31.8.03

[gosto muito de inventários X]

ALBERTO PIMENTA

Gostos


1
...........................................................

2
sobras do rancho

3
caldo e toucinho

4
caldo de couves
chouriço com ovos

5
sopa de batata
carne guisada com batatas
vinho tinto

6
sopa de tomate
escalopes
macarrão
fruta
vinho branco

7
sopa primavera
pescada cozida
bife com ovo a cavalo
batatas fritas
esparregado
pudim
vinho branco, vinho tinto
café

8
sopa jeanette
linguado grelhado
tomates ricadona
frango na pucarinha
batatas estufadas
arroz crioulo
azeitonas receadas à moda da dona ema
queijo da serra
fruta
vinhos da região
café. brandy

9
cassolettes robert
anjos a cavalo
croquetes de marisco
salada astória
ganso do périgord
batatas saint fleur
queijos
perfeito de framboesa
montrachet branco. nuits-saint-georges les porets
café
conhaque

10
œufs à la coque truffés
anguilles d’arleux à la maître
civet de langouste au vin de banyuls
chevreau à l’ail vert
haricots à la vigneronne
salade angevine
fromages
navettes aux amandes
petit chablis. chambolle-musigny les amoureuses
les charmes
café
cognac
licores

11
consommé royal
homard à la bordelaise
truffes en cocotte selon colette
œufs pochés au champagne
râble de lièvre à la pirou
fenouil au vin rouge
riz condé
châtaignes limousines
fromages
parfait de chocolat
pomme maria stuart
riesling d’alsace. cheilly-les-maranges. givry.
merleau-ponty
café
liqueurs
cognac

(de Ascensão de Dez Gostos à Boca, 1977 - reproduzido em Obra Quase Incompleta, Fenda, 1990)
[gosto muito de inventários IX]

[inevitavelmente]
ALEXANDRE O'NEILL

Inventário


Uma palavra que se tornou perigosa
Um marinheiro dum país «amigo»
Uma pobre mulher tuberculosa
E a mulher orgulhosa que persigo

A velhinha que passa no buíque
Um incêndio prestes a romper
E as ruas as ruas onde vi
O que ainda não sei ver

Uma praia elegante um estendal
De belos corpos indolentes
E as últimas mentiras dum jornal
A propósito de factos recentes

Um senhor absolutamente sério
Um doutor que esteve por um triz
P'ra fazer parte dum novo ministério
E um velho muito velho que nos diz


Avesso à multidão aos seus gritos de louca
Tenho contudo um grande amor ao Homem
Mas cuidado Uma ideia não vive sem o pão da boca
Por aquilo que não sou não quero que me tomem

Outro senhor absolutamente honesto
Ainda a velhinha do buíque
E o velho muito velho diz o resto
Diz o resto e é para que fique


Meu lema é conhecido minha voz muito menos
Mas o que digo chega ao vosso coração
Por caminhos discretos preciosos serenos
Como um selo raro a uma colecção

(E num silêncio que toda a gente ouvia
Só a mosca deu sinal de si
Dizendo com graça e ironia

Ó Cesário Verde como eu queria
Que estivesses aqui!)

(de No Reino da Dinamarca, 1958)
[gosto muito de inventários VIII]

Vejam a fantástica PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO que umblogsobrekleist está a fazer.
(com as entradas de 5ª feira e de ontem, já conta com 20 itens e promete ir até ao 100)
[gosto muito de inventários VII]

ANTÓNIO SERRÃO DE CRASTO (1613?-1685?)

