20.1.07

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

NO LARANJAL


O caseiro tem um lugar cativo no laranjal,
que não é o da memória, mas o da suspeita,
tal como os lugares dos vivos. Por exemplo,
se tu estás, vejo-te porque suspeito
de que a tua presença veio. Suspeito de mim
porque te reconheci. E tão grande alegria
dão os vivos quanta os mortos,
quando, como o caseiro, pegam na enxada
ou na navalha, aparam um pequeno ramo,
para a enxertia. Tu meu amante morto,
vieste também, porque há tanto tempo suspeito
de que a tua presença, agora insubstancial,
não caberia nunca na memória. Fosses tu
um homem dos ofícios rurais, e ainda habitarias
os campos, não, nunca, na memória, mas aqui.
Ou tal como os outros mortos cuidadosos,
em corpo visto, na luz reconhecida,
nesta suspeita que receio do real,
como se eu tentasse entender uma pintura eterna.

1997

(de Cenas Vivas, 2000)

29.11.06

ANA HATHERLY

AS PALAVRAS DIRIGEM-SE UMAS ÀS OUTRAS


As palavras dirigem-se umas às outras:
dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes

O seu alcance é
a vastidão erma do sentido

À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

28.11.06

JOSÉ AUGUSTO SEABRA

O ECO


Ouves o sulco doutra voz ainda
dentro da voz daquele instante presa
ao só instante de hesitar-te, ainda
perdida a voz pela garganta presa?

Ouves o rasto doutros dedos vindo
sobre os teus dedos tão a medo breves
pousar-se aonde o só receio vinha
pelos teus dedos quase ousar-se breve?

Ouves apenas? Ou da demorada
memória acordas mansamente a cada
bafo do tempo em tuas mãos geladas?

Ouves ainda? Ou da voz gelada
o tempo em teus ouvidos cada
palavra na memória demorada?

(de Tempo Táctil, Portugália editora, 1972 - colecção Poetas de Hoje)

27.11.06

FERNANDO GUERREIRO

Ornitologia


Chegado o Outono, o conhecimento concentra-se nas asas
dos pássaros que pousam lentos sobre a cor dos frutos.
Sem sentimentos, as aves entregam-se ao sabor do vento
e deixam que no cérebro cresça a febre negra das urzes.
Aquieta-os a experiência que conservam do espaço
e que todas as tardes os inibe de partir para continentes
mais prósperos e seguros. Sustém-os um atavismo
apenas explicável pelo saber dos signos e o seu desejo
colectivo de suicídio. Porque não escolhem antes
perder-se na tempestade? Talvez visto do ar,
aos seus olhos o mundo se torne mais pesado
e o pensamento se confunda, na memória,
com uma paisagem festiva de piras fúnebres.
E contudo, apesar do carácter cerrado da atmosfera,
o seu peso parece já ter-se deixado de sentir
sobre o discurso. Virados para dentro,
as imagens em que se reflectem são
as de um mundo banhado pela penumbra.
Afogado na sua razão de ser. Mediúnico.
Imagine-se agora o caçador a entrar
paisagem dentro para abater as peças
de que se compõe o cenário uma a uma:
vista de dentro, o Sol em que se esgota
a paisagem deixa cair as suas penas
sobre a imensidão que a chuva perturba.

(de Gótico, Black Sun editores, 1999)

26.11.06

MÁRIO CESARINY

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

(de Pena Capital, 1957)

24.11.06

FÁTIMA MALDONADO

O OUTONO


Cismam os caçadores
junto de estevas,
o pombo reflecte face ao junco,
o grilo ressuscita melopeias,
a tarde cerca a margem
no curral da noite.
O caixilho da arma cede
à luz,
o lago envia em morse.
O vento hiberna
enquanto bandos de patos bravos
envolvem o céu de ligaduras.

