[calha bem: a Cotovia está a fazer preços simpáticos em livros manuseados]
CHARLES TOMLINSON
A LIÇÃO
Este ano, as cotovias
voam tão cedo e tão alto,
significando, dizes, que este Verão
vai ser quente e seco,
e quem sou eu
para discutir tal profecia?
Vinte anos aqui passados ainda não
me ensinaram a ler com precisão
nem os sinais da terra nem os sinais do céu:
continuo com o olhar de um recém-chegado,
um olhar citadino:
contudo há ainda tempo
para aprender mais coisas
sobre a estação e o canto:
Verão após Verão
(tradução de Gualter Cunha, in Poemas, edições Cotovia, 1992)
18.3.04
17.3.04
W. B. YEATS
Nasceu em Geogeville, perto de Dublin, em 1865.
Viajou pelos EUA e pela Itália. Recebeu o Prémio Nobel em 1923.
Morreu em 1939.
ACERCA DE UMA CASA AMEAÇADA PELA AGITAÇÃO DA TERRA
Como seria mais feliz o mundo se esta casa,
Onde paixão e rigor se fundiram em
Tempos imemoriais, em ruínas transformada
Deixasse de criar o olho sem pálpebras que ama o sol?
E os doces e alegres pensamentos de águias que crescem
Onde asas contêm memória de asas, tudo
O que vem do melhor se une ao melhor? Embora
Os pobres pilares mais fortes na queda se tornassem,
Que grande sorte teria de ser a sua para alcançar
Os dons que governam os homens, e mais ainda
O último dom do Tempo sucessivo, discurso escrito
Forjado em alto riso, encanto e paz?
(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)
MEDITAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA
Numa pulsação de artéria,
Sentado naquela velha pedra cinzenta,
Debaixo da velha árvore quebrada pelo vento,
Soube que o Uno é animado,
A humanidade inanimada fantasia.
(de Michael Robartes and the Dancer, 1921)
(traduções de José Agostinho Baptista, in Uma Antologia, Assírio & Alvim, 1996 - documenta poetica)
SEM SEGUNDA TRÓIA
Não a censuro pelos sofrimentos
De que me encheu a vida, ou por tentar
Levar a turba a gestos tão violentos,
Ou a ruelas contra as ruas atirar
Se o desejo lhes desse o atrevimento.
Não a deixa ser plácida a nobreza
Que lhe apurou, qual fogo, o pensamento,
E o arco tenso que é a tua beleza,
Fora do natural da nossa era,
Por sublime e solitária e austera.
Sendo o que é, que podia ela fazer,
Sem outra Tróia para pôr a arder?
(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)
O GRANDE DIA
Viva a revolução e mais tiros de canhão!
Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo a pé.
Viva a revolução o canhão que voltou!
Os mendigos mudam de lugar, o chicote ficou.
O QUE SE PERDEU
Canto o que se perdeu, temo o que se ganhou,
Entro numa batalha uma vez mais travada,
Meu rei um rei perdido, perdidos meus soldados;
Corram os passos para Poente ou Madrugada,
Batem sempre sobre a mesma pedra de nada.
(de Last Poems, 1936-1939)
(traduções de Joaquim Manuel Magalhães e Maria Leonor Telles, in As Escadas não têm Degraus 3 - Março de 1990, livros Cotovia)
Nasceu em Geogeville, perto de Dublin, em 1865.
Viajou pelos EUA e pela Itália. Recebeu o Prémio Nobel em 1923.
Morreu em 1939.
ACERCA DE UMA CASA AMEAÇADA PELA AGITAÇÃO DA TERRA
Como seria mais feliz o mundo se esta casa,
Onde paixão e rigor se fundiram em
Tempos imemoriais, em ruínas transformada
Deixasse de criar o olho sem pálpebras que ama o sol?
E os doces e alegres pensamentos de águias que crescem
Onde asas contêm memória de asas, tudo
O que vem do melhor se une ao melhor? Embora
Os pobres pilares mais fortes na queda se tornassem,
Que grande sorte teria de ser a sua para alcançar
Os dons que governam os homens, e mais ainda
O último dom do Tempo sucessivo, discurso escrito
Forjado em alto riso, encanto e paz?
(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)
MEDITAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA
Numa pulsação de artéria,
Sentado naquela velha pedra cinzenta,
Debaixo da velha árvore quebrada pelo vento,
Soube que o Uno é animado,
A humanidade inanimada fantasia.
