24.4.04

[sejamos ecfrásticos, meu amor - I]



JORGE DE SOUSA BRAGA

René Magritte
OS AMANTES


Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.

Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

(in 365 nº 14 - Abril/Maio de 2004)

23.4.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

SHAKESPEARE


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.


Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.


Poor soul, the centre of my sinful earth,
Feeding these rebel powers that thee array,
Why dost thou pine within and suffer dearth,
Painting thy outward walls so costly gay?
Why so large cost, having so short a lease,
Dost thou upon thy fading mansion spend?
Shall worms, inheritors of this excess,
Eat up thy charge? Is this thy body's end?
Then soul, live thou upon thy servant's loss,
And let that pine to aggravate thy store;
Buy terms divine in selling hours of dross;
Within be fed, without be rich no more:
So shall thou feed on Death, that feeds on men,
And Death once dead, there's no more dying then.


Centro da minha alma pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?
Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?
Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,
sem piedade do servo ao teu serviço.
Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.

("reescritos em português" por Carlos de Oliveira)


When I consider every thing that grows
Holds in perfection but a little moment,
That this huge stage presenteth nought but shows
Whereon the stars in secret influence comment;
When I perceive that men as plants increase,
Cheered and checked even by the self-same sky,
Vaunt in their youthful sap, at height decrease,
And wear their brave state out of memory;
Then the conceit of this inconstant stay
Sets you most rich in youth before my sight,
Where wasteful Time debateth with decay
To change your day of youth to sullied night,
And all in war with Time for love of you,
As he takes from you, I engraft you new.


Se considero tudo quanto cresce e apenas
por um fugaz momento na perfeição avulta,
e se este palco enorme não mostra mais que cenas
que os astros acompanham por influência oculta;
se vejo que igual céu anima e desanima
tanto homens como plantas que a par se desenvolvem,
juvenil seiva eleva-os e ao fim tombam de cima,
e logo da lembrança tais glórias se dissolvem;
então o conceber desta inconstante essência
te põe ante meus olhos mais rico em juventude,
enquanto o tempo pródigo se alia à decadência
para que o teu jovem dia na treva vil se mude.
Só por amor de ti, co tempo guerreando,
quanto ele te roubar te vou reenxertando.

(tradução de Vasco Graça Moura em 1987)


From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress'd in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laughed and leapt with him.
Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer's story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:
Nor did I wonder at the lily's white,
Nor praise the deep vermilion in the rose;
They were but sweet, but figures of delight,
Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seemed it winter still, and you away,
As with your shadow I with these did play.


Ausentei-me de ti na primavera,
quando Abril de esplendor se ataviava
e a cada coisa uma alma jovem dera
e até Saturno ria e saltitava.
Mas não me fez chilreio, cheiro doce
das várias flores, nem o seu matiz,
que ao viço em tal regaço colher fosse
ou histórias contar primaveris.
Nem me maravilhou do lírio a alvura,
nem vermelhão da rosa em seu veludo;
doces, não mais, deleites em figura,
copiados de ti, modelo a tudo.
Mas, parecendo inverno e tu ausente,
a tua sombra neles me contente.

(tradução de Vasco Graça Moura em 2002)


MIGUEL DE CERVANTES

Al túmulo del Rey Felipe II en Sevilla


Voto a Dios que me espanta esta grandeza
y que diera un doblón por describilla;
porque ¿a quién no sorprende y maravilla
esta máquina insigne, esta riqueza?

Por Jesucristo vivo, cada pieza
vale más de un millón, y que es mancilla
que esto no dure un siglo, ¡oh gran Sevilla!,
Roma triunfante en ánimo y nobleza.

Apostaré que el ánima del muerto
por gozar este sitio hoy ha dejado
la gloria donde vive eternamente.

Esto oyó un valentón, y dijo: "Es cierto
cuanto dice voacé, señor soldado.
Y el que dijere lo contrario, miente."

Y luego, incontinente,
caló el chapeo, requirió la espada,
miró al soslayo, fuese, y no hubo nada.


