30.7.07

Vamberto Freitas - Bem sei que esta pergunta se torna cansativa, mas aí vai ela: achas que ainda existe espaço para a intervenção político-cultural de um poeta e/ou escritor na sociedade actual, ou o reinante economicismo do momento vai vencer(-nos) todos?

Emanuel Jorge Botelho - A luta entre economicismo (nomeadamente na sua versão tecnocrática e castradora) e a intervenção do escritor, do poeta, é uma luta desigual.
O poeta está (de longe...) à frente. Mas só poderá erguer o troféu da palavra quando a sua sede encontrar, não o coice do vinagre, mas a água do afago, e do desejo.
Jean Cocteau escreveu que "o poeta não procura nenhuma admiração; quer ser acreditado."
Engatando Cocteau na tua questão, eu diria, metaforicamente, que nada se resolverá enquanto a "crença" dos destinatários não for capaz de (assumidamente) destronar os idolatras do "credito".

(entrevista conduzida por Vamberto Freitas, datada de 1993 e recolhida em Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, edições Salamandra, 1998)
EMANUEL JORGE BOTELHO

(«O Grito» de Munch, revisitação)


8

vem de longe a calamidade, a imaginária sombra
dos lábios próxima do grito. era assim já a subida do sangue
e nós de bibe e coiro traçado
aos ombros. não nos pesava ainda a luxúria dos caules
aposta opaca na ardósia das consoantes. a ponte secular entre uma sílaba que se ganha ao hálito dos canaviais
era uma madeira a resistir ao meio dia, o líquido engomado e branco que árvore, irmã?
dava tanta casa a essa fala verde
próxima de todas as margens. sentada na mesa
a mão sempre baixa, vogal do funcho

(de Cesuras, Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982)


EDVARD MUNCH


O Grito, 1893
têmpera sobre cartão
83.5 cm x 66 cm
Oslo, Munch-museet




EUSEBIO LORENZO BALEIRÓN

E. MUNCH: «O grito»


O tempo é um estadio
entre o tempo e a morte.

A luz un punto esvaído
en dirección ao vento.

O silencio ten ollos
e míranos do fondo do bosque.

Eu xogo con peixes de trapo,
salouco un anaco no escuro
e berro cara ao río con todas as miñas forzas.

(de Os Dias Olvidados, 1985)

29.7.07

[Ah, este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento]


RUY BELO

OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

(de Homem de Palavra[s], 1969)


[Casa onde Nasceu Ruy Belo, São João da Ribeira / Rio Maior - 28 de Julho de 2007]


AMADEU BAPTISTA

ROYAL LABEL BLACK


(a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas - oh as casas - e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d'outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais... - atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.

(de Green Man & French Horn, in A jovem poesia portuguesa / 2, Limiar, 1985 - colecção Os Olhos e a Memória)

26.7.07

LÊDO IVO

PALHA DOURADA


Somos o que a perfeição
nos deixa ser.
As abelhas zumbem
na tarde de verão
e o mundo é vão:
mão que escorrega
no corrimão;
raio de sol
no chão.

Somos tudo o que se esvai:
a sombra, o grito,
o amor, a fumaça.
O dia passa
como um gavião.
E a tua mão
pousa afinal,
palha dourada,
na minha mão.

(de Crepúsculo Civil, editora Record, 1990)

23.7.07

ANA HATHERLY

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
Não vejo nenhuma diferença de princípio entre
um aperto de mão e um poema.
(Paul Celan)



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

22.7.07

PAUL ÉLUARD

DOMINGO À TARDE


Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixões, tímido,

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares interditos, as terras estéreis,

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos,

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas,

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio,

Adensavam-se os astros, adelgaçavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis,

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função,

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que misturava os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.