(...)
Nasceu o menino como um leicenço, cresceu como uma erva má e teve tantas partes como as maleitas; porque o seu rosto era de sapata, o cabelo de estriga de linho, a cabeça de Monte-achique, os cascos de cebola, a testa de pão, as orelhas de abade, as sobrancelhas um arco de pipa, outro de ponte, as pestanas de vestido, um olho de couve, outro de alface, o nariz de lambique, as bochechas de odre, a boca de forno, os beiços de alguidar, os dentes de serra, a língua de trapos, os bigodes de Herodes, as barbas de pincel, o pescoço de grou, o peito de armas, a barriga de bichos, as costas de canastra, os braços de mar, uma mão de graal e outra de almofariz, as pernas de noz, as canelas de tecelão, um pé de cravo, outro de cantiga; e, porque não fique parte por descrever, tinha, para vossa mercê saber, cu de inglês, membro de justiça, túbaras da terra e tudo isto cobria com a pele de todos os diabos.
A estas partes de demandas que tinha do carnaz para fora se ajuntavam muitas adquiridas de portas adentro; porque sabia como gaita, falava como gralha, tangia um burro, cantava como um grilo, bailava como uma carapeta, era corrente como água em charco; tanto que chegou a ser homem de ganhar, vestiu-se com toda a bizarria: chapéu de sol, véu de freira, volta de dança, cabeção de sisa, camisa de muralha, ceroulas de horta, gibão de açoites, calças de frango, vaqueiro de gado com botões de fogo, mangas de arcabuzeria, com bocais de poço, punhos de espada, uma liga de dinheiro, outra de solda, com pontas de lança, uma meia anata, outra meia irmã, um sapato a bica do sapato, outro gato-sapato, capote de centos, espada de baralhas de cartas com maçã de cipreste, punho seco, cabos de sapateiro, folha de couve, bainha de entre ambas as faces, conteira a mulher de um conteiro, e todo o vestido tinha guarnição de soldados e era cosido com agulha de marear e linhas do exército.
(...)

(de Novela Disparatória do Gigante Sonhado, publicado como apêndice a Os Ratos da Inquisição, do mesmo Autor, pela editora Contexto em 1981, com actualização ortográfica e notas de Manuel João Gomes / 1ª ed: oficina de Pedro Ferreira, 1745)
[gosto muito de inventários VI]

JORGE DE SENA

Ode ao surrealismo por conta alheia


Que levas ao colo,
Embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile pespontado e verde com que limpas o suor, o sémen, as fezes, tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injectas, convoscas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.

Temes a polícia, o tapete, o capacho, o telefone, as campainhas de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando em por de baixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos, satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, as capelistas, a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?

Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?

(oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)

(de Pedra Filosofal, 1950)
[gosto muito de inventários V]

RUI MANUEL AMARAL

Inventário

Duas esculturas em pedra de mestre mateo (séc. xiii)
dois zurbaran, um luis de morales,
um elegante e suave cristo muerto sostenido por um ángel,
o inquietante retrato de juan rizi,
la dolorosa de murillo, um valdés leal,
outro carreño, um claudio coello,
os retratos de felipe iv e do conde de benavente,
ambos de velazquez.
A raiva e a sua fonte mais apaixonada,
o amor.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, obra incluída em Com faca e garfo - colectânea de textos Jovens Criadores 2001, co-edição: Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)
[gosto muito de inventários IV]

AUTUAÇÕES RESPEITANTES AO POLICIAMENTO URBANO

todos os CD


Da fiscalização urbana efectuada, resultaram as seguintes autuações:

- Alaridos..........56
- Estabelecimentos sem licença..........41
- Falta de boletim de sanidade..........39
- Falta de registo, vacina e açamo nos cães..........48
- Jogar a bola na via pública..........28
- Jogos não autorizados..........6
- Lançar água suja e lixo para a via pública..........8
- Ofensas à dignidade moral das pessoas..........1
- Pejamento na via pública..........51
- Reuniões ilegais..........4
- Sacudir tapetes para a via pública..........3
- Urinar na via pública..........8
- Vendedores ambulantes..........191
- Diversas..........115
TOTAL..........................................................................599

(de um Relatório enviado pelo Comando-Geral da Polícia de Segurança Pública ao Director-Geral de Segurança em 24 de Abril de 1974, EDIÇÕES AFRODITE, Maio de 1974)
[gosto muito de inventários III]