Soneto "Ao túmulo do Rei Filipe II em Sevilha"

Voto a Deus que me espanta esta grandeza,
e que dera um dobrão por descrevê-la.
Pois a quem não compreende e não apela
esta máquina insigne, esta riqueza?

Por Jesus Cristo vivo, esta proeza
vale mais de um milhão, e que é querela
não dure sempre - ó Sevilha bela!,
triunfante Roma de ânimo e nobreza.

Apostarei que o morto volta o mundo
e por gozar tal sítio hoje há deixado
a glória onde vive eternamente.

Ouviu-me um valentaço, e diz: "Profundo
quanto disse vancê, senhor soldado,
e quem o contrairo inda decrarare, mente!"

E logo, incontinente,
calou o chapéu, e se ajustou a espada,
olhou de esguelha, e não se passou nada.

(tradução de Jorge de Sena)


[Dámon]

Si el áspero furor del mar airado
por largo tiempo en su rigor durase,
mal se podría hallar quien entregase
su flaca nave al piélago alterado.

No permanesce siempre en un estado
el bien ni el mal, que el uno y otro vase;
porque si huyese el bien y el mal quedase,
ya sería el mundo a confusión tornado.

La noche al día, y el calor al frío,
la flor al fruto van en seguimiento,
formando de contrarios igual tela.

La sujeción se cambia en señorío,
en placer el pesar, la gloria en viento,
che per tal variar natura è bella.


Se o áspero furor do mar irado
por longo tempo em seu rigor durasse,
mal se podia achar quem entregasse
sua fraca nave ao pélago alterado.

Não permanece sempre num estado
o mal ou bem, que são esquiva face;
porque, se o bem fugisse e o mal ficasse,
teria o mundo à confusão voltado.

A noite ao dia, e o calor ao frio,
a flor ao fruto vão em seguimento,
formando de contrários igual tela.

A sujeição se troca em senhorio,
Em prazer o pesar, a glória em vento,
che per tal variar natura è bella.


[Timbrio]

Tan bien fundada tengo la esperanza,
que, aunque más sople riguroso viento,
no podrá desdecir de su cimiento:
tal fe, tal fuerza y tal valor alcanza.

Tan lejos voy de consentir mudanza
en mi firme amoroso pensamiento,
cuan cerca de acabar en mi tormento
antes la vida que la confianza.

Que si al contraste del amor vacila
el pecho enamorado, no meresce
del mesmo amor la dulce paz tranquila.

Por esto el mío, que su fe engrandece,
rabie Caribdis o amenace Cila,
al mar se arroja y al amor se ofresce.


Tão bem fundada tenho minha esp'rança
que, embora mais severo sopre o vento,
não se pode desviar do fundamento:
tal fé, tal força e tal valor alcança.

Tão longe vou de consentir mudança
em meu firme, amoroso pensamento,
quão cerca de acabar em meu tormento
antes a vida do que a confiança.

Que se ao contraste do amor vacila
o peito enamorado não merece
do mesmo amor a doce paz tranquila.

Por isso o meu, cuja fé engrandece,
raive Caríbdis ou ameace Cila,
ao mar se lança e ao amor se of'rece.

(de La Galatea - tradução de José Bento)


Cuando Preciosa el panderete toca
y hiere el dulce son los aires vanos,
perlas son que derrama con las manos;
flores son que despide de la boca.

Suspensa el alma, y la cordura loca,
queda a los dulces actos sobrehumanos,
que, de limpios, de honestos y de sanos,
su fama al cielo levantado toca.

Colgadas del menor de sus cabellos
mil almas lleva, y a sus plantas tiene
amor rendidas una y otra flecha.

Ciega y alumbra con sus soles bellos,
su imperio amor por ellos le mantiene,
y aún más grandezas de su ser sospecha.

¡Por Dios dijo el que leyó el soneto, que tiene donaire el poeta que le escribió!


