13.1.04

TIM: As palavras são os tijolos. São os alicerces. Poemas?! Não! São letras rock.
Remar, remar

Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
Aa vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas

Todas as tuas explosões
Redundam em silêncio
Nada me diz

Berras às bestas
Que te sufocam
Em braços viscosos
Cheios de pavor
Esse frio surdo
O frio que te envolve
Nasce na fonte
Na fonte da dor

Remar remar
Forçar a corrente
Ao mar, ao mar
Que mata a gente

letra: Tim
música: Xutos & Pontapés

(editado em single, em 1984)
[há 25 anos...]

(...)
ZÉ PEDRO: Com aquele speed todo, um gajo estava a tocar e parecia que o tempo nunca mais passava, eu dizia «Muda! Muda!» e passado uns segundos «Acaba, acaba e começa já outra! Não percas muito tempo.» Foi tudo muito confuso!

TIM: A gente a serrar e os gajos do público deviam pensar que era sound-check... porque nós, mal o gajo que nos foi apresentar disse: «Xutos & Pontapés Rock'n'Roll Band», entrámos. Pegámos nos instrumentos e começámos logo. Por fim o Zé Leonel estava tão à toa que saiu pela frente do palco. O Kalu, quando o viu sair, foi-se também embora. Fiquei eu e o Zé Pedro sozinhos... quando reparámos nisso, fomos também embora.

ZÉ PEDRO: A assistência que tinha estado a ouvir, a noite toda, o Rock Around the Clock e outras coisas similares, ficou estática. Quando acabámos não se ouvia nem uma palma. Nem um assobio. Não se ouviu nada. Eles não devem ter percebido absolutamente nada e o que é verdade é que nós também não.
(...)

(excerto de Conta-me Histórias, de Ana Cristina Ferrão, Assírio & Alvim, 1991 - Rei Lagarto)
MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) Intróito

As palavras escritas numa vidraça embaciada pela chuva são sempre tristes. Não importa o seu verdadeiro significado.

(de Os Pregos na Erva, 1962, 2ª ed: edições Rolim, 1987)

12.1.04

G. K. CHESTERTON

A primeira coisa a notar como típica da tonalidade moderna é um certo efeito de tolerância, que por sua vez é o efeito de uma certa timidez. A liberdade religiosa poderia significar que todos eram livres de discutir sobre religião. Na prática, significa que as pessoas mal se permitem mencioná-la. Há uma outra qualidade, de algum interesse: a de que aqui, como em muitas outras coisas, há uma imensa superioridade intelectual nos pobres e nos ignorantes. Qualquer inquilino da cidade velha gostava da cruz [para monumento de guerra, nas encruzilhadas] porque era cristã, e assim o dizia, ou então não gostava porque lhe cheirava a bispo, e assim o dizia. Mas os chefes do partido anti-papista tinham vergonha de falar no seu anti-papismo. Eles não diziam concretamente que achavam que um crucifixo era uma coisa perversa; mas diziam, com tantos rodeios quantos os necessários, que achavam que a bomba de água da freguesia, ou uma fonte pública, ou um autocarro municipal eram coisas boas.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)
EMANUEL FÉLIX

AUTO DE DECLARAÇÃO


Ao Jacinto Monteiro

Sou o homem da mão ressequida
O cego Bartimeu de Jericó
O paralítico de Cafarnaum
Sou Zaqueu
Sou a viúva de Naím
Sou a mulher adúltera, Senhor
Sou Marta irmã de Lázaro
Maria Madalena
O Bom Ladrão

Só me falta, Senhor, o coração
Silencioso e humilde.