MÁRIO CLÁUDIO

Eis senhores do que se precisa para continuar a farsa: 1 gaiola 1 túmulo 1 boca do Inferno: 1 túmulo de Guido 1 túmulo de Dido 1 armação de cama: 8 lanças 1 par de escadas para Faetonte: 2 campanários & 1 carrilhão & 1 farol: 1 vitelo para a peça de Faetonte: 1 globo & 1 ceptro doirado: 3 maçãs 2 maçapães & a Cidade de Roma: 1 velo de oiro 2 raquetes 1 loureiro: 1 machadinha de madeira 1 machadinha de couro: 1 dossel de madeira a cabeça do velho Maomé: 1 pele de leão 1 pele de urso: & os membros de Faetonte & o carro de Faetonte & a cabeça de Argos o tridente & a grinalda de Neptuno: 1 bordão a perna de pau de Kent a cabeça de Íris & o arco-íris: 1 altarzinho & 2 feiticeiros a regra de Tamberlão: 1 alvião de madeira o arco e a aljava de Cupido: o tecido do Sol e da Lua: 1 cabeça de javali & as 3 cabeças de Cérebro: 1 caduceu 2 margens de musgo & 1 cobra: 2 leques de penas o estábulo de Bellendon 1 árvore de maçãs de oiro 1 árvore de Tântalo & 9 escudos de ferro: 1 escudo de cobre & 8 florestas: 1 armadura de grevas & 1 sinal para a Mãe Redcap 1 broquel as asas de Mercúrio o retrato de Tasso: 1 elmo com um dragão 1 escudo com 2 leões 1 bola de ulmeiro 1 cadeado de dragões 1 lança dourada: 2 caixões 1 cabeça de touro 3 adufes 1 dragão para Fausto 1 leão 2 cabeças de leão 1 cavalo grande e suas penas: 1 sacabucha 1 roda & 1 armação para o Cerco de Londres: 1 par de luvas lavradas 1 mitra de Papa: 2 coroas imperiais 1 coroa simples 1 coroa de fantasmas 1 coroa com o Sol: 1 armação para o toucado de Black Joan: 1 cão negro 1 caldeirão para o Judeu:

(de Damascena, Contexto, editora, 1983)
[gosto muito de inventários II]

JOSÉ SESINANDO

Onde?

Baden-Baden, Spitzberg, Salzburgo?
Acapulco, Vera Cruz, Pequim?
Thebas, Sebastopol, Hamburgo?
Nova Deli? Não? Ou Nova Iorca? Sim?
Saint-Etienne, Boston, Johanesburgo -
apartheid à parte em tempo inteiro?
Kansas City, Termópilas, Nanterre?
Rejkiavik, Puchóv, Iowa, Erre
de Janeiro?
Cartago, Liverpool, Fez ou Almodôvar?
Londonderry, Santarém, Amsterdam?
Nova Deli? Sim? Ou Nova Iorca? Nam?
A terra de Bolívar (ou para rimar Bolôvar)?
Postojna, Cairo, Loano, Figueiró
dos Vinhos? Reno, Colares, Chianti, Dão?
(Muito obrigado, mas só à refeição.)
Tanganika, Massachussets, Pampilho-
sa? Paris, Bornéu, Kalamazoo?
Nova Deli? Não? Sim? Ou na O. N. U.?
Brza Palanka? Bu Ngem? (Faça favor
de repetir.) Bu Ngem? Brza Palanka?
Bridgehead, Brest, Salamalanca?
Alhos Vedros, San Marino, Andorra?
Liechtenstein, Sarre, o Corredor
de Danzig, mesmo que não corra?

Onde, onde, onde? Dizei-me, por amor
de Deus - antes que eu repita a rima
de forma mais justa (e malcriada, inda por cima).

(de Obra Ântuma, publicações Europa-América, 1986)
[gosto muito de inventários I]

MANUEL DE FREITAS

Poema Sumário das tabernas de Lisboa

Rua de São Marçal n.º 56, rua de Campo de
Ourique n.º 39, rua de São Bento n.º
432, rua da Cruz dos Poiais n.º 25A. Calçada
do Combro n.º 38B, rua da Atalaia n.º13,
rua de São Miguel n.º 20, rua da
Rosa n.º 123. Travessa do Conde de Soure n.º 7,
travessa dos Remolares n.º 21, rua do
Jardim do Tabaco n.º3, rua da Regueira n.º 40,
rua das Escolas Gerais n.º 126, rua de Santa
Catarina n.º 28. Largo do Chafariz de Dentro n.º 23,
rua Sampaio Bruno n.º 25, travessa de São
José n.º 27, beco dos Toucinheiros n.º 12-A. Rua
Cidade de Rabat n.º 9, travessa do Alcaide
n.º 15-B, calçada de São Vicente n.º 12,
rua das Flores n.º 6, travessa da Espera n.º 54.

