21.9.03

[gosto muito de inventários XVIII]

JORGE CLAUDIR

EGOCICLO NÚMERO DOIS


Meu inconsciente
Meu subconsciente
Meu consciente.

Minhas vísceras
Meus ossos
E meus músculos.

Minha pele,
Meus pelos
E minha roupa.

Minha cama
Meu quarto
Minha casa.

Minha rua
Minha escola
E meu bairro.

Minha cidade,
Meu planeta
Minha galáxia.

O Universo
A morte
Meu inconsciente...

(de Reciclagem, incluído em Ebulição da Escrivatura - treze poetas impossíveis, Civilização Brasileira, 1978)

20.9.03

ÁLVARO DE CAMPOS

Lisbon Revisited (1923)


Não, não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas complexos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
PESSOA E AS RÁDIOS PIRATAS - memória de há quinze anos

Quem, como eu, nasceu em 1972, tinha 16 anos quando aconteceu o centenário do nascimento de Fernando Pessoa.
Ora, nada melhor para entediar e provocar a indiferença de um adolescente do que as "Grandiosas comemorações" ocorridas.

Mas outro dos fenómenos de 1988 foi o auge caótico das rádios piratas. E foi de uma delas, que eu ouvia quase religiosamente, que me chegaram vários poemas de Álvaro de Campos, lidos com fervor e um ligeiro eco a dar um tom solene que, apesar da piroseira, foi o que me levou a começar a ler Pessoa.

...isso, e o facto de ter tido um colega de carteira chamado Ricardo Reis.

18.9.03

NELLY SACHS

Vós que nos desertos
buscais veios de água ocultos -
de dorso curvado
escutais à luz nupcial do Sol -
filhos duma nova solidão com Ele -

As vossas pegadas
calcam a saudade
para os mares de sono -
enquanto o vosso corpo
lança a folha escura de flor da sombra
e em terra de novo sagrada
o diálogo que mede o tempo
entre estrela e estrela começa.

(de Poemas de Nelly Sachs, antologia versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália, 1967)

15.9.03

O Tiago diz coisas que parecem da poetisa anterior:


"O Senhor não nos criou as orelhas para amparar lápis."

14.9.03

ADÉLIA PRADO

Nasceu em Divinópolis, Brasil, em 1935.
Em 2000, a editora Cotovia editou em Portugal o seu primeiro livro, Bagagem.


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Para comer depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
A campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.

(de Bagagem, 1976)


Morte morreu

Quando o ano acinzenta-se em agosto
e chove sobre árvores
que mesmo antes das chuvas já reverdeceram,
da mesma estação levantam-se
nossos mortos queridos
e os passarinhos que ainda vão nascer.
"Ó morte, onde está tua vitória"?
Eh tempo bom, diz meu pai.
A mãe acalma-se,
tomam-se as providências sensatas.
Todos pra janela, espiar as goteiras:
"Chuva choveu, goteira pingou
pergunta o papudo se o papo molhou".
Pergunta a menina se a vida acabou.

(de Pelicano, 1987)


De amor

Assim que se é posto à prova,
na cinza do óbvio, quando
atrás de um caminhão vazando
o homem que pediu sua mão
informa:
'está transportando líquido'.
Podes virar santa se, em silêncio,
Pões de modo gentil a mão no joelho dele
Ou a rainha do inferno se invectivas:
Claro, se está pingando,
Querias que transportasse o quê?
Amar é sofrimento de decantação,
Produz ouro em pepitas,
Elixires de longa vida,
Nasce de seu acre
A árvore da juventude perpétua.
É como cuidar de um jardim,
quase imoral deleitar-se
com cheiro forte do esterco,
um cheiro ruim meio bom,
como disse o menino
quanto a porquinhos no chiqueiro.
É mais que violento o amor.

(de Oráculos de Maio, 1999)

[poemas retirados de Poesia Reunida, 10ª ed: editora Siciliano, São Paulo, 2001]
N' A Esquina do Rio evoca-se um pormenor que me fascinou na infância: too loora rai-hei.

13.9.03

Se um dia tivesse o mundo nos olhos
(noites cumpridas de visão e luz)
seria um pássaro envolto de céu
perto de asas em ruínas livres
de, outrora grandes, poderosas, casas.
Afasto-me das trevas trazendo
imagens que sempre existem.
Estradas de curvas inesperadas;
paisagens com árvores e bruma;
grandes pedras umas sobre as outras;
marcos geodésicos e chuvas fortes.
Noites claras de ver longe.

11.9.03

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO

Quatro epitáfios


a um homem

Olhei a estátua de Benvenutto Cellini sobre a ponte vecchia de
Fiorença e os grafitti que alguém desenhou.
Também o World Trade Center viu o meu carregado ar de idade.
Mas nada disso bastou. Viveu-se a vida e só aqui definitiva e
indiferente ela me abandonou.

a outro homem

A nada olhei, Eu, tudo ganhei. A terra ainda cheira à minha
estupenda e espumosa urina. Nunca na vida em nada pensei.
Eu, combati e dominei. Eu trabalhei. Porém frente à morte
eu tímido, doente e já sem líquidos, eu deveras me assustei.

a uma mulher

Vivi, bati, morri, lavei, pari, e bastei. Fui como as abelhas
e não só o mel deixei. Sim, porque também de mim ficaram as
saudades a quem tudo isto dei.

a um escritor

Já não escrevo. A estes prados distantes me retirei. E muito
aqui me espantei. Porque aí, história, rasto ou memória de mim
não encontrei. Apenas este silêncio, este jazer, absurdo e enterrado,
sem de nada aqui saber.