Quando Preciosa a pandeireta toca
e o som suave fere os ventos vãos,
pér'las são que derrama com as mãos;
e flores são o que lança da boca.

A alma suspensa e a prudência louca,
queda pròs doces actos mais que chãos,
que, de puros, de honestos e de sãos
a sua fama ao céu erguido toca.

Suspensas do menor de seus cabelos
leva mil almas, e a seus pés tem
amor rendidas uma e outra seta.

Cega e ilumina com os seus sóis belos,
amor seu império por elas mantém,
e mais grandezas de seu ser suspeita.

(de La gitanilla - Novelas ejemplares - tradução de José Bento)

22.4.04

HEINER MÜLLER

O ANJO SEM SORTE.
Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.

(de O Anjo do Desespero, tradução e posfácio de João Barrento, Relógio d'Água editores, 1997)

15.4.04

FERNANDO ECHEVARRIA

Descobriremos o nosso movimento
quase uma folha,
ou quase uma pupila
que se inclinasse e só nos desse o tempo
de uma somba passar e entrar no olvido.
Mas, sobretudo, veremos
pensar-se um ar antigo
que vem ao movimento
quando mover-se nem sequer é escrito.

(de Sobre as Horas, 1963)

9.4.04

Cardeal CARLO MARIA MARTINI

A Beleza crucificada: Sexta-feira Santa e o hoje da dor do homem


A Cruz é revelação da Trindade na hora da “entrega” e do abandono: o Pai é Aquele que entrega o Filho à morte, por nós; o Filho é Aquele que Se entrega por nosso amor; o Espírito é o Consolador no abandono, entregue pelo Filho ao Pai, na hora da Cruz (“E inclinando a cabeça, entregou o Espírito”: Jo 19, 30; cf. Hb 9, 14) e pelo Pai ao Filho, na ressurreição (cf. Rm 1, 4). Na Cruz, a dor e a morte entram em Deus por amor dos sem Deus: o sofrimento divino, a morte em Deus, a debilidade do Omnipotente são outras tantas revelações do seu amor pelos homens. É este amor incrível e ao mesmo tempo suave e atraente que nos envolve e fascina, exprimindo a verdadeira Beleza que salva. Este amor é fogo devorador, ao qual só se pode resistir por uma incredulidade obstinada ou por uma recusa persistente em nos colocarmos em silêncio frente ao seu mistério, ou seja, pela rejeição “da dimensão contemplativa da vida”.
É verdade que o Deus cristão não dá, deste modo, uma resposta teórica à interrogação sobre o porquê da dor do mundo. Ele oferece-Se, simplesmente, como “guardião”, como “seio” dessa dor, o Deus que não deixa que se perca nenhuma lágrima dos seus filhos, porque as faz suas. É um Deus próximo, que precisamente na proximidade revela o seu amor misericordioso e a sua ternura fiel. Convida-nos a entrar no coração do Filho, que se abandona ao Pai, e a sentir-nos, assim dentro do próprio mistério da Trindade.
O Filho é o grande companheiro do sofrimento humano, Aquele que nos é dado reconhecer em todos os sofrimentos, sobretudo naqueles aos quais chamamos “inocentes”. O rosto “frente ao qual todos cobrem o rosto” (Is 53, 3), revela-se-nos como um rosto belo, aquele que Madre Teresa de Calcutá contemplava com ternura nos seus pobres e nos moribundos.

(de Que beleza salvará o mundo?, edições Paulinas, 1999)
tenho sede

8.4.04

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

(...) espantam as palavras de Jesus que nesta quinta-feira santa, especialmente, se recordam. Ele pegou no pão e disse: "Tomem e comam dele, pois este pão é o meu corpo entregue por vós". A Eucaristia, por vezes repetida como mero culto devoto, rotineiro signo de uma pertença sociológica implícita, é, na verdade, o lugar vital da decisão sobre o que fazer da vida. Todas as vidas são pão, mas nem todas são Eucaristia, isto é, oferta radical de si, entrega, doação, serviço. Todas as vidas chegam ao fim, mas nem todas vão até ao fim no parto dessa utopia (humana e divina) que trazem inscritas. É disto que a Eucaristia fala.

