu não falo do sol, apenas da lua
que ilumina eternamente este poema
por onde uma manada de crianças corre perseguida pelos lobos
e o verso entoa um hino ao pus.
Ó amor impuro! Amor às sílabas e às letras
que destroem o mundo, que o aliviam
de ser correcto, de estar aí para nada,
como um ribeiro
que não me reflecte a imagem,
espelho do vampiro
daquele que, através da página
te vai chupar o sangue, leitor
e convertê-lo em lágrima e em nada:
e te vai fazer comungar com o aço.

(tradução minha)

3.2.05

CÉSAR ANTONIO MOLINA

Derrelictos


Entré en el bosque no demasiado tarde
como el tordo que penetró en el jardín de William C. W.
Y recordé que el olor del silencio era tan viejo?
Me oía cerrar los ojos, abrirlos de nuevo.
Y la extensión grávida y el profundo oleaje
y el océano del trigo y las piñas colmadas como bóvedas.
La estrella de mar taló su excrescencia,
cómo temblaron los juncos al borde de un agua dormida.
El bosque tenía orejas, el prado ojos,
y todo se disolvía en la áspera divinidad de la peña silvestre.
Conociendo mi propia cantidad me deslicé,
tan sólo era un único elemento inútil al faro de la noche.

(de Gobierno de un Jardín, Menú - Cuadernos de Poesía, 1986)


Desamparados

Entrei no bosque não demasiado tarde
como o tordo que entrou no jardim de William C. W.
E lembrei-me que o aroma do silêncio era tão velho...
Ouvia-me a fechar os olhos, a abri-los de novo.
E a extensão grávida e o profundo marulho
e o oceano do trigo e as pinhas dispostas como abóbadas.
A estrela de mar destruiu a sua excrescência,
tal como os juncos tremeram à beira de uma água adormecida.
O bosque tinha orelhas, o prado olhos,
e tudo se dissolvia na áspera divindade da fraga silvestre.
Conhecendo a minha própria porção, resvalei,
pois era apenas um elemento isolado, inútil ao farol da noite.

(tradução minha)

26.8.04

LEOPOLDO MARÍA PANERO

CORRECCIÓN DE YEATS

(Extraída del poema "Prayer for old age")

Dios me proteja de pensar como esos
hombres que piensan solos y
viven por ello de olvidar lo
que pensaron -porque
la mente no está sóla y
Aquel
que canta la canción perdurable
demasiado la siente, demasiado.

Dios me proteja con más que su nombre,
Dios me proteja de ser un anciano
al que todos adulan y llamen
por el vacío de su nombre; oh, qué soy,
¿quién, si no puedo más,
que
parecer -por amor de cantar
entera la canción- siempre un loco?

Rezo -pues las palabras vacías se marcharon
sin ser oídas y sólo la plegaria queda
en pie- para que aun cuando tarde mucho
en morir y en escribir mi nombre
al fin sobre la lápida puedan
un día decir sobre ese frío
que no estuve loco.


(de Narciso en el acorde último de las flautas, 1979)


CORRECÇÃO DE YEATS
(Extraída do poema "Prayer for old age")

Deus me proteja de pensar como esses
homens que pensam sozinhos e
vivem por essa coisa de esquecer o
que pensaram -porque
a mente não está sozinha e
Aquele
que canta a canção duradoura
demasiado a sente, demasiado.

Deus me proteja com mais que o seu nome,
Deus me proteja de ser um velho
a quem todos bajulem e chamem
pelo vazio do seu nome; oh, o que sou,
- quem, se não posso mais,
que
parecer -por amor de cantar
inteira a canção- sempre um louco? -

Rezo -pois as palavras vazias se foram
sem serem ouvidas e apenas a oração fica
levantada- para que mesmo que demore muito
a morrer e a escrever o meu nome
por fim sobre a lápide possam
um dia dizer sobre esse frio
que não estive louco.

