1.5.04

PETER HANDKE

A criança acabou de escrever e leu: «Como eu imagino uma vida melhor: Gostava que não fizesse nem calor nem frio. Devia soprar sempre um vento leve, por vezes devia haver uma tempestade em que as pessoas se têm de pôr de cócoras. Os carros desapareciam. As casas deviam ser encarnadas. Os arbustos deviam ser de ouro. Já se sabia tudo e não era preciso aprender nada. Vivia-se em ilhas. Nas ruas os carros estão abertos e pode-se entrar para dentro quando se está cansado. Os carros não pertencem a ninguém. À noite fica tudo aberto. As pessoas adormecem no sítio onde estão. Nunca chove. De todos os amigos ficam quatro e todas as pessoas que não se conhece desaparecem. Tudo o que não se conhece desaparece.»

(excerto de A Mulher Canhota, traduzido por Maria Adélia Silva Melo, Difel, s/d)

30.4.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

TRISTAN TZARA

Chanson dada


I

la chanson d'un dadaïste
qui avait dada au coeur
fatiguait trop son moteur
qui avait dada au coeur

l'ascenseur portait un roi
lourd fragile autonome
il coupa son grand bras droit
l'envoya au pape à rome

c'est pourquoi
l'ascenseur
n'avait plus dada au coeur

mangez du chocolat
lavez votre cerveau
dada
dada
buvez de l'eau

II

la chanson d'un dadaïste
qui n'était ni gai ni triste
et aimait une bicycliste
qui n'était ni gaie ni triste

mais l'époux le jour de l'an
savait tout et dans une crise
envoya au vatican
leurs deux corps en trois valises

ni amant
ni cycliste
n'étaient plus ni gais ni tristes

mangez de bons cerveaux
lavez votre soldat
dada
dada
buvez de l'eau

III

la chanson d'un bicycliste
qui était dada de coeur
qui était donc dadaïste
comme tous les dadas de coeur

un serpent portait des gants
il ferma vite la soupape
mit des gants en peau d'serpent
et vient embrasser le pape

c'est touchant
ventre en fleur
n'avait plus dada au coeur

buvez du lait d'oiseaux
lavez vos chocolats
dada
dada
mangez du veau

(1923)



CANÇÃO DADA

I

A canção de um dadaísta
com dada no coração
cansava-o de motorista
com dada no coração

o ascensor levava um rei
frágil denso de redoma
que o braço direito cortou
e o mandou ao papa em Roma

e eis a razão
do ascensor não
ter dada no coração

comam chocolates
lavem a mioleira
dada
dada
bebam água da torneira

II

A canção de um dadaísta
não alegra nem atrista
mas amava uma ciclista
nada a alegra nem atrista

soube o marido do engano
e não esteve com mais tretas
mandou logo ao vaticano
dois corpos em três maletas

nem amante
nem ciclista
nenhum se alegra ou se atrista

comam a mioleira
lavem o magala
dada
dada
bebam água da torneira

III

A canção de um ciclista
dada pelo coração
que era pois um dadaísta
com dada no coração

punha luvas a serpente
fecha a porta do cortiço
luvas de pele de serpente
beija o papa no toutiço

é comovente
o ventre em floração
sem dada no coração

bebam leite de pardais
lavem o chocolate
dada
dada
comam vitela e não mais.

(tradução de Jorge de Sena)

29.4.04

[convocam-se os Clã para a comemoração do dia mundial da dança]

CARLOS TÊ

Não é impossível dançar
mesmo p'ra quem tenha
pé de chumbo
dançar é apenas um modo
mais intenso de existir,
é sentir o tempo do mundo
e deixar-se ir

as ondas, a lua e a chuva
entram na roda também
o tambor do mundo
não exclui ninguém

as coisas não descansam
não desistem
felizes por existir
elas dançam

nas abas do vento
deixam-se ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo

impondo um quebrado nexo
dos pés às cabeças
tabuada do sexo
Maputo ou Moscovo
Rio ou Pequim
a dança passa por nós
e nós dizemos sim

nas abas do vento
deixa-te ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo

nas abas do vento
deixar-se ir
sem pensar
quase a cair
mas sempre no tempo

(do álbum Kazoo, de 1997)