Praça das Flores n.º 5

(de Todos Contentes e Eu Também, Campo das Letras, 2000)

28.8.03

Poema quase incompleto

Poema quase incompleto

os aquedutos extravasam dentro
das cidades iluminadas por
ÁNGEL CRESPO

Nasceu em 1926, em Ciudad Real, Espanha.
Autor de uma importante obra poética, publicada ao longo de mais de quarenta anos, traduziu rigorosamente para o castelhano grandes nomes da literatura mundial, incluindo alguns lusófonos, como Pessoa ou Guimarães Rosa. Foi também crítico e director de revistas literárias, além de Professor de Literatura Comparada em diversas universidades.
Morreu em 1995, em Barcelona.


NOCTURNO

La rosa, como un jarro de agua fresca en lo oscuro,
lo mismo que una música que ardía y se ha cerrado,
puede huir de la mano que sin querer se acerca
y anidar en el hueco que un suspiro le cava:
la rosa, que conoce el vuelo del olvido
apenas a unas plumas las alas se insinúan;
la rosa, única y todas, diamante e instrumento:
no el lirio, experto en todas las traiciones florales.


(de Délficas, in Iniciación a la sombra, Hiperión, 1996)


NOCTURNO

A rosa, como um jarro de água fresca no oculto,
igual a uma música ardendo que se fechou,
pode escapar-se da mão que sem querer se aproxima
e aninhar-se no vazio que um suspiro lhe cava:
a rosa, que sabe o voo do esquecimento
somente a umas penas as asas se insinuam;
a rosa, única e todas, diamante e instrumento:
não o lírio, sabedor de todas as traições florais.

(tradução minha)

26.8.03

[estive dois dias à procura deste soneto que me ocorreu no Caminho]

DANTE ALIGHIERI

(...) Foi quando, tendo-se eles [os peregrinos] afastado da minha vista, me propus fazer um soneto em que me manifestara o que comigo dizia; e a fim que parecesse mais piedoso, me propus de dizer como se a eles tivesse falado; e disse este soneto que começa: Pregrinos pensativos que passais. E disse "peregrinos" segundo a larga significação do vocábulo; que peregrinos se podem de dous modos entender, um largo e um estreito: o largo, quando é peregrino quem fora de sua pátria esteja; no estreito, não se entende peregrino se não quem vai a casa de Santiago ou dela volve. E é de saber que por três modos propriamente se chamam as pessoas que vão em serviço do Altíssimo: chamam-se palmeiros, quando vão a ultramar, de onde muitas vezes trazem a palma; chamam-se peregrinos, quando vão à casa de Galiza, por ter sido a sepultura de Santiago mais longe de sua pátria do que qualquer dos mais apóstolos; chamam-se romeiros, quando a Roma vão que era onde iam estes que eu chamo peregrinos.
Este soneto não dividirei, sendo assaz manifesta sua razão.

Pregrinos pensativos que passais,
talvez cuidando em coisa não presente,
vindes assim de tão remota gente
como à primeira vista aparentais,

que sem chorar agora atravessais
o centro da cidade tão dolente,
como aquelas pessoas cuja mente
ignora a gravidade de horas tais?

Se quedásseis a ouvi-lo, o coração
por certo suspirando bem me diz
que em lágrimas havíeis de ficar.

Ela perdeu a sua Beatriz,
sobre quem as palavras têm condão
de pôr todos os outros a chorar.

(do capítulo XL de Vita Nuova - tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand, 1995)

25.8.03

HAROLDO DE CAMPOS

Nasceu em 1929, em São Paulo, Brasil.
Foi um dos teóricos do movimento concretista do Brasil, que tantas influências iria gerar a nível mundial, sobretudo através do Grupo Noigandres que fundou com seu irmão Augusto de Campos e com Décio Pignatari. Tradutor, entre outros, de James Joyce e de Ezra Pound, foi também ensaísta.
Publicou mais de 30 livros, ao longo de mais de 50 anos de escrita, mas é difícil encontrar obras suas em Portugal.
Morreu no dia 16 deste mês.

