26.3.07

[Salazar e a Poesia - VI]

JORGE DE SENA

«NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,...»


Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e á inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo ã espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente á lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.
Santa Bárbara, Fevereiro 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)

(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)
[Salazar e a Poesia - V]

MIGUEL TORGA

Coimbra, 27 de Julho de 1970 - Morreu Salazar. Mas tarde demais para ele e para nós, os que o combatíamos. Para ele, porque não morreu em glória, como sempre deve ter esperado; para nós, porque o não vimos morrer na nossa raiva, na nossa humilhação, na nossa revolta. Viveu a frio conscientemente, envolto numa redoma de severidade gelada, a meter medo, e acabou por morrer a frio inconscientemente, numa preservada agonia amolecida, a meter dó. A doença desceu-o de super-homem a homem, e, a duração dela, de homem a farrapo humano. E, quando há pouco chegou a notícia de que se finara de vez, nenhum estremecimento abalou o país. Nem o dos partidários, nem o dos adversários. Para uns, a sombra definitiva do cadáver sobrepôs-se apenas à bruxuleante luz do ídolo; para os outros, o sentimento de piedade cobriu cristãmente o ressentimento sectário. A obra de domesticação nacional estava realizada há muito por uma tenacidade dominadora que utilizava apenas as qualidades negativas do português, e não tinha outra sabedoria do tempo senão a lição da rotina sancionada nos códigos do passado. A fome de aventura, a inquietação da liberdade, o alento da esperança, o orgulho, o brio, a alegria e a coragem - tudo fora sistemática e impiedosamente apagado na lembrança da grei. Daí que se não vislumbrem quaisquer sinais de tristeza aterrada, e, menos ainda, de euforia redentora. A nação inteira passou, sem qualquer sobressalto, de respirar monotonamente com ditador, a respirar monotonamente sem ele.

(de Diário XI, edição do Autor, 2.ª edição revista, 1991 – 1.ª edição de 1973)
[Salazar e a Poesia - IV]

JOSÉ GOMES FERREIRA

XXI

(Todos andámos a matá-lo em pensamento. É horrível! – dirão alguns moralistas do futuro)
Todos nós
trazemos punhais
no sonho
fora da lei.

Mas ninguém sente remorsos de pensar:
«Fui talvez eu que o matei.»

XXII
(Ouve-se dizer por toda aparte: «oxalá não morra antes dele!» - «Do Salazar, claro».)

Os mortos vão entrando nas covas
(alguns saem de noite para respirar às escondidas)
e logo correm outros, ainda vivos, para ajudar
a construir a ponte
com lume, sangue, pedras, nuvens, ferro, covardia, coragem,
desalento...

Mas haverá outra margem
para além do vento?

XXIII

Já muita gente pisa
o chão
com terror de magoar a luz
e esta sensação estagnada
de que os nossos mortos
em vão mordem a terra
com os dentes do coração
- à espera do socialismo do Nada.

XXIV
(O Salazar morreu e vai hoje a enterrar: «O velho abutre é sábio e alisa as suas penas. / A podridão lhe agrada e seus discursos / têm o dom de tornar as almas mais pequenas» Sophia de Mello Breyner)

A morte dantes era tecida por aranhas de crepes,
necessidade de haver corvos e flores,
solidão exportada para criptas de trevas.

Claro, os tiranos também morrem como nós,
na mesma cera estendida à espera de haver asas
e liberdade nos abismos.

Mas parecem diferentes quando passam como hoje
em cortejos de longos véus de vento e luto
onde só faltam tochas humanas nos passeios para aquecerem a pompa.

Também às vezes acendem os candeeiros nas ruas
para ofuscarem o sol com tules negros
do tamanho de haver sempre noite no planeta.

Nestas ocasiões, os jornais vestem-se de noite
põem as primeiras páginas ao serviço das caveiras,
batem adjectivos nos tambores do papel.

E então principia a raiz solene
da estátua oficial necessária
por subscrição dos Bancos que arrecadam nos cofres montes de mãos suadas.

Depois emitem-se selos para concluir o equilíbrio das pedras
com argamassa de suor alugado
para o morto de bronze, lá em cima, fingir de cristal.

Mas que é isto? De súbito a marcha fúnebre da Heróica volta-se do avesso
com ouro nos trombones em festa
brilhantes de tão esfregados pela pomada Ódio.

E o povo não chora... Que se passa? Guardaram as lágrimas para os filhos presos?
Depressa! Tragam baldes de água podre para encher os olhos desta gente.
E tirem as crianças dos ombros dos pais, para não avistarem o futuro.

Proíbam esta alegria lúgubre de quando a vida parecia só do outro lado
e os homens em redor das aras das clareiras
devoravam a carne dos cavalos de crinas incendiadas

abatidos por Sacerdotes com cutelos de lâminas de sangue
que lhes decepavam as patas para os convivas rituais
beberam a magia vermelha dos Quatro Jorros.

Nesse tempo, morrer não era apenas o peso horizontal do pesadelo,
mas voo, continuação da vida no vinho das ânforas fúnebres
quando os corações mastigados sabiam ao centro do mundo.

Hoje as libações combinam-se pelo telefone,
saboreia-se de boca em boca o entusiasmo de existir a morte
para dançarmos a embriaguez da liberdade em segredo.

Escrevem-se datas nas rolhas do champanhe votivo
que todos tínhamos guardado nas caves
para beber neste grande Dia da Cova Aberta,

em que ninguém consegue esconder a volúpia da sede.
E até eu vou agora erguer, como os outros, a taça negra
- feliz por não ter de obedecer mais a Sua Alteza, o Devorador de pequeninos sóis.

Sua Alteza, que tornou esta pátria mais pequena do que é.
E não somente a Pátria. O Inferno, o Céu, a hora da Morte, a Agonia,
Deus, o Sol, a Lua, a Revolução, as almas, a Fé.

Não é verdade, Sophia?

(de Maio-Abril 1968-1975, in Poeta Militante - 3.º volume, 1978)
[Salazar e a Poesia - III]

LUÍS AMORIM DE SOUSA

(...)
Eu nem queria acreditar que estava a conversar com Pablo Neruda e como num desabafo, contei-lhe que tinha começado a ler a sua obra em Moçambique, mas que os seus livros estavam proibidos e eram difíceis de encontrar. Contei-lhe ainda que um amigo meu tinha arranjado um exemplar do Canto General e que, com todo o cuidado para não darmos nas vistas, eu e outros companheiros íamos espaçadamente a casa dele, para ler o poema à sucapa. Neruda olhou para mim com uma expressão que não esqueço e pôs a mão no meu braço.
- A história que acabou de me contar, foi-me contada mais vezes. Aconteceu também noutros países e quase sempre com jovens. É uma coisa que se repete ao longo da minha vida e que me deixa sempre emocionado.
E o grande Pablo Neruda agradeceu-me.
Depois falou de Salazar, que acusou de abafar a cultura portuguesa e disse que o considerava cabalmente responsável pelo isolamento mundial dos nossos poetas. Bebendo um trago de vinho perguntou se conhecíamos os vinhos do seu país. Tivemos que admitir que não e, sorrindo, Neruda comentou que por esse isolamento não poderia culpar o ditador Salazar.
(...)

(excerto de Londres e Companhia, Assírio & Alvim, 2004)
[Salazar e a Poesia - II]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

O VELHO ABUTRE


O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

(de Livro Sexto, 1962)
[Salazar e a Poesia - I]

FERNANDO PESSOA

SALAZAR


António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

……………………………………

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...

……………………………………

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.

(sequência datada de 29 de Março de 1935, publicada pela primeira vez, enviada por Jorge de Sena, em O Estado de São Paulo, na edição de 20 de Agosto de 1960)

8.3.07

MARIA AMÉLIA NETO

OS OLHOS DE RUY CINATTI


O sangue do lado esquerdo,
Ensopava a camisa, escorria pelos dedos.
Amparando-o, um irmão? Um amigo?
Era um irmão, rosto perdido entre rezas e disparos.
Se os olhos de Ruy Cinatti pudessem ver...
O sangue corria sempre, como o sangue da outra ferida do lado,
Não de bala, mas de lança.
Novos disparos, gritos e rezas entre os túmulos e os corpos.
Quantas matanças? Quantas noites de St. Barthélemy?
Quantas caçadas? Quantas noites de cristal? Quantos silêncios?
Entravam nus dentro dos fornos. Choravam, lutavam
Ou pediam ao gás e à Morte que viessem depressa.
E o que dizia o vulto de vestes brancas no seu vastíssimo palácio?
E o que diziam as belíssimas canções ali tão perto?
Falavam do ouro do Outono e da rosa dos bosques.
Agora o sangue corria devagar, e a ferida era do lado.
Como outra chaga antiga.
Muitos corpos arrefeciam. A Sombra estava próxima.
"É grande a colheita" - pensou.
Se os olhos de Ruy Cinatti pudessem ver...

(de Oeste, Terra dos Mortos, edições Ática, 1999)

6.3.07

FERNANDO CORREIA PINA

Saldo Negativo


Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu
        que amputar uma perna, a frio, a um africano.