(de Michael Robartes and the Dancer, 1921)
(traduções de José Agostinho Baptista, in Uma Antologia, Assírio & Alvim, 1996 - documenta poetica)
SEM SEGUNDA TRÓIA
Não a censuro pelos sofrimentos
De que me encheu a vida, ou por tentar
Levar a turba a gestos tão violentos,
Ou a ruelas contra as ruas atirar
Se o desejo lhes desse o atrevimento.
Não a deixa ser plácida a nobreza
Que lhe apurou, qual fogo, o pensamento,
E o arco tenso que é a tua beleza,
Fora do natural da nossa era,
Por sublime e solitária e austera.
Sendo o que é, que podia ela fazer,
Sem outra Tróia para pôr a arder?
(de The Green Helmet and Other Poems, 1910)
O GRANDE DIA
Viva a revolução e mais tiros de canhão!
Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo a pé.
Viva a revolução o canhão que voltou!
Os mendigos mudam de lugar, o chicote ficou.
O QUE SE PERDEU
Canto o que se perdeu, temo o que se ganhou,
Entro numa batalha uma vez mais travada,
Meu rei um rei perdido, perdidos meus soldados;
Corram os passos para Poente ou Madrugada,
Batem sempre sobre a mesma pedra de nada.
(de Last Poems, 1936-1939)
(traduções de Joaquim Manuel Magalhães e Maria Leonor Telles, in As Escadas não têm Degraus 3 - Março de 1990, livros Cotovia)
G. K. CHESTERTON
W. B. É talvez o melhor conversador que jamais encontrei, excepto talvez o pai dele, coitado, mas esse não conversará mais na sua taberna terreal, já que se encontra, assim o espero, conversando no Paraíso. Entre vinte outras qualidades, ele possuía uma coisa muito rara contudo real; um estilo absolutamente espontâneo. As palavras não saltavam como água da sua boca, da mesma maneira que os tijolos não saltam para formar uma casa; na sua boca as palavras acendiam-se, simplesmente, como claridade, como se fora possível construir uma catedral com a rapidez com que um prestigitador constrói um castelo de cartas. Uma frase extensa, equilibrada e elaborada, com ramificações alternativas ou antitéticas, fluía na sua boca, com as exactas palavras chovendo no lugar exacto, com a mesma inocência e prontidão com que a maior parte das pessoas diria que o dia estava bonito ou que os jornais traziam uma notícia cómica.
(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)
W. B. É talvez o melhor conversador que jamais encontrei, excepto talvez o pai dele, coitado, mas esse não conversará mais na sua taberna terreal, já que se encontra, assim o espero, conversando no Paraíso. Entre vinte outras qualidades, ele possuía uma coisa muito rara contudo real; um estilo absolutamente espontâneo. As palavras não saltavam como água da sua boca, da mesma maneira que os tijolos não saltam para formar uma casa; na sua boca as palavras acendiam-se, simplesmente, como claridade, como se fora possível construir uma catedral com a rapidez com que um prestigitador constrói um castelo de cartas. Uma frase extensa, equilibrada e elaborada, com ramificações alternativas ou antitéticas, fluía na sua boca, com as exactas palavras chovendo no lugar exacto, com a mesma inocência e prontidão com que a maior parte das pessoas diria que o dia estava bonito ou que os jornais traziam uma notícia cómica.
(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)
16.3.04
GÊMEO???
Que estranha razão poderá levar um português a transcrever um poema de Fernando Pessoa em versão brasileira?
Que estranha razão poderá levar um português a transcrever um poema de Fernando Pessoa em versão brasileira?
15.3.04
[outros melros XV]
TONINO GUERRA
CANTO DÉCIMO OITAVO
Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola, nós o esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.
Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
e fingimos deslocar nossas cadeiras.
(de O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003 - documenta poetica)
TONINO GUERRA
CANTO DÉCIMO OITAVO
Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola, nós o esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.
Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
e fingimos deslocar nossas cadeiras.
(de O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003 - documenta poetica)
14.3.04
JOSÉ BLANC DE PORTUGAL
O vento leste soprou desabrido
sob o nítido Sol em céu imaculado.
Sobre pedras duras, entre casas altas
mosqueadas pelas injúrias de acrescentados anos,
o Caminhante faz por esquecer as próprias dores
com a esperança de um feliz encontro e,
estranhamente,
quanto mais intensa a dor
mais eficazmente lha mitiga
a esperança.
29.III.90
(de Quaresma Abreviada, Black Sun editores, 1997)
O vento leste soprou desabrido
sob o nítido Sol em céu imaculado.
