14.2.08

[Pretendo continuar #5. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]


IBN 'AMMÂR AL-ANDALUSÎ

Evocação de uma beldade


porque terá a rola de chorar
ao sorrir da leve boca da manhã?
ela canta e bebe em seu afã
lágrimas de um coração a palpitar.

uma moça que a formosura visitou
ser a própria beleza acreditou
ou então sua amiga e companheira.

pelo olhar, é corça amedrontada
e, pelo colo, gazela intimidada
no deserto, de insólita maneira.

seu dorso, c'o salgueiro parecido,
é fonte de desejo ataviada
é canto de rola dolorido.

a boca é flor branca assediada
pelo rubro escuro dos seus lábios.
não a provar é falta condenada
por aqueles todos que são sábios.

traz-me tão inquieto esta donzela (...)
de olhar fatal! é tão frágil ela
como caule das folhas despojado.

a página do seu rosto delicado
vai alterada em terno vestido
que de rosas e chamas é urdido.

é aí que suas mechas de cabelo,
como escorpiões em atropelo,
são vistas pelos olhos do amante.

a brisa quis o sopro: num instante
no vento sul vogaram docemente
até à flama de um desejo ardente.

(tradução de Adalberto Alves, in Ibn 'Ammâr al-Andalusî – o drama de um poeta, Assírio & Alvim, 2000)

13.2.08

[Pretendo continuar #4. Novena de desagravo.]

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

UMA MULHER E O BEBERIBE

Ela se imove com o andamento da água
(indecisa entre ser tempo ou espaço)
daqueles rios do litoral do Nordeste
que os geógrafos chamam «rios fracos».
Lânguidos; que se deixam pelo mangue
a um banco de areia do mar de chegada;
vegetais; de água espaço e sem tempo
(sem o cabo por que o tempo a arrasta).

*

Ao rio Beberibe, quando rio adolescente
(precipitadamente tempo, não espaço),
nada lhe pára os pés; se rio maduro,
ele assume um andamento mais andado.
Adulto no mangue, imita o imovimento
que há pouco imitara dele uma mulher:
indolente, de água espaço e sem tempo
(fora o do cio e da prenhez da maré).

(de A Educação pela Pedra, 1962-65)

12.2.08




Hoje, às 18 horas, no Salão Nobre da Universidade Aberta (Rua da Escola Politécnica, 147, Lisboa), será apresentado (por Teresa Joaquim e Anabela Galhardo Couto) o livro A Neo-Penélope, o mais recente de Ana Hatherly, por ocasião do encerramento do mestrado de estudos de temática feminina, leccionado por esta poeta-pintora.

Quanto a mim, este é um livro que ultrapassa em ousadia tudo o que se vai fazendo na poesia actual. Um livro surpreendente, sobretudo tendo em conta que a Autora está à beira de comemorar os 50 anos do seu primeiro livro. Um livro de rotura, como toda a restante obra desta Mulher que sempre se sustentou na Tradição para se colocar na vanguarda.

[Pretendo continuar #3. Novena de desagravo.]

GOETHE

V


Amantes piedosos somos, em silêncio veneramos todos os demónios,
Desejamos cada deus, cada deusa como amigos.
E assim nos assemelhamos a vós, ó Romanos triunfadores!,
Que aos Deuses de todo o mundo ofereceis domicílio –
Esculpidos pelo Egípcio em escuro e sóbrio granito
Ou pelo Grego em mármore branco e gracioso.
Mas não se zanguem os Eternos se vertemos
O precioso incenso a uma das Divinas em especial.
Sim, confessamos oferecer as nossas preces
E o nosso rito diário em particular a uma delas.
Jocosos, alegres e dedicados, celebramos secretas festas
E o silêncio convém a todos os iniciados.
Antes desafiar de perto as Erínias com feitos medonhos,
Antes arriscar sofrer o duro julgamento
De Zeus, as suas rodas e rochedos,
Do que privar o nosso espírito do rito delicioso.
Ocasião se chama deusa! Conhecei-a,
E amiúde vos surgirá ela com variadas feições.
Podia ser filha de Proteu, gerada por Tétis,
Cuja astúcia muitos heróis enganou.
Assim engana agora a filha o inexperiente e o tímido,
Troça do sonolento, esquiva-se ao vigilante.
Com prazer se entrega ao ousado,
Que a encontra mansa, brincalhona, terna e dedicada.
Certa vez também a mim apareceu: Uma rapariga morena,
Cabelos longos e escuros cobriam-lhe a testa,
Pequenos caracóis o gracioso pescoço
E as madeixas soltavam-se frisadas na nuca.
Não a ignorei, agarrei a fugitiva, e docilmente
Logo ela me devolveu o terno beijo e o abraço.
Oh, como me senti feliz! Mas silêncio, o tempo passou,
Agora sois vós, loiras tranças, que como correias romanas me prendeis.

(de Erotica romana, tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro editores, 2005)

11.2.08

[Pretendo continuar #2. Novena de desagravo.]


DAVID MOURÃO-FERREIRA

XIII


Assim que te despes
as próprias cortinas
ficam boquiabertas
sobre a luz do dia

Os teus olhos pedem
mas a boca exige
que te inunde as pernas
toda a luz do dia

Até o teu sexo
que negro cintila
mais e mais desperta
para a luz do dia

E a noite percebe
ao ver-te despida
o grande mistério
que há na luz do dia

(de O Corpo Iluminado, 1987)

10.2.08

Hoje, numa livraria:

- Desse autor só temos uma coisa chamada "A margem da alegria"...
- E isso é um livro em poemas ou quê?
[Pretendo continuar #1.
O Blogger limitou o acesso ao “E Deus criou a Mulher”, do Miguel Marujo (com SirHaiva). Em jeito de homenagem e solidariedade, inicia-se aqui uma novena de desagravo.]

RONSARD

Pequeno umbigo, meu pensar te adora


Pequeno umbigo, meu pensar te adora,
meu olho não, que nunca houve esse bem,
umbigo que és de quem merece bem
que grã cidade lhe ergam aí fora:

Sinal divino, em que divino mora
o andrógino laço e o retém,
quanto a ti, ó meu bem, quanto também
ledo a teus gémeos flancos honro agora.

Nem a bela cabeça, olhos ou fronte,
nem doce riso, ou mão que faz em fonte
meu coração e em choros me traz ganho,

me podiam, tão belas, contentar
sem esperança um dia de apalpar
teu paraíso onde o prazer amanho.

(tradução de Vasco Graça Moura, in Alguns Amores de Ronsard, Bertrand editora, 2003)

9.2.08

ANA HATHERLY

É PRECISO FAZER UM ESFORÇO


É preciso fazer um esforço
Considerar possível
Estar sempre de perfil
Ser mono-asa
Barbatana sem dorso
Branco sem luz
Ave sem cisne

Ondular no ar
Ser o remoto futuro
Relâmpago sem ser visto
Força sem motor
Buraco sem queda

Considerar possível
Eros sem frenético
Livro sem que o leiam
Poema sem que o façam

Fazer um esforço
Sentir insensível
Sem que seja possível
Sem que seja preciso

Profundamente
Tudo é tão importante
Como um olhar furtivo

(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
ANA HATHERLY

(...)
Quem é esta Neo-Penélope que “Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera por nenhum Ulisses”?
É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói – Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado – nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido do amor.
(...)
Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso?
Sou a gata.

(excertos da entrevista a Ana Marques Gastão, Diário de Notícias / suplemento DN gente, 9 de Fevereiro de 2008)

3.2.08

EUGENIO MONTALE

CARNAVAL DE GERTI


Se a roda se embaraça no rolo
das serpentinas e o cavalo
se empina na comprimida multidão, se neva nos
teus cabelos e nas tuas mãos um longo arrepio
de fugazes íris ou as crianças elevam
as plangentes ocarinas que saúdam
a tua viagem e os ecos ligeiros caem em lascas
da ponte abaixo sobre o rio,
se a rua se despovoa e te conduz
a um mundo insuflado numa trémula
bolha de ar e de luz onde o sol
saúda a tua graça - talvez tenhas
reencontrado o caminho que tentou um instante
o chumbo derretido à meia-noite quando
acabou o ano tranquilo e sem foguetes.

E agora queres acabar onde um filtro
despoja os sons
e deles faz sair os sorridentes e acres
fumos que compõem o teu amanhã:
agora pedes uma terra onde os onagros
mordem cubos de açúcar nas tuas mãos
e as atarracadas árvores despontam rebentos
miraculosos no bico dos pavões.

(Oh o teu Carnaval será ainda mais triste
esta noite do que o meu, prisioneira entre as prendas
para os ausentes: carrinhos de licores
coloridos, fantoches e arcabuzes,
bolas de borracha, liliputianos
utensílios de cozinha: a urna destinava-as
a cada um dos amigos distantes na hora
em que Janeiro se entreabria e no silêncio
se cumpria o sortilégio. É já Carnaval
ou é Dezembro que se atrasa ainda? Penso
que se moves o ponteiro do pequeno
relógio que usas no pulso, tudo
parará num decomposto prisma
babélico de formas e de cores...)