Passa mais fome um francês com três refeições por dia
        que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
        que um indiano com lepra.

Sofre muito mais uma americana com caspa
        que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito a um belga
        que roubar o pão da boca a um tailandês.

É muito mais grave deitar um papel para o chão na Suíça
        que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É mais obscena a falta de papel higiénico num lar sueco
        que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
        que a de insulina nas Honduras.

É mais revoltante um português sem telemóvel
        que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num colonato hebreu
        que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie a uma menina inglesa
        que a visão do assassínio dos país a um menino ugandês

        e isto não são versos; isto são débitos
                numa conta sem provisão do ocidente.

(de Cantos da Língua, livro/disco editado pela ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela, 2006)

4.3.07

CARLOS BESSA

ESTA QUASE HAGIOGRAFIA


Dão-se onde menos se espera, os milagres.
Os arredores estridentes onde todos
se sentam à mesma hora, olhos postos
na economia do sangue ou no luxo
com que desfraldam bandeiras e preparam
tribunais para os detalhes da carnificina.
Como se parte disso fosse o bálsamo
de que precisam para o dia seguinte.
E com os muitos modos de queimar incenso
prolongam a arte marítima da bolina,
até que são horas de deixar correr os
sonhos entre o lençol de baixo e o lençol
de cima. Ao tédio da pornografia
junta-se então o plástico das rotundas,
que circulam frenéticos e maldizentes,
enquanto as rádios debitam alegria
em jorros e os preparam para o zelo
com que se sonham elegantes e majestosos.
Os milagres, esta quase hagiografia.

(de Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007)

3.3.07

[para uma antologia de bicicletas - 13]

CARLOS LEITE

Outra bicicleta mais veloz que a verdade
das cautelas numeradas sobre a qual Sorte
me queres a toda a força montar quisera eu agora
eu que de tudo o que quero é só não ter ou não ser de
pedalar mas estar aqui agora assim
Olha Sorte para melhor me teres ou comigo estares
joguemos um tudo ou nada lotaria simples
a não haver tu nem a verdade nem sequer uma
bicicleta mais leve do que esta com que pedalo
ao longo duma ainda mais aleatória estrada
país ou dia intransitáveis. Se ganhares
dizendo sim sem esforço nenhum me ganhaste
destino cego e eu cumpro monto dócil até ao fim
Mas se não perderes então uma de alumínio quero
marca Altis roda 28.

(de O Brilho do Residual, Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985)

1.3.07

[sempre fui do Sporting, mas creio que qualquer pessoa da minha idade, independentemente do clube, lembrará os nomes dos jogadores do Benfica dos anos 80. Bento está marcado nas minhas memórias de infância, sobretudo por causa de um jogo (acho que amigável), que vi ali em baixo, da nossa Selecção com a da Alemanha, em 1982 ou 1983]

MANUEL ALEGRE

A FESTA


Eram talvez setenta a oitenta mil
bandeiras como cravos cor de Abril.

Eram talvez setenta a oitenta mil
e uma só voz um só clamor

E lá em baixo na relva longe e perto
o Bento o Alves o Nené o Humberto

camisola vermelha flor de Abril
como um só coração uma só cor

Não me venham dizer que futebol não presta
Eu não sei de outro rito não sei de outra festa

Falta um minuto. Aí vem o Chalana: é golo
E tocam no Olimpo as trombetas de Apolo

E passa a humilhação passa a tristeza
e passa o dia-a-dia e só nos fica

este minuto de alegria e de beleza
este grito na noite este clamor: Benfica

(in O Desporto na poesia portuguesa, pesquisa selecção e notas de José do Carmo Francisco, Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1989)

23.2.07

Neste dia em que se completam 20 anos sobre a morte de José Afonso só me ocorre remeter para o que postei aqui há dois anos. (e, já agora, para as canções e poemas dele que por aqui têm passado)

21.2.07


próspero saíz

O SILÊNCIO DE LASCAUX


Sou o cavalo arcaico e
nada me está interdito
animal sonho amortalhado
mergulhado na noite
imperscrutável tempo perdido
escuro ritmo animal
a negra juba dançando
o cavalo vermelho correndo ainda
negrume medonho
silêncio e temor sagrado
piso o solo animal
na caverna escura do pavor e do temor
regresso ao meu destino primeiro...

cascos e chifres silentes
figuras gravadas
sou eu o cavalo pintado!
de olhos mutilados
tremeluzir de chamas
tocha paleolítica
fumo na pedra
cavalo vermelho correndo
cavalos castanhos correndo
delicados "cavalos chineses"
cavalinhos pequenos e cabras alpinas
o vigor do toiro
obscura luz do desejo
passos mortais da dança
ocultos nas máscaras do homem...

