10.6.07

ARTUR PORTELA FILHO

DIA DA PÁTRIA - DIA DA POESIA?


Junho de 1972

No dia 10 de Junho, António Quadros escrevia, no seu «Caderno Diário» do «Diário de Notícias», sob o título «O Dia da Poesia», o seguinte:
«...Já repararam? Nos outros países, o Dia Nacional é a data comemorativa de uma Revolução, do Nascimento de um Regime político, do início de uma Autonomia nacional, etc... Entre nós, comemorando-se um poeta, comemora-se Portugal. De algum modo, é toda uma nação que decide representar-se simbolicamente, não como vinculada primordialmente às contingências da vida política, mas antes a algo de muito mais profundo e intemporal: a Poesia dum Poeta que morreu há quatrocentos anos, uma obra imaterial, feita de palavras, de ideias e de sonhos.»

Certo.
Camões é um poeta.
O Dia de Portugal é o Dia de Camões.
Logo, o Dia de Portugal é o Dia da Poesia.
Embora - sem que se queira pôr em causa nem o Dia de Portugal nem Camões - se possa adiantar que há muitas maneiras de ler, e de fazer ler, Camões.
É fundamentalmente poética a leitura da sua ideologia?
É, sequer, essencialmente poética a leitura da sua poesia?
A imaterialidade de Camões pretende-se que continue a sê-lo?
Os sonhos de Camões querem-se como tais?
A intemporalidade de Camões é o que mais importa?
Camões lírico ou Camões épico?
Camões total ou Camões parcial?
Camões genial ou Camões instrumental?
Camões coragem ou Camões geografia?
Camões povo ou Camões pompa?
Camões amor ou Camões Alcácer?
Camões futuro ou Camões memória?
A ideia de Pátria não é discutível - o que é discutível são as ideias discutíveis de Pátria.
A ideia de Camões não é discutível - o que é discutível são os excessos de revivalismo camoniano.
E, no entanto, Camões é, para o povo português, o mais célebre dos desconhecidos.
E, porém, «Os Lusíadas» são, para o povo português, - o mais famoso dos livros fechados.
Oculto um sob uma barragem de retórica.
Despromovido o outro a dicionário de ênfase.
Despoetizados.
Feitos ideologia. Feitos motivação.
Mas quanto vale, hoje, a ideologia de Camões?
Mas que força tem, hoje, como motivação, Camões?
Com a atenção toda mobilizada para o facto de que Camões morreu há quatrocentos anos, esquece-se que Camões viveu há quatrocentos anos. O que será a sua grandeza. Mas, também, a sua circunstancia. A sua inevitável inserção cultural, ideológica, civilizacional. O seu limite.
E, apesar de tudo, ele há imensos Camões.
Há o Camões insuportável do senhor Dom João III.
Há o Camões enfático do senhor Visconde de Almeida Garrett.
Há o Camões republicano do Ultimatum.
Há o Camões tricaneiro do sr. Leitão de Barros.
Há o Camões cronológico do sr. Hernâni Cidade.
Há o Camões militarizado do sr. António José Saraiva.
Há o Camões liceal do sr. Sérvulo Correia.
Camões gesso. Camões bronze. Camões feriado. Camões Adamastor. Camões pagão. Camões cristão.
Só não há - Camões povo.
Porque não há povo nos «Lusíadas» - só heróis?
Ou porque entre o verdadeiro Camões e nós está esse colossal obstáculo que é - uma certa interpretação dos «Lusíadas»?
Se Camões fosse, só, a Lírica seria ele alguma data?
Dia da Poesia?
Celebra-se João Ruiz de Castelo Branco, Bernardim Ribeiro, Rodrigues Lobo?
Celebra-se João de Lemos, Soares de Passos, João de Deus?
Celebra-se Antero, Junqueiro, Cesário?
Sequer, coerentemente, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Américo Durão?
Ou, antes, uma certa ideia da Poesia - a Épica?
Ou, antes, uma certa ideia da Epopeia - estrita, literal, restituída?
Camões é um élan - não é um programa.
Camões é uma época - não é o destino.
O destino aos Portugueses.
Dia de Portugal - Dia da Poesia?
Ou Dia de Portugal - Dia dos Portugueses?
O passado não se sabe de cor - analisa-se.
O futuro não se lê - faz-se.

(de A Funda - 2.º volume, editora Ática, 1972)

9.6.07

[outros melros XLVI]

IRENE LISBOA

outro dia


O melro canta,
e já quase me é indiferente...
Mas sempre é uma voz
que se distingue,
aflautada e fresca,
entre os ruídos ingratos
da manhã:
pregões de jornais,
apitos, carros...
Um vapor parte;
ouve-se aquela sua zoada
sem timbre,
soprada e grave,
falha de harmonia...
Melro, canta!
Tenho o coração murcho
e triste...