28.4.04

O fortuna!
[colecção de colecções]

O APRENDIZ DE FEITICEIRO
(até ao n.º 17 publicados pela Editorial O Oiro do Dia excepto o n.º 12. O n.º 12 e do n.º 18 ao 24 a edição foi de Publicações Dom Quixote e desde o n.º 25 da Campo das Letras Editores - as datas são as das primeiras edições na colecção)

1- Poemas de Ezra Pound e de Gottfried Benn em traduções de José Palla e Carmo e de Joäo Barrento com um desenho de Armando Alves - 1981
2- Alentejo não tem sombra antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo por Eugénio Andrade com uma pintura de Armando Alves e outra de Jorge Pinheiro - 1981
3- Chuva sobre o rosto por Eugénio de Andrade com um retrato de sua Mãe pelo escultor José Rodrigues - 1981
4- Arquitectura de signos de Ulalume González de León e Amorgos - a uma estrela verde de Nikos Gatsos em traduções de António Ramos Rosa e de Mário Cláudio com um desenho de Ângelo de Sousa - 1983
5- Nó cego, o regresso poema de Vasco Graça Moura com uma aguarela de Mário Botas - 1982
6- Rimas de Gustavo Adolfo Bécquer em tradução de José Bento com um retrato de Bécquer por Valeriano Bécquer seu irmão - 1983
7- 27 poemas de Juan Ramón Jiménez e Diálogo de Vénus e Priapo e outros poemas de Rafael Alberti em tradução de José Bento com um retrato de Jiménez e Alberti por Armando Alves - 1983
8- Os remos escaldantes de Albano Martins e 12 poemas ingénuos e 1 post-scriptum de Teresa Balté com um desenho de Armanda Passos - 1984
9- As baleias não choram! de D. H. Lawrence e A mulher sem sombra de Hugo von Hofmannsthal em traduções de Fernando Guimarães e Maria de Lurdes G. Guimarães com um desenho de Diogo Alcoforado - 1984
10- Travelling de Eduarda Chiote e Quem näo vier do sul de Helga Moreira com um desenho de Armando Alves - 1983
11- Coração habitado poemas de Eugénio de Andrade com um desenho do escultor José Rodrigues - 1983
12- Poemas de Goethe e Oito sonetos a Orfeu de Rilke em traduções de Yvette K. Centeno e de Nuno Lobo Salgueiro com um desenho de Rosa Ramos - 1983
13- Das torres do mar de Mário Cláudio com um desenho do autor por José Rodrigues - 1983
14- Caderno de olhares textos sobre alguns artistas plásticos de Vasco Graça Moura com um retrato do autor por Armando Alves - 1983
15- Discurso para os grandes dias de um jovem chamado Pablo Picasso de Louis Aragon e outros poemas de Pablo Neruda e de Rafael Alberti em traduções de Luiza Neto Jorge e de José Bento com um desenho de José Rodrigues - 1987
16- Sete odes e três sonetos de Frei Luis de Léon e Dezoito sonetos de Luis Góngora traduzidos por José Bento - 1987
17- Quatro horas em Chatila de Jean Genet em tradução de Luiza Neto Jorge com um desenho de Jorge Pinheiro - 1988
18- O funeral do Imperador de Victor Hugo em tradução de Luiza Neto Jorge com um desenho de Victor Hugo - 1990
19- Poemas dos últimos anos de Teresa Balté com um desenho de Hein Semke - 1990
20- Dez poetas gregos arcaicos em selecção e versão a partir do original e notas de Albano Martins com um desenho de José Rodrigues - 1990
21- Com o sol em cada sílaba poemas de Eugénio de Andrade com uma fotografia do autor por Dario Gonçalves - 1991
22- Uma coroa de navios textos de Mário Cláudio sobre a cidade do Porto com um desenho de sobrecapa e retrato do autor por Júlio Resende - 1992
23- Dez poetas italianos contemporâneos em selecção, tradução e notas de Albano Martins com um desenho de Carlos Reis - 1992
24- Antologia de Miguel Hernández em selecção, tradução e notas de José Bento com um desenho de Luísa Gonçalves - 1993
25- O poeta e a cidade antologia de poesia contemporânea dedicada à cidade do Porto organizada por Eugénio de Andrade com uma aguarela de António Cruz - 1996 (2ª edição aumentada)
26- Gravador de chamadas poemas de Paulo Pais com um desenho de Rui Pimentel - 1997
27- 10 poemas para Che Guevara de António Ramos Rosa Egito Gonçalves Eugénio de Andrade Fiama Hasse Pais Brandão Hélia Correia João Rui de Sousa Jorge de Sena Maria Cristina de Araújo Miguel Torga e Nuno Guimarães - 1997 (3ª edição)
28- O mapa do tesouro de Egito Gonçalves com um desenho de David de Almeida - 1998
29- Garrett numa cópia perdida do Frei Luís de Sousa (31-12-1843) poema de Vasco Graça Moura com uma fotografia de Ana Gaiaz - 1999
30- Poemas de Marianne Moore e Elizabeth Bishop em tradução de Maria de Lurdes Guimarães com ilustração de Armanda Passos - 1999

27.4.04

EGITO GONÇALVES

O fingimento é uma espécie de encanto em que os sentimentos se refugiam. Lugar cheio de penumbras de onde podem espreitar o espaço aberto de onde temem que falar claro venha a ser o erro fatal que a história registará como causa da derrota. Os sentimentos são por vezes aves assustadiças que não querem perder nada da própria carne e se alimentam da alegria recôndita de que são feitas. Temem que o encanto se quebre com a entrada da luz e esta possa reflectir nos espelhos uma imagem desconhecida. Sabem que o sol é um predador traiçoeiro.

(de O Mapa do Tesouro, Campo das Letras, 1998)
O PONTO DE VISTA DO BIBLIÓMANO

Eu quero lá saber do impacto ambiental, da segurança rodoviária, do caos no trânsito, da decisão do juiz, das obras que nunca mais param, dos percursos pedonais impossíveis.
Eu só sei é que vou ter que andar muito mais para ir à Feira do Livro: as barraquinhas estão muito lá em cima...

25.4.04

U2

Is it getting better
Or do you feel the same
Will it make it easier on you now
You got someone to blame
You say...
One love
One life
When it's one need
In the night
One love
We get to share it
Leaves you baby if you
Don't care for it
Did I disappoint you
Or leave a bad taste in your mouth
You act like you never had love
And you want me to go without

Well it's...
Too late
Tonight
To drag the past out into the light
We're one, but we're not the same
We get to
Carry each other
Carry each other
One...
Have you come here for forgiveness
Have you come to raise the dead
Have you come here to play Jesus
To the lepers in your head
Did I ask too much
More than a lot
You gave me nothing
Now it's all I got
We're one
But we're not the same
Well we
Hurt each other
Then we do it again
You say
Love is a temple
Love a higher law
Love is a temple
Love the higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl
And I can't be holding on
To what you got
When all you got is hurt
One love
One blood
One life
You got to do what you should
One life
With each other
Sisters
Brothers
One life
But we're not the same
We get to
Carry each other
Carry each other
One...life
One
RRRRRRRRRRRRRRRRRREVOLUÇÃO: o começo duma palavra é precioso!

(quem te quebrou o encanto nunca te amou)

24.4.04

[sejamos ecfrásticos, meu amor - I]



JORGE DE SOUSA BRAGA

René Magritte
OS AMANTES


Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.

Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

(in 365 nº 14 - Abril/Maio de 2004)

23.4.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

SHAKESPEARE


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.


Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.


Poor soul, the centre of my sinful earth,
Feeding these rebel powers that thee array,
Why dost thou pine within and suffer dearth,
Painting thy outward walls so costly gay?
Why so large cost, having so short a lease,
Dost thou upon thy fading mansion spend?
Shall worms, inheritors of this excess,
Eat up thy charge? Is this thy body's end?
Then soul, live thou upon thy servant's loss,
And let that pine to aggravate thy store;
Buy terms divine in selling hours of dross;
Within be fed, without be rich no more:
So shall thou feed on Death, that feeds on men,
And Death once dead, there's no more dying then.


Centro da minha alma pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?
Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?
Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,
sem piedade do servo ao teu serviço.
Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.

("reescritos em português" por Carlos de Oliveira)


When I consider every thing that grows
Holds in perfection but a little moment,
That this huge stage presenteth nought but shows
Whereon the stars in secret influence comment;
When I perceive that men as plants increase,
Cheered and checked even by the self-same sky,
Vaunt in their youthful sap, at height decrease,
And wear their brave state out of memory;
Then the conceit of this inconstant stay
Sets you most rich in youth before my sight,
Where wasteful Time debateth with decay
To change your day of youth to sullied night,
And all in war with Time for love of you,
As he takes from you, I engraft you new.


Se considero tudo quanto cresce e apenas
por um fugaz momento na perfeição avulta,
e se este palco enorme não mostra mais que cenas
que os astros acompanham por influência oculta;
se vejo que igual céu anima e desanima
tanto homens como plantas que a par se desenvolvem,
juvenil seiva eleva-os e ao fim tombam de cima,
e logo da lembrança tais glórias se dissolvem;
então o conceber desta inconstante essência
te põe ante meus olhos mais rico em juventude,
enquanto o tempo pródigo se alia à decadência
para que o teu jovem dia na treva vil se mude.
Só por amor de ti, co tempo guerreando,
quanto ele te roubar te vou reenxertando.

(tradução de Vasco Graça Moura em 1987)


From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress'd in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laughed and leapt with him.
Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer's story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:
Nor did I wonder at the lily's white,
Nor praise the deep vermilion in the rose;
They were but sweet, but figures of delight,
Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seemed it winter still, and you away,
As with your shadow I with these did play.


Ausentei-me de ti na primavera,
quando Abril de esplendor se ataviava
e a cada coisa uma alma jovem dera
e até Saturno ria e saltitava.
Mas não me fez chilreio, cheiro doce
das várias flores, nem o seu matiz,
que ao viço em tal regaço colher fosse
ou histórias contar primaveris.
Nem me maravilhou do lírio a alvura,
nem vermelhão da rosa em seu veludo;
doces, não mais, deleites em figura,
copiados de ti, modelo a tudo.
Mas, parecendo inverno e tu ausente,
a tua sombra neles me contente.

(tradução de Vasco Graça Moura em 2002)


MIGUEL DE CERVANTES

Al túmulo del Rey Felipe II en Sevilla


Voto a Dios que me espanta esta grandeza
y que diera un doblón por describilla;
porque ¿a quién no sorprende y maravilla
esta máquina insigne, esta riqueza?

Por Jesucristo vivo, cada pieza
vale más de un millón, y que es mancilla
que esto no dure un siglo, ¡oh gran Sevilla!,
Roma triunfante en ánimo y nobleza.

Apostaré que el ánima del muerto
por gozar este sitio hoy ha dejado
la gloria donde vive eternamente.

Esto oyó un valentón, y dijo: "Es cierto
cuanto dice voacé, señor soldado.
Y el que dijere lo contrario, miente."

Y luego, incontinente,
caló el chapeo, requirió la espada,
miró al soslayo, fuese, y no hubo nada.


Soneto "Ao túmulo do Rei Filipe II em Sevilha"

Voto a Deus que me espanta esta grandeza,
e que dera um dobrão por descrevê-la.
Pois a quem não compreende e não apela
esta máquina insigne, esta riqueza?

Por Jesus Cristo vivo, esta proeza
vale mais de um milhão, e que é querela
não dure sempre - ó Sevilha bela!,
triunfante Roma de ânimo e nobreza.

Apostarei que o morto volta o mundo
e por gozar tal sítio hoje há deixado
a glória onde vive eternamente.

Ouviu-me um valentaço, e diz: "Profundo
quanto disse vancê, senhor soldado,
e quem o contrairo inda decrarare, mente!"

E logo, incontinente,
calou o chapéu, e se ajustou a espada,
olhou de esguelha, e não se passou nada.

(tradução de Jorge de Sena)


[Dámon]

Si el áspero furor del mar airado
por largo tiempo en su rigor durase,
mal se podría hallar quien entregase
su flaca nave al piélago alterado.

No permanesce siempre en un estado
el bien ni el mal, que el uno y otro vase;
porque si huyese el bien y el mal quedase,
ya sería el mundo a confusión tornado.

La noche al día, y el calor al frío,
la flor al fruto van en seguimiento,
formando de contrarios igual tela.

La sujeción se cambia en señorío,
en placer el pesar, la gloria en viento,
che per tal variar natura è bella.


Se o áspero furor do mar irado
por longo tempo em seu rigor durasse,
mal se podia achar quem entregasse
sua fraca nave ao pélago alterado.

Não permanece sempre num estado
o mal ou bem, que são esquiva face;
porque, se o bem fugisse e o mal ficasse,
teria o mundo à confusão voltado.

A noite ao dia, e o calor ao frio,
a flor ao fruto vão em seguimento,
formando de contrários igual tela.

A sujeição se troca em senhorio,
Em prazer o pesar, a glória em vento,
che per tal variar natura è bella.


[Timbrio]

Tan bien fundada tengo la esperanza,
que, aunque más sople riguroso viento,
no podrá desdecir de su cimiento:
tal fe, tal fuerza y tal valor alcanza.

Tan lejos voy de consentir mudanza
en mi firme amoroso pensamiento,
cuan cerca de acabar en mi tormento
antes la vida que la confianza.

Que si al contraste del amor vacila
el pecho enamorado, no meresce
del mesmo amor la dulce paz tranquila.

Por esto el mío, que su fe engrandece,
rabie Caribdis o amenace Cila,
al mar se arroja y al amor se ofresce.


Tão bem fundada tenho minha esp'rança
que, embora mais severo sopre o vento,
não se pode desviar do fundamento:
tal fé, tal força e tal valor alcança.

Tão longe vou de consentir mudança
em meu firme, amoroso pensamento,
quão cerca de acabar em meu tormento
antes a vida do que a confiança.

Que se ao contraste do amor vacila
o peito enamorado não merece
do mesmo amor a doce paz tranquila.

Por isso o meu, cuja fé engrandece,
raive Caríbdis ou ameace Cila,
ao mar se lança e ao amor se of'rece.

(de La Galatea - tradução de José Bento)


Cuando Preciosa el panderete toca
y hiere el dulce son los aires vanos,
perlas son que derrama con las manos;
flores son que despide de la boca.

Suspensa el alma, y la cordura loca,
queda a los dulces actos sobrehumanos,
que, de limpios, de honestos y de sanos,
su fama al cielo levantado toca.

Colgadas del menor de sus cabellos
mil almas lleva, y a sus plantas tiene
amor rendidas una y otra flecha.

Ciega y alumbra con sus soles bellos,
su imperio amor por ellos le mantiene,
y aún más grandezas de su ser sospecha.

¡Por Dios dijo el que leyó el soneto, que tiene donaire el poeta que le escribió!


Quando Preciosa a pandeireta toca
e o som suave fere os ventos vãos,
pér'las são que derrama com as mãos;
e flores são o que lança da boca.

A alma suspensa e a prudência louca,
queda pròs doces actos mais que chãos,
que, de puros, de honestos e de sãos
a sua fama ao céu erguido toca.

Suspensas do menor de seus cabelos
leva mil almas, e a seus pés tem
amor rendidas uma e outra seta.

Cega e ilumina com os seus sóis belos,
amor seu império por elas mantém,
e mais grandezas de seu ser suspeita.

(de La gitanilla - Novelas ejemplares - tradução de José Bento)

22.4.04

HEINER MÜLLER

O ANJO SEM SORTE.
Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.

(de O Anjo do Desespero, tradução e posfácio de João Barrento, Relógio d'Água editores, 1997)

15.4.04

FERNANDO ECHEVARRIA

Descobriremos o nosso movimento
quase uma folha,
ou quase uma pupila
que se inclinasse e só nos desse o tempo
de uma somba passar e entrar no olvido.
Mas, sobretudo, veremos
pensar-se um ar antigo
que vem ao movimento
quando mover-se nem sequer é escrito.

(de Sobre as Horas, 1963)