4.7.04

JORGE DE SENA

ODE PARA O FUTURO


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárneo, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

(de Pedra Filosofal, 1950)
JOÃO CABRAL DE MELO NETO

ELOGIO DA USINA
E DE SOFIA DE MELO BREINER ANDRESEN


O engenho banguê (o rolo compressor,
mais o monjolo, a moela de galinha,
e muitas moelas e moendas de poetas)
vai unicamente numa direção: na ida.
Êle faz quando na ida, ou ao desfazer
em bagaço e caldo; ele faz o informe;
faz-desfaz na direção de moer a cana,
que aí deixa; e que de mel nos moldes
madura só, faz-se: no cristal que sabe,
o do mascavo, cego (de luz e corte).

2.

Sofia vai de ida e de volta (e a usina);
ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima,
e usando apenas (sem turbinas, vácuos)
algarves de sol e mar por serpentinas.
Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,
em cristais (os dela, de luz marinha).

(de Educação pela Pedra, 1962-1965)
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

NA RUA DAS MÓNICAS


Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão, frigir
na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos, de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água
que, mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias, na cozinha)
um rosto de mar novo, de geografia.
Era escutar as palavras da boca
do vocábulo grego para a sabedoria
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me, lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada, na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
a das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor da mãe, da velha ama, da Poesia.

(de Cenas Vivas, Relógio d?Água, 2000)

3.7.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Para Sophia de Mello Breyner Andresen


Vejo-te sempre vertical num apogeu azul
em que celebras as coisas e pronuncias os nomes
com a claridade das cúpulas e das evidências solares
Em ímpetos claros vais figurando o cristal
que dos actos transferes para as palavras límpidas
O ar te deslumbra na sua extrema seda
em ângulos fugitivos Tão perto e tão remoto
o intacto rosto! Não ser? Estar estar
atentamente até que o silêncio seja o cimo
que tudo vai reunindo consagrando no visível
Que possessão d vida que doçura tão forte
te liga a tanto fundo oculto a tanta festa
silenciosa! Tudo se vai definindo em sombra e cor
e as sílabas latentes soletram as evidências
simples e prodigiosas Através delas o espaço
das coisas se identifica ao ser absoluto
Em harmoniosa fluência e na atmosfera límpida
os vocábulos dizem a amizade do universo
Tão inteira tão firme na grande realidade
que se levanta como uma onda e te expõe frente a frente!
Aproximas-te do mar dos montes e das nuvens
e sustentas a atenção pura no número dos teus versos
O teu dom de ser acende-se nas coisas e no verbo
e os volumes vivos unificam-se em assombro
Tua vasta alegria é um ócio resplandecente
que propaga e ondula o ouro maravilhado
Toda te convertes em presságio e fragrância
e a tua vida freme em ti como uma rosa no espaço
És o dia a claridade do dia dominado
e de cimo em declive és o oriente amanhecendo
Frágil é o teu poder? Frágil e perfeitíssimo
num universo em que a criatura encontra o equilíbrio
justo e a delícia da certeza que é o espaço
De súbito as palavras têm um aroma a vento
e modulam as curvas como sinuosas barcas
Insinuam por vezes matizes de palácios
com pátios interiores onde desliza a água
Nada é um sonho por mais leve que seja
porque tudo é um trabalho sobre a madeira do mundo
Que potência cálida e tão certa entre as árvores
que enlaces naturais e que cintilantes cimos!
O teu destino é já música e sortilégio simples
de uma triunfal harmonia tão límpida e tão firme
que é de todos Porque em ti o mundo se redime
e toda a magia é a realidade da palavra

(in Relâmpago nº 9, 10/2001 - número de homenagem a Sophia)
LUÍS FILIPE CASTRO MENDES

O verso de Sophia é como a luz
que cruamente rasga a natureza:
alucina a visão que nos reduz
à imagem tangente da justeza.
O rigor do seu ver torna a verdade
no desenho exterior de um pesadelo:
que a injustiça rói esta cidade
e deserta as palavras sem apelo.

(in Relâmpago nº 9, 10/2001 - número de homenagem a Sophia)

2.7.04

MANUEL ALEGRE

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Uma atenção tão concentrada que
parece distracção ou mesmo ausência.
Navegação abstracta e a urgência de
conjugar o concreto e a imanência.

Ela colhe no ar a maravilha
depois diz a safira o mar a duna
procura o oriente o azul a ilha
e seu canto a reúne: única e una.

E por isso o seu gesto é como asa
onde há a Koré grega e a grafia
de quem junta os sinais e os sons dispersos.

E o seu poema é quase como casa
e a casa é o outro espaço onde Sophia
reparte à sua mesa o pão e os versos.

(de Sonetos do Obscuro Quê, 1993)
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

RETRATO DE SOPHIA


Senhora dona águia água égua
inglesa num jardim de potros gregos
mordiscando beleza rega cega
do regador de inês em seus sossegos.

De muitos anos colhes magro fruito
que depressa transformas em compota
receita tão bem feita de que há muito
nos açucara o travo da chacota.

Porém quando por vezes és de pedra
não mármore mas árvore mas dura
do fundo do teu mar levanta-se a cratera
da nossa lusitana sepultura.

(de Fotos-Grafias, 1970)
JORGE DE SENA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
ENVIANDO-LHE UM EXEMPLAR DE «PEDRA FILOSOFAL»


Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Com quem se reparte?
Com quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

15/12/1950

(de Peregrinato ad loca infecta, 1969)
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

INSCRIÇÃO


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto ao mar

(de Livro Sexto, 1962)
Morreu o homem que recusou o Óscar de melhor actor no ano em que eu nasci.

30.6.04

Quem deve estar todo contente é o Alexandre Andrade: a selecção da República Portuguesa venceu três selecções de países monárquicos, afastando agora, aliás, a última que restava.
Este golo do Cristiano Ronaldo foi mais um madeirense a afirmar:

"a minha cabeça estremece"

29.6.04

Afinal o que importa...

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

[isto é uma Nobilíssima Visão de um senhor sem dentes...]

25.6.04

SÉRGIO GODINHO

ESPECTÁCULO (excerto)


Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar

(do álbum Campolide, 1979 e, em dueto com Manuela Azevedo - e os Clã - em Coincidências, 2001)

23.6.04

[para uma não-justificação da minha ausência temporária]

LEOPOLDO PANERO

Para inventar Deus, nossa palavra
busca, dentro do peito,
sua própria semelhança e não a encontra,
como as ondas do tranquilo mar,
uma após outra, iguais,
querem a exactidão do infinito
medir, enquanto cantam...
E Seu nome sem letras,
escrito a cada instante pela espuma,
some-se a cada instante
embalado pela música da água;
e nas praias fica só um eco.

Que número infinito
nos conta o coração?
Cada latejo,
outra vez é mais doce, e outra, e outra;
outra vez cegamente e de seu íntimo
vai pronunciar Seu nome.
E outra vez se ensombra o pensamento,
e a voz não o encontra.
Dentro do peito está.
Teus filhos somos,
ainda que não saibamos nunca
dizer-te a palavra exacta e Tua,
que repete na alma o doce e firme
girar das estrelas.

(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)