(de Um dia e Outro dia... (Diário de uma Mulher), 1936)

8.6.07

HERBERTO HELDER

Texto 1


Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
à sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria «um esforço» não coordenador (de modo algum)
mas de «moldagem» perguntavam «estão a criar moldes?»
não senhores para isso teria de preexistir um «modelo»
uma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como «imagem de respiração»
«imagem de digestão»
«imagem de dilatação»
«imagem de movimentação»
«com as palavras?» perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra «abóboras»
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações («des-sintonizar» aberto o caminho
para antigas explicações «discursos de discursos de discursos» etc.)
fixemos essa ideia de «planos»
podemos admiti-los como «uma espécie de casas»
ou «uma espécie de campos»
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
será que se pretende ainda identificar «linguagem» e «vida»?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o «espírito» o «destino» da linguagem
agora estamos a ver as palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
«elas estão andando por si próprias!» exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
«ver»
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
«os autómatos invadem» mas invadem o quê?

(de Antropofagias, in Poesia Toda, Assírio & Alvim, 1996 - este poema surgiu inicialmente, datado de "Luanda, 14.Set.71", no n.º 2 da revista Caliban, de Lourenço Marques, em Novembro de 1971)

7.6.07

[dia do Corpo de Deus]

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

(...)
E depois o que poderá restar? O fatigado corpo, essa, essa pequena alegria de todos os dias por onde dizemos o mundo. Agora me lembro que passávamos o tempo no erro de muitas palavras. Não éramos deus, não tínhamos o domínio da sua arte. Por isso errámos, erramos nas muitas palavras. Mas de uma coisa estamos certos, estávamos certos: somos matéria de deus, coisa que por si só deixa motivos para muitas perguntas e para nenhuma resposta.

(excerto de Somos matéria de deus, in Uma paixão inocente, edições Cotovia, 1989)

6.6.07

EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Silêncio de junho


Por que se esconde a voz
entre as pedras e a nostalgia,
o sereno, flutuante rasto
do nenúfar,
a forma dos olhos
na claridade
melódica?

Como se veste
o silêncio?

De que frutos?

(de Um dia qualquer em junho, Instituto Camões, 2000)

5.6.07

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

As coisas são para que sejam não para
que as escrevamos As palavras são pa-
ra serem ditas Não para que as escre-
vamos Se escrevemos é para dizer o que
as palavras não são
De aqui a construção de todas as artes
poéticas que se fazem com poemas e não
com palavras Como os tijolos nas casas
Mas as casas não são tijolos, pedras ou
cimento
Os poemas têm dentro vidas - não uma
só vida e as palavras são a caixa, o
frasco, a lata O invólucro que se dei-
ta fora após o consumo do produto Esse
é que é o poema que se consome Ainda
que fiquem registados Como as fotogra-
fias dos mortos O produto é fármaco
feito segundo a arte
Que pode ser apenas a forma de mexer
as mãos Ao lançar palavras no papel Ou
de mover os lábios Ao dizer o poema
que não se escreveu
O resto são coisas secundarias As re-
ceitas baseadas nos poemas só servem
para as imitações
O poema imita o poeta e as suas cria-
ções Imita o que o poeta cria do cria-
do
O resto é ganha-pão de professores e
críticos Que muito divertem o poeta a-
fadigado Quando decide descansar e não
fazer poemas

6.10.70

(in Viola Delta volume XIX, coordenação de Fernando Grade, edições Mic, 1994)

31.5.07

MANUEL ANTÓNIO PINA

Tanto silêncio


Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz «eu»;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras «o teu coração»)?

(de Os Livros, Assírio & Alvim, 2003)

11.5.07

[para o Amadeu Baptista]

CAMILO JOSÉ CELA

141

pensa sempre nisto tem isto sempre presente: é mais garboso e reconfortante ser criminoso do que hipócrita na hipocrisia não pode residir a saúde nem fazer ninho o contentamento no crime pode habitar a paz a hipocrisia é a segunda mais estéril parcela do homem depois da inveja e antes da avareza pelas veias da hipocrisia não corre senão o frio da morte não te deixes envolver pela esperança nem pela desesperança nega-te a sucumbir perante a tentação da esperança e da desesperança

(de ofício de trevas 5, tradução de Pedro Tamen, livraria Bertrand, 1973)

8.5.07

Amadeu Baptista, um dos poetas mais interessantes e de maior fôlego da actualidade, assinala 25 anos de publicação com uma antologia de poemas dos seus (se não me engano) 19 livros publicados até agora, bem como de alguns dos dispersos publicados em inúmeras revistas e livros colectivos e ainda de alguns inéditos. O volume, editado pelas Quasi, leva o significativo título de Antecedentes Criminais e inclui, como introdução, um longo poema com o ainda mais significativo título de Pena Agravada.

O lançamento terá lugar amanhã, dia 9 de Maio, pelas 18:30h, na Fnac do Chiado, em Lisboa e contará com uma apresentação de Baptista-Bastos.

