13.11.07

MARIA VELHO DA COSTA

É hoje um dia em que a mediania disto me parece não insuportável, como todos a dizemos, mas injusta. Injusta como tudo o que deveras se não entende e contudo se nomeia. Todos os nomes e todos os juízos e todas as análises me parecem passar ao lado. Tomámos de mão todos os instrumentos comuns, o saber que a história não vagueia, e temos ajustadas as grelhas das ciências humanas ao que vemos. Paira sobre nós um grande susto singular e onde não temos cólera, temos razão. A nossa cólera volveu-se um discurso dela. A boçalidade de toque lírico e aguçado que era a nossa cobriu-se afinal de uma modéstia atilada e verbosa e apressamo-nos, os de melhores intenções, a que a ela se substitua o desejo de consumir o razoável supérfluo. Onde antes a única fonte de corrupção era o luxo, o que era ainda pujança, hoje corrompe-se pela afirmação do relativamente necessário. Dir-me-á que em toda a parte. Mas antes deste ponto, cada núcleo de gentes teve a sua traição peculiar a perpetrar, o seu campo de mortos intransmissíveis, seu canto particular a serenar. A nós, coube-nos a prematura paixão da honestidade, a aprendizagem da aptidão algébrica e um grande aborrecimento sossegado e assexuado.

(excerto de Maina Mendes, 1969)

1.11.07

[evocando todos os santos]

CRISTINA CAMPO

MISSA ROMANA

I

Inerme como nenhum lírio
no luminoso
sudário
sobe o Calvário
teologal
penetra na sarça
ela crepita há milénios
sempre oculta
na odorosa nuvem da língua.

Curvado por terríveis
ventos
beija em silêncio sagradas feridas
eleva, mostra
puras mãos trespassadas
mendiga paz
entre polegar e indicador
um fio sobre o abismo do Verbo mantém.

Da ossada dos mártires
trituração de alegria
cresce
a raiz de Jessé
desabrocha no cálice abrasado
e na branca lua
onde se cruzam o sangue e
o estandarte
surgindo vacilam seus
joelhos.

Sobre a pedra angular
que estilhaça a morte
eleva-a à altura das lágrimas
e repousa-a
com materno terror
sobre estigmas, esses lábios
que curam
a vida.

Em torno ao pasto
mortal
nas orlas de Deus
silvam serpentes mordem o corporal
nos quatro ângulos do conopeu
retraem-se as folhas
dos céus
fendas danificam os pilares.

Assediados
à porta
marcados pelo cheiro da peste
fingem e vendem com gracejos
a enfermos e disformes
da probática
pia
a sua suave máscara de suplicio.


II

Falcoeiro do Céu
sobre cuja mão levantada
o Eterno Predador investe
ávido de prisões...


III

Onde vai
este Cordeiro
que aos virgens é dado
seguir onde quer que vá
este Cordeiro
que está direito e morto
sobre o livro dos assinalados
ab origine
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se permanecer
inocente.

Onde vai
este Cordeiro
que a nós que o supliciamos não é dado
seguir com os assinalados
nem fugir
mas soluçando suavemente conceber
no escuro seio da mente
usque ad consummationem
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se morrer
inocente.

(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução e prefacio de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

31.10.07

[a propósito da passagem de 105 anos]

ADÉLIA PRADO

Agora, ó José


É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
"No meio do caminho tinha uma pedra"
"Tu és pedra e sobre esta pedra"
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(de Bagagem, 1976)
[um verso que se ouve por estes dias]


vai desarmar a flor queimada








30.10.07

YVETTE K. CENTENO

VOZES


Vozes
contra as paredes

nessas vozes
não se pode nadar

o fluido é espesso
misto de alga
e de esgoto
destroçar
das paixões

praia
ao fim da tarde

nadando
com a maré vaza
na direcção da rocha
onde os deuses
se escondem

(de Entre Silêncios, Pedra Formosa, 1997 - colecção Arco Imperfeito)

BRITO CAMACHO

«Ali as enxertias são coisa trivial, não umas pequenas enxertias, como fazem os cirurgiões da Europa, mas enxertias do mais largo alcance, e da mais apurada technica.»

(excerto de Pó da Estrada, livraria editora Guimarães & C.ª, 1930)


Passo ao José do Carmo Francisco (aqui ou aqui, tanto faz...), à Lídia, ao Marco, ao Miguel (aqui ou aqui, tanto faz...) e ao Nuno.

Regras:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

29.10.07

EVA CHRISTINA ZELLER

O MAR NÃO CONHECE O MAR


o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
o mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece

(de Sigo a Água, tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado, Relógio d'Água, 1996)

28.10.07

SALETTE TAVARES

RAJADA


É grande o grande no mar grande e mar
é verde azul cinzento ar
é vida desespero na areia a enterrar
sem terra
só de claro e agreste o meu vagar.
Passado o trilho que o dia me ensinou
passadas dunas tão limpas pelo vento
a sombra me desenha em rente quente
o todo fogo sol que me detém
tangente.
Breves os passos corridos
e perdidos
leves de areia roçando-me na face
vestido o vento
inteira esteira de poeira me desfaço.

(de Quadrada, 1967)

27.10.07

EMILY DICKINSON

Experiência para mim
É cada qual que eu encontro.
Será que contém um Fruto?
A Imagem de uma Noz

Aparece numa Árvore,
Igualmente plausível;
Mas Miolo é requisito
Para Esquilos e p'ra Mim.



c. 1865

(in 80 Poemas de Emily Dickinson, tradução e apresentação de Jorge de Sena, edições 70, 1978)

26.10.07

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

A REGRA DO JOGO


Adivinham-se tempos difíceis:
obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.

(de Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito, Assírio & Alvim, 2007)

25.10.07

GRÉCIA ANTIGA

Niki tis Samothrakis / Vitória de Samotrácia
Paris, Museu do Louvre


MARIA ÂNGELA ALVIM


VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA


Não aqui, - além é que existes. Teu vôo
demais amplo na extensão dos olhos
de tão curto olhar,
em tempo de pausa acompanhamos.

Mito
anjo
graça
alma de dança
teu corpo era paixão na pedra.

... Param os passos,
espraia-se o mar
onde arrebatas as vestes do vento,
ó vertigem de ser e de estar!

(de Barca do Tempo (1950-1955), 1962 - in Superfície / toda poesia, Assírio & Alvim, 2002)
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

- O que tem, compadre? - perguntou.
O coronel suspirou.
- É Outubro, compadre.

(excerto de Ninguém Escreve ao Coronel, tradução de José Colaço Barreiros, 1990)

23.9.07

DAVID MOURÃO-FERREIRA

EQUINÓCIO


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

(de Do Tempo ao Coração, 1966)

22.9.07

BORIS VIAN

QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA


Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente

(in Canções e poemas, tradução de Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1997 - Rei Lagarto)

21.9.07

[para o Hugo, a propósito de relâmpagos]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

OS AMIGOS


Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta e impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

1993

(de Musa, 1994)