11.5.07

[para o Amadeu Baptista]

CAMILO JOSÉ CELA

141

pensa sempre nisto tem isto sempre presente: é mais garboso e reconfortante ser criminoso do que hipócrita na hipocrisia não pode residir a saúde nem fazer ninho o contentamento no crime pode habitar a paz a hipocrisia é a segunda mais estéril parcela do homem depois da inveja e antes da avareza pelas veias da hipocrisia não corre senão o frio da morte não te deixes envolver pela esperança nem pela desesperança nega-te a sucumbir perante a tentação da esperança e da desesperança

(de ofício de trevas 5, tradução de Pedro Tamen, livraria Bertrand, 1973)

8.5.07

Amadeu Baptista, um dos poetas mais interessantes e de maior fôlego da actualidade, assinala 25 anos de publicação com uma antologia de poemas dos seus (se não me engano) 19 livros publicados até agora, bem como de alguns dos dispersos publicados em inúmeras revistas e livros colectivos e ainda de alguns inéditos. O volume, editado pelas Quasi, leva o significativo título de Antecedentes Criminais e inclui, como introdução, um longo poema com o ainda mais significativo título de Pena Agravada.

O lançamento terá lugar amanhã, dia 9 de Maio, pelas 18:30h, na Fnac do Chiado, em Lisboa e contará com uma apresentação de Baptista-Bastos.

A não perder!


Entretanto, foi anunciada há dias, a atribuição do Prémio Nacional de Poesia "Sebastião da Gama" a Amadeu Baptista para o seu livro inédito O Bosque Cintilante.

5.5.07

MARIA VELHO DA COSTA

105.


É sempre Maio, o duríssimo mês da expectativa e parição das espécies coriáceas. Quão dolorosa é a renovação insistente da maior doçura.

(de Da rosa fixa (prosas), 1978)

26.4.07

MALEVICH


Quadrado Preto, 1913
óleo sobre tela
106,2 cm x 106,5 cm
S. Petersburgo, Museu Russo


FERNANDO GUERREIRO

O quadro negro de Malevich


Havia que simplificar as frases,
comunicar-lhes a consistência
de uma ponte capaz de o ajudar
a atravessar o despenhadeiro
que o deixara titubeante sobre
as crateras fundas do discurso.
Sim, ao escrever, descobria
um caminho por entre as palavras
que, sem necessitar de metáforas,
o conduzia mais rapidamente
às saídas bruscas do abismo.
Dir-se-ia que de cada vez
que as empregava, o real
abre espaços para as palavras,
trazendo à luz do dia possibilidades
que não coincidem com a visão
do mundo que pelos sentidos
lhes é oferecida. O real
pelara-se e pelas palavras
extraíra películas da superfície
deixando que a poesia,
inoculando-o com o seu veneno,
alterasse a perspectiva dos homens
sobre os fenómenos da planície.
Tal como o quadro recusa
o suplemento realista da pintura
também o mundo, uma vez escrito,
o surpreende com o efeito de relevo
da sua assinatura. Um não-olhar
sobre a paisagem de que os teus cabelos
removem, ao cair, todos os sinais
de decomposição e loucura.
A escrita da poesia é algo
de tão definitivamente errado -
montra de almas extraída
à volúpia da vida - que,
aceitá-la, equivale a sentar-se
à mesa de jogo para dar,
antes ainda dela ter começado,
a partida por perdida. Queda
de asa a arrastar-se pelo sonho
que acaba por deixar da sua
presença nas palavras uma marca
de dor moída e infrutífera.
Mas, sabêmo-lo hoje, não há
nada pior do ponto de vista
do gosto do que recorrer
a metáforas orgânicas
para referir feridas que
só mãos de estrangeiros
piedosamente cicatrizam.
Com efeito, no interior
do sentimento não há lei
de compostura que paciente
os borbotões do espírito.
Então, face à decomposição
da paisagem, pode-se
ainda afirmar que qualquer
forma de anuimento,
nesse terreno minado
de sentimentos que é
a poesia, acabará por
encontrar as provas
de entusiasmo em que
lhe seja possível reconhecer
o clamor do impossível?
Presas de deus perdidas
no espaço, as palavras
deixam-se encadear
pelos reflexos românticos
que lhes vêm das alturas -
mas a poesia, sempre dada
a céus mais baixos, continua
a ser para o pensamento
o caminho de guia que
prolonga para dentro
a promessa dos sentidos.