(de A Urna no Deserto, 1989)

23.10.06

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Do lado da melancolia com as árvores das estrelas


Em lucidez plana de espaço silencioso
e de tensão repousante estão as árvores do sangue
com as suas aves brancas e seus diademas brancos
Os tendões da atenção sustentam a coluna branca
sob a chuva deslumbrante que as pombas atravessam
com frescor estalidos que vão quebrar a cal

Estão as árvores do sangue em tensão repousante
e dir-se-ia que vêem a lua vacilante sob a chuva
e que respiram o odor da chuva o odor lento
e fresco da terra de humidade vermelha
e um navio sob uma nuvem passa na lentidão da chuva
enquanto um pássaro no parapeito de um terraço
desfere duas notas de fina felicidade

O silêncio das árvores vem de um ouvido azul
e perfuma o espaço de deslumbrante solidão
Há uma plácida harmonia entre as árvores dos campos
e as ténues árvores das ramificadas artérias
Ouve-se o que se esconde o seu pudor vegetal
e os nomes levantam-se como vagas ondas
e pousam lentamente como melancólicas aves
de um Outubro em que brilha um sol cor de laranja

(in Espacio Espaço Escrito 11/12 - Outono/Inverno 1995)

22.10.06

[para uma antologia de bicicletas - 12]

ANTON TCHÉKHOV

(...) Vamos então a andar e, de repente, imagine só, passam de bicicleta o Kovalenko e, atrás dele, a Várenka, toda vermelha, ofegante, mas alegre e feliz.
- Nós - grita -, vamos à frente! O tempo está tão bom, tão bom que é um terror!
E desapareceram ambos. O nosso Bélikov passou da cor verde à branca e como que petrificou. Parado, a olhar para mim...
- Desculpe, mas que é isto? - pergunta. - Estarei a ver bem? Será que é decente professores de liceu e mulheres andarem de bicicleta?
- Mas que indecência há nisso? - digo-lhe eu. - Que pedalem, faz-lhes bem.
- Mas como é possível? - grita ele, espantado com a minha calma. - O que está o senhor a dizer?!
(...)
No dia seguinte (...) arrastou-se para casa dos Kovalenko. Várenka não estava, apanhou só o irmão.
(...)
- Tenho mais umas coisas a dizer-lhe. Há muito que estou ao serviço, e o senhor está ainda no princípio, por isso considero meu dever, como colega mais velho, fazer-lhe esta advertência. O senhor anda de bicicleta, mas esse divertimento é de todo indecoroso para um educador da mocidade.
- Por que razão? - perguntou Kovalenko na sua voz de baixo.
- Será que ainda é preciso explicar, Mikhail Sávvitch, será que não compreende? Se o professor vai de bicicleta, o que resta aos alunos fazer? Resta-lhes andar fazendo o pino! Uma vez que tal não foi autorizado por uma circular, está proibido. Ontem fiquei aterrorizado! Então, quando vi a sua irmã, turvou-se-me a vista. Uma mulher ou uma menina de bicicleta é um horror!
- Diga lá, o que deseja concretamente?
- Uma única coisa: adverti-lo Mikhail Sávvitch. É um homem jovem, tem o futuro pela frente, deve portar-se com muita prudência; ora, o senhor falta sempre à suas obrigações, falta sempre! Anda de camisa bordada, passeia-se constantemente na rua com uns livros quaisquer, e agora, para cúmulo, a bicicleta. Se o director souber que o senhor e a sua mana andam de bicicleta, se isso chegar aos ouvidos do inspector... Acha bem?
- Que eu e a minha irmã andemos de bicicleta, ninguém tem nada a ver com isso! - disse Kovalenko e enrubesceu. - E a quem se mete nos assuntos da minha família e da minha casa só tenho que o mandar para o diabo que o carregue.

(excertos do conto Um Homem na Sua Concha, in Contos de Tchékhov - volume II, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água, 2001)

5.10.06

[outros melros XLIII]

ANÓNIMO CELTA

O CANTO DO MELRO


Da ponta do bico brilhante e amarelo
Da ave pequena soltou-se um trinado.
De dentro de um ramo de folhas doiradas
O melro lança o seu cantar pelas águas do lago.

(tradução de José Domingos Morais, in Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro, Assírio & Alvim, 2001)

4.10.06

[decorreu, entre 24 e 30 de Setembro, no concelho de Cascais, uma Semana Cultural Macedónia. No Sábado, teve lugar um encontro entre poetas macedónios e portugueses, com leitura de poemas nas duas línguas. Ficam aqui alguns dos poemas lidos]


ANA HATHERLY

A história do mundo


A história do mundo
É uma autobiografia inventada
É a história
De um Paraíso desencontrado
De um velho-novo-mundo
Para sempre ultrajado
Pela enorme cintilação do oiro

Ah!
Como é desigual
A viagem da descoberta!

