27.8.07

ALBERTO DE LACERDA


A terra tem túmulos a mais

Mas os teus olhos
Ressuscitam tudo

Tu e eu
Morreremos
De excesso de eternidade

19-5-1967


(da sequência Ariel e a Luz, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)

12.8.07

DOMINGUEZ ALVAREZ

O Bispo, 1933
óleo sobre tela
Colecção de Menéres Campos




MIGUEL TORGA

Porto, 8 de Maio [de 1944]


O BISPO


Soturno como um cipreste,
O triste bispo que eu sou
É pintado.
Diante de Compostela,
Meu bispado,
Ali estou na minha tela,
Magro, pálido e parado.

Olhos cavados de fé
Nariz curvo e descaído,
Boca rasgada e torcida,
Até na tinta se vê
Que não anda bem na vida
Quem já no céu está perdido.

A fogueira arde por dentro
Da batina e da romeira...
A fogueira...
O lume que reconcentro
Numas brasas da lareira.

Ninguém se salva comigo,
Porque eu próprio me condeno.
No quadro, o meu inimigo
É um postigo...
Um simples olhar sereno.

Foi o pintor Alvarez
Que me pintou tal e qual:
Inquisitor castelhano
A fazer um entremês
Mais humano
Em Portugal.

(de Diário III, 1946)

11.8.07

MIGUEL FLÓRIAN

ESTA LÍNEA QUE PARECE ALEJARSE



Esta línea que parece alejarse
no es el mar,
ni el corazón tampoco.


La brisa de la noche,
en el estío,
a veces nos devuelve
sílabas semejantes,
parecidas fronteras.


El mar abandona en el alma
guijarros, caracolas,
palabras como éstas

(pero más verdaderas)


(de Anteo, Colección de Poesía "Juan Ramón Jiménez", 1994)



ESTA LINHA QUE PARECE AFASTAR-SE

Esta linha que parece afastar-se
não é o mar,
nem tão pouco o coração.


A brisa da noite,
no estio,
por vezes devolve-nos
sílabas semelhantes,
fronteiras parecidas.


O mar abandona na alma
seixos, búzios,
palavras como estas

(porém mais verdadeiras)



(tradução minha)

10.8.07

HELGA MOREIRA



É hora de endurecer palavras
num regime de tempo
Hora de entardecer agonias
e recrutar pântanos de verdade


Hora de silêncios consultados
Hora breve em tempo demorado
Hora de já é tempo sem tempo de espera


Hora de fragilidade quebrada


É hora das horas que não se viveram


(de Cantos de Silêncio, 1978)

9.8.07

[Havemos de ser úteis como mortos há muito]



JOÃO VÁRIO
Pseudónimo de João Manuel Varela, que utilizou também os pseudónimos Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Nasceu em 1937, no Mindelo, em Cabo Verde.
Uma síntese da sua Vida e Obra pode ser encontrada aqui.
Morreu na madrugada de ontem, na sua cidade natal.


CANTO TERCEIRO

E assim rodamos de objecto em objecto
Como seres concebidos no alto inverno,
Tal o círculo das coisas e as coisas do seu tempo,
Porque um homem pode matar-se,
E, se nos matamos, porque seres
Concebidos no alto inverno,
Sem a farinha deste ano e esta pausa aguda
(Oh tal lassidão, o decúbito, a ansiedade!),
Podemos ceder ao tempo e seu tempo o tremor
E a vaidade que não exigem de objecto
Em objecto, qual tempo que não exige
Esse giro fulminante e essa pausa aguda,
Tal, se nos matamos, há tal coisa de verão
Para citar e criamos mais depressa
E cedo rodamos de objecto em objecto
E não o negam os que vêm no verão.
Que vos dizíamos nós?
Nessa altura da vida
Tivemos medo à sabedoria.
(Sob seu sumário prestígio, a alma, lembrança
E ela, decide
Sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos.
E não saberemos que é impossível, impossível.
Ao movimento narrado de ter a vida,
Somos sem deuses, e vagos.
Oh o que amáramos
Não fosse a unidade
A que a alma nos força!
A noção, à mão, o cânone, à porta,
E o valor do rosto quando dorme:
Facto, ode ou cárie
Que comemoram a longevidade).
E eis que as casas se enchem dos ossos
Que perdemos, medindo a terra
Com os crânios que a vida perde porque é outra,
E o repouso das paredes que vão cegando
Crânio e terra, família e ambos. Tal os
Ossos arrefecem sem a chuva, como ela,
E as terra que os cobre nos cobre menos
Ou abre do nosso lado outra terra vizinha
Da terra que vamos dando com os ossos,
A chuva, o cobri-la hoje, terra
Ou chuva que outra coisa não cobriu, ontem.
Quando morríamos, ou cobre hoje, quando
O suicídio nos acode
E arrefecemos com ela, diz-se,
E outra vítima em nós, assim e alheia.
E em toda a parte a urna é a mesma,
E a língua que enche o túmulo
É o tumulto que persegue as crianças
Sobre a terra dos pais, a pá maior e a loucura
Tal espera outras trevas para a profecia,
O dogma, o granizo que desabam sobre o soro
Dos rostos, pasmos óbvios sem o horror dos discípulos,
A versão de seu deus e nossa inocência de adultos,
Adobe ou adubo que a boca arrasta
Na saliva para a hóstia povoada
Que não o tempo, mas seu tempo,
Doeu ou deu no peito largo, chão,
Não cristão, que bebe e morde
Da água desta celha, veste desta roupa na corda
E esfrega a terra deste mundo
Sobre seu corpo de pobre, como óleo,
(Só quando imutáveis mortos nos legássemos,
Nos não aterre essa capitulação
Que amamos proibir. Com efeito,
O que blasfemamos é inominado. Entanto,
Se de símbolos, e lúgubres,
Os pactos tecemos com a alma,
Tê-la é tão só a dimensão sua
E alheá-la, reduzida).
E tudo que a nós, presságio,
Pasmos, perdulário instinto,
Regressa,
Circunscreve-nos à tradição
Aleatória
De em pura fatalidade concluir a alma.

