12.3.08

JOSÉ GOMES FERREIRA

XI


Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestades das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…

(de Poeta Militante II, 1978)

11.3.08

Vale a pena revisitar esta entrevista de Sarah Adamopoulos.
AMADEU BAPTISTA

ROGÉRIO RIBEIRO: COMPANHIA DOS ANJOS


O que é anterior às coisas está na alma
para prevalecer. Não é só uma questão
da memória, um sulco a atravessar
esse travejamento sombrio e cintilante, talvez
tudo tenha apenas a ver com o silêncio,
o silêncio agudo que sobe ao ouvido
e faz vibrar o corpo num êxtase imperceptível,
o instante de beleza que transita na pele
e desce à boca para afirmar e interrogar.
Há também a sala, com os seus cantos inóspitos,
os diademas translúcidos que as aranhas teceram,
o epicentro de um cismo neste lado do fogo,
onde a prega de um lenço revela a sombra
indescritível. São indícios de formas, sinais,
grãos finíssimos de areia púrpura que flutuam
no ar, um traço oblíquo de luz que une a nuca
às mãos, a tristeza, a perdurável tristeza
de quem passou pela vida nesse motor regressivo,
essa turbina que tocou outras vidas à volta,
outras almas que se perderam porque alguém ocultou
sob a pedra o fascínio e o arrebatamento de uma escuna branca
que secretamente aguarda o momento de zarpar
à descoberta de algum mar na terra, alguma estrela
de água. Ah, a lágrima, também a lágrima
há-de ser um desses indizíveis detalhes
que marcam o rosto, ferve nos lábios
quando o coração se concentra sobre o peito, num ritmo
onde tudo acontece como num filme lento de cores
saturadas, o ocre do mundo a diluir as recordações
porque sempre se institui algum abandono nessa forma sublime
de amar, prudente e imprudente, sob a gardénia azul e a aveleira intensíssima.
Um rio espraia-se ante o olhar coberto de escuridão,
as mãos abrem-se e afeiçoam as lâminas
que sulcam a carne, o sangue mistura-se nessa amálgama
de espaços brilhantes e fitas coloridas, um ramo de violetas
cresce sobre esse nevão, além de um limite e outro,
onde as forças há muito diluíram as dúvidas
que por um simples contacto com a realidade desabam por essa bátega
ardente, imaculados clarões que mancharam os dedos
e sabemos juntar ao que jamais esperamos, uma asa,
uma porção de éter, um golpe no céu para que alguém
acredite nos anjos, para sempre acredite. O universo expande-se
em múltiplas alusões a esses arcos antigos, a cabeça quase não as suporta,
há um juízo inteligível que nos toca para que nada se possa entender,
tudo se possa entender,
de um mistério a outro os dedos tocam esse pó reversível
que adere aos olhos e arde num rastro de pura energia que o despojamento
calcina, uma criança preenche com a claridade
envolvente, serpente e predestinação
aproximando-se do frágil ponto de luz
que desoculta o visível, sortilégio, volume, ascensão,
suporte onde todos os sedimentos
se reúnem, todas as tentativas de destruição
se transfiguram. E mais que visão, casa, mais que memória, índice,
mergulho onde o rosto aguarda o princípio e o fim de um incêndio esperado,
essa forma soberba de comunicar o amor, implacável, eterno,
fulcro e ressonância a transitar pelo tempo,
medida e desmedida, meticuloso alvoroço impondo ao firmamento
um círculo, uma trama, um desenho de luzes.

(de Desenho de Luzes, Amigos de Azertyuiop, 1997)

10.3.08

DÓRDIO GUIMARÃES

35.


a graça traçou a hipérbole da nação
rosto a rosto ruga a ruga o olhar
que deitou à rua o destino e o perdeu
nos calcanhares dos desperdícios do dia

como se se cortassem os dedos um a um
e faltasse a mão que os descreveu em gesto

(de Ubéria, editora Arcádia, 1978)

9.3.08

[em face dos últimos acontecimentos]

JOAQUIM CASTRO CALDAS

PÊS

(excerto)

prof: sujeito a estudar para santo que começa em padre e dá em doido. ou responsável involuntário pela abnegada burrice do aluno. ou intelectual sensato de baixa todo o ano. ou autoritário frustrado que se apanha algum a descobrir o corpo sozinho vai fazer queixinhas ao reitor e ameaça que o chumba. em portugal é frequente o poder pedir-lhe para subir as notas sob pena da coisa dar muito mau aspecto na média europeia.