Sobre pedras duras, entre casas altas
mosqueadas pelas injúrias de acrescentados anos,
o Caminhante faz por esquecer as próprias dores
com a esperança de um feliz encontro e,
estranhamente,
quanto mais intensa a dor
mais eficazmente lha mitiga
a esperança.
29.III.90
(de Quaresma Abreviada, Black Sun editores, 1997)
RUY CINATTI
GANDHI I
Isto da violência
tem que lhe diga
quando os tais violentos
a negam e julgam.
A justiça impera
na terra, nos céus.
De Deus, a justiça.
Nos homens, a fome.
Gandhi foi, entre outros,
o mor paladino
dos tempos modernos
da justiça e amor.
Vê-lo debruçado
sobre a justa causa.
Ouvi-lo falar
do leite da vaca...
Grandes são os santos,
soldados, poetas.
A nossa derrota,
mas que grande festa!
As chamas alteiam.
Cheira a pau de sândalo.
Sobre Babilónia
as luzes apagam-se.
14/7/83
CONTENCIOSO
Ide, canções minhas, proclamai
o estado de sítio
com reflexos d'água, informais
em papel de seda,
porque não em seda crua?!...
Ela virá então nua
com ademanes fatais,
lembrar que a paz não se alcança
com violência,
corrupção, incompetência
e outras curiosas experiências
habituais no meu país.
O presidente ficará em Belém.
O primeiro ministro reabita Sintra.
Propositadamente,
a bem do cidadão,
criar-se-á o Ministério da Qualidade de Vida
para satisfazer as necessidades
de outro cidadão menos pateta.
Lorpas, imbecis,
farroupilhas, tontos,
que assim deixais à vontade
o desgraçado do poeta!
Reclassificai-o já, baixai-lhe a letra.
Que se reforme ou peça baixa médica!
Ela, entretanto, a mais que bela,
debruçar-se-á da janela
dar-lhe-á a sua bênção.
E vero!
14/7/83
(poemas inéditos, dactilografados e fotocopiados pelo Autor para serem distribuídos na rua ou aos amigos que o visitavam)
GANDHI I
Isto da violência
tem que lhe diga
quando os tais violentos
a negam e julgam.
A justiça impera
na terra, nos céus.
De Deus, a justiça.
Nos homens, a fome.
Gandhi foi, entre outros,
o mor paladino
dos tempos modernos
da justiça e amor.
Vê-lo debruçado
sobre a justa causa.
Ouvi-lo falar
do leite da vaca...
Grandes são os santos,
soldados, poetas.
A nossa derrota,
mas que grande festa!
As chamas alteiam.
Cheira a pau de sândalo.
Sobre Babilónia
as luzes apagam-se.
14/7/83
CONTENCIOSO
Ide, canções minhas, proclamai
o estado de sítio
com reflexos d'água, informais
em papel de seda,
porque não em seda crua?!...
Ela virá então nua
com ademanes fatais,
lembrar que a paz não se alcança
com violência,
corrupção, incompetência
e outras curiosas experiências
habituais no meu país.
O presidente ficará em Belém.
O primeiro ministro reabita Sintra.
Propositadamente,
a bem do cidadão,
criar-se-á o Ministério da Qualidade de Vida
para satisfazer as necessidades
de outro cidadão menos pateta.
Lorpas, imbecis,
farroupilhas, tontos,
que assim deixais à vontade
o desgraçado do poeta!
Reclassificai-o já, baixai-lhe a letra.
Que se reforme ou peça baixa médica!
Ela, entretanto, a mais que bela,
debruçar-se-á da janela
dar-lhe-á a sua bênção.
E vero!
14/7/83
(poemas inéditos, dactilografados e fotocopiados pelo Autor para serem distribuídos na rua ou aos amigos que o visitavam)
EDUARDO GUERRA CARNEIRO
RUY CINATTI
Cinatti veste roupão de seda japonês
na Travessa da Palmeira. De samurai travestido,
o sabre desembainha e salta no sobrado.
Fala-me depois de Guevara, de Cristo,
e da Virgem de Macarena de Sevilha.
Brande agora um rosário e brandy
serve. Abre a janela de repelão
e recomeça as sagas de Timor.
Recusa um charro mas conta d'outras
passas nos reinos do Oriente.
Atira ao ar as folhas dos poemas e pagelas
com santinhos. Impaciente enxota-nos.
Mas volta ao patamar da escada, aos berros,
para dizer que o chá abriu.