(Eis a vítima, nosso saco de gâmetas e de enzimas,
Com agosto arrastando vidro e pedra,
Coentro e alho pelas portas dos vivos,
Tal cadáver ou mó desta ternura
Com que outrora arávamos sua estéril vida
De mês nosso estéril mês de vida, às portas das vítimas,
Tal a profissão menor, as gengivas
E as jovens da cidade falando de Plotino).

Para a culpa que em nós se inconstitui
Absolve-nos, legando-nos
A desespero menos fortuito
Que exaustão ou remorso. Contudo,
Nem de tão sepultos
Nos logramos menos vulneráveis.
O falso alarme, o lucro, a ofensa,
O opróbrio, a tolerância, a escolha,
Pecadores apenas e tal como pecadores,
Coisas que repetíramos, coisas que ficaram,
Coisas de ostentação e de verbo alto,
Coisas do humor, da páscoa, públicas coisas,
E coisas de primavera transacta, de semana santa,
Coisas porque nos matamos ao pedido do óbulo,
E coisa de redacção privada.
Qual vantagem ou cumplicidade ou acordo póstumo,
À entrada da ilha, no principio da igreja, à hora
De sair com os utensílios para a prece,
Para a preguiça, para a carícia e para a gratidão
Na revolta e no massacre reflectimos,
A vantagem, a cumplicidade, o hábito, olvidados
Ou amando os únicos rostos, indigência como fruto
Que ao seu sentido coube, tal
A luxúria, a nudez, o vexame, a volúpia,
O habito, o tédio, a monotonia, a inveja,
O tédio, o mau humor, o hábito, o tédio,
A vontade de viver e o temor de morrer,
E a vantagem, a cumplicidade e o acordo póstumo. Tal
O vício é um novo presente para os crimes nossos
E sob a alegoria da tarde e a amizade do meio-dia,
Impetuosíssimos, discorremos sobre a família,
As horas de sono e os meses de gestação
E de trabalho árduo, tal sua paz,
Paz certa, paz outra, paz amplíssima e paz grande.

Trata-se do ócio, da diferença, do baptismo, ó homens.

(Tudo chegou com o engano, a data do parto,
A primeira fome, o engano,
A data do parto é um mais triste coito).

Pagãos votivos e, de votivos, concussos,
O que restituímos de conclusão e apocalipse
Não assimila na razão e no desígnio
A desfigura que nos sobrevive - crime
Ou tutela do pão que a reminiscência promove.
Pois que o tempo que nos traímos
Não supõe corpos supérfluos,
O conhecimento é a só mesma dor
Com que nosso próprio abandono confundimos.
Sabemos, pois, que o que falta é um pouco de utilidade.
A réplica, o inverno imediato, a escuridão alta
E os primeiros surtos do favor, os meses e os anos
De setembro brusco, e as últimas mesas e o vinho
Chegando com a estupefacção, a impotência,
E a réplica, o inverno imediato e a escuridão alta.

Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, a vergonha, o desprezo, a falência,
A chave do regresso e a opressão do regresso,
Desde regresso e desde regressar, regressando
(A solidão do outono e a fatalidade do outono,
Outono ou outono, outono sempre,
Outono se assemelhando, outono semelhante,
A solidão de ter e de não ter feito,
Sendo mais nada em nada, ou nada,
E tempo de considerar que morremos),
Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, eis que para cima do robusto vaso do sangue
Sangue em si próprio e acima de outro sangue,
Elevamos, a meio do casto outono, a cabeça sonora.
A recusa, o bem da luta, o morto e seu morto.
Tal os mortos nossos, nem sempre
Mortos sempre ou mortos connosco ou com morte
Por que morreram. Tal um pouco são
Da hospitalidade que o corpo inclina para a sombra
Que o usa, ao meio-dia, o gozo, a arma,
E a terra e as varizes que os usam. Mortìssimamente
Mortos.

Pois sem beber é da atenção e do alarme que falamos,
Sem eles bebendo, porque menos bebem,
Ao fundo do diário sangue bebendo, porque há os que menos bebem,
Tal necessidade e fecho ou desnecessidade e desfecho.
E tal é o sangue no fundo do sangue, seu sangue por dois,
Sangue outro que duplo, sangue com advento do sangue,
Ou sangue que esquecemos de beber, bebendo.

Quando junho começa e se fala
De mutilações e de outubro,
O homem o domingo recebe
Como quem mutilações e domingo
Reflecte, pois a alma se lembra de junho,
E está alta, menos alta, através de estar-se lembrando,
Outubro lembrando.

É, pois, um outro soleníssimo inverno. Inverno e sua corda
E cabaz de nos observar com a mão, de nos tomar
Por outra vida, sua vida de inverno e sua
Inverníssima vida, e de inverno,
De inverno ouvindo. E
Homens destes tempos, sem a excelência deles,
Homens precários, lassos, mais,
Enquanto seguíamos, baços, falsos, entre estevas e o século,
De longe seguíamos a mulher aguardando
Seu sexto filho,
O choro, o vento e a venda em seu ventre,
Ventre seguindo de longe, ventre ou ventre, ventre
Sempre, ventre a esmo.

(Por certo, a planta dos pés de um homem
De nada vale neste mundo. Pois
Que são o seu rectângulo de ruído,
Sua tensão de carne, agosto, o camelo
E o fundo da agulha, como se diz?)

Tudo conhecemos agora que o sol cai e é a simples razão de cair
E hesitar connosco. O sol, sem de ser sol tal,
Sol tanto, sol aquele do solo, do solstício, do sono,
Do desenvolvimento, de sol tal.

Ah dignidade! acreditamos valores de abominação
E de dezembro.
Tempo grande e oramos. Aula e beijo,
E ninguém precipita sua sesta de crente,
E sabemos que vamos cumprindo como fidelidade
O que a fidelidade com alta sapiência cumpriria.
E tal é o assunto.

Que preceito, pois, que celeridade ou feitio
Que frio será, homem, tua totalidade?

Não insistimos mais sobre estarmos tristes e morrermos.
A herança, o jogo, o frenesi, o gesto,
O apetite, o negocio, apetite
De destruição e de vantagem,
De continuar e de sobreviver.
Também o triunfo, o prazer, o prazo de morrer
E de ganhar, de acabar e de recomeçar,
E o gozo da obediência. Tal
A paz. Paz e mito numeroso
A mesa desdobrando sobre a notícia, o sarcasmo,
O dolo ao sétimo dia de junho,
Mês da impaciência e de canto triste, mês
Com verão e da sua teoria do verão e do tempo,
Mês velocíssimo.
A jornada, o aniversario, o arrependimento.
Tal o alimento por baixo do alimento,
O alimento acima do alimento. Alimentìssimamente.
Festa e espelho. A recepção
O sucesso, o tempo. Tempo grande.
Tal há os que menos bebem, porque menos bebem, porque menos bebem,
Sem eles bebendo, ou bebendo, tal
Não há imortalidade
E não podemos pagar a reminiscência.
Porque pasmos e hábitos vacilam em nós
O limite e as lembranças.
E enquanto instituímos os signos
E nos louvamos nos mortos imortais,
A alma, génese e ela,
Decide sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos. Tal
Memória ou memórias,
Memórias como salário
Ou cântaros de sacrifício,
No signo dos gémeos, ao vigésimo terceiro ano
Do principio do signo,
Humanas razões de censura e audiência,
E o auxilio, o prazo grande, a possibilidade
Porque da morte nos ficou esse dom
De a pensarmos como coisa sua,
Coisa por que a pensamos e acaso não a exprime
Porque a designamos.

Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo concede,
Fim de novo e reconhecimento de novo,
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosìssimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento a festa, ou cilício, e tempo de cair a tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por eles, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

(de Exemplo Geral, 1966 - in Líricas Portuguesas – quarta série, selecção prefácio e notas de António Ramos Rosa, Portugália editora, 1969)

5.8.07

JORGE VELHOTE

A vertigem das rosas e da luz


ao Egito Gonçalves


Agora o mar é uma grade na clausura do coração, uma planície
minuciosa, uma essência atando os vidros contra o frio,
uma caligrafia gratificando os odores da chuva e da pele, que escorrem no olhar.