não temo o animal
não temo o homem sem jeito
sou o cavalo a galope
sinto o cheiro do negro toiro
as minhas narinas ávidas
dançam-lhe por entre os chifres antigos
as minhas ancas esgueiram-se por entre
a magia da pedra pintada:
a juba fofa e o brilho fulvo
o gesto de monumento da cabeça robusta...

mas ao sonho do homem falta-lhe a força
não tolera o movimento do cavalo
não tolera os jogos de cascos e juba
não tolera as profundezas do tempo-do-cavalo
e por isso se precipita no futuro torturado...

porém no silêncio de lascaux um hálito se sente
e nasce um deus no pavor dos homens pintores...

os negros ouvidos e olhos doirados do cavalo ruivo
a juba espessa e o peito pesado (ressonâncias do nosso sonhar)
escuros cascos e pernas hirtas penetrando o nada
a cabeça em liberdade apontando para o fundo nada
um relincho de pânico na boca escancarada - obra do homem -
nosso sonho arrebanhado na rocha até à beira do abismo
que conseguiram captar os pintores ausentes?
inaudito galope em tropel do pujante garanhão
resplendor animar recusando a orla da humana passada...

no silêncio de lascaux esvai-se uma luz trémula
do lado de fora da caverna ainda estão os ossos da matança
vestígios de massacres por entre os penhascos de pedra
e por entre as ossadas equinas tropeçam póneis atarracados
nos braços ténues do temor sagrado do cavalo...

(tradução de Maria Irene Ramalho, in Limiar - revista de poesia, 7, 1996)

19.2.07

JOSÉ ÁLVARO AFONSO

MUSA 1


Se diz: - chamarei falcões mas não
Irei ao campo, pensa em concreto e
Torres de ruído e sombra?
Cegos pela premência
Falcões são aço, estiletes, ângulos

Rectos de concentração e fúria

Nas ruas da cidade há poços
De lama e irrisão mas é
Na limpidez vertical do que está
Sujo que surpreende
A irisação do que é humano


MUSA 2

Entregue às musas de rapina
O destino busca – seu olhar
Amplo e concentradas asas
A curva do concreto no voo essencial

A filigrana dos gestos dança terrestre
Dueto de tempos longos e segundos
Deslumbres na comoção de ver
Poliedros na superfície lisa de uma laje


MUSA 3

Se lhes disser adeus
De onde virão, alinhados, os helicópteros
Da imaginação? Ainda que as guarde
Como no futuro em dicionários se resfriam
Tão breves como o horizonte
De vê-los - os helicópteros -


MUSA 4

Diz-me em quantos quartos dividiste a minha alma
Onde estão os pés de caminhar que deixei esquecidos?
Quantas são em chamas as agulhas as rosas as enxadas?

Crescem ervas no templo que não vou mondar
E sei que estás inclinada sobre o colo de outro
Mais atento. Não queres dar-me mais - as que
Uso para descansar minha cabeça no tempo?

Leva-me à tua quinta. Deixa que ignore os nomes
Dos teus
Frutos. Dá-me o sumo e o veneno que ela tenha


MUSA 5

Diz-me da surdez em que me fundes
Digo-te que as que salvam vidas que perdoam
E recolhem os náufragos nas casas
Dos amigos e nos adros das igrejas
Estão em agonia

(de entre passos sobrevivem eras, edição do Autor, 2006)

18.2.07

FERNANDO GUEDES

O CAULE

III


Vinte e quatro vidas por segundo
alimentam a vida.
O ser impassível fia suas relações
e na sólida teia suporta a existência.
Intactas, as coordenadas definem
o fluir rítmico.
Move-se a paramécia oscilando
entre obstáculo e alimento.
A carraça, suspensa do arbusto,
espia sua vítima,
homem ou bicho.
A gralha aguarda inquieta
o salto do gafanhoto.
A toupeira defende o seu lar
e a pátria.
Tempo e espaço são obra do sujeito.

Na cidade, na planície,
a lâmina quebrada reconstrói-se.
Ataste-a com teus braços fechados,
alteia-la no vento - da brisa ao ciclone -
para a soltares num riso sem fulgor,
fundindo num só ocidente e oriente,
e lâmina e volante reprendem a máquina
e o carro e suas rodas se libertam
da humidade granítica.

Na sombra
centríolos e dictiossomas receosos
suspendem o seu curso enigmático.
Não há recuo ou progresso.
Contrai-se o espaço
e a suspensão forçou um arrepio
na terceira estrada do longo Paraíso.

(de Caule, Flor e Fruto, editorial Verbo, 1962)