(de Convém Avisar os Ingleses, Quasi edições, 2002 – o virgem negra)

8.3.08

RUBEN A.

[VIAGENS NA MINHA TERRA (II)]

(excerto)

Lisboa - dia seguinte - Telefonei cedo ao Cinatti que sonolento incompreendeu o Sonho de Cilião, as respostas monossílabas prometeram encontro na Ática e jantar cá em casa.
O Cinatti é alma fechada - nas longas caminhadas chupa dos outros - sem querer - para guardar intactos pensamentos puros - parece um filtro. Quem não o conhece nunca perceberá as suas afinidades poéticas - o Cilião no fundo conhece o Cinatti. - É poeta, publicou dois livros de versos, nasceu em Londres e esteve em Timor dois anos a pesquisar sândalos para esquecer poemas europeus - ele tem o contacto das almas e no aproximamento descreve os passos abertos da incerteza doutros - Amou como quem brinca aos 4 cantinhos e ainda ama as certezas do passado - julgam-no boémio quando se extasia ao sol de motivo lombada principal. O Cinatti é Ruy nunca conheceu a Dona Engrácia mas ela por vezes lembra-se dele. Ganha dias quando burgueses de sociedade o acham curioso e na alma sofre como menino a quem bateram injustamente - não faz pecados nem é ateu porque é são para seringar os que brincam com o fogo. Boémio o Cinatti? Só para a Dona Engrácia pois o Conselheiro ri-se quando ele recorda as histórias do papa-tudo. De vez em quando desaparece porque aparece nele o monge a tempo distante da meditação necessária. Ao princípio não nos entendíamos até mesmo olhávamos antipáticos, depois, ele começou a crescer em alma aberta e eu a diminuir-me em alma fechada até que considerei a nossa amizade nos pesos da eternidade - É grande amigo da Sofia mas ele critica-se melhor em pensamento do que a jogar ao pé coxinho - não tem idade nem precisa de ter, não tem horário estabelecido e tem palavras de ida e volta. Recorta-se sempre à vista amiga abrindo a concha do seu dique - é poeta é cheio de sol para a certeza do amor passado.
Não digas nada, amigo
Que a tempestade chora
Com a certeza de nos ouvir a voz.
Deixa viver amigo a tempestade,
Deixa que apenas se ouça a sua voz.


(de Páginas (II), 1950)

7.3.08

JOEL SERRÃO

Cronos, Eros e Tanatos nas Palavras do Poeta

(excerto)

(...)
Isto, este encontro quase sacro («coisa leve, alada e sagrada é o poeta...», ensinou Platão [em Íon]) de uma expressão poética contemporânea com raízes tão longínquas que se diria entroncarem no próprio ser do homem ocidental – isto situa-nos, uma vez mais, ante o problema da indagação do valor maiêutico da poesia na revelação e no conhecimento daquilo que no homem se encerra.
Problema temeroso que, só por si, exigiria um longo e exaustivo esforço, se é que se deseja fugir às banalidades mais ou menos fáceis, mais ou menos ousadas.
É que a poesia, naquilo que a radicaliza e a define como revelação e conhecimento específicos do que no homem se contém, se nos apresenta, afinal, como um modo singular de viver a essência temporal do homem – exprimindo-a dada simbologia. O homem, como ensinou Cassirer [em Antropologia Cultural], é um animal criador de símbolos – vários e concomitantes símbolos, tais o sagrado, o estético, o filosófico, o cientifico, etc. -, e esse criador encontra em tais símbolos-criaturas a sua imagem possível, conquanto polifacetada e irremediavelmente truncada.
Ora, estamos em crer que o cimento invisível que liga entre si as vivências do estético, do filosófico, etc., expressas singularmente por simbologias próprias, é, directa ou indirectamente, algo que ao tempo respeita ou a ele, em última instancia reverte. Outra vez o tempo, essa tentação maior! Tentação do historiador, sabemo-lo já; da filosofia e da religião, como já sabíamos que o era; da poesia... Ah! A que se reduziria ela, afinal, senão a cantilena melhor ou pior lograda, se não fosse também uma maneira específica de aprender o ser do homem nesse
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
[Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro, 1950]