Sonêto de Bodas

Luar de cópas e marfins renhidos
Tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sôbre os teus soluços.
E rosas tênues e papoulas de ar.

Um novo deus conjura os vaticínios,
E eu sorvo o mês, em taças contra o mar,
Tua nudez orçada em meus espelhos,
E rosas tênues e papoulas de ar.

Quem te ensinara o diapasão das noivas
embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara

Nos mansos trigos dêsse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bôdas
Que desfloresces nos porões do mar.

(de Auto do Possesso, 1950 - in A Nova Poesia Brasileira, Escritório de Propaganda e Expansão do Brasil em Lisboa, 1960)


de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado

sangrado
de sangue a sangue

(poema publicado originalmente em 1962 e reproduzido in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira - selecção e notas de Gramiro de Matos e Manuel de Seabra, livros Horizonte)


Transideração
Ungaretti Conversa com Leopardi


Um leão: ruivando arde -
na voz do leão - Leopardi
(céu noturno em Recanati)
virando constelação:
Odi, Melisso... E o leão
resgata a um fausto de estrelas
caídas, a lua jamais cadente
e a Ursa, magas centelhas.
Depois, o leão (a Leopardi
tendo dado o que lhe cabe)
passa a medir o infinito
ou desmedi-lo: ao longe
daquela estrela (tão longe)
ao longe daquela estrela.


Nosferatu: Nós / Torquato

Putresco

Putresco

Putresco

torquato: teus últimos dias de paupéria me

vermicegos enrolam a substância da treva
vampiros cefalâmpados
(disse)

mas agora put
resco
put
(horresco
referens)
resco
sco
sc
o

(estes dois últimos foram copiados de uma página da internet, onde não se faz referência da origem ou da data)
[ontem, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto pude constatar como um simples busto de gesso pode transmitir o espírito sofrido de uma obra inteira. Refiro-me ao busto de Ruben A. pelo escultor Salvador Barata Feyo]

RUBEN A.

Nasceu em Lisboa em 1920.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi: professor do ensino secundário; leitor em King's College, Universidade de Londres; funcionário da Embaixada do Brasil; Administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda; Director-Geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura, depois do 25 de Abril.
Foi ainda ficcionista, dramaturgo, historiador, crítico literário e divulgador cultural.
Morreu em Londres, em 1975.

(...)
Eu preocupei-me sempre comigo, essa é a principal razão da minha existência. Fui assim e pelos anos que me restam tenho cá ainda muito material para trabalhar. Não ofendo ninguém com esta maneira de ser; deixo mesmo a outros mais matéria para se espraiarem, não meto o bedelho na vida alheia - e isto dói àqueles que desde o pequeno-almoço se preocupam com o que os outros fazem. Eu só me preocupo comigo, o resto é uma paisagem humana com altos e baixos, rios e desertos, lagos e oceanos. O que me interessa sou eu, ver cá para dentro e debruçar-me no poço fundo. Ao começo não se enxerga quase nada, daí a pouco os olhos ficam mais habituados e as formas a desenhar-se; aparecem limos, umas flores nascem dos sítios mais ingratos, o reflexo sobe e desce, a atmosfera ilumina-se de uma luz muito especial que os nossos olhos atiram por aquele mundão abaixo. Pois esse poço não tem fundo; por mais que eu lhe beba os ingredientes não consigo secá-lo. Surge sempre matéria inesperada, que nasce de geração espontânea; das paredes do poço coisas novas ressumam que se vão precipitando na fundura.
Posso dizer, pela experiência que tenho tido, que viver assim debruçado cá para dentro é apaixonante. Mundo que não conhece maldades, não se perverte de encontro a outros, que se deslumbra ao registar vários eus transitando em várias épocas e enriquecendo a estrutura de um eu que vai progredindo, incólume, exacto, fio de navalha na sua própria alma.
(...)

(do prólogo a O Mundo à Minha Procura, 2ª ed: Assírio & Alvim, 1992 - 1ª ed: 1966)