21.1.08

[outros melros XLIX]

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


Micróbio #294


E no meio do ruído um melro cantou, pousado num poste de electricidade, fechando as bocas deslumbradas daqueles que se riam de coisa nenhuma que valha a pena lembrar. Só o melro, a cantar, mereceria aqui ser citado, fosse-nos possível dar às palavras a música daquele canto.

(daqui)
[outros melros XXIa]



Bobby Mc Ferrin interpreta Blackbird, dos Beatles

20.1.08



Amadeu Baptista ganhou, com o original "Sobre as imagens", o Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. Este é o seu quarto prémio em menos de um ano e o nono em 25 anos de publicação de livros, colaboração em revistas e antologias e tradução e divulgação de outros poetas.
A esse propósito, o Poeta prestou declarações à Agência Lusa e deu uma significativa entrevista a José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel. Bom sinal, sobretudo tratando-se de um Poeta que, não as recusando (mas também não andando atrás delas), quase nunca deu entrevistas. E certamente tem muito para dizer.


Aproveito para destacar o valoroso trabalho do José Mário Silva, que mais uma vez se revela pioneiro da blogosfera ao criar um "blogue literário por excelência, (...) literário no sentido em que deviam sê-lo as revistas literárias que não temos", como afirmou Eduardo Pitta.

13.1.08

ÁNGEL GONZÁLEZ

IV – ZONA RESIDENCIAL


Até um cego podia ter adivinhado:
a perfeição reside nestas ruas.

Os ruídos, os cheiros,
o timbre delicado
das vozes humanas, o júbilo
dos latidos,
o rumor harmonioso dos autocarros,
a discreta presença dos lilases,
inclusivé
os bons ares que difundem o seu aroma,
revelam, sem ser preciso mais,
isso que o olhar
comprova

          nas pombas viandantes

(indolentes na hora
de abandonar os bocados
de pão, pese a obstinada
irrupção de passos e pneus),

na atitude cortês dos jardins
particulares

              (generosos não só
na distribuição de pólen e fragrância
mas também dedicados à entrega
do próprio corpo das flores
que se oferecem, abertas e submissas,
entre as grades e sobre os muros),

nas pessoas e nos seus atributos:

crianças
(bicicletas e risos niquelados),

Militares
(de alta graduação, sem sabre
nem escopeta, só
com artrites e condecorações),

adolescentes
(de formato agradável, encadernados
em pele de qualidade insuperável)

donzelas
(de serviço doméstico
- bem entendido -
também belas debaixo
das toucas),

e outros seres adultos
(senhoras de bom porte, cavalheiros
de excelentes modos,
carteiros pressurosos,
condutores cortezes)...

Tudo, em resumo, o que vêem os olhos
ou escutam, tocam, cheiram os sentidos,
é sintoma, sem dúvida,
da bondade, da ordem, da fortuna
que há-de albergar um mundo tão perfeito.


(de Tratado de Urbanismo, tradução de Helder Moura Pereira, Fenda edições, 2001)

[Vd. referência ao Autor, e respectivos links]

10.1.08

Estou a ver televisão e fico com a sensação de que Sócrates está a ficar cada vez mais parecido com a caricatura que Ricardo Araújo Pereira faz dele.

6.1.08

Morreu Luiz Pacheco. Parece-me óbvio que se aguentou até 2008 para não ter que morrer no mesmo ano que Mário Cesariny.

4.1.08

RUTH FAINLIGHT

A OUTRA


Seja o que for que encontre, se o procuro, está errado.
Preciso de esperar: a mais difícil prova é conter-me,
ficar passiva, receptiva, paciente e vazia
de qualquer exigência ou desejo, até que
a outra, essa que eu nunca teria descoberto
por mais que procurasse toda a vida, emergindo
das sombras, se aproxime como criança arisca e acanhada.

E esta será a mais longa das tarefas: aguardar,
abrir-me. Aquietar a minha energia
é mais difícil que aplicá-la a qualquer causa,
mas a outra só poderá mostrar-se
à revelia da minha ardente natureza
sempre ansiosa por escolher. Isto é doloroso
e violento como um parto sem tréguas.

Tenho que me afastar da tentação de agir
para deixar que ela venha, com um sorriso cauto
e um braço levantado – para me saudar ou para defender-se
(não consigo decifrar o gesto ambíguo).
Chego a ter que respirar mais lentamente
até ela ficar tão perto que eu consiga
captar-lhe o som da voz suave e débil.

E então, como em sonhos, quando se invoca
uma língua não falada desde antes da infância
(quando eu era tímida como ela, minha irmã esquecida
cuja vinda me completa e recompensa),
começo a entender aos poucos a mensagem
que tanto demorou a entregar-me. E amando-a aprenderei
nas palavras que canta o meu próprio segredo.


(de Visitação, tradução colectiva (Poetas em Mateus) revista e completada por Ana Hatherly, Quetzal, 1995)

3.1.08

[para uma antologia de bicicletas - 14]

SEAMUS HEANEY

GUIÃO PARA UM FILME


Eles pedalam afastando-se do que podia ter sido
em direcção ao que nunca será, num plano aguentado:
Professores em bicicletas, falantes da terra em saudação,
entrando nos anos vinte como se fosse no futuro.

Ainda a pedalar, já lá no fim das lentes,
não indo a parte nenhuma e não desaparecendo.
Mistura fúcsia que 'segue a linguagem'.
Longa sequência sem som. Panorâmica e desfoca.

Então vozes sobrepostas, em diferentes Irlandeses,
discutindo tarefas de tradução e taxas linha a linha;
como os marcos miliários de oitocentos em bermas de relva,
ocorrência de nomes como R. M. Ballantyne.

Grande plano do olho de gato de um botão
seguido de abertura para a capa de uma sotaina,
barrete de padre, colarinho de volta, maçã de Adão.
Parar no rosto inexpressivo. Pôr os créditos

e mesmo quando parece que é o fim -
focar o rasto da longa vaga que vai galgando a margem
e se desfaz no ponto em que uma vara escreve e escreve
palavras no velho guião na areia que se escapa.


(tradução de Vasco Graça Moura, in Antologia Poética, Campo das Letras, 1998 - original de The Haw Lantern, 1987)

2.1.08

NUNO TRAVANCA


à maria khépri


beleza enquanto processo respiratório


ela solve mecanicamente o sangue
quando inspira melancólico outro dia

uma pequena árvore mostra-me as asas
os vôos impróprios que lhe descobre
as luzes ofuscadas do seu límpido sono

e então expira, tal prazo que não li
processa-se ante um corpete apertado
uma respiração dúbia

obstinadamente reflectiram o silêncio
os passeios dos lagos espelhados
a raiva dos campos de batalha

e é esta causa justa que lhe vejo
entre a penumbra

músculos da boca tendem a sorrir
a não sorrir

é inconsolável esta cura que
com as rédeas bem presas
deixa de processar um esteta.

(daqui)

1.1.08

[no dia da Paz, eu que estou na minha casa sossegada]


ADOLFO CASAIS MONTEIRO


IV


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa e ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


(de Europa, 1946)

31.12.07

MANUEL DE FREITAS

HANTAÏ, 1992



Ou digamos cravo, cetim
- how beautiful -
destas horas vãs. Entre
o torpor e o excesso,
tão próximos (outra vez) da morte.

Num gesto de penumbra, avanças
- e o meu rosto passa
a ser outra coisa qualquer.
Fugaz sinónimo de beleza

em vez das punhetas do costume.


(de Büchlein für Johann Sebastian Bach, Assírio & Alvim, 2003)

24.12.07

VASCO MIRANDA

ANUNCIAÇÃO



Amigo: a tua próxima presença
Anuncia-me o mistério ainda não revelado.


Virás como o sonho, na noite, caído sobre as pálpebras
E como a alvorada debruçada sobre o mundo...
Virás com o teu verbo quente e a tua mão leal
Para o aperto solidário que nenhum poder separará.
Virás juntar a tua vida à minha vida,
Comer o mesmo pão, sugar o mesmo sol.


E virás, com o silêncio das horas em que as nossas bocas não saberão falar,
Para selarmos num poema eterno o milagre das nossas almas reveladas,
A fecundar a poesia viva as nossas vidas que não queremos estéreis e ignoradas.


(de Luz na Sombra, 1946)

19.12.07

[outros melros XLVIII]


NUNO JÚDICE

ZOOLOGIA: O MELRO


Na gaiola, o melro não tem o bico mais amarelo
do que fora dela. Encolhe-se a um canto,
coitado, e parece envergonhado;
- embora esteja ali por culpa de quem lá o meteu
sabendo que um melro não cai do céu.

Há pássaros assim, que qualquer um
mete numa gaiola, apesar do bico ser amarelo.
Não cantam. Não voam. Não falam.
São pássaros cegos
com a mudez dos oráculos e mudos
com a lucidez dos profetas.

Perfeitamente por acaso, abri-lhe
a gaiola. E ele deixou-se estar, sem sair
nem entrar.


(de Um canto na espessura do tempo, 1992)