(de Caminhos de Guia, Black Sun editores, 2002)

25.4.07

FERNANDO SYLVAN

NATAL PORTUGUÊS


Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.

O dia estava certo, o mês, porém, não.

«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»

Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.

(de Meninas e Meninos, 1979)
ANA HATHERLY

REVOLUÇÃO (excerto)




(16 mm, tempo total: 5 min., 1975)
MÁRIO CESARINY

P. - Chatearam-no muitas vezes?

R. - Não é chatear muito; é que eles tinham o poder de chatear sempre que quisessem. Até podiam deixar passar vinte anos sem chatear, mas ao fim de vinte anos lembravam-se: "Olha este, vamos chamá-lo". Era uma coisa sempre pendente em cima da cabeça, uma espada. Tinha medo de ir ao telefone, tinha medo de ir ao correio: não me tratavam mal, nem me batiam, mas era uma coisa muito chata, muito humilhante ir às apresentações. Sempre me deitei muito tarde e sempre me levantei muito tarde, o que para a polícia era horrível: "não trabalha", essas coisas. E há uma manhã em que a minha irmã Henriette me chama e diz: "Mário, acabou a ditadura" - "O quê?", "Acabou a ditadura". Saio para a rua com uma máquina fotográfica e durante quase um ano, não foi um ano certo, mas quase um ano, fosse qual fosse a hora a que eu me deitasse, às oito horas eu levantava-me de cabeça fresca. Percebe o que isto quer dizer...

(excerto da entrevista Amor, Liberdade, Poesia, conduzida por Óscar Faria, in Público, suplemento Mil Folhas, 19 de Janeiro de 2002)
EGITO GONÇALVES

A PRIMAVERA


Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
- primaveras também, esperança, vida...

(de Poemas Políticos 1952-1979, Moraes editores, 1980)

13.4.07

BOTHO STRAUSS

Segundo o ensinamento dos poetas, todas as obras tinham já sido criadas desde o início e o poeta seria apenas o seu arrumador. Tal como alguém que não tem nada para fazer e muda incessantemente o lugar dos móveis, em casa.

(de Fragmentos da Incompreensão, tradução de Adélia da Silva Melo, Difel, 1992)

8.4.07

«Os distraídos do costume continuarão a fingir que não dão por nada, os outros constatarão que o projecto está vivo e com cada vez mais pernas para andar.



Desta feita, o tema é a ausência. Há muitos textos, mais imagens do que é costume, uma pequena entrevista ao (excelente) contista argentino Fenando Sorrentino e etc.» [HMBF, membro do corpo editorial, dixit]

6.4.07

CARLOS NEJAR

LIVRO DA TERRA E DOS HOMENS - 6


Os homens eram sombrios,
esfinges de solidão.

Os homens eram sombrios,
quiseram tecer de sonhos
a água verde dos rios.

Os homens eram amargos,
quiseram compor o cisne
nas águas verdes dos lagos.

Os homens eram ardentes
como tochas de amaranto;
sobre o rosto do poente
deixaram rosas de pranto.

Os homens eram calados,
torres de vazio.

Eram terríveis, terríveis
contra o céu de esquecimento;
lançavam gumes de fogo
e adormeciam no vento.

Os homens eram de vento
(de um vento predestinado);
braços de ferro no tempo,
entre o presente e o passado.

Os homens eram profundos
na superfície das cousas
e ali ficavam no mundo
dos rosalábios e rosas.

Os homens eram ferozes
como estrelas de ambição;
mas no tempo-primavera,
se primavera chegasse,
eram brandos como espuma,
eram virgens como espada;
eram suaves, suaves
como aves de abandono.