(vale a pena ler o texto completo)
PIERRE JOUNEL

Da Ceia do Senhor à Eucaristia da Igreja


A Eucaristia da Igreja mergulha as suas raízes na Ceia de Jesus. Ao reunirem-se para celebrar a Refeição do senhor, os cristãos comem do pão partido e bebem do cálice de vinho, depois de o sacerdote ter pronunciado, na oração de bênção, as palavras de Jesus: Tomai e comei, isto é o meu corpo. Bebei todos deste cálice: este é o meu sangue (Mt 26, 27). Fazei isto em memória de mim (Lc 22, 19).
Memorial da última Ceia, A Eucaristia deveria ser marcada pela tristeza das despedidas do Mestre e do anúncio da sua morte próxima, morte que ela antecipava em mistério: o pão e o vinho tornam-se, de facto, o corpo entregue e o sangue derramado (Lc 22, 19-20). E, no entanto, a celebração desenrola-se em clima de alegria, é "eucaristia", o que quer dizer, simultaneamente, bênção, louvor, acção de graças. É a repetição da refeição tomada por Jesus com os seus apóstolos, ao começar a sua paixão, e realiza-se à lus da Páscoa. A paixão dolorosa tornou-se aí "bem-aventurada paixão", paixão triunfal. Na véspera da sua morte, Jesus falara aos seus do vinho novo que beberia com eles no reino de seu Pai. E eis que, na tarde da ressurreição, Ele parte o pão aos dois discípulos, com quem se juntaria na estrada de Emaús (Lc 24, 30), e a seguir partilha, com os dez apóstolos reunidos na cidade, o que sobrara da refeição deles (Lc 24, 41). Algum tempo depois, dir-lhes-á, junto à margem do lago da Galileia: vinde almoçar (Jo 21, 12). Por fim, depois de se ter sentado com eles à mesma mesa, deixou-os para voltar para seu Pai (Act 1, 4).
A partir desse momento, a lembrança da refeição que antecipou o sacrifício da cruz ficou unida à das refeições tomadas com o Ressuscitado.
(...)
Morte e ressurreição, preparadas por uma inserção íntima de Deus na família humana, tal é o mistério pascal de Cristo, mistério que se perpetuará ao longo dos séculos na liturgia da Igreja.

(de A Missa Ontem e Hoje, Gráfica de Coimbra, 1988)

7.4.04

MARIA VITORIA ATENCIA

A NOITE


Pode a lua cegar-nos, ela que em nosso leito
nos convoca, nos fere fatalmente ou cativa,
fiéis a seu intento de um sono desvelado.
Abre-se a noite. Dura. A trepadeira é cúmplice.
Cai ao chão a roupa ínima. Porém, idêntica
aurora há-de velar-nos ou ser glória nossa.

(tradução de José Bento)
Por via da Cláudia, tomo conhecimento de uma das poucas notícias de jornal que me poderiam deixar maravilhado.
Em Quarta-Feira Santa, pré-aviso de blog.

6.4.04

ANTÓNIO BARAHONA

PRIMEIRO MISTÉRIO DOLOROSO / A AGONIA DE CRISTO NO JARDIM DAS OLIVEIRAS

Que não resulte inútil e nos salve
este suor de sangue, gota a gota,
derramado na nossa face humana
pla Santa Face prosternada em prece

Que não resulte inútil: seja prática
a memória do sangue, que nos move
a rezar solidários por quem sofre
na infinita solidão sem sombra

Que não resulte inútil, que não durma
nenhum de nós: fiquemos de vigia:
a vida é curta pra tão longa hora!

Que não resulte inútil, que se cumpra
a promessa de Deus à Sua Igreja,
que continua Cristo em agonia

(de Rosas Brancas e Vermelhas para um rosário jubilar, edições Paulinas e Ajuda à Igreja que Sofre, 2000 - colecção Celebrar)