Entre a cópia e a falta
Ante o eterno vexame do despenho
Uma pergunta maléfica nos assalta:
Que fazer?

A alma
Não tem que fazer nada
Dizia um célebre quietista?


MATEJA MATEVSKI

O nascimento da tragédia


Quando Aristóteles estabeleceu o verdadeiro estado
das coisas
e determinou como transformar o claro em obscuro
quando o riso se tornou num esgar
e a palavra numa espada
a dor já existia
Porque havia muito a mão tinha sido modelada como uma mão
e a palavra como uma palavra
para expulsar o mal do mundo
Mas o mal estava presente
mesmo entre as regras mais exactas
e as acções mais inevitáveis
E Dionísio embriagado de vinho e de sol
havia muito que brandia o falo e a espada
forçando ao canto as feras esfoladas
Assim tinha nascido a canção
Enquanto as mulheres se cobriam a si mesmas de negro
enquanto as torres ardiam e os navios eram afundados
e os cavalos calcavam os frutos da terra
e o coração murchava como uma maçã
e o sangue abandonava o corpo
Isso pouco tinha a ver com heroísmo
ou com a dor da solidão ou com as lágrimas em caminhos desertos
contudo mesmo assim o velho filósofo aplicaria
as elegantes regras do jogo
a tais selvajarias
enquanto a audiência continua
aplaudindo a morte


CASIMIRO DE BRITO

Três haiku


Diante do lago,
a beleza. Como se homens
não existissem

Lago de Ohrid -
até no seio da morte
a natureza sorri

Para além do lago
as terras parecem felizes -
os homens em guerra


VERA CHEJKOVSKA

Psycho


é isso um enlace de linhas direitas ortodoxas e de não
ortodoxas linhas curvas?
admito um programa semelhante para os meus desenhos
em miniatura. e.g., deixar que os bichos da seda
sejam engendrados pelos genitais do diabo e pelo sémen de Deus,
que eles mesmos expelem. deixá-los ser verdadeiros
pequenos demiurgos, abraxas omnipresentes na minha
elocução. De modo a apresentar a sua mobilidade
indubitável nas fronteiras do determinismo.
ou: a luz é um múltiplo ferrão de vespa e a escuridão
uma miríade de formigas. como um espécime adicional da
pré-essência, da sabedoria mítica, que deve
continuamente desenvolver até agora. até mim.
Porém, a consciência de alguns saltos inesperados...
imprevisíveis como pétalas de rosa em situações
banais...


PAULO TEIXEIRA

Taças


Derramadas foram as taças sobre a Terra.

Estremeci do seu murmúrio primeiro,
do seu frémito depois, da sua convulsão.
As palavras que ouvia eram como calhaus
rolados, seixos que dão à praia pela manhã.

Entram na vossa alma secretamente.

Chorei por vós nesse dia. Piedade.

Porque amei vossas pegadas e as cicatrizes
na vossa carne, o tão calado testemunho.
Perguntareis: como amar as pegadas
de quem já não vive?

Amei o que foi vosso um dia. Por isso chorei.


ZORAN ANCEVSKI


Leitura


Eu gaguejo perante
os p-p-portões da Babilónia
quero dizer
não consigo falar

A minha voz quebra-se
multiplica-se
sob a minha língua
as palavras reproduzem-se

E pergunto-me
fui eu que proferi esta palavra
ou foi ela
sempre nos iludiremos mutuamente
pois temos a eternidade
desde que a palavra foge
desde a nossa primeira tagarela-babel

Que esforço para nos reconhecermos
nesta infinidade de espelhos
no ventre deste mun-
do vago, concha de ostra
a p-p-pre-pre-pre-pre-
existência do eco.