Agora as aves descarnam os últimos rostos na barreira do silêncio,
sobre a ilha infindável da memória chega a doçura lenta das tuas mãos,
a vertigem das rosas e da luz, as palavras na sombra mais luminosa dos regatos
fosforescentes de relâmpagos e serpente.

O dia é uma ferida nua, numa labareda de conchas, é pura a carne das pedras,
às vezes o canto dos rouxinóis pára de súbito, nós calámo-nos mais cegos, junto à
quietude da água e da noite, dos muros e do musgo, na melodiosa melancolia da
memória e da ironia.

Que fazer diante do imenso abismo senão amar.

(in Saudade - revista de poesia, n.º 1 / Dezembro de 2001)

1.8.07

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

CAMÕES E A TENÇA


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

(de Dual, 1972)

30.7.07

Vamberto Freitas - Bem sei que esta pergunta se torna cansativa, mas aí vai ela: achas que ainda existe espaço para a intervenção político-cultural de um poeta e/ou escritor na sociedade actual, ou o reinante economicismo do momento vai vencer(-nos) todos?

Emanuel Jorge Botelho - A luta entre economicismo (nomeadamente na sua versão tecnocrática e castradora) e a intervenção do escritor, do poeta, é uma luta desigual.
O poeta está (de longe...) à frente. Mas só poderá erguer o troféu da palavra quando a sua sede encontrar, não o coice do vinagre, mas a água do afago, e do desejo.
Jean Cocteau escreveu que "o poeta não procura nenhuma admiração; quer ser acreditado."
Engatando Cocteau na tua questão, eu diria, metaforicamente, que nada se resolverá enquanto a "crença" dos destinatários não for capaz de (assumidamente) destronar os idolatras do "credito".

(entrevista conduzida por Vamberto Freitas, datada de 1993 e recolhida em Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, edições Salamandra, 1998)
EMANUEL JORGE BOTELHO

(«O Grito» de Munch, revisitação)


8

vem de longe a calamidade, a imaginária sombra
dos lábios próxima do grito. era assim já a subida do sangue
e nós de bibe e coiro traçado
aos ombros. não nos pesava ainda a luxúria dos caules
aposta opaca na ardósia das consoantes. a ponte secular entre uma sílaba que se ganha ao hálito dos canaviais
era uma madeira a resistir ao meio dia, o líquido engomado e branco que árvore, irmã?
dava tanta casa a essa fala verde
próxima de todas as margens. sentada na mesa
a mão sempre baixa, vogal do funcho

(de Cesuras, Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982)


EDVARD MUNCH


O Grito, 1893
têmpera sobre cartão
83.5 cm x 66 cm
Oslo, Munch-museet




EUSEBIO LORENZO BALEIRÓN

E. MUNCH: «O grito»


O tempo é um estadio
entre o tempo e a morte.

A luz un punto esvaído
en dirección ao vento.

O silencio ten ollos
e míranos do fondo do bosque.

Eu xogo con peixes de trapo,
salouco un anaco no escuro
e berro cara ao río con todas as miñas forzas.

(de Os Dias Olvidados, 1985)

29.7.07

[Ah, este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento]


RUY BELO

OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

(de Homem de Palavra[s], 1969)


[Casa onde Nasceu Ruy Belo, São João da Ribeira / Rio Maior - 28 de Julho de 2007]


AMADEU BAPTISTA

ROYAL LABEL BLACK


(a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas - oh as casas - e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d'outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais... - atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.

(de Green Man & French Horn, in A jovem poesia portuguesa / 2, Limiar, 1985 - colecção Os Olhos e a Memória)

26.7.07

LÊDO IVO

PALHA DOURADA


Somos o que a perfeição
nos deixa ser.
As abelhas zumbem
na tarde de verão
e o mundo é vão:
mão que escorrega
no corrimão;
raio de sol
no chão.

Somos tudo o que se esvai:
a sombra, o grito,
o amor, a fumaça.
O dia passa
como um gavião.
E a tua mão
pousa afinal,
palha dourada,
na minha mão.

(de Crepúsculo Civil, editora Record, 1990)

23.7.07

ANA HATHERLY

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
Não vejo nenhuma diferença de princípio entre
um aperto de mão e um poema.
(Paul Celan)



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

22.7.07

PAUL ÉLUARD

DOMINGO À TARDE


Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixões, tímido,

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares interditos, as terras estéreis,

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos,

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas,

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio,

Adensavam-se os astros, adelgaçavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis,

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função,

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que misturava os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.


(Tradução de António ramos Rosa, in Antologia, edições Tempo, [s/d] - original de Poésie et Vérité, 1942)