2.7.04

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

INSCRIÇÃO


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto ao mar

(de Livro Sexto, 1962)
Morreu o homem que recusou o Óscar de melhor actor no ano em que eu nasci.

30.6.04

Quem deve estar todo contente é o Alexandre Andrade: a selecção da República Portuguesa venceu três selecções de países monárquicos, afastando agora, aliás, a última que restava.
Este golo do Cristiano Ronaldo foi mais um madeirense a afirmar:

"a minha cabeça estremece"

29.6.04

Afinal o que importa...

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

[isto é uma Nobilíssima Visão de um senhor sem dentes...]

25.6.04

SÉRGIO GODINHO

ESPECTÁCULO (excerto)


Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar

(do álbum Campolide, 1979 e, em dueto com Manuela Azevedo - e os Clã - em Coincidências, 2001)

23.6.04

[para uma não-justificação da minha ausência temporária]

LEOPOLDO PANERO

Para inventar Deus, nossa palavra
busca, dentro do peito,
sua própria semelhança e não a encontra,
como as ondas do tranquilo mar,
uma após outra, iguais,
querem a exactidão do infinito
medir, enquanto cantam...
E Seu nome sem letras,
escrito a cada instante pela espuma,
some-se a cada instante
embalado pela música da água;
e nas praias fica só um eco.

Que número infinito
nos conta o coração?
Cada latejo,
outra vez é mais doce, e outra, e outra;
outra vez cegamente e de seu íntimo
vai pronunciar Seu nome.
E outra vez se ensombra o pensamento,
e a voz não o encontra.
Dentro do peito está.
Teus filhos somos,
ainda que não saibamos nunca
dizer-te a palavra exacta e Tua,
que repete na alma o doce e firme
girar das estrelas.

(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

17.6.04

E quais são as palavras com que um homem
responde às tardes de sol?
JOSÉ GOMES FERREIRA

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformaram.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

(primeiro poema, de 1931, de Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim)
A entrada anterior é resultado de um certo cansaço mental, mas também da necessidade de canalizar energias criativas para outras coisas que desejo fazer.
Foi com uma intensa perplexidade feliz que me fui deparando com as reacções de alguns amigos.
Não faz, pois, sentido parar - mas necessito abrandar...
Talvez o Mestre Zé Gomes, a seguir, explique melhor o que tenho para dizer.

14.6.04

Somewhere...
We'll find a new way of living


Páro por aqui...
Não sei se definitivamente, mas páro.

Numa semana em que teria muito para dizer.
Dos 100 anos do dia de Bloom e dos 60 de Chico Buarque;
dos livros de Ruy Ventura e de Gonçalo M. Tavares que são do melhor de agora;
dos discos de Fausto e de José Mário Branco que provam que a cantiga continua mesmo a ser uma arma contra a buguesia;
da edição da Naxos do West Side Story que comprei há dias (uma das faixas lembra-me da imensa vergonha que é ainda não ter dado os parabéns ao Tiago...);
da fantástica pechincha de menos de 5 euros, na FNAC do Colombo, que foi o CD com as primeiras gravações do David Bowie, incluindo a primeira versão do Space Oddity;
das traduções que ando a fazer de Desnos;
do projecto A Naifa que me fez ir voltar a ouvir a Linha da Frente, o Wordsong (com poemas do Al Berto) e o projecto Os Poetas, mas também o CD de Vitorino de Almeida, Gaudeamus, em que musicou poetas de todos os países da UE (em 1996) ou os excelentes tabalhos de Lopes Gaça com a poesia portuguesa.

Talvez o ter demasiado paa dizer me deixe demasiado cansado... Talvez não tenha o talento para o dizer...
Fico por aqui.
Talvez volte.

There's a place for us A time and place for us

11.6.04

JORGE DE SENA

RAY CHARLES


Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

15/Mar/1964

(de América, América, I Love You, incluído no volume Sequências, Moraes editores, 1980)

7.6.04

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

A ÁRDUA CIÊNCIA


Ao subir a montanha
assistimos ainda ao júbilo dos construtores.
Os seus martelos acordam em sobressalto ao
alvorecer da pedra.
O seu coração é invisível.
Vive com o meu na inocência das terras,
iniciando o alicerce.
E a pedra rasgada compõe a obra como se fosse a
terrível verdade dos salmos,
uma rima atroz.
A visão das catedrais alimenta-se da tua ira.
Tu és a arte de erguer aos céus uma palavra baixa,
murmurada rente ao chão,
esculpida em ti.

(de Paixão e Cinzas, Assírio & Alvim, 1992)
Hoje há terra da Alegria

6.6.04

[colecção de coleccções - II]

Poetas em Mateus (Quetzal editores)

Trata-se do resultado dos seminários de tradução colectiva organizados pela Fundação Casa de Mateus, que conta com a presença dos poetas traduzidos. A data entre parêntesis corresponde à data em que se realizou o seminário, não tendo sido possível apurar as datas omissas por os respectivos volumes estarem esgotados...

Teoria das mesas antecedido de Elegia 7 / Emmanuel Hocquard, rev. e apres. por Egito Gonçalves, 1991 (Dezembro 1990)
Erro de localização dos acontecimentos no tempo / Claude Royet-Journoud, rev. e apres. por Pedro Tamen, 1991 (Dezembro 1990)
Uma onda e outros poemas / John Ashbery, rev., complet. e apres. por João Barrento, colab. Richard Zenith, 1992 (Junho 1991)
Uma luz diferente / John Montague, rev., complet. e apres. por Fernando J. B. Martinho, 1993 (Setembro 1991)
O jardim da dor e outros poemas / Thomas McCarthy, rev., complet. e apres. por Laureano Silveira, 1993 (Setembro 1991)
A espinha do P / Valerio Magrelli, rev. e apres. por Maria Carlos Loureiro, 1993 (Março 1992)
Memória / Franco Loi, rev. e apres. por António Osório, 1993 (Março 1992)
Sombras oblíquas / Demóstenes Agrafiotis, rev. e apres. por Fernando Echevarría, 1994 (Outubro 1992)
A outra versão / Tassos Denegris, rev. e apres. por Fiama Hasse Pais Brandão, colab. Nuno Júdice, 1994 (Outubro 1992)
Cantos de recusa / Anise Kolz, trad. colectiva, rev. e apres. por Casimiro de Brito, 1994 (Maio 1993)
Jardins mínimos e outros poemas / Jacques Izoard, rev. e apres. Fernando Pinto do Amaral, 1994 (Maio 1993)
Castanhas quentes e outros poemas / Richard Wagner, rev., complet. e apres. por Maria Teresa Dias Furtado, 1994 (Outubro 1993)
Como se fosse a minha vida / Hans-Ulrich Treichel, trad. colectiva, rev., complet. e apres. por João Barrento, 1994 (Outubro 1993)
Visitação / Ruth Fainligth, rev., complet. e apres. por Ana Hatherly, 1995 (Abril-Maio 1994)
Os hectares da memória / Herman de Coninck, trad. colectiva, rev., complet. e apres. por Nuno Júdice, 1996 (Outubro 1994)
Alguns poemas / Eva Gerlach, trad. colectiva, rev., complet. e apres. por Pedro Tamen, 1996 (Outubro 1994)
O instante luminoso / Péter Zirkuli, rev. e apres. por Nuno Júdice, 1997 (Abril 1995)
Um jardim de plantas medicinais / Endre Kukorelly, rev. complet. e apres. por Fernando Pinto do Amaral, colab. Mária Démeter, 1997 (Abril 1995)
Contrabando de luz / Maria-Mercé Marçal, rev. e apres. por Luís Filipe Castro Mendes, 1996 (Outubro 1995)
Simetria / Marin Sorescu, rev., complet. e apres. por Egito Gonçalves, 1997 (Abril 1996)
O mar, entre glaciações / Nicolae Diaconu, rev. e apres. por Miguel Serras Pereira, 1997 (Maio 1996)
A linguagem de areia / Erdal Alovatrad. rev. e apres. por Fiama Hasse Pais Brandão, colab. Nuno Júdice, 1997 (Novembro 1996)
As asas de orvalho dos ventos / Adnan Özer, rev. e apres. por Jorge Velhote, 1997 (Novembro 1996)
No avesso do mundo / Juan Gelman, rev. e apres. por Ana Luísa Amaral, 1998 (Maio 1997)
Planície, sudoeste e outros poemas / Ivan Strpka, rev. e apres. por Luís Quintais, 1999 (Outubro 1997)
Mobilis in mobile / Ivan Laucik, rev. e apres. por Pedro Mexia, 1999 (Outubro 1997)
Coração de papel / Lasse Söderberg, rev. Ana Luísa Amaral e Gonçalo Vilas-Boas, 2001 (Abril-Maio 1998)
Das coisas / Michael Donhauser, rev., complet. e apres. por João Barrento, 2000 (Outubro 1998)
Uma conversa passa pelo papel e outros poemas / Bruno Weinhals, rev., complet. e apres. por Maria Teresa Dias Furtado, 2000 (Outubro 1998)
Falando só com a pedra / Salah Stétié, rev. e pref. por Fernando Guimarães, 2000 (Abril 1999)
Parcelas / Marcin Sendecki, rev., complet. e apres. por Rosa Alice Branco, 2001 (Setembro 1999)
Primeiras sequências / Henry Deluy, rev. e apres. por Laureano Silveira, 2002 (Setembro-Outubro 2000)
Ponto de focagem do oceano / Pia Tafdrup, rev., complet. e apres. por Laureano Silveira, 2004 (Junho 2002)
Livro da Noite / Per Aage Brandt, rev. e apres. por Maria João Reynaud, 2004 (Junho 2002)

A magia dos números e outros poemas / Kenneth Koch, rev., complet. e apres. por Pedro Tamen, colab. Ana Hatherly, 1992
A pura verdade / Philip Levine, rev. e apres. por Maria de Lourdes Guimarães, 1992
Médium e outros poemas / Elaine Feinstein, rev., complet., e apres. por Fernando Guimarães e Maria de Lourdes Guimarães, 1995
Bosques e cidades / Álex Susanna, rev. por Rosa Alice Branco, 1996
Cantata sombria e outros poemas / Olga Orozco, rev. e apres. por Fernando Pinto do Amaral, 1998
O próximo voo das aves / Anne Perrier, rev. e pref. por Miguel Serras Pereira, 2000