VASCO GRAÇA MOURA


o caminho de ohrid


do alto das muralhas de ohrid onde
acorrera aos gritos desvairados dos vigias,
o rei samuel avistou o seu exército desfigurado,
arrastando-se entre as montanhas da macedónia.

aos catorze mil homens tinham sido
arrancados os olhos por ordem do imperador
e a um em cada cem mandara ele, basílio II,
fosse poupado um olho para conduzirem o regresso

dessa manada cega. depois de atravessarem altas neves
vinham-se agora despenhando para o lago,
tropeçando, agarrados uns aos outros,
a tortura espelhada nas contorções das faces,

o sangue a empapar-lhes os andrajos. e o rei,
tomado pela angústia, deu um grito de dor e morreu
no alto da muralha sobre a colina e os seus bosques e pomares
que o lago placidamente reflectia.

nesse instante compreendeu como era ambígua
a força cega do destino e em nenhum mosteiro
podia a iconostase explicar-lhe esse cruel mistério:
os santos, com feições dos retratos do fayoum,

entre as chamas trémulas emudeciam
nos seus frescos e as vozes dos jovens monges,
no seu canto austero e imperturbado,
elevavam uma grave primavera na penumbra.


(os poemas dos autores macedónios foram traduzido por Rute Mota, a partir de versões em inglês)

25.9.06

[para uma antologia de bicicletas - 11]

ERNEST HEMINGWAY

Vestiu-se, ainda húmido da água do mar, enfiou o boné no bolso e subiu o caminho com a bicicleta às costas e depois montou, conduzindo a máquina pela colina acima, sentindo nas pernas a falta de treino enquanto premia as solas dos pés contra os pedais, ganhando uma marcha que o levava estrada acima como se ele e a bicicleta fossem animais de uma carroça. Depois, desceu, as mãos tocando os travões, descrevendo curvas rápidas, passando veloz pelos pinheiros, até às traseiras do hotel, onde o mar brilhava azul para lá das árvores.

(excerto de O Jardim do Éden, tradução de Ana Maria Sampaio)

13.9.06

MARIA DE LOURDES BELCHIOR

PALAVRA


Onde as palavras lisas e límpidas
capazes de transportar
esta quotidiana inquietação
ração diária de gozo e dor?
Onde as palavras purificadas
do lastro do uso das nossas falas mortais?
Não mais na linha do horizonte a Palavra?
Enraizadas no terrunho; carregadas de sonoridade
sujas, enfarinhadas, as palavras senha do nosso falar comum
fabricam o pão alimento, suporte do diálogo impossível.
Só palavras genesíacas, lustrais, abissais,
hão-de revelar e decifrar o verdadeiro nome das coisas?
Que linguagem, miragem do ser e do estar
há-de dizer homem, mundo, amor?
Na linha do horizonte impossível?
a Palavra?
Só no fim dos tempos decifrada?

(de Gramática do Mundo, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985)

12.9.06

[para assinalar a chegada de um blog com nome de livro]

PAULO JOSÉ MIRANDA

A voz que nos trai


Talvez, é aquilo que nos pode servir de desculpa,
que dá sentido a uma espera, ao empenhamento dissimulado,
à mentira mais profunda que se pode erigir.

Não é nem velho nem novo, e a meio caminho da vida e da morte
encontra-se consigo a medir tarefas, dinheiros, tempo.
A beleza é sempre tardia junto ao corpo.

Quem se não reconhece ao virar de si sofre inutilmente,
deita-se para não acordar, levanta-se para muito pouco mais.
Jogamos a mão a um livro como se não temesse a morte

e a voz que se escuta trai-nos de todo a vida.
Talvez, que a beleza é sempre tardia.

Quando a carne se rasgar por dentro numa úlcera,
o hálito denunciar o declínio das suas esperanças,
talvez então aí encontre a verdade que procura,

talvez encontre o que sempre soube com medo,
porque nem sempre escondeu a sua vida.

Uma veia que se entope, a visão perdida,
os talheres e os copos a agitarem-lhe as mãos
e ao espelho cada ano um velho desconhecido,

será este o diagrama do fracasso, de uma vida?

Talvez as culpas fiquem por atribuir,
talvez que de um outro modo pudesse tudo ter sido diferente,
talvez não caminhasse para a miséria, para a morte, um nada sem fim.

Talvez, que a beleza é sempre tardia, junto ao corpo.

(de A voz que nos trai, edições Cotovia, 1997)

11.9.06

GASTÃO CRUZ

DEPOIS DE AGOSTO


A imagem do mármore desfaz-se
no mar que representa

Agosto sobrevive O céu encurva
como uma onda a luz

(de As Leis do Caos, 1990)