24.4.05
fala o luís miguel nava
Mas tu vê claramente isto: os degraus de pedra
que sobem para o hipermercado dos vivos
O último degrau
é este o teu lugar de eleição: adolescentes
os últimos versos descem a escadaria (alta a noite
alta a lua) ainda e sempre o Verão amarelo
os ombros nus Despe-os dobram o passo para ti
(de Ostende, Black Sun editores, 1997)
23.4.05
IX
LECTURA
Yo no hablo del sol, sino de la luna
que ilumina eternamente este poema
en donde una manada de niños corre perseguida por los lobos
y el verso entona un himno al pus
Oh, amor impuro! Amor de las sílabas y de las letras
que destruyen el mundo, que lo alivian
de ser cierto, de estar ahí para nada,
como un arroyo
que no refleja mi imagen,
espejo del vampiro
de aquel que, desde la página
va a chupar tu sangre, lector
y convertirla en lágrimas y en nada:
y a hacerte comulgar con el acero.
(de Piedra Negra o del Temblar, 1992)
IX
LEITURA
Eu não falo do sol, apenas da lua
que ilumina eternamente este poema
por onde uma manada de crianças corre perseguida pelos lobos
e o verso entoa um hino ao pus.
Ó amor impuro! Amor às sílabas e às letras
que destroem o mundo, que o aliviam
de ser correcto, de estar aí para nada,
como um ribeiro
que não me reflecte a imagem,
espelho do vampiro
daquele que, através da página
te vai chupar o sangue, leitor
e convertê-lo em lágrima e em nada:
e te vai fazer comungar com o aço.
(tradução minha)
22.4.05
DAR E PEDIR
Como os seres vivos no seu devido tempo,
dar ou pedir podemos o que já nos pertence
e aquilo que por norma nos esteve vedado.
Usual, a proposta possui tantos matizes
como em dádivas é vária a natureza mãe:
o poder, a paixão, o fervor, a beleza.
De nada vai servir-nos viver as estações:
para Dezembro vamos com o frio nos ossos,
embora escolher possamos - em tão vários instantes
da noite ou do dia - inferno ou paraíso.
Somos livres de optar neste absurdo estado,
mas somente o perfil que mais nos favoreça.
(tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de Marta e María, 1976)
21.4.05
INTEMPÉRIE
O medo trepa em nós
como a hera precoce:
de repente estamos debruçados
sobre o precipício da idade,
depressa demais para saber o que fazer
e a intempérie é o único refúgio
onde podemos aprender a conviver
com aquilo que somos,
sozinhos com o medo de saber
bem demais onde nos encontramos
e a inutilidade futura
de todo o saber: a única certeza
de que jamais nos libertaremos.
(de Les anelles dels anys / Os Anéis dos Anos, 1991, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - os olhos e a memória)
19.4.05
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
"Jeremias, o louco" de José Agostinho Baptista.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Não foi bem apanhadinho, mas foi quase. A Princesa do Lawrence mexeu comigo.
Qual foi o último livro que compraste?
Comprei em simultâneo "Fragmentos do Delírio" de José Augusto Seabra e "Os Anéis do tempo" de Àlex Susanna. (ontem, na livraria Lacio no Campo Grande, em Lisboa, na qual entrei pela primeira vez)
Qual o último livro que leste?
O último que terminei foi "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis. (não contabilizo a poesia, porque, de modo geral, não dou a leitura por concluída)
Que livros estás a ler?
"Assim na Terra como no Céu - Ciência, Religião e estruturação do pensamento ocidental" de Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias; "Breve História de Quase Tudo" de Bill Bryson; "Quincas Borba" de Machado de Assis e "Lunar Caustic" de Malcolm Lowry. (além de vários de poesia)
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
A "Obra Poética" de Ruy Cinatti; o "Ulisses" e o "Finnegan's Wake" de James Joyce; um álbum ilustrado com toda a obra de Giotto e um com as folhas em branco e que dê para anexar um lápis.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Vitor Vicente
Miguel
MB
pela mesma razão por que me enviaram a mim.

"Consola-me o facto de que o Senhor sabe trabalhar e actuar com instrumentos insuficientes e, sobretudo, confio nas vossas orações."
Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidão
vê-se melhor
vê-se tão bem
como a minha face
E a minha face
é desassombrada
as sombras
não são minhas.