(de Habitação das Chuvas, edição do Autor, Angra do Heroísmo, 1997)
AMADEU BAPTISTA

NOLI ME TANGERE


(Para Luís Adriano Carlos)

Tudo me atinge, sendo alguns dos meus irmãos
os pescadores que conheci em Tiberíades,
e os que cultivavam os campos na Judeia.
E Barrabás, e Judas, e o soldado
romano que me escoltou no horto, e a mulher
que intercedeu por Lázaro, e aquela outra
a quem queriam assassinar com pedras. E as crianças
que Herodes mandou matar, e Herodes, e o guardião do templo
que invectivou o meu nome para que de lá me fosse.
E o grego sábio que anotou por mim a oração
secreta e os secretos desígnios do oráculo,
e o fenício jovem que quis que lhe comprasse
um baiozinho negro.
E os que passaram por mim na estrada larga
e de longe acenaram, e o que acendeu a fogueira certa noite
em que o frio escaldava e um resto de toucinho comigo dividiu
e uma manta. E o que era paralítico e nem assim andou, e o cego
que quis ver e nada viu, e o que pediu
por outrem, sabendo ser ouvido mesmo não pedindo.
E o que fez pão e não o repartiu, e ídolos adorou, o escaravelho
e o bezerro de oiro. E a que não teve senão
o corpo por enxerga, e se vendeu aos homens, concedendo à ternura
algum espaço para que a própria ternura evoluísse. E o que veio do norte
e perscrutou a lua, e o que foi emboscado e viajou no deserto
e sempre viajou, sem que no deserto houvesse água, orvalho, o vento
dos regressos, e o que voltou a cabeça e viu
a babilónia dos seres, o prometido extermínio,
Gomorra e Sodoma destruídas. Tudo o que é humano me atinge,
porque tudo o que é humano é divino.

(de Paixão, edições Afrontamento, 2003)

11.1.04

ÉSQUILO

CORO DOS ANCIÃOS DE ARGOS:
(...)
Terríveis são os propósitos do povo animado pelo ressentimento, e sempre a maldição popular pagou a quem lhe deve. Sinto-me angustiado pelo medo de assistir a alguma trama tenebrosa, pois aqueles que fazem correr sangue nunca escapam aos olhares dos deuses. Um dia virá, no curso das vicissitudes que consomem a nossa vida, em que as negras Erínyas destruirão o homem feliz que menosprezou a justiça, e não há qualquer apelo para aquele que elas fazem desaparecer. Um nome altamente ilustre expõe-se a muitos perigos, porque é sobre os notáveis que cai o dardo de Zeus.
O que pretendo é uma felicidade que não excite a inveja. Oxalá consiga não ser um destruidor de cidades nem um cativo que vê a sua vida submetida aos caprichos de um vencedor!
(...)

(da peça Agamémnon, incluída em Teatro Completo, tradução de Virgílio Martinho; Introdução de Jorge Silva Melo, 2ª ed: editorial Estampa, 2002)
MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) Os Pregos na Erva

- Queria ver-te passar - disse Raquel. - Mataram a galinha à pedrada por pertencer a uma judia. Sabes o que são estigmas?
- Sei, sei - respondeu Leonardo.
- Nós temos estigmas - continuou Raquel. - Qualquer dia as pedras acertam nos próprios judeus. Não compreendo porque matam. Os mortos são horríveis para ver.
Leonardo levantou a mão livre e apoiou-a nos lábios de Raquel. Sentiu o seu beijo vivo aquecer-lhe o corpo, como se sobre ele tivessem estendido a pele macia de um cordeiro.
A chuva recomeçou a cair, não desolada mas trespassada de sol. Era uma poalha de luz aquosa que esvoaçava nos seus rostos e neles se sumia. Apagava-se sem vestígios na pele transida que irmanava com o chão.
- Tenho de ir-me embora - disse Leonardo, varado pela angústia de não poder acompanhá-la a casa. - À noite ficarás junto de mim e de Gonçalo.
Olhou de novo a face de Raquel puída pelo medo, os olhos pretos recuados de susto.
- Faço a galinha para o jantar - disse ela.
Tapou-a com o vestido para que Leonardo não lhe visse a cabeça esmagada, de que pendiam estalactites de sangue coagulado.

(de Os Pregos na Erva, 1962; 2ª ed: edições Rolim, 1987)

10.1.04

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Conselhos a um jovem poeta


1. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
2. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
3. Leia muito e esqueça o mais que puder.
4. Não fique baboso se lhe disserem que seu livro novo é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.
5. Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.
6. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
7. Procure ser justo com os outros; se for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.