(Tradução de António ramos Rosa, in Antologia, edições Tempo, [s/d] - original de Poésie et Vérité, 1942)

18.7.07

AMADEU BAPTISTA

LUDWIG VAN BEETHOVEN: ODE AN DIE FREUDE, DA SINFONIA No. 9


Não sei se isto é um hino e os anjos
precisam deste instrumento
para ampliar o silêncio. O que sei
é que chega de longe esta surpresa
de poder segmentar em força o coração
que em mim pulsa e eu não sei
de onde vem quando na música
pressinto um tema que só aos anjos pode pertencer
pela pujante candura dos acordes
e a humilde magnificência da alegria.

Tudo quanto ignoro é que está bem.


(de O Bosque Cintilante, Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão), 2007 - Prémio Nacional Sebastião da Gama)

16.7.07

RUTE MOTA
Nasceu em 1980.
Publicou prosa e poesia no DN Jovem e contos nas revistas Periférica e Pessoal. Tem publicado na revista on-line Minguante e colaborou na antologia poética Poesia no Porto Santo (P.E.N. Clube Português, 2006), com a tradução, a partir do francês, de alguns poemas de Maram al-Masr. Mantém o blog Esta distância que nos une.



Falam-me de náufragos
e de barcos à deriva –
e é o meu nome como uma prece.

Falam-me dos barcos e dos gritos
dos homens – e eu simulo o sono
como se deles não soubesse.


_____________


Memorando para o presente infinitivo:

abrir janelas nas linhas contínuas como paredes

afastar-me e deixar à terra a guarda
da imperturbável hibernação dos bichos

deixar as palavras expostas
para que ardam ou gelem ou se recuperem

e só depois voltar à casa
ao desarranjo possível dos quadros.


_____________


Esse gato ―
senhor único
do meu colo.

Patas brancas
majestosas ―
não me iludo.

Outro trono
não conhece
que não o sol.

Anoitece ―
a terra toda
submetida.

_____________


Se a voz, pequeno segredo
se desfaz –
na voz, outros segredos
se levantam.

_____________


Do silêncio, se é de vidro,
faço estilhaços ― e não lamento:
que reflictam gumes e lâminas
fiapos multiformes, gritos
luzes se ainda as houver.


(de Nenhuma Palavra nos Salva, editora Livro do Dia, 2007)

8.7.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.

Quem te arranca a força de raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.

O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.

(de Ciclo do cavalo, Limiar, 1975)

4.7.07

[a propósito da poesia russa num certo blog]

BORIS PASTERNAK

INSÓNIA

Que horas são? É escuro. Quase as três.
Parece que não torno a fechar os olhos.
O pastor da aldeia faz estalar o chicote à alvorada.
O vento frio soprará na janela
que dá para o pátio.
E estou só.
Não é verdade. Com
toda a onda penetrante do teu
ser puro, tu estás comigo.

(in Poetas Russos, tradução e prólogo de Manuel Seabra, Relógio d'Água, 1995)

2.7.07

Um milhão / Um milhão

Enquanto o locutor do Telejornal informa que o novo livro de Harry Potter já tem um milhão de exemplares encomendados, mesmo antes de ser publicado, em rodapé refere-se que há um milhão de desalojados no Paquistão.

27.6.07

ANTÓNIO MEGA FERREIRA

POEMA


Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.

(de O Tempo que nos Cabe, Assírio & Alvim, 2005)

21.6.07

EDMUNDO DE BETTENCOURT

O MUNDO EXISTE


Sob a ameaça de faltar-me o ar,
paralisar, o vento,
mudo, escoar-se o mar,

ergue-se mais,
à desfilada corre mais meu pensamento.

Subjugando os ares,
passa além de montanhas e de mares,
adiantado por eles e com eles,
pois não quer só espontâneo movimento.

E ao pavor de uma ilusão que o persegue,
ao pesadelo do nada sempre esquivo,
segue...
para um momento descansar
onde não seja um morto-vivo!

(de Ligação (1936-1962), in Poemas de Edmundo de Bettencourt, 1963)

18.6.07

GASTÃO CRUZ

3


Junho é um mês funesto
com o céu coberto
de armas

Da secura de junho
ninguém ainda morre
em cada corpo a boca
envolve os dentes mansos

(de Escassez, 1967)