(de Contra a Corrente, & etc, 1988)
RUY CINATTI
Cinatti veste roupão de seda japonês
na Travessa da Palmeira. De samurai travestido,
o sabre desembainha e salta no sobrado.
Fala-me depois de Guevara, de Cristo,
e da Virgem de Macarena de Sevilha.
Brande agora um rosário e brandy
serve. Abre a janela de repelão
e recomeça as sagas de Timor.
Recusa um charro mas conta d'outras
passas nos reinos do Oriente.
Atira ao ar as folhas dos poemas e pagelas
com santinhos. Impaciente enxota-nos.
Mas volta ao patamar da escada, aos berros,
para dizer que o chá abriu.
(de Contra a Corrente, & etc, 1988)
O QUE PODERÁ SER A NOITE?
Não acabará o dia ao amanhecer da idade lenta,*
nem precisaremos de saber dos silêncios que se repetem.
Não há equilíbrio em saber dizer nomes semelhantes
a tudo o que não vemos. Porém fumamos como quando
éramos apenas pobres à procura de mais sonhos que
nos fizessem lembrar terras e tempos
mais remotos e simples.
Na memória estão ainda as palavras e o que elas dizem
demoradamente.
________________
*verso de um poema de Francisco José Viegas, que faz hoje anos.
Não acabará o dia ao amanhecer da idade lenta,*
nem precisaremos de saber dos silêncios que se repetem.
Não há equilíbrio em saber dizer nomes semelhantes
a tudo o que não vemos. Porém fumamos como quando
éramos apenas pobres à procura de mais sonhos que
nos fizessem lembrar terras e tempos
mais remotos e simples.
Na memória estão ainda as palavras e o que elas dizem
demoradamente.
________________
*verso de um poema de Francisco José Viegas, que faz hoje anos.
12.3.04
[SONETOS À SEXTA-FEIRA]
GOMES LEAL
Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...
Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...
A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.
CAMILO PESSANHA
Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
Sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
ÂNGELO DE LIMA
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.
Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, se demora.
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...
FERNANDO PESSOA
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
EDMUNDO DE BETTENCOURT
ABRIGO
Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.
Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,
que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!
Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...
VITORINO NEMÉSIO
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
CARLOS DE OLIVEIRA
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
MANUEL DE CASTRO
A VOZ QUASE SILÊNCIO
vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento
o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos
ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade
garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio
ANTÓNIO GANCHO
ULISSES-OLISIPO
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar
Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.
[todos estes poemas estão incluídos em Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1985]
GOMES LEAL
Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...
Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...
A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.
CAMILO PESSANHA
Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
Sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
ÂNGELO DE LIMA
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.
Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, se demora.
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...
FERNANDO PESSOA
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
EDMUNDO DE BETTENCOURT
ABRIGO
Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.
Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,
que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!
Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...
VITORINO NEMÉSIO
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
CARLOS DE OLIVEIRA
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
MANUEL DE CASTRO
A VOZ QUASE SILÊNCIO
vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento
o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos
ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade
garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio
ANTÓNIO GANCHO
ULISSES-OLISIPO
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar
Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.
[todos estes poemas estão incluídos em Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1985]
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sonetos
11.3.04
[enviado por um amigo]
Esta manhã explodia o terror em Madrid...
Ontem, as laudes da liturgia das horas propunham-nos este salmo...
Salmo 76(77)
Lembrando as maravilhas do Senhor
Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos (2Cor 4,8).
[...]
Será que Deus se esqueceu de ter piedade?
Será que a ira lhe fechou o coração?
Eu confesso que é esta a minha dor:
"A mão de Deus não é a mesma: está mudada!"
Mas, recordando os grandes feitos do passado,
vossos prodígios eu relembro, ó Senhor;
eu medito sobre as vossas maravilhas
e sobre as obras grandiosas que fizestes.
São santos, ó Senhor, vossos caminhos!
[...]
Voltemos a rezá-lo!...
Esta manhã explodia o terror em Madrid...
Ontem, as laudes da liturgia das horas propunham-nos este salmo...
Salmo 76(77)
Lembrando as maravilhas do Senhor
Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos (2Cor 4,8).
[...]
Será que Deus se esqueceu de ter piedade?
Será que a ira lhe fechou o coração?
Eu confesso que é esta a minha dor:
"A mão de Deus não é a mesma: está mudada!"
Mas, recordando os grandes feitos do passado,
vossos prodígios eu relembro, ó Senhor;
eu medito sobre as vossas maravilhas
e sobre as obras grandiosas que fizestes.
São santos, ó Senhor, vossos caminhos!
[...]
Voltemos a rezá-lo!...
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