(citado no número 4 da colecção Poetas Modernos do Brasil, de Silvano Santiago, editora Vozes Ltda, Petrópolis, 1976 - sem indicação da origem)

9.1.04

a tua respiração tem um silêncio demorado,
é rouca;
frágil de mais para um dia poder parar.
Fala-se por aí de milagres, a propósito da utilização do termo em actos jornalísticos.
[Acho ridícula a mania (contrária ao rigor apregoado...) de os jornalistas usarem indiscriminadamente este tipo de metáforas, tal como acho ridículos os excessivos adjectivos.]

Desconfio sistemática e prudentemente de tudo aquilo a que se possa chamar milagre. Mas acredito sem limites que a Deus tudo é possível.

Tenho-me como fazendo parte daqueles "felizes que não viram e acreditaram" (cf. Jo 20, 29) e vou pedindo ao Senhor que me livre de ser algum dos que são infelizes por não saberem muito bem o que viram.
JOÃO LIMA PINHARANDA

pequeno corpo de poemas religiosos


1.
no templo,
de joelhos.

de pé,
no templo.
lx,28nov97

2.
tomas no punho
o deus feliz.
e ele toma o brilho lustral
da sua natureza.
lx,28nov97

3.
afinal,
também se reza o terço
todos os dias
- e não se perde a fé.
lx,3dez97

4.
contas do meu rosário
que afago nos dedos
sem rezar.
lx,3dez97

5.
as posições
de adoração
surgem no momento
de adorar.
lx,8dez97

6.
este é o meu corpo.
este é o meu sangue.
lx,8dez97

7.
fechadura
onde não vês.
oratório
onde não falas.
lx,17dez97

8.
mesa de altar
- sobre ela me debruço.
lx,18dez97

9.
o santo de pé,
no nicho,
vela
por ti.
(por milagre chora)
o santo de joelhos,
no nicho,
vela
até ao fim.
lx,22mar98

10.
oração do trovador:
alivia-me esta dor,
liberta-me desta prisão,
minha senhor.
lx,1abr98

11.
três religiões:
vesti a túnica inconsútil.
segurei a palma na minha mão.
aspergi o portal com meu próprio sangue.
lx,8abr98

12.
dois milagres:
milagre do pão multiplicado.
milagre das rosas.
lx,20abr98

13.
invocações:
senhora da luz.
senhora do leite.
senhora do monte.
senhora dos matos.
senhora das águas.
.....................
lx,mai98

14.
vieira
bordão
estrela
- caminhos de santiago.
lx,5jun98

15.
"faça-se em mim
segundo a tua palavra"
lx,19dez99

16.
"e eu te cobrirei
com a minha sombra"
lx,19dez99

17.
altis.
lx,jan2000

18.
teu:
bezerro d'oiro.
bambino d'oro.
lagos,27jul99

19.
santos lugares.
os teus lugares
santos.
lisboa, 10nov99

20.
cruzes na boca.
lx,11nov99

(de Máquina do Mundo, edição do Autor, 2002 - capa de Julião Sarmento; paginação de Manuel Rosa)

8.1.04

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

11


noite.

sobre as pedras quase brancas, mármores do sul
talvez,
jazem os cordeiros de maio,
algures, mais longe,
nos montes de Putney e Vilna, agora floridos,
ocres e sem fim, como nunca.

aí se demorou jeremias
apenas o tempo do sacrifício,
tempo certo, tempo inútil,

... tempo... tempo... tempo...

receberam-no as ruas estreitas,
sob a transparência das pedras outrora brancas na
estação oriental
onde se abrigam os vagabundos dos estios propícios,
sobreviventes de atlântida e sodoma.

essa foi um dia a região das chuvas escassas, dos
velhos cedros e dos viajantes de outras eras,
de perto sentida pela loucura de jeremias,
o primeiro cantor;

eis uma vez mais, a última,
eis Putney e Vilna entre as muralhas e o castelo e o vale adormecido,
e, algures, mais longe,
as cabanas ao lado do cais;

ei-lo ainda,
jeremias que passa sob a morada das pedras
outrora brancas,
talvez mármores do sul,
onde se escondem a memória do ritual e os cânticos do ritual,

ei-lo ainda,
jeremias que enlouquece à sombra da breve
cerejeira.

(de jeremias o louco, Centelha, 1978)
An S. O. S. to the world:

I think I'm not alone in being alone