E o Natal virá e o Ano Novo
que esvazia as casernas e te traz
os amigos dispersos, e também este Carnaval
voltará, ele que agora nos foge
através das paredes que se fendem já. Pedes
para parar o tempo na terra
que em redor se dilata? As grandes asas
sarapintadas afloram-te, os alpendres
suspendem ao ar livre frágeis bonecas
louras, vivas, as pás dos moinhos
rodam fixas sobre as poças gárrulas.
Pedes para suster os sinos
de prata sobre o burgo e o som rouco
das pombas? Pedes as manhãs
trepidantes das tuas praias longínquas?

Como tudo se torna estranho e difícil,
como tudo é impossível, dizes tu.
A tua vida é aqui em baixo onde retumbam
as rodas dos furgões sem descanso
e nada volta se não talvez nestes
sacões do possível. Regressa
até junto dos mortos brinquedos onde a morte porém
não existe; e com o bater do tempo
no teu pulso entrega-te de novo à existência,
entre as paredes pesadas que não se abrem
ao abismo fatigado dos humanos,
regressa ao caminho onde contigo me entristeço,
àquele que apontou um chumbo seco
às minhas, às tuas noites:
volta às primaveras que não florescem.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 – documenta poetica. Original de Le occasioni / As ocasiões, 1939)

23.1.08

[assinalando a colaboração blogosférica de mais um poeta]

JORGE AGUIAR OLIVEIRA

ERRATA


um corpo para cobrir a tua ausência
Mário Cesariny

ONDE SE LÊ

a Fernando Parente Simões
Paço d'Arcos, 1984


I

É por Setembro que
volto, quando todos partem,

às dunas aos suaves fins
de tarde.


II

Quando chega este tempo,
é o Sol que impõe

os caminhos novos.

Depois, é cruel voltarmos
à praia
no fim de verão.
São vestígios desses gestos
recentes. Garrafas de óleo,
latas, pregos, espinhas

das conchas que não encontramos
a lembrança.


III

Na esplanada sob os toldos de verão.
Um olhar ausente
as sardinheiras rosas lagartixas
o canteiro com papoilas secas

da limonada
uns gelos uma palhinha
azul e branca.

Somos deste país
a perder

o rumo da viagem


IV

Chegou um táxi ao Motel.
O rapaz loiro continuava lendo
a revista. Na piscina um corpo
luzidio ancorou-me o olhar.
Antes assim. Sombras de árvores,
gentes intranquilas a trans-
formar a paisagem.
Trazem areias o sal
às turfas às raízes
regressam com mantas sujas
de melão e vinhos. Pinhões
esquecidos no fundo do saco.

Os barcos percorrendo o rio,
chegam ao mar, mas
é tarde demais.


V

De volta, um vento fresco.
O sol de partida.

Alguém a ficar

esperando, as estrelas de verão.


VI

A tua sombra
descansando sobre a areia

a gaivota a cortar
este olhar poisado

na tua sombra
descansando sobre a areia.

Às vezes
perdemos tempos, por nada.


VII

Regresso
com a tranquilidade
ao fim do dia

aos últimos voos
dos pássaros.


LEIA-SE

para Luís Manuel Gaspar
Mira, 1988


I

Por Setembro já não
volto só, quando todos partem

às dunas dos amargos
olhares sobre o rasto
do fim
desta terra.


II

Quando chega esse tempo,
é o Sol que impõe

o tom da Índia
a luz dos sacrifícios.

Sempre foi cruel voltarmos
às praias
no principio do outono.
Caminhar entre sucata.
Rodas, bancos coloridos,
peças de não sei
nada, cheiro porco
a ferro a água, gasolina.

Nos sacos plásticos,
a lembrança
das alforrecas.


III

Na esplanada sobre os toldos no chão.
Um olhar mais ausente
sardinhas para assar
o canteiro seco

ácidos cítricos
málicos mais gelo e duas
palhinhas arco-íris.

Somos daquele país
que lhe alteraram
o rumo da viagem.


IV

Chegou um táxi ao motel.
O rapaz loiro sujo continua lendo
a mesma revista. A piscina seca
fios de ferrugem mosaicos fendidos.
Assim: Sombras de troncos mortos
poucas árvores,
gentes intranquilas
continuando a merdar
a paisagem. Trazem
areias, alcatrão
às turfas calcinadas.
Arrancando as poucas raízes
que restam
regressam com mantas de fibra
sujas de melão e vinho.
Pastilhas elásticas pegadas
ao fundo do saco.

Barcos estrangeiros percorrendo o rio,
chegam ao mar. E
o povo já não lava no rio.


V

Volta sempre um vento
que refresca o ardor
das feridas.

Alguém a ficar

Escarrando, nas estrelas
de verão.


VI

A tua sombra
Picando-se sobre a areia

a gaivota a cortar-se
neste olhar poisado

na tua sombra
a sangrar na areia.

Às vezes perdemos
Tempos de nada.


VII

Regresso
ao fim do dia, ao principio
da garrafa de néon

ao último voo
do pássaro.


ERRATA À ERRATA

para Mário Jorge Lopes
Caminha, 1992



I

quando todos partem
aos amargos
olhares

do fim


II

esse tempo
é o sol
dos sacrifícios.
Cruel.
Sucata
a lembrança


III

no chão
um olhar seco

o rumo


IV

sujo, continua
sombras intranquilas
regressam
ao fundo
no rio


V

o ardor a ficar


VI

a tua sombra
a gaivota
a sangrar
de nada


VII

regresso
ao principio
do pássaro.

(de Homens sem soutien, edição do Autor, 2002)

21.1.08

[outros melros XLIX]

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


Micróbio #294


E no meio do ruído um melro cantou, pousado num poste de electricidade, fechando as bocas deslumbradas daqueles que se riam de coisa nenhuma que valha a pena lembrar. Só o melro, a cantar, mereceria aqui ser citado, fosse-nos possível dar às palavras a música daquele canto.

(daqui)
[outros melros XXIa]



Bobby Mc Ferrin interpreta Blackbird, dos Beatles

20.1.08



Amadeu Baptista ganhou, com o original "Sobre as imagens", o Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. Este é o seu quarto prémio em menos de um ano e o nono em 25 anos de publicação de livros, colaboração em revistas e antologias e tradução e divulgação de outros poetas.
A esse propósito, o Poeta prestou declarações à Agência Lusa e deu uma significativa entrevista a José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel. Bom sinal, sobretudo tratando-se de um Poeta que, não as recusando (mas também não andando atrás delas), quase nunca deu entrevistas. E certamente tem muito para dizer.


Aproveito para destacar o valoroso trabalho do José Mário Silva, que mais uma vez se revela pioneiro da blogosfera ao criar um "blogue literário por excelência, (...) literário no sentido em que deviam sê-lo as revistas literárias que não temos", como afirmou Eduardo Pitta.

13.1.08

ÁNGEL GONZÁLEZ

IV – ZONA RESIDENCIAL


Até um cego podia ter adivinhado:
a perfeição reside nestas ruas.

Os ruídos, os cheiros,
o timbre delicado
das vozes humanas, o júbilo
dos latidos,
o rumor harmonioso dos autocarros,
a discreta presença dos lilases,
inclusivé
os bons ares que difundem o seu aroma,
revelam, sem ser preciso mais,
isso que o olhar
comprova

          nas pombas viandantes

(indolentes na hora
de abandonar os bocados
de pão, pese a obstinada
irrupção de passos e pneus),

na atitude cortês dos jardins
particulares

              (generosos não só
na distribuição de pólen e fragrância
mas também dedicados à entrega
do próprio corpo das flores
que se oferecem, abertas e submissas,
entre as grades e sobre os muros),

nas pessoas e nos seus atributos:

crianças
(bicicletas e risos niquelados),

Militares
(de alta graduação, sem sabre
nem escopeta, só
com artrites e condecorações),

adolescentes
(de formato agradável, encadernados
em pele de qualidade insuperável)

donzelas
(de serviço doméstico
- bem entendido -
também belas debaixo
das toucas),

e outros seres adultos
(senhoras de bom porte, cavalheiros
de excelentes modos,
carteiros pressurosos,
condutores cortezes)...

Tudo, em resumo, o que vêem os olhos
ou escutam, tocam, cheiram os sentidos,
é sintoma, sem dúvida,
da bondade, da ordem, da fortuna
que há-de albergar um mundo tão perfeito.


(de Tratado de Urbanismo, tradução de Helder Moura Pereira, Fenda edições, 2001)

[Vd. referência ao Autor, e respectivos links]