19.2.08

[Te Deum por uma nova morada #1.]

JUAN RAMÓN JIMENEZ

7


Desço ao jardim. São mulheres!
Espera, espera!... Meu amor
toma um braço. Vem! Quem és?
E vejo que é uma flor!

Pela fonte; sim, são elas!
Espera, espera, mulher!
...Prendo a água. São estrelas
que não se podem prender!

(de Antologia Poética, selecção, tradução, prologo e notas de José Bento, Relógio d’Água editores, 1992 – original de Jardines lejanos, 1904)

18.2.08

[Pretendo continuar #9. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

LUÍS DE CAMÕES

Canto IX
(excertos)

[…]

Nesta frescura tal desembarcavam
já das naus os segundos Argonautas,
onde pela floresta se deixavam
andar as belas deusas, como incautas;
algumas doces cítaras tocavam,
algumas harpas e sonoras flautas,
outras com os arcos de ouro se fingiam
seguir os animais, que não seguiam.

Assim lho aconselharam a mestra experta,
que andassem pelos campos espalhadas,
que vista dos barões a presa incerta
se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
do belo corpo estavam confiadas,
posta a artificiosa formosura
nuas lavar-se deixam na água pura.

Mas os fortes mancebos que na praia
punham os pés, de terra cobiçosos,
que não há nenhum deles que não saia,
de acharem caça agreste desejosos,
não cuidam que, sem laço ou redes caia
caça naqueles montes deleitosos
tão suave, doméstica e benigna,
qual ferida lha tinha já Ericina.

Alguns que em espingardas e nas bestas
para ferir os cervos se fiavam,
pelos sombrios matos e florestas
determinadamente se lançavam;
outros, nas sombras que das altas sestas
defendem a verdura, passeavam
ao longo da água, que suave e queda
por alvas pedras corre à praia leda.

Começam de enxergar subitamente
por entre verdes ramos várias cores,
cores de quem a vista julga e sente
que não eram das rosas ou das flores,
mas da lã fina e seda diferente
que mais incita a força dos amores,
de que se vestem as humanas rosas
fazendo-se por arte mais formosas.

Dá Veloso espantado um grande grito:
«Senhores, caça estranha, disse, é esta:
se ainda dura o gentio antigo rito,
a Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano espírito
desejou nunca; e bem se manifesta
que são grandes as coisas e excelentes,
que o mundo encobre aos homens imprudentes.

Sigamos estas Deusas e vejamos
se fantásticas são se verdadeiras.»
Isto dito, velozes mais que gamos,
se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as ninfas vão por entre os ramos,
mas mais industriosas que ligeiras,
pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
se deixam ir dos galgos alcançando.

De uma os cabelos de ouro o vento leva
correndo, e da outra as fraldas delicadas;
acende-se o desejo que se ceva
nas alvas carnes súbito mostradas;
uma de indústria cai e já releva
com mostras mais macias que indignadas,
que sobre ela empecendo também caia
quem a seguiu pela arenosa praia.

Outros por outra parte vão topar
com as Deusas despidas que se lavam;
elas começam súbito a gritar,
como que assalto tal não esperavam.
Umas fingindo menos estimar
a vergonha que a força, se lançavam
nuas por entre o mato, aos olhos dando
o que às mãos cobiçosas vão negando.

[…]

Oh que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
que em risinhos alegres se tornava
o que mais passam na manhã e na sesta,
que Vénus com prazeres inflamava,
melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

[…]

(de Os Lusíadas, 1572 – transcrição conforme a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção, prefacio e notas de Natália Correia, 3ª edição: Antígona / frenesi, 1999 / 1ª edição: Afrodite, 1965)

17.2.08

[Pretendo continuar #8. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

CESARE PAVESE

MULHERES APAIXONADAS


As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.

As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se a mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam de se à vista de todos, na toalha em desordem.

Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo tremulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.

Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.