(de Portugueses Somos, Livros Horizonte, 1975)

5.3.08

ANTÓNIO LUÍS MOITA

POEMA NA RUA


Ao Albano Martins

O poema sai de casa.
Mal se despede do pai.
Sai livre, mas vulnerável
como qualquer ser mortal.

Sai para a rua concreta
do movimento. Vai nu.
Andando por suas pernas
voláteis à contra-luz.

É negro nos seus cabelos,
nos sovacos e púbis.
As suas costas são brancas.
Só é verde a sua voz.

Nos lábios tem, perceptível,
além do ouro de um dente
que brilha, sob a saliva,
molar e caninamente,

a língua – que é incisiva.
E, invisível aos olhos,
o céu da boca, guarita
da dentadura feroz.

Assim, na rua, viaja
com seus meios expeditos:
sexo contente, sem parra,
comunitário o umbigo.

Assim se cumpre e propaga.
Ou morre, sem nenhum grito,
varado por uma bala
de esquecimento.
                                       - Sozinho.

(de Cidade sem Tempo, edição do Autor, 1985)

4.3.08

[outros melros LI]

NUNO BRAGANÇA

(...)
Falámos muito em palavras poucas. Eu puxava pelo fio da fala dela para a conhecer. Eu queria conhecê-la.
«Você sabe», disse ela a dada altura. «Quando cheguei em Paris num apartamento solitário eu pegava uma friagem danada de solidão. Foi aí que resolvi comprar o melro.»
«O melro?»
«É. Um melro branco. O vendedor dizia que era bicho de falar melhor que papagaio. Mentiras à francesa. Mas perdi medo quando trouxe para o apartamento aquele pássaro maravilhoso. Às vezes eu falava para ele noites inteiras. Se acordava a meio da noite, bastava acender a luz e vê-lo empoleirado no espaldar do maple de madeira em que ele dormia.»
«O seu marido gosta do melro?»
Sobressalto. «Marido? Não gostava, não. Até tive que dar o pássaro para meu pai cuidar dele.»
«Gostava de ver um melro branco», disse eu. «É bicho da minha infância por causa do Pinóquio
«Você também leu Pinóquio em guri?»
«Em guri e depois de crescido.»
Sorriso grande. «É, que livro aquele.» Pausa. «O melro já não está em casa do meu pai. Quando ele sumiu fiquei agoniada de pensar que ele estivesse buscando o meu apartamento.»
«Se ele aparecesse você expulsava-o?»
«Ah não.»
«Mas há o seu marido.»
«Nessa altura já não havia, não. Quando o melro sumiu já eu estava separada e tratando do divórcio.»
«E agora?»
«O melro ou o marido?»
«O marido.»
(...)

(excerto de Square Tolstoi, 1981)

3.3.08

MARIA GABRIELA LLANSOL

Lição XIV


Calaram-se os objectos reflectindo no tempo e na nostalgia que havia de vir, mas uma figura fiel se debruçava sobre eles e derramava um espaço ingovernável penetrado de mar e de cantos de marinheiros anónimos. A casa desaparecia atrás dela e ela falava sem cessar com uma palavra para cada ser. – è um rapto – disse ao portão quando ele se fechou. – Mas sem violência – disse à primeira pedra – não poderia partir.