(in Relâmpago, nº 14, 4/2004)
Soror Mariana - Beja
Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor
(de O Nome das Coisas, 1977)
18.4.05
a afeição às sombras é como o tempo
em que a vigília se prolonga
algo exaspera intimamente e desce ao corpo
para aproximar a vida ao itinerário
da pedra com o rastilho
que o homem há-de acender
para que a chuva de estrelas inicie
a suavidade e o acolhimento
e a amazona venha a esta praia
onde as marés se enchem de fascínio
e o silêncio pulsa carregado de emoções
que a memória envolve em bruma e em brancura
para ressuscitar os ecos e na luz
despertar as palavras da solidão do mundo -
(de O Claro Interior, com ilustrações de Rogério Ribeiro, Íman edições, 2004)
16.4.05
COLÓQUIO SENTIMENTAL EM DUAS PARTES
I
Tronchela adúvia corimata, que tuestes dilasta anquinudante, furiça astria dova, retinuta, e quis? Nonória. A tutimão periva a turidarta influva. Azis? Nocónia. Dimirita, aluina, dúria - oh comisalva apene. Friscórida. Buliva? Nem ninúria. Que dívia alperidasta clido! Flara:
- Dumeste andorta oroladiara?
- Clande.
- I tru laridolosta zanque?
- Diata.
- Dileste me tisalva.
Aliara doriçara, tigorimenos. Erclusa atrisca duridanta, merifluamos róvia. Diloguidermos:
- Verida turimana...
- Ciciarva...
- Ablera, ablera, diata.
- Anstria...
- Narva, adiarda, funje...
- Cerida!
Estuta. Nonôra dimirata.
II
Anaridassa, contrimat atuva, anadiramo trévia palpirada. Dimitidana flurionca fliva. Mês conquiritanta nim puore avri discrote, undiva aspranca fara, alima gêntia assunta etrétia i vanta. Diloguidermos:
- Memorta oroladiara?
Nunda siventa ura pradona.
- Ovi trasida medirenta?
- Niata.
- Clito...
- Niata ciciarva anstria.
Arnuda transparara instívio. Impossidanta. Despridova, despridima, deses cara. Anfúria?
Estruta dimirasta.
(in O Tempo e o Modo 59, Abril de 1968)
15.4.05
30
o caminho tem um cotovelo cheio de vento
as árvores falam contam-nos
o medo vem tão antigo
nada adiantaram as portas maciças dos castelos
as duplas grades de ferro
os arcos ferem
as portas nada mais são que coragem postiça
onde as folhas entrelaçam e gemem
toda a noite todo o dia porque lhes encerram
a perspectiva onde os homens dançam e
bebem, onde os homens se ferem
e entregam ao tédio.
(de Legenda, edições Atlas, 1995)
13.4.05
W. B. YEATS
A ILHA DO LAGO DE INNISFREE
Sim, partirei já, partirei para Innisfree,
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.
E alguma paz desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.
Ergo-me e vou, parto com a noite, parto com o dia,
Oiço as águas do lago, o seu murmúrio junto à costa;
Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Oiço esse murmúrio no mais fundo do coração.
(de Uma Antologia, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1996 - o original pertence a The Rose, 1893)
12.4.05
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
TERCEIRO CASTELO DE HOLANDA
O retrato de Joris van Egmond
bispo que foi de Utreque
adormeceu na primeira sala que dá para o
claustro da catedral.
Não há manhãs nem tardes
os olhos empalidecem
sob as bandeiras
dHolanda. Eternidade, cânticos longínquos
casas de dor reflectem os magros braços de
Cristo. Joris van Egmond fechou a loja
a sala onde repousa o seu próprio retrato
seguiu pela margem do canal. Ainda vi,
por instantes, um pato
sombreado de penas verdes
a que prendera a corrente do suave olhar.
Acabara de lançar severo anátema sobre a
cabeça coroada de um negro. Infligira-lhe
a torre de um castelo
o peso da existência de deus
sobre os escuros cabelos. Mas não era possível
encontrar uma alma triste, noite de nevoeiro e
outono; castanho que chega sempre
p'lo Novembro de Joris, bispo que foi de
Utreque.
Quantas moedas juntou para comprar um dia
o dolente corpo de um anjo
a Francesco di Valdambrino? Obstinado ladrão
quanto amoedou para que Jan van Scorel
pintasse o seu retrato? Cativo, ei-lo
agora, episcopus traiectensis etc. coroado.
(in As Escadas não têm Degraus, 3, livros Cotovia, Março de 1990)
10.4.05
Que amor não me engana
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embargam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
(do álbum Venham mais cinco, 1973)
Não é fácil o amor melhor seria
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria
O pão nosso de cada dia não copiar
Os gestos do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar
O amor ao destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer
Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor
(musicado e interpretado por Janita Salomé no álbum A Cantar ao Sol de 1983)