Os homens eram de estrela,
soprando sobre o canal;
não era estrela de noite,
mas estrela de metal.

Os homens eram de estrela
e não podiam sustê-la.

Os homens eram de treva,
fizeram-se escravos dela.

Os homens eram remotos
no grande túnel de pedra.

Nem alga, nem alfazema,
nem junco, nem girassol,

floração ali não medra,
longe da terra do sol.

Floração ali não medra;
tudo o que nasce é de pedra.

O homem nasceu do vento
mas sepultou-se na pedra.

O tempo nasceu do homem
mas o homem não é pedra.

O tempo formou-se pedra
na eternidade de pedra.

Um sol compreendeu o homem;
era fogoso e de pedra.

Menino não como os outros,
menino feito de pedra.

Braços, só braços e mãos
na madrugada de pedra.

Os homem donde vieram,
se o seu destino é de pedra?

Que procuravam os homens
na eternidade de pedra?

Eram hálitos de aurora,
luz florescendo caverna?

Eram só pedra.

Talvez fonte, vento vento,
folhagem sobre montanha,
cintilações, pensamento?

Eram só pedra.

Talvez crianças relâmpagos,
Paredes de som, cantigas?

Eram só pedra.

Rostos ocultos no sono,
barcos de ânsia, velame?

Eram só pedra.

Talvez carícia, sossego,
desejo de despertar?

Eram só pedra de pedra.
Os deuses eram de pedra,
os homens eram de pedra
na eternidade da pedra.

Pedra de aurora mas pedra.
os homens eram pedras.

Lábios de pedra mas pedra
os homens eram pedras.

Ventre de pedra mas pedra,
os homens eram pedras.

Noite de pedra mas pedra,
os homens eram pedras,
os homens eram pedras,
os homens eram as pedras.

Eram as pedras, as pedras,
eram as pedras.

(de Livro de Silbion, 1963 - in Dois Poetas Novos do Brasil, Moraes editores, 1972 – Círculo de Poesia)

2.4.07

RUI BAIÃO

Rácica chita cante
o fado morno da pedreira,
meta a língua no saco de trapo,
remolhe onde não haja quem raciocine.
Saudade ao lado do escalpe de escabeche.
Toranjas, citrinos sugados pela muito putacátia
andreia. Se não fosse o trôpego hino da azáfama,
seria a reviravolta dos mais vândalos. Sorna vírica
à rua do século. Haveria de ser cigana
leviana lituana, mendiga serrana com a tia
do samouco à lapa, à perna:
à tabla, a pimba democracia
dos rasos, pouco dada a emoções;
à viola, a violada retornada do bié,
às voltas com camisas e raspadinhas;
às pandeiretas, coirão, ranheta e pokémon;
aos guizos & chocalhos, o olhar trémulo
bovinamente humano e parlamentar dos jovens
jeovás. Um fósforo em lata étnica
é um bairro periférico que a narrativa
inveja não incendiar. Cantando e rindo,
a nova bufa de laca longa, esfaqueia white
horse amarrado pelos pés ao berço
do amordaçado rapper horse power.

(de Nuez, em co-autoria com Paulo Nozolino, Frenesi, 2003)

1.4.07

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

6


A árvore. De novo a passagem de
uma árvore a outra árvore.
Foi a árvore que deu lugar a esta árvore
o calmo reino da lei tombando do tempo, da árvore
ou de outra coisa assim: memória de dizer a aparente
árvore.

Um elemento de força. O facto de dispor
grande quantidade de folhas ramos troncos ou raiz.
Esta história reunida começou há muito
sobre esta linha.

Árvores foram preenchidas por círculos
árvores recebendo afluentes - ramos desenhados nas
lajes brancas, caminho que não está inteiramente terminado
a árvore voltarei a falar. Sem mediação.
Resta o estranho desenho de ramos
pequenos ramos.

