6.3.05

ALEXANDRE PINHEIRO TORRES

CESÁRIO FOGE PELOS HERBÁRIOS
CESÁRIO HÁ CEM ANOS

Cesário andava pela cidade com plantas
silvestres metidas na cabeça
Irrompiam-lhe nas calçadas no repuxo das fontes
no grito das varinas no trote das patrulhas

Ninguém sabe contudo que em fidelíssimo segredo
deixou outro livro do qual Silva Pinto nada soube
Nem o Caeiro da planta é uma planta é uma planta
que se apanhasse fechava-o à chave na arca

para girândolas futuras dos casmurros das Universidades
Mas nada de suspense O livro é apenas um herbário
todo rechonchudo de coisas trivialíssimas
como a receita para lavar manchas de amora nos bigodes

ou de como arrancar sem dor cucos de tojo que um dia
lhe pegaram uma coceira dos infernos Depois há folhas
e folhas amarelecidas de chuvas-de-oiro mongaricas
urzes torgas estevas-dos-saloios sarças

alecrins alfenas lentiscos e loendros
Um nunca acabar Ao lado de um esparto
a nota: tenho o pulso como um cajado de pastor
e meus dedos amadurecidos como um céu de Verão

Assim se sentimentaliza um ocidental
Confiar como? Se quando menos se precata
salta ou voa sobre a Dor humana
e as marés de fel como um sinistro mar?

Folhear o herbário é vê-lo como abria as portas
A toda a moscaria É vê-lo esquecer-se da Cólera
E da Febre Ver como deixava que a terra lhe marinhasse
Como um vinho de fogo pelo exangue corpo acima

E ver isso é bom Admirar-lhe os ouvidos
encostados ao sol à escuta que os estames
e pistilos se pusessem a ferver O pólen
a descer o corrimão da luz até cobrir de um certo oiro

a sombra pisada da sua melancolia O vinho
a espirrar numa chuva muda de palavras
Coisa estranha: o cântico de um homem
expresso em folhas secas caules flores

breves notas num herbário como: é meu irmão
o entrecasco de sobro bom para a taninagem
As maçãs de espelho não andam bem empapeladas
Fica-lhes mal o verde e a serradura

(de O Ressentimento dum Ocidental, Moraes editores, 1981 - Círculo de Poesia)

5.3.05

RAUL DE CARVALHO

PARA UM NOVO LIVRO DE CESÁRIO VERDE

Ao Sebastião Fonseca

Eles tomam cerveja, ambrósia, licores
oleosos, sagrados como discos lunares.
Do azul da gravata ou da fímbria das ondas
retiram pensamentos ociosos e puros.

Recolhem-se de noite às oliveiras mansas
duma infância passada em louco desafio.
Ou então, nos portais, em amoroso convívio,
fingem que já não temem a noite nem o frio.

Já não têm família e mastigam, sozinhos,
um jovial jantar, colorido e minúsculo,
que haviam de comer, num domingo qualquer,
entre amigos cantando, entre mulheres amando.

Têm as caudas leves e subtis dum peixe,
têm um planeta adormecido e exangue,
têm os olhos líquidos, de asfódelo ou de cobre,
esses seres mitológicos que asfixiam aterra.

São eles que caminham, irreais e aos tombos,
pondo nódoas de espanto por cima dos telhados.
Eles é que me deram o título deste poema:
A Cidade Está Cheia de Homens Assassinados.

(de Poesia I, 1955)

4.3.05

ÁLVARO DE CAMPOS

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar ... Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
- Tu que me conheces - quem eu sou...

(segundo dos Dois Excertos de Odes)


ALBERTO CAEIRO

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo por cima dos olhos que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para as árvores,
E o de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E vê que está a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarras...

(d'Os Poemas de Alberto Caeiro)

3.3.05

CESÁRIO VERDE

Como fisiologicamente os órgãos que não funcionam desaparecem evolutivamente, eu, pacato e ordeiro entre uma população bondosa e valente, perdi a única arma de fogo que levava, sem dar por isso pelos caminhos.
Ah! Quanto eu ia indisposto contra tudo e contra todos! Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação! Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!

(carta dirigida ao Conde de Monsaraz, António de Macedo Papança em 29 de Agosto de 1880, transcrita na Obra Completa de Cesário Verde, organização, prefácio e notas de Joel Serrão, livros Horizonte, 1983)

2.3.05




Completaram-se, na passada sexta-feira, 150 anos sobre o nascimento de Cesário Verde.
Prolongarei a evocação pelos próximos dias. Hoje fica aqui uma fotografia, tirada nos anos 40, onde surgem Carlos Queirós, Hein Semke e Bernardo Marques, junto à ruína da casa que pertenceu à família de Cesário, em Linda-a-Pastora.
A imagem foi copiada do n.º 31 de Colóquio / Letras - Maio de 1976