(in A Ideia - revista de cultura e pensamento anarquista, nº 32-33, Abril de 1984)
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

IN MEMORIAM ALLENDE


Se eu fosse marxista - porque me abandonaste? Se
neste meio ano vivemos tanto e construímos a nossa casa
num bordel.

Basta-me empurrar uma porta: ajuda-te que
o céu te ajudará - só repito as palavras da Bíblia.
E depois?
De que é que vive o homem? De comer.
E depois?
Talvez um pouco da moralidade ou dos inventos de
Francesco di Giorgio Martini perdão
quero dizer Salvador Allende Gossena. Uma insinuação.
Em setembro de 1970. Esta praia. Esta mesa. O
jornal aberto sob o teu nome escolhido pelo povo de
Santiago pelo povo de Valparaíso e
por aquele que vive ao longo dos Andes falando aracuano.
Lembro
o teu gesto de paz a tua entrada na catedral para seres empossado
lembro e lembro-me que sorri.
Em setembro de 1973. Esta praia. Esta mesa. O
jornal ainda. O teu nome dito.

Olha meu amigo
o que se promete raramente se cumpre eu
eu sou tão infiel a tudo
mesmo às árvores que com certeza plantaste e
onde as rolas hoje fazem ninho (por certo há rolas no teu país).

Olha meu amigo
trago-te esta comida. Tem cinco mil anos ou só a
velocidade dos meus dedos
- uma romã nozes frutos secos e
sob o pequeno armário da manhã
passas de uva.

Olha
vamos morrer? mas morrer não é tudo: seria preciso morrer
muito tarde e
não esqueças: Washington sabe Washington sabe quem sacode os ramos dos
castanheiros.

(de Turvos Dizeres, 1973 - incluído em Obra Poética, volume 2, editorial Presença, 2ª ed: 1987)

10.9.03

juro que não foi para irritar Pedro Mexia; já tinha pensado há algum tempo no poema que se segue, de autor monárquico, para marcar o 11 de Setembro - segue-se-lhe uma discreta evocação do WTC

[não vou passar o poema de Ruy Belo com o mesmo título do de JMFJ, por causa da sua extensão, mas fica a referência: é o último poema da primeira parte de Toda a Terra, editado em 1976]
DEJA VU

Em Barcelona também há bloggers a almoçar uns com os outros e a frequentar a FNAC.

9.9.03

MARIA ÂNGELA ALVIM

Nasceu no primeiro dia de 1926, em Minas Gerais, Brasil.
A mais velha de cinco irmãos, todos poetas.
Pôs fim aos seus dias aos 33 anos.


Meus olhos são telas d'água,
não ferem a perfeição.

*


O túmulo. O vôo do corvo,
sombra das mãos da amante traçando o adeus.
Passaram as mãos da amante sobre o corpo sem memória
e se perderam no infinito das paralelas.

*


A noite maior desceu à minha esquerda,
a grande noite das estrelas cegas.
À minha direita
o braço mecânico,
o olho de vidro,
o riso de louça,
o dia-invenção,
- o despudor das coisas divisíveis.

(de Superfície, 1950)


Já viajas na morte, - nadam
aí tuas flores, passageira.
- E só perfumes te engrinaldam
a cabeceira.
Noutra margem onde se foram
as cores que emigram na enseada
sonhos de vida acalentada
hoje redouram.

Para Celma

(de Barca do Tempo, 1950-1955)


I

...Se vamos levando enganos?
Chegamos. Rostos se apagam,
vão somando semelhanças
com outros rostos já vistos
(Ai de nós, se subtraem
sempre mais tristes, sofridos).
- Ninguém se conhece. E nós
sabemos de cada um:
nascido é um novo sentido,
por isso nos entregara. Que compreendemos
demais.
E nós mesmos, coagidos
a largar-nos sem aviso
de razão: comprazimento.

Tão fora de nós, tão dentro,
andamos quebrando a sede
nos corredores sem água.
Apenas em nós se guarda
a certeza, esta certeza
de tantas portas fechando
em outras portas se abrindo.
Aqui encerra o domínio
nosso mundo repartido. As sombras,
jardim de loucos, protegem esta subida:
são plantas? Respira a noite.
É o vento? Seriam as vestes
bem alvas, mais que tecidas
da enfermeira sem rosto
e braço - no escuro nos conduzindo?

Ah! Existem outras escadas
que subimos mais por dentro.
No balaústre uma estátua
se apóia em nosso receio.
Paramos. Eis uma porta
imensa. Crescemos tanto!

E, passando,
pequeninos. Novos degraus
mas pequenos, sempre mais
nos reduzimos.

A enfermeira, distante,
era negra e para sempre
atrás das portas, da noite,
do jardim, branco vestido.

(de Poemas de Agosto)

[poemas retirados de Superfície - Toda Poesia, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica]
O Valete Frates! diz hoje o que eu devia ter dito ontem: Almocei com a Voz do Deserto!

A mim valeu-me ser citado, pelo Tiago, com um poema sobre Rimbaud.

Mas o que gostei mais na Voz de ontem (e há lá sempre tanto para gostar!), foi de uma ligação a uma página sobre o fantástico (nos vários sentidos da palavra) C. S. Lewis.
Num tempo tão carecido de genuína ironia, faz falta.