(de Direito de Mentir, 1978)
[outros melros XLV]

FERNANDO GRADE

"OS MELROS AZUIS SÓ CHEGAM AMANHÃ"


(...) Ferreira (chamo-lhe assim, por uma questão de pudor), era um contumaz vendedor de pássaros, mormente melros - sua especialidade -, para os quais utilizava um reclamo sui generis:
"Olhem bem esta maravilha!!! São os melros mais bonitos do mundo!!! Ainda mais bonitos que os melros azuis que vendi ontem..."
A verdade é que o Ferreira estava convencido do que afirmava. Tinha os olhos atravessados por uma névoa... Desregulava..., a espaços. E os passantes faziam chacota.
- Oh senhor Ferreira - metia-se um rapazola na conversa satírica -, quais deles é que são mais azuis, as mélroas ou os melros?
À volta, a matula ria. Os melros são sempre pretos, a plumagem negra, como o pássaro dentirrostro de que fala o poeta Abílio Guerra Junqueiro. Eternamente pretos, de carvão, e com o bico amarelo vivaz, aqueles melros azuis do Ferreira eram bons acicates para a hilaridade das pessoas, e davam a medida de alguma loucura mansa que circulava no sangue do vendilhão de pássaros...
Muitos anos a fio, não soube patavina do bom Ferreira. Teria morrido? Uma destas tardes - que espanto! -, defronte da igreja da Memória... ecce homo! Era ele em carne e osso, terrivelmente mais velho, as três gaiolas do costume, e mais escalavradas, e, dentro, melros melros, negríssimos de dorso, o bico da cor dos limões... Olho para a paisagem ao redor, e tremo. Sim, foi ali mesmo que os Távoras, ou alguém por eles, ou outros que a História camuflou, desferiam arcabuzadas sobre o rei José, e não o liquidaram. O rei galaró vinha da cama da amante, e...
Entretanto, o Ferreira grita:
Venham ver, venham ver, estes são os melros mais bonitos do mundo!!!...
O nosso herói encontra-se naquele sítio histórico; sem o saber, está fora do tempo, desconhece, porventura, que a igreja foi mandada erigir pelo Marquês, em acção de graças pelo facto de o rei dos Braganças não ter sido fuzilado na emboscada. Observo melhor: ao pé das três gaiolas com melros, o Ferreira colocou uma cadela cheia de carraças, bicho gordo, fedorento. O pêlo esparramado de cebo e porcarias diversas. Junto dos melros canoros, a cadela tetuda e nauseabunda constitui um quadro confrangedor: trata-se de o óptimo e o reles baixo. (...)
Reparo no incomum, os seus olhos de louco a haver, recordo-me que os ossos do Marquês de Pombal se encontram enterrados naquela igreja, e arremesso aos céus manchados de muitos pântanos...
- Oh meu bom Ferreira, então não tem melros azuis para vender! pergunto-lhe, como se o tivesse visto pela última vez há quinze dias.
O homem responde, responde sempre, os olhos lívidos de pedra:
- Os melros azuis só chegam amanhã.

(excerto de crónica incluída em O Bairro Cercado, Universitária editora, 1998)

31.3.07

ANA LUÍSA AMARAL

UMA CONSTANTE DA VIDA


Errámos junto
à História : devíamos
pegar em foices e enxadas
e destruir mil campos
de pensar:
computadores, ogivas nucleares,
assentos petrolíferos e mais:
centrais de mil cisões
(e, já agora, aquele pequeníssimo
sonar)

Errámos pela
História: enquanto tempo,
devíamos pegar nas foices,
nas enxadas.
E nos anéis das fadas
plantar outras sementes: bombas
despoletadas, ferrugentas,
que dessem trigo e paz

Errámos nas Histórias
de encantar:
um lobo freudiano, um capuchinho,
um osso pela grade
da prisão.
Voltaram as sereias
sentadas no olhar em devoção
(sem nunca terem nem sequer
partido)

(E seduz-nos ainda
esse cantar.)
Errámos sem saber
que o seu vagar é tal
que o sonho, cedo ou tarde,
se fará.
Que ao lado da cisão: a catedral
e ao lado do vitral: irracional
razão

A história junto
à História,
a enxada quebrada
pelo chão

(de Às Vezes o Paraíso, 1998)