(tradução minha)
W. B. YEATS

A Prayer for Old Age


God guard me from those thoughts men think
In the mind alone;
He that sings a lasting song
Thinks in a marrowbone;

From all that makes a wise old man
That can be praised of all;
O what am I that I should not seem
For the song's sake a fool?

I pray - for fashion's word is out
And prayer comes round again -
That I may seem, though I die old,
A foolish, passionate man.


(de A Full Moon in March, 1935)


Uma Oração à Velhice

Deus me guarde daqueles pensamentos que os homens têm
Sozinhos no seu pensar;
Aquele que canta uma canção duradoura
Pensa num osso suculento;

De tudo o que torna sábio um velho
Isso pode ser o mais louvável;
Oh que sou eu que não devia parecer
Para que a canção crie um tonto?

Eu rezo - pois a vã palavra foi-se
E a oração volta a surgir -
Para que possa parecer, ainda que morra velho,
Um homem tonto e apaixonado.

(tradução minha)

31.1.04

E. E. CUMMINGS

41

up into the silence the green
silence with a white earth in it

you will(kiss me)go

out into the morning the young
morning with warm world in it

(kiss me)you will go

on into the sunlight the fine
sunlight with a firm day in it

you will go(kiss me

down into your memory and
a memory and memory

i)kiss me(will go)


(de 50 Poems, 1940)


41

subir ao silêncio o verde
silêncio com uma terra branca

tu(beija-me)vais

sair pela manhã a jovem
manhã com o quente mundo nela

(beija-me)tu vais

entrar na luz do sol a bela
luz do sol com um firme dia nela

tu vais(beija-me

descendo à tua memória e
uma memória e memória

eu)beija-me(irei)

(tradução minha)

2.11.03

[outros melros IX]

ANÓNIMO
(este poema foi escrito por um monge na margem de um livro que estava a copiar, provavelmente no século VII)

The blackbird

Ah, blackbird, thou art satisfied
Where thy nest is in the bush:
Hermit that clinkest no bell,
Sweet, soft, peaceful is thy note.

(in Irish Verse - An Anthology, edited by Bob Blaisdell, Dover Thrift Editions, New York, 2002 - translated [from the Irish] by Kuno Meyer)


O melro

Oh negro melro, como estás satisfeito
No lugar do ninho teu no arbusto:
Ermita que não tocou a sineta,
Doce, suave, pacífica a tua nota.

(tradução minha)

27.9.03

LEONARD COHEN

Nasceu em Montreal, Canadá, em 1934.
Poeta, cantor, romancista, compositor, actor eventual.


PERGUNTO-ME QUANTA GENTE NESTA CIDADE

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

(de Filhos da Neve - Antologia Poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, Assírio e Alvim, 2ª ed: 1997 - colecção Rei Lagarto)


The Genius

For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town

For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid

For you
I will be an banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line

For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter

For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans
for foreskins
to sew back again

For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
and bloated pain
no mind can understand

(in 15 Canadian Poets X 2, edited by Gary Geddes, Oxford University Press Canada, 1988)

O Génio

Para ti
eu serei o judeu do gueto
e dançarei
e hei de pôr meias brancas
nos meus membros trémulos
e poços envenenados
por toda a cidade

Para ti
eu serei o judeu apóstata
e contarei ao padre espanhol
o pacto de sangue
que vem no Talmude
e o local onde estão os ossos
escondidos da criança

Para ti
eu serei o judeu banqueiro
e trarei à ruína
um ilustre rei desejado
e darei cabo da sua descendência

Para ti
eu serei o judeu da Broadway
e chorarei nos teatros
pela minha mãe
e irei vender bugigangas
abaixo do preço

Para ti
eu serei o judeu médico
e irei à procura,
por todos os caixotes do lixo,
de prepúcios
para os coser outra vez

Para ti
eu serei o judeu de Dachau
e cairei no lodo
com os membros trémulos
e uma dor inchada
que nenhuma razão compreende

(tradução minha)