7.4.08

FERNANDO GUERREIRO

A campanha da Rússia


Sempre as mesmas imagens, recorrentes, a cair do suplício
de a elas ter assistido. Presos da infalibilidade da sua vinda,
interrogamo-nos sobre o que as mantém vivas e lhes comunica
uma palidez de que toda a memória do sentimento parece
ter sido excluída. De onde terão saído? Que glaciares, opacos,
conservam ainda uma esperança tão traída da vida? Mamutes
cansados, contudo, atravessam sem se ver as landes do espírito.
Na esperança, talvez, de encontrar algum caçador furtivo.
Porque a caça, neste continente, onde os homens permanecem
imersos nos sentimentos, continua a ser um rudimentar
exercício de estilo. Doente de ser, quase sem artificio.
Daí que mal abordam as palavras, nelas reconheçam
um destino solar de exílio. Os pensamentos adensam-se
no sentimento e caem nas palavras como pedras
do absoluto. Todos desaprenderam de escrever
e a poesia tende a confundir-se com uma forma
aplicada de sarar as feridas. Que debaixo dos cobertores
homens com unguentos estendem até que, atraindo a si
a natureza no seu tremor, sob a flanela das calças se indistingam os rios.

(de Teoria da Revolução, Angelus Novus editora, 2000 – Política dos Autores)

4.4.08

[bem… é mesmo só uma fábula]

AMBROSE BIERCE

O TEMOR E O ORGULHO


- Bom-dia, amigo – disse o Temor ao Orgulho – então que tal se sente esta manhã?
- Muito cansado – respondeu o Orgulho, sentando-se à beira da estrada, e enxugando a testa coberta de suor. – Os políticos extenuam-me, à força de se servirem de mim para exporem as suas ignóbeis acusações, quando podiam, muito bem, recorrer a um cacete.
E o Temor respondeu, soltando um suspiro de simpatia:
- Pois eu estou numa situação bastante igual à sua. Em vez de utilizarem uns binóculos, é por meu intermédio que observam os actos dos seus adversários.
E iam os dois resignados escravos juntar as lágrimas, quando lhes chegou ordem de retomarem o serviço, porque um dos partidos políticos acabava de eleger um gatuno para seu chefe, e preparava-se para celebrar um reunião comemorativa do acontecimento.

(de Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral, editorial Estampa, 1971)

3.4.08

ANA DE AMSTERDAM

(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)

(daqui)

2.4.08

HELENA CARVALHÃO BUESCU

O QUE DE NAVEGAR SE DESCOBRE


O mar abre as janelas em que
ao romper do dia pousou a noite, a acabar.
Pelas dunas se ergue a febre, nesse inquieto instante,
cavalgam equinócios e marés,
despejando quadrantes, bússolas
e coisas mais de navegar, cartas, mapas e globos,
e tão depressa é tão longe,
mas tão lento é o curso dos naufrágios,
tão próxima a mão que corta os nós
e agreste só serena.
Foi de ventos e tumultos,
gritos, machos e machados,
ora por vezes este amado caminho,
ora por vezes procurando a morte,
ora por vezes amando o que dela se compraz.

Tão alto gritamos que só os pássaros
ouviram; e esses, por vezes, já sabiam.

(de De onde Nascem os Rios, editorial Presença, 1998)

1.4.08

["A espessura da palavra poética"... ora aqui está uma bela ideia]



(daqui)

29.3.08

Hoje, às 18 horas, na Fábrica de Braço de Prata, é apresentado o livro Pôr a Escrita em Noite, da autoria de Davi Reis, um dos membros da banda Baby Jane, autor do blogue Caderno de Corda e do "hino" da Associação Porta 65 fechada. Além disso, dá-me a honra de ser meu Amigo.

28.3.08

RUI COSTA

Rafaela é bela e nenhum livro consegue disfarçar a beleza. Podemos negá-la, torcê-la, podemos amputá-la, esquecê-la, podemos nunca falar nela. Mas ela surge do avesso, põe-se atrás de portas que no momento seguinte são abertas. Transmuta-se na nossa negação e quando julgamos que o assassínio é possível é ela que se ergue das cinzas fumegantes do cadáver. O poeta nega a lírica e falha completamente, escreve um poema que não lhe sustenta os passos e eis que ela aparece sentada e sorridente e então é o tempo que pára e nós a inventar a forma de lhe pedirmos desculpa. Claro que essa desculpa é traiçoeira, claro que queremos a destruição sem vestígios, claro que sofremos com isso e temos medo que o nosso medo a volte a profanar. Inventamos fugas ao ritmo, dissonâncias, criamos martírios impossíveis de escrever. Insultamos a ginga das mulheres, sua melodiosa elipse, inventamos metonímias como forma de as surpreendermos em tudo. Mas em tudo é em nossa própria pele que caímos.

(excerto de A Resistência dos Materiais, exodus, 2008)

26.3.08

ISABEL CRISTINA PIRES

O TEMPO


Há um relógio,
um sol redondo onde giram as horas com vagar
dentro do covo infinito de um náutilo de vidro,
por onde o tempo se esvai;
o tempo das catedrais, das horas mortas,
das ciganas que lêem a sina com sobranceria,
o tempo nocturno das aves que repentinamente matam,
e bicam e estorcem e vasculham, esse tempo,
escorrega também no labirinto,
no caracol nacarado que enrola e se enrola,
as voltas, as valsas que ficam no mesmo lugar,
a música que ressoa numa parte da cabeça e que nos doma
o coração, alguma coisa aquilo significa

pulsam as horas na espiral, no nevoeiro de ondas,
arquivoltas e abóbadas de um tempo
redondo e respeitador.
Agora o tