9.2.08

ANA HATHERLY

É PRECISO FAZER UM ESFORÇO


É preciso fazer um esforço
Considerar possível
Estar sempre de perfil
Ser mono-asa
Barbatana sem dorso
Branco sem luz
Ave sem cisne

Ondular no ar
Ser o remoto futuro
Relâmpago sem ser visto
Força sem motor
Buraco sem queda

Considerar possível
Eros sem frenético
Livro sem que o leiam
Poema sem que o façam

Fazer um esforço
Sentir insensível
Sem que seja possível
Sem que seja preciso

Profundamente
Tudo é tão importante
Como um olhar furtivo

(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
ANA HATHERLY

(...)
Quem é esta Neo-Penélope que “Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera por nenhum Ulisses”?
É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói – Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado – nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido do amor.
(...)
Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso?
Sou a gata.

(excertos da entrevista a Ana Marques Gastão, Diário de Notícias / suplemento DN gente, 9 de Fevereiro de 2008)

3.2.08

EUGENIO MONTALE

CARNAVAL DE GERTI


Se a roda se embaraça no rolo
das serpentinas e o cavalo
se empina na comprimida multidão, se neva nos
teus cabelos e nas tuas mãos um longo arrepio
de fugazes íris ou as crianças elevam
as plangentes ocarinas que saúdam
a tua viagem e os ecos ligeiros caem em lascas
da ponte abaixo sobre o rio,
se a rua se despovoa e te conduz
a um mundo insuflado numa trémula
bolha de ar e de luz onde o sol
saúda a tua graça - talvez tenhas
reencontrado o caminho que tentou um instante
o chumbo derretido à meia-noite quando
acabou o ano tranquilo e sem foguetes.

E agora queres acabar onde um filtro
despoja os sons
e deles faz sair os sorridentes e acres
fumos que compõem o teu amanhã:
agora pedes uma terra onde os onagros
mordem cubos de açúcar nas tuas mãos
e as atarracadas árvores despontam rebentos
miraculosos no bico dos pavões.

(Oh o teu Carnaval será ainda mais triste
esta noite do que o meu, prisioneira entre as prendas
para os ausentes: carrinhos de licores
coloridos, fantoches e arcabuzes,
bolas de borracha, liliputianos
utensílios de cozinha: a urna destinava-as
a cada um dos amigos distantes na hora
em que Janeiro se entreabria e no silêncio
se cumpria o sortilégio. É já Carnaval
ou é Dezembro que se atrasa ainda? Penso
que se moves o ponteiro do pequeno
relógio que usas no pulso, tudo
parará num decomposto prisma
babélico de formas e de cores...)

E o Natal virá e o Ano Novo
que esvazia as casernas e te traz
os amigos dispersos, e também este Carnaval
voltará, ele que agora nos foge
através das paredes que se fendem já. Pedes
para parar o tempo na terra
que em redor se dilata? As grandes asas
sarapintadas afloram-te, os alpendres
suspendem ao ar livre frágeis bonecas
louras, vivas, as pás dos moinhos
rodam fixas sobre as poças gárrulas.
Pedes para suster os sinos
de prata sobre o burgo e o som rouco
das pombas? Pedes as manhãs
trepidantes das tuas praias longínquas?

Como tudo se torna estranho e difícil,
como tudo é impossível, dizes tu.
A tua vida é aqui em baixo onde retumbam
as rodas dos furgões sem descanso
e nada volta se não talvez nestes
sacões do possível. Regressa
até junto dos mortos brinquedos onde a morte porém
não existe; e com o bater do tempo
no teu pulso entrega-te de novo à existência,
entre as paredes pesadas que não se abrem
ao abismo fatigado dos humanos,
regressa ao caminho onde contigo me entristeço,
àquele que apontou um chumbo seco
às minhas, às tuas noites:
volta às primaveras que não florescem.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 – documenta poetica. Original de Le occasioni / As ocasiões, 1939)

23.1.08

[assinalando a colaboração blogosférica de mais um poeta]

JORGE AGUIAR OLIVEIRA

ERRATA


um corpo para cobrir a tua ausência
Mário Cesariny

ONDE SE LÊ

a Fernando Parente Simões
Paço d'Arcos, 1984


I

É por Setembro que
volto, quando todos partem,

às dunas aos suaves fins
de tarde.


II

Quando chega este tempo,
é o Sol que impõe

os caminhos novos.

Depois, é cruel voltarmos
à praia
no fim de verão.
São vestígios desses gestos
recentes. Garrafas de óleo,
latas, pregos, espinhas

das conchas que não encontramos
a lembrança.


III

Na esplanada sob os toldos de verão.
Um olhar ausente
as sardinheiras rosas lagartixas
o canteiro com papoilas secas

da limonada
uns gelos uma palhinha
azul e branca.

Somos deste país
a perder

o rumo da viagem


IV

Chegou um táxi ao Motel.
O rapaz loiro continuava lendo
a revista. Na piscina um corpo
luzidio ancorou-me o olhar.
Antes assim. Sombras de árvores,
gentes intranquilas a trans-
formar a paisagem.
Trazem areias o sal
às turfas às raízes
regressam com mantas sujas
de melão e vinhos. Pinhões
esquecidos no fundo do saco.

Os barcos percorrendo o rio,
chegam ao mar, mas
é tarde demais.


V

De volta, um vento fresco.
O sol de partida.

Alguém a ficar

esperando, as estrelas de verão.


VI

A tua sombra
descansando sobre a areia

a gaivota a cortar
este olhar poisado

na tua sombra
descansando sobre a areia.

Às vezes
perdemos tempos, por nada.


VII

Regresso
com a tranquilidade
ao fim do dia

aos últimos voos
dos pássaros.


LEIA-SE

para Luís Manuel Gaspar
Mira, 1988


I

Por Setembro já não
volto só, quando todos partem

às dunas dos amargos
olhares sobre o rasto
do fim
desta terra.


II

Quando chega esse tempo,
é o Sol que impõe

o tom da Índia
a luz dos sacrifícios.

Sempre foi cruel voltarmos
às praias
no principio do outono.
Caminhar entre sucata.
Rodas, bancos coloridos,
peças de não sei
nada, cheiro porco
a ferro a água, gasolina.

Nos sacos plásticos,
a lembrança
das alforrecas.


III

Na esplanada sobre os toldos no chão.
Um olhar mais ausente
sardinhas para assar
o canteiro seco

ácidos cítricos
málicos mais gelo e duas
palhinhas arco-íris.

Somos daquele país
que lhe alteraram
o rumo da viagem.


IV

Chegou um táxi ao motel.
O rapaz loiro sujo continua lendo
a mesma revista. A piscina seca
fios de ferrugem mosaicos fendidos.
Assim: Sombras de troncos mortos
poucas árvores,
gentes intranquilas
continuando a merdar
a paisagem. Trazem
areias, alcatrão
às turfas calcinadas.
Arrancando as poucas raízes
que restam
regressam com mantas de fibra
sujas de melão e vinho.
Pastilhas elásticas pegadas
ao fundo do saco.

Barcos estrangeiros percorrendo o rio,
chegam ao mar. E
o povo já não lava no rio.


V

Volta sempre um vento
que refresca o ardor
das feridas.

Alguém a ficar

Escarrando, nas estrelas
de verão.


VI

A tua sombra
Picando-se sobre a areia

a gaivota a cortar-se
neste olhar poisado

na tua sombra
a sangrar na areia.

Às vezes perdemos
Tempos de nada.


VII

Regresso
ao fim do dia, ao principio
da garrafa de néon

ao último voo
do pássaro.


ERRATA À ERRATA

para Mário Jorge Lopes
Caminha, 1992



I

quando todos partem
aos amargos
olhares

do fim


II

esse tempo
é o sol
dos sacrifícios.
Cruel.
Sucata
a lembrança


III

no chão
um olhar seco

o rumo


IV

sujo, continua
sombras intranquilas
regressam
ao fundo
no rio


V

o ardor a ficar


VI

a tua sombra
a gaivota
a sangrar
de nada


VII

regresso
ao principio
do pássaro.

(de Homens sem soutien, edição do Autor, 2002)

21.1.08

[outros melros XLIX]

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


Micróbio #294


E no meio do ruído um melro cantou, pousado num poste de electricidade, fechando as bocas deslumbradas daqueles que se riam de coisa nenhuma que valha a pena lembrar. Só o melro, a cantar, mereceria aqui ser citado, fosse-nos possível dar às palavras a música daquele canto.

(daqui)
[outros melros XXIa]



Bobby Mc Ferrin interpreta Blackbird, dos Beatles

20.1.08



Amadeu Baptista ganhou, com o original "Sobre as imagens", o Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. Este é o seu quarto prémio em menos de um ano e o nono em 25 anos de publicação de livros, colaboração em revistas e antologias e tradução e divulgação de outros poetas.
A esse propósito, o Poeta prestou declarações à Agência Lusa e deu uma significativa entrevista a José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel. Bom sinal, sobretudo tratando-se de um Poeta que, não as recusando (mas também não andando atrás delas), quase nunca deu entrevistas. E certamente tem muito para dizer.


Aproveito para destacar o valoroso trabalho do José Mário Silva, que mais uma vez se revela pioneiro da blogosfera ao criar um "blogue literário por excelência, (...) literário no sentido em que deviam sê-lo as revistas literárias que não temos", como afirmou Eduardo Pitta.

13.1.08

ÁNGEL GONZÁLEZ

IV – ZONA RESIDENCIAL


Até um cego podia ter adivinhado:
a perfeição reside nestas ruas.

Os ruídos, os cheiros,
o timbre delicado
das vozes humanas, o júbilo
dos latidos,
o rumor harmonioso dos autocarros,
a discreta presença dos lilases,
inclusivé
os bons ares que difundem o seu aroma,
revelam, sem ser preciso mais,
isso que o olhar
comprova

          nas pombas viandantes

(indolentes na hora
de abandonar os bocados
de pão, pese a obstinada
irrupção de passos e pneus),

na atitude cortês dos jardins
particulares

              (generosos não só
na distribuição de pólen e fragrância
mas também dedicados à entrega
do próprio corpo das flores
que se oferecem, abertas e submissas,
entre as grades e sobre os muros),

nas pessoas e nos seus atributos:

crianças
(bicicletas e risos niquelados),

Militares
(de alta graduação, sem sabre
nem escopeta, só
com artrites e condecorações),

adolescentes
(de formato agradável, encadernados
em pele de qualidade insuperável)

donzelas
(de serviço doméstico
- bem entendido -
também belas debaixo
das toucas),

e outros seres adultos
(senhoras de bom porte, cavalheiros
de excelentes modos,
carteiros pressurosos,
condutores cortezes)...

Tudo, em resumo, o que vêem os olhos
ou escutam, tocam, cheiram os sentidos,
é sintoma, sem dúvida,
da bondade, da ordem, da fortuna
que há-de albergar um mundo tão perfeito.


(de Tratado de Urbanismo, tradução de Helder Moura Pereira, Fenda edições, 2001)

[Vd. referência ao Autor, e respectivos links]

10.1.08

Estou a ver televisão e fico com a sensação de que Sócrates está a ficar cada vez mais parecido com a caricatura que Ricardo Araújo Pereira faz dele.

6.1.08

Morreu Luiz Pacheco. Parece-me óbvio que se aguentou até 2008 para não ter que morrer no mesmo ano que Mário Cesariny.

4.1.08

RUTH FAINLIGHT

A OUTRA


Seja o que for que encontre, se o procuro, está errado.
Preciso de esperar: a mais difícil prova é conter-me,
ficar passiva, receptiva, paciente e vazia
de qualquer exigência ou desejo, até que
a outra, essa que eu nunca teria descoberto
por mais que procurasse toda a vida, emergindo
das sombras, se aproxime como criança arisca e acanhada.

E esta será a mais longa das tarefas: aguardar,
abrir-me. Aquietar a minha energia
é mais difícil que aplicá-la a qualquer causa,
mas a outra só poderá mostrar-se
à revelia da minha ardente natureza
sempre ansiosa por escolher. Isto é doloroso
e violento como um parto sem tréguas.

Tenho que me afastar da tentação de agir
para deixar que ela venha, com um sorriso cauto
e um braço levantado – para me saudar ou para defender-se
(não consigo decifrar o gesto ambíguo).
Chego a ter que respirar mais lentamente
até ela ficar tão perto que eu consiga
captar-lhe o som da voz suave e débil.

E então, como em sonhos, quando se invoca
uma língua não falada desde antes da infância
(quando eu era tímida como ela, minha irmã esquecida
cuja vinda me completa e recompensa),
começo a entender aos poucos a mensagem
que tanto demorou a entregar-me. E amando-a aprenderei
nas palavras que canta o meu próprio segredo.


(de Visitação, tradução colectiva (Poetas em Mateus) revista e completada por Ana Hatherly, Quetzal, 1995)

3.1.08

[para uma antologia de bicicletas - 14]

SEAMUS HEANEY

GUIÃO PARA UM FILME


Eles pedalam afastando-se do que podia ter sido
em direcção ao que nunca será, num plano aguentado:
Professores em bicicletas, falantes da terra em saudação,
entrando nos anos vinte como se fosse no futuro.

Ainda a pedalar, já lá no fim das lentes,
não indo a parte nenhuma e não desaparecendo.
Mistura fúcsia que 'segue a linguagem'.
Longa sequência sem som. Panorâmica e desfoca.

Então vozes sobrepostas, em diferentes Irlandeses,
discutindo tarefas de tradução e taxas linha a linha;
como os marcos miliários de oitocentos em bermas de relva,
ocorrência de nomes como R. M. Ballantyne.

Grande plano do olho de gato de um botão
seguido de abertura para a capa de uma sotaina,
barrete de padre, colarinho de volta, maçã de Adão.
Parar no rosto inexpressivo. Pôr os créditos

e mesmo quando parece que é o fim -
focar o rasto da longa vaga que vai galgando a margem
e se desfaz no ponto em que uma vara escreve e escreve
palavras no velho guião na areia que se escapa.


(tradução de Vasco Graça Moura, in Antologia Poética, Campo das Letras, 1998 - original de The Haw Lantern, 1987)

2.1.08

NUNO TRAVANCA


à maria khépri


beleza enquanto processo respiratório


ela solve mecanicamente o sangue
quando inspira melancólico outro dia

uma pequena árvore mostra-me as asas
os vôos impróprios que lhe descobre
as luzes ofuscadas do seu límpido sono

e então expira, tal prazo que não li
processa-se ante um corpete apertado
uma respiração dúbia

obstinadamente reflectiram o silêncio
os passeios dos lagos espelhados
a raiva dos campos de batalha

e é esta causa justa que lhe vejo
entre a penumbra

músculos da boca tendem a sorrir
a não sorrir

é inconsolável esta cura que
com as rédeas bem presas
deixa de processar um esteta.

(daqui)

1.1.08

[no dia da Paz, eu que estou na minha casa sossegada]


ADOLFO CASAIS MONTEIRO


IV


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa e ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


(de Europa, 1946)