(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 1997)

16.2.08

[Pretendo continuar #7. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

SEAMUS HEANEY

RAPARIGAS NO BANHO, GALWAY, 1965


Bóiam na espuma da ondulação, avançam
em roda catarina, braços, mãos;
nítidas como bolas, as cabeças balançam.
Aqui na praia os guinchos ficam vãos.

Nenhuma Vénus foi milagre estranho
de lácteos membros na costa ocidental.
Uma rainha pirata em fato de banho
é o nosso mito forte. As ondas por sinal

vazam umas nas outras e cada ano adeja
invisível pelo espaço a viajar.
Onde as cristas se desfraldam como espuma de cerveja
a roupa da rainha já se desfez no mar.

E gerações que têm suspirado
nos renques de sal onde a onda explodiu
vivem no medo da carne e do pecado
porque o tempo se cumpriu,

como onde há pé nos seus trajes sucintos,
pernas nuas, ombros suaves, costas em maré-viva,
chapinham até à praia, aos pulos, dando gritos.
E Vénus vem assim, objectiva.

(de Antologia Poética, selecção e tradução de Vasco Graça Moura, Campo das Letras, 1998 – original de Door into the Dark, 1969)

15.2.08

[Pretendo continuar #6. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

JOSÉ SARAMAGO

Estudo de nu


Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triangulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.

(de Os Poemas Possíveis, 1966)

14.2.08

[Pretendo continuar #5. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]


IBN 'AMMÂR AL-ANDALUSÎ

Evocação de uma beldade


porque terá a rola de chorar
ao sorrir da leve boca da manhã?
ela canta e bebe em seu afã
lágrimas de um coração a palpitar.

uma moça que a formosura visitou
ser a própria beleza acreditou
ou então sua amiga e companheira.

pelo olhar, é corça amedrontada
e, pelo colo, gazela intimidada
no deserto, de insólita maneira.

seu dorso, c'o salgueiro parecido,
é fonte de desejo ataviada
é canto de rola dolorido.

a boca é flor branca assediada
pelo rubro escuro dos seus lábios.
não a provar é falta condenada
por aqueles todos que são sábios.

traz-me tão inquieto esta donzela (...)
de olhar fatal! é tão frágil ela
como caule das folhas despojado.

a página do seu rosto delicado
vai alterada em terno vestido
que de rosas e chamas é urdido.

é aí que suas mechas de cabelo,
como escorpiões em atropelo,
são vistas pelos olhos do amante.

a brisa quis o sopro: num instante
no vento sul vogaram docemente
até à flama de um desejo ardente.

(tradução de Adalberto Alves, in Ibn 'Ammâr al-Andalusî – o drama de um poeta, Assírio & Alvim, 2000)

13.2.08

[Pretendo continuar #4. Novena de desagravo.]

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

UMA MULHER E O BEBERIBE

Ela se imove com o andamento da água
(indecisa entre ser tempo ou espaço)
daqueles rios do litoral do Nordeste
que os geógrafos chamam «rios fracos».
Lânguidos; que se deixam pelo mangue
a um banco de areia do mar de chegada;
vegetais; de água espaço e sem tempo
(sem o cabo por que o tempo a arrasta).

*

Ao rio Beberibe, quando rio adolescente
(precipitadamente tempo, não espaço),
nada lhe pára os pés; se rio maduro,
ele assume um andamento mais andado.
Adulto no mangue, imita o imovimento
que há pouco imitara dele uma mulher:
indolente, de água espaço e sem tempo
(fora o do cio e da prenhez da maré).

(de A Educação pela Pedra, 1962-65)

12.2.08




Hoje, às 18 horas, no Salão Nobre da Universidade Aberta (Rua da Escola Politécnica, 147, Lisboa), será apresentado (por Teresa Joaquim e Anabela Galhardo Couto) o livro A Neo-Penélope, o mais recente de Ana Hatherly, por ocasião do encerramento do mestrado de estudos de temática feminina, leccionado por esta poeta-pintora.

Quanto a mim, este é um livro que ultrapassa em ousadia tudo o que se vai fazendo na poesia actual. Um livro surpreendente, sobretudo tendo em conta que a Autora está à beira de comemorar os 50 anos do seu primeiro livro. Um livro de rotura, como toda a restante obra desta Mulher que sempre se sustentou na Tradição para se colocar na vanguarda.

[Pretendo continuar #3. Novena de desagravo.]

GOETHE

V


Amantes piedosos somos, em silêncio veneramos todos os demónios,
Desejamos cada deus, cada deusa como amigos.
E assim nos assemelhamos a vós, ó Romanos triunfadores!,
Que aos Deuses de todo o mundo ofereceis domicílio –
Esculpidos pelo Egípcio em escuro e sóbrio granito
Ou pelo Grego em mármore branco e gracioso.
Mas não se zanguem os Eternos se vertemos
O precioso incenso a uma das Divinas em especial.
Sim, confessamos oferecer as nossas preces
E o nosso rito diário em particular a uma delas.
Jocosos, alegres e dedicados, celebramos secretas festas
E o silêncio convém a todos os iniciados.
Antes desafiar de perto as Erínias com feitos medonhos,
Antes arriscar sofrer o duro julgamento
De Zeus, as suas rodas e rochedos,
Do que privar o nosso espírito do rito delicioso.
Ocasião se chama deusa! Conhecei-a,
E amiúde vos surgirá ela com variadas feições.
Podia ser filha de Proteu, gerada por Tétis,
Cuja astúcia muitos heróis enganou.
Assim engana agora a filha o inexperiente e o tímido,
Troça do sonolento, esquiva-se ao vigilante.
Com prazer se entrega ao ousado,
Que a encontra mansa, brincalhona, terna e dedicada.
Certa vez também a mim apareceu: Uma rapariga morena,
Cabelos longos e escuros cobriam-lhe a testa,
Pequenos caracóis o gracioso pescoço
E as madeixas soltavam-se frisadas na nuca.
Não a ignorei, agarrei a fugitiva, e docilmente
Logo ela me devolveu o terno beijo e o abraço.
Oh, como me senti feliz! Mas silêncio, o tempo passou,
Agora sois vós, loiras tranças, que como correias romanas me prendeis.

(de Erotica romana, tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro editores, 2005)

11.2.08

[Pretendo continuar #2. Novena de desagravo.]


DAVID MOURÃO-FERREIRA

XIII


Assim que te despes
as próprias cortinas
ficam boquiabertas
sobre a luz do dia

Os teus olhos pedem
mas a boca exige
que te inunde as pernas
toda a luz do dia

Até o teu sexo
que negro cintila
mais e mais desperta
para a luz do dia

E a noite percebe
ao ver-te despida
o grande mistério
que há na luz do dia

(de O Corpo Iluminado, 1987)

10.2.08

Hoje, numa livraria:

- Desse autor só temos uma coisa chamada "A margem da alegria"...
- E isso é um livro em poemas ou quê?
[Pretendo continuar #1.
O Blogger limitou o acesso ao “E Deus criou a Mulher”, do Miguel Marujo (com SirHaiva). Em jeito de homenagem e solidariedade, inicia-se aqui uma novena de desagravo.]

RONSARD

Pequeno umbigo, meu pensar te adora


Pequeno umbigo, meu pensar te adora,
meu olho não, que nunca houve esse bem,
umbigo que és de quem merece bem
que grã cidade lhe ergam aí fora:

Sinal divino, em que divino mora
o andrógino laço e o retém,
quanto a ti, ó meu bem, quanto também
ledo a teus gémeos flancos honro agora.

Nem a bela cabeça, olhos ou fronte,
nem doce riso, ou mão que faz em fonte
meu coração e em choros me traz ganho,

me podiam, tão belas, contentar
sem esperança um dia de apalpar
teu paraíso onde o prazer amanho.

(tradução de Vasco Graça Moura, in Alguns Amores de Ronsard, Bertrand editora, 2003)

9.2.08

ANA HATHERLY

É PRECISO FAZER UM ESFORÇO


É preciso fazer um esforço
Considerar possível
Estar sempre de perfil
Ser mono-asa
Barbatana sem dorso
Branco sem luz
Ave sem cisne

Ondular no ar
Ser o remoto futuro
Relâmpago sem ser visto
Força sem motor
Buraco sem queda

Considerar possível
Eros sem frenético
Livro sem que o leiam
Poema sem que o façam

Fazer um esforço
Sentir insensível
Sem que seja possível
Sem que seja preciso

Profundamente
Tudo é tão importante
Como um olhar furtivo

(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
ANA HATHERLY

(...)
Quem é esta Neo-Penélope que “Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera por nenhum Ulisses”?
É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói – Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado – nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido do amor.
(...)
Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso?
Sou a gata.

(excertos da entrevista a Ana Marques Gastão, Diário de Notícias / suplemento DN gente, 9 de Fevereiro de 2008)

3.2.08

EUGENIO MONTALE

CARNAVAL DE GERTI


Se a roda se embaraça no rolo
das serpentinas e o cavalo
se empina na comprimida multidão, se neva nos
teus cabelos e nas tuas mãos um longo arrepio
de fugazes íris ou as crianças elevam
as plangentes ocarinas que saúdam
a tua viagem e os ecos ligeiros caem em lascas
da ponte abaixo sobre o rio,
se a rua se despovoa e te conduz
a um mundo insuflado numa trémula
bolha de ar e de luz onde o sol
saúda a tua graça - talvez tenhas
reencontrado o caminho que tentou um instante
o chumbo derretido à meia-noite quando
acabou o ano tranquilo e sem foguetes.

E agora queres acabar onde um filtro
despoja os sons
e deles faz sair os sorridentes e acres
fumos que compõem o teu amanhã:
agora pedes uma terra onde os onagros
mordem cubos de açúcar nas tuas mãos
e as atarracadas árvores despontam rebentos
miraculosos no bico dos pavões.

(Oh o teu Carnaval será ainda mais triste
esta noite do que o meu, prisioneira entre as prendas
para os ausentes: carrinhos de licores
coloridos, fantoches e arcabuzes,
bolas de borracha, liliputianos
utensílios de cozinha: a urna destinava-as
a cada um dos amigos distantes na hora
em que Janeiro se entreabria e no silêncio
se cumpria o sortilégio. É já Carnaval
ou é Dezembro que se atrasa ainda? Penso
que se moves o ponteiro do pequeno
relógio que usas no pulso, tudo
parará num decomposto prisma
babélico de formas e de cores...)

E o Natal virá e o Ano Novo
que esvazia as casernas e te traz
os amigos dispersos, e também este Carnaval
voltará, ele que agora nos foge
através das paredes que se fendem já. Pedes
para parar o tempo na terra
que em redor se dilata? As grandes asas
sarapintadas afloram-te, os alpendres
suspendem ao ar livre frágeis bonecas
louras, vivas, as pás dos moinhos
rodam fixas sobre as poças gárrulas.
Pedes para suster os sinos
de prata sobre o burgo e o som rouco
das pombas? Pedes as manhãs
trepidantes das tuas praias longínquas?

Como tudo se torna estranho e difícil,
como tudo é impossível, dizes tu.
A tua vida é aqui em baixo onde retumbam
as rodas dos furgões sem descanso
e nada volta se não talvez nestes
sacões do possível. Regressa
até junto dos mortos brinquedos onde a morte porém
não existe; e com o bater do tempo
no teu pulso entrega-te de novo à existência,
entre as paredes pesadas que não se abrem
ao abismo fatigado dos humanos,
regressa ao caminho onde contigo me entristeço,
àquele que apontou um chumbo seco
às minhas, às tuas noites:
volta às primaveras que não florescem.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 – documenta poetica. Original de Le occasioni / As ocasiões, 1939)