(de A Restante Vida – Geografia de Rebeldes II, 1982)

29.2.08

[outros melros L]

RUI MANUEL AMARAL

De um momento para o outro


Os melros nem sempre foram os pássaros tímidos e esquivos que conhecemos hoje. Houve um tempo em que os melros eram brancos e, em alguns casos, semelhantes a peixinhos dourados. E cantavam maravilhosamente nas tardes sombrias de Inverno e escondiam-se nas profundezas húmidas dos jardins, e comiam minhocas também. Mas depois, de um momento para o outro, tudo mudou.

(daqui)

28.2.08

RUBEN A.

SONHO DE IMAGINAÇÃO
(excerto)

(...)
Talvez a realidade possa ser apreendida na forma estranha da arte, mas eu, fincado em espaços divinos, lembro-me destas palavras: Floresta – Dália – Medusa – Silvalde – Maresia – Saudade – Sonho e cheiro o mar na onda da praia na concha da espuma quando também me lembro do cheiro misteriosos em castanhos efeitos a sair da terra molhada. E... vejo o céu na nuvem passeante adormecida na cor sem forma de adeus. O ritmo de palavra é como se pode ver uma expressão musical – quanto mais afinado está o ritmo harmónico mais sensível aparece o estado de alma dado em pormenor pelo som silábico. Os meus estudos imaginativos têm-me levado a estas novas possibilidades onde a alma consegue definir-se estaticamente, o verbo é a criação e o ritmo é a necessidade de agitação para o homem – As palavras são a essência da vibração como folhas de árvore são necessidades de vento. – Toda a religiosidade da natureza é dada pela interpretação ritmada do verbo – o verbo divino nada mais é do que a possibilidade vocálica de Deus!
Que pena não ser do senso comum. A resposta seria fácil, triunfante e política. – Quem cantasse melhor seria o papa desta nova interpretação evangélica e sacerdotes recrutar-se-iam dos grupos corais e folclóricos quer eles se destinassem às cidades ou aos campos, vilas, aldeias, lugarejos. A cantiga de Schubert – Deus na natureza – dava o elemento de comunhão espiritual onde a eternidade era apreendida em momentos de êxtase vociferante. Voilá, mon Vieux.
Este caso, sem ser uma necessidade patológica de análise é o exemplo típico do homem que pensa e que sente mas que ao mesmo tempo nada consegue fazer de útil e positivo porque é um revoltado.
(...)

(de Páginas (I), 1949)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #9]

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

«Motivos alheios à sua vontade»

Foram estas cinco, as últimas palavras que escreveu. Nelas interrompeu Ruy Belo o currículo que repetia a pretensão de concorrer a um posto da Faculdade de Letras de Lisboa que vira anunciado num jornal. Mas essas ocasionais palavras atingidas pela despedida absoluta, figuravam o inquietante brazão daquilo em que se haviam tornado os seus últimos anos. Um homem obstinadamente retirado das ribaltas, submetido a uma profissão inadequada, preso ao reduto de um corpo demasiado pesado para a mobilidade da sua mente.
A morte de um poeta torna-se, muitas vezes, um alto momento exemplar. Ela evidencia todas as taras da organização nacional e põe a nu os critérios culturais de um povo. Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar.

(início de um artigo sobre Ruy Belo, in Os dois crepúsculos – sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, 1981)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #8]

RUY BELO

COMO QUEM ESCREVE COM SENTIMENTOS


Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo
Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência
A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada

(de Toda a Terra, 1976)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #7]

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

R. B.


Escrevo-te cartas longas em longas tardes de esplanada
E repito constantemente coisas datas e palavras
Nas tuas praias e nos teus livros respiro os poemas
Como se fosse possível eu compreender tudo

Escrevo-te cartas que não chego nunca a pôr no correio
Não sei a tua actual direcção nem saberei
Se mesmo tendo direcção gostarias de as receber
Ou se a leitura te poderia provocar alguma alegria

Escrevo-te cartas e demoro-me com medo na tarde
Quando o céu se transforma numa nuvem cinzenta
Que se abre como se fosse a boca de alguém
À procura das palavras soletradas pela morte

(de Iniciais, Moraes editores, 1981 – Círculo de Poesia)