1.3.05


JORGE DE SENA

DANÇARINO DE BRUNEI

Ao Ruy Cinatti

Em fortes linhas de contorno suave
e em passos que se pousam prolongando
o gesto da nudez quase completa
(ou sim, completa, pois que um breve pano
descendo da cintura nada cobre ou veste)
de um corpo que se ondula duro e frágil
como de amor a força requebrada,
a mesma dança nesta imagem quieta
é suspendida num momento. Os pés
assentam, um, nos dedos só, e o outro
cruzado à frente a perna torce um pouco.
Maçãs do rosto e os olhos concentrados
São como a franja do cabelo fluidos
Neste relevo brônzeo de uma luz de lado.
E ao torço que da cinta se levanta
um colar marca as linhas do pescoço
em que a cabeça se ergue delicada.
É de Bornéu e um povo primitivo
esta figura. Uma elegância tal
são séculos de humana perfeição
que gente gera num saber da vida.
Quando será que de ocidente a morte
virá matar-nos, antes que matemos
com deuses feitos homens os humanos deuses
que já tão poucos sobrevivem límpidos
como este corpo se dançando em si
(e as mãos paradas segurando os ares)?

19/1/1974

(de Metamorfoses, 1963)



N. do A.: Este poema foi inspirado pela fotografia que o ilustra e que era uma das que fazia parte do artigo, «Brunei, Abode of Peace», de Joseph Judge, com fotos de Dean Conger, publicado em National Geographic, vol. 141, n.º 2, Fevereiro de 1974. (...) A vasta ilha de Bornéu, por onde andaram os portugueses quando mandavam no Oriente, está hoje politicamente dividida entre a Malásia e a Indonésia. Mas, na parte malaia, há um enclave - Brunei - que é um «sultanato» protegido pela Grã-Bretanha. Os leitores de Somerset Maugham, entre os quais fielmente me contei por longo tempo (e de certo modo ainda conto), por certo lembrarão de quanto ele usou deste lugar em que viveu algum tempo. O dançarino da foto, que não é já um jovem, pertence a uma das tribos - os Pumanas - mais fugidias do sultanato, nómadas que eram e eventualmente ainda são. (nota incluída em Poesia II, 1977)

28.2.05

[este blog associa-se às comemorações do cinquentenário]

RUI REININHO

O AMBIENTADOR

O nosso famoso - habitual - colaborador dá-nos mais um excerto dos vossos «amusements» preferidos:

São apenas necessários dois televisores, um bom rádio a electricidade normal, três rádios transistorizados, um par de galenas, dois gira-discos e sete gravadores.

1) Abrir as janelas que dão para o «centro», na hora de ponta.
2) Espancar o familiar mais próximo, com chicote de couro, arrastando este correntes pesadas e apertadíssimas.
3) Ligar, pela seguinte ordem:
o melhor televisor - 1º canal
o rádio eléctrico - no noticiário
o segundo televisor - na mira técnica
um dos rádios portáteis (A) na missa da Em. Católica
outro r. portátil (B) em música ligeira variada (Papetti, James Last, etc)
o restante rádio (C) sintonizando a Rádio Argel (Obs. - elevar antena).
Colocar as galenas.
Puxar o autoclismo.
Ligar ventoinhas, abanar leques, sacudir tapetes.
Ler de trás para diante «A pena d'oiro & eu» de Raul Rego.
Um dos gira-discos deve tocar a Internacional na rotação mais lenta, a nossa.
O outro deve abster-se.

(de Sifilis versus Bilitis, &etc, 1983)

27.2.05

ANTÓNIO RAMOS ROSA

ATRAVÉS DA MEMÓRIA

a Jorge de Sena

Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
Edna St. Vincent Millay

Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.

A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
de uma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem de um espelho,
com a auréola de uma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.

Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.

Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência,
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.


essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mão suaves.

Mas nunca
ele cantara assim.

N. do A.: [Os versos da epígrafe] são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte» de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema Através da Memória foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, e também extraída da referida tradução.

(de Viagem Através De Uma Nebulosa, 1960)


EDNA ST. VINCENT MILLAY

(Sonnet XLIII)

What lips my lips have kissed, and where, and why,
I have forgotten, and what arms have lain
Under my head till morning; but the rain
Is full of ghosts tonight, that tap and sigh
Upon the glass and listen for reply,
And in my heart there stirs a quiet pain
For unremembered lads that not again
Will turn to me at midnight with a cry.
Thus in winter stands the lonely tree,
Nor knows what birds have vanished one by one,
Yet knows its boughs more silent than before:
I cannot say what loves have come and gone,
I only know that summer sang in me
A little while, that in me sings no more.

(de Collected Sonnets, 1941)


WHAT LIPS MY LIPS HAVE KISSED

Que lábios os meus lábios já beijaram,
Onde e porquê, esqueci, como em que braços
Até pela manhã tive a cabeça;
Mas esta noite a chuva traz espectros

Que batem na vidraça, à escuta, à espera;
E uma saudade calma há no meu peito,
De jovens que não lembro e nunca mais,
Noite alta, me desejam num soluço.

Qual árvore isolada, assim, no Inverno
Não sabe de aves idas uma a uma
E só seus ramos sabe mais silentes,

Não sei que amores vieram e partiram:
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.

(tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, de Thomas Hardy a C. V. Cattaneo)

26.2.05

24.2.05

VERLAINE

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne,
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte

(de Poèmes Saturniens, 1866)


JAMES JOYCE

TRANSLATION OF VERLAINE'S "CHANSON D'AUTOMNE"

A voice sings
Like viol strings
Through the wane
Of the pale year
Lulleth me here
With its strain.

My soul is faint
At the bell's plaint
Ringing deep;

I think upon
A day bygone
And I weep.

Away! Away!
I must obey
Thid drear wind,
Like a dead leaf
In aimless grief
Drifting blind

(datado de "1900-1902")


CANÇÃO DE OUTONO

O pranto longo
Dos violinos
Do Outono
Fere-me a alma
Com um langor fino
Sempre igual

Já sufocando,
Pálido, quando
Bate a hora

Ainda me lembro
De antigos tempos
E então choro;

E vou-me embora
Por um mau vento
Que me leva
Sem rumo, lento,
Tal como leve
Folha morta

(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Saturnianos e Outros, Assírio & Alvim,1994 - documenta poetica)

23.2.05

JOSÉ AFONSO

ALEGRIA DA CRIAÇÃO

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

(do álbum Galinhas do Mato, 1985)

21.2.05

[só para demonstrar o equívoco de umas certas afirmações]

RUI MANUEL AMARAL

Eléctrico n.º 18


Tarde cinzenta de domingo. Chuva a bater nos vidros,
pouco trânsito desaparecendo nas ruas quase desertas do fim-de-semana.
Lembra-me as antigas tardes de Inverno
em que descíamos de eléctrico a avenida da Boavista
entre as pequenas histórias do dia e o vento frio
que crescia nas janelas.
Vagaroso como um caracol, o velho eléctrico seguia pela tarde,
por dentro da sua fina concha de sal.
Cinco mil metros de solidão até ao mar
e o meu amor a desaparecer sob uma nuvem de espuma.

Imenso o céu, intocado pelo brilhos das vastas ondas,
o mar tão branco enrolando nos cabelos,
a invadir os muros, a ecoar nas fachadas.
Homens e gaivotas remoinhando no vento,
os dedos claros como grãos de areia.
Por entre as árvores baixas da foz
o mar espalhava as suas sementes misteriosas.

Há muito que o eléctrico não desce a longa avenida.
Hoje lembrei-me de ti. A tarde caía para sempre
no coração sombrio deste longo Inverno.
Um resto de morte invadiu-me antes ainda de a noite nascer.

(in Diário de Notícias de 7 de Fevereiro de 1999 - secção DN Jovem)


CEUTA

Café Ceuta. Anoitecer. À minha volta as mesas estão vazias. Dois
empregados conversam ociosamente encostados ao balcão. A porta abre-se
(vento frio). Um homem entra. Senta-se do outro lado da sala. Um
empregado aproxima-se. O homem pede um café. O empregado afasta-se.
O homem tira um livro da mala preta e pousa-o sobre a mesa. Acende um
cigarro. Lê a primeira página. O empregado traz o café. O homem bebe um
pouco. Depois arranca a página e come-a. Lê a página seguinte. Acaba de
beber o café. Arranca essa página e come-a também. Apaga o cigarro.
Fecha o livro e guarda-o na mala preta. Levanta-se. Aproxima-se da porta
(vento frio).

Noite. As mesas continuam vazias. lá fora as árvores na praça falam entre si,
na sua linguagem nublada de anjos da distância.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, incluído em Com faca e garfo - colectânea de Jovens Criadores 2001, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)


You Are Here

Meia-noite no porto a um domingo de tarde.
O sol avança sem vontade, como um gato ensonado,
pelas amenas ruas de Fevereiro.
Os cafés rangem cheios de gente
acendendo e apagando eternos cigarros
impregnados de Inverno.
Os velhos cruzam a cidade,
aos pares nos autocarros,
de lá para cá e de cá para lá,
dormindo profundamente.
E os pássaros quase se deixam apanhar,
Flutuando como borboletas pesadas
Sobre os canteiros indolentes das praças.
Tudo isto se pode ver em plena penumbra.
E tudo isto Fevereiro arruma,
lenta e meticulosamente,
ao longo de uma interminável tarde de domingo.
E pronto. Mais nada.

(de Bronze, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - colectânea de Jovens Criadores 2002, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2003)
MÁRIO DE CARVALHO

Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi.
Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? - duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo?

(de Fabulário, &etc, 1984)

20.2.05

CLIVE BRANSON

DOMINGO À TARDE


Aragem delicada que basta para agitar
poeira leve, pequena folha, pela asa de um insecto

música de dança na telefonia; entre o prisioneiro
e a rapariga vestida como rosa, um sorriso.

Uma folha, uma rã, uma sombra, um pedaço de papel,
um gotejar de água, ler, escrever,

coisas que numa calma mais funda do que tudo
levaram toda a tarde à deriva no canal.

(tradução de João Ferreira Duarte, in Leituras - poemas do inglês, Relógio d'Água, 1993)