A não perder!


Entretanto, foi anunciada há dias, a atribuição do Prémio Nacional de Poesia "Sebastião da Gama" a Amadeu Baptista para o seu livro inédito O Bosque Cintilante.

5.5.07

MARIA VELHO DA COSTA

105.


É sempre Maio, o duríssimo mês da expectativa e parição das espécies coriáceas. Quão dolorosa é a renovação insistente da maior doçura.

(de Da rosa fixa (prosas), 1978)

26.4.07

MALEVICH


Quadrado Preto, 1913
óleo sobre tela
106,2 cm x 106,5 cm
S. Petersburgo, Museu Russo


FERNANDO GUERREIRO

O quadro negro de Malevich


Havia que simplificar as frases,
comunicar-lhes a consistência
de uma ponte capaz de o ajudar
a atravessar o despenhadeiro
que o deixara titubeante sobre
as crateras fundas do discurso.
Sim, ao escrever, descobria
um caminho por entre as palavras
que, sem necessitar de metáforas,
o conduzia mais rapidamente
às saídas bruscas do abismo.
Dir-se-ia que de cada vez
que as empregava, o real
abre espaços para as palavras,
trazendo à luz do dia possibilidades
que não coincidem com a visão
do mundo que pelos sentidos
lhes é oferecida. O real
pelara-se e pelas palavras
extraíra películas da superfície
deixando que a poesia,
inoculando-o com o seu veneno,
alterasse a perspectiva dos homens
sobre os fenómenos da planície.
Tal como o quadro recusa
o suplemento realista da pintura
também o mundo, uma vez escrito,
o surpreende com o efeito de relevo
da sua assinatura. Um não-olhar
sobre a paisagem de que os teus cabelos
removem, ao cair, todos os sinais
de decomposição e loucura.
A escrita da poesia é algo
de tão definitivamente errado -
montra de almas extraída
à volúpia da vida - que,
aceitá-la, equivale a sentar-se
à mesa de jogo para dar,
antes ainda dela ter começado,
a partida por perdida. Queda
de asa a arrastar-se pelo sonho
que acaba por deixar da sua
presença nas palavras uma marca
de dor moída e infrutífera.
Mas, sabêmo-lo hoje, não há
nada pior do ponto de vista
do gosto do que recorrer
a metáforas orgânicas
para referir feridas que
só mãos de estrangeiros
piedosamente cicatrizam.
Com efeito, no interior
do sentimento não há lei
de compostura que paciente
os borbotões do espírito.
Então, face à decomposição
da paisagem, pode-se
ainda afirmar que qualquer
forma de anuimento,
nesse terreno minado
de sentimentos que é
a poesia, acabará por
encontrar as provas
de entusiasmo em que
lhe seja possível reconhecer
o clamor do impossível?
Presas de deus perdidas
no espaço, as palavras
deixam-se encadear
pelos reflexos românticos
que lhes vêm das alturas -
mas a poesia, sempre dada
a céus mais baixos, continua
a ser para o pensamento
o caminho de guia que
prolonga para dentro
a promessa dos sentidos.

(de Caminhos de Guia, Black Sun editores, 2002)

25.4.07

FERNANDO SYLVAN

NATAL PORTUGUÊS


Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.

O dia estava certo, o mês, porém, não.

«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»

Menino Jesus, Menino irmão:

Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.

(de Meninas e Meninos, 1979)
ANA HATHERLY

REVOLUÇÃO (excerto)




(16 mm, tempo total: 5 min., 1975)
MÁRIO CESARINY

P. - Chatearam-no muitas vezes?

R. - Não é chatear muito; é que eles tinham o poder de chatear sempre que quisessem. Até podiam deixar passar vinte anos sem chatear, mas ao fim de vinte anos lembravam-se: "Olha este, vamos chamá-lo". Era uma coisa sempre pendente em cima da cabeça, uma espada. Tinha medo de ir ao telefone, tinha medo de ir ao correio: não me tratavam mal, nem me batiam, mas era uma coisa muito chata, muito humilhante ir às apresentações. Sempre me deitei muito tarde e sempre me levantei muito tarde, o que para a polícia era horrível: "não trabalha", essas coisas. E há uma manhã em que a minha irmã Henriette me chama e diz: "Mário, acabou a ditadura" - "O quê?", "Acabou a ditadura". Saio para a rua com uma máquina fotográfica e durante quase um ano, não foi um ano certo, mas quase um ano, fosse qual fosse a hora a que eu me deitasse, às oito horas eu levantava-me de cabeça fresca. Percebe o que isto quer dizer...

(excerto da entrevista Amor, Liberdade, Poesia, conduzida por Óscar Faria, in Público, suplemento Mil Folhas, 19 de Janeiro de 2002)
EGITO GONÇALVES

A PRIMAVERA


Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
- primaveras também, esperança, vida...

(de Poemas Políticos 1952-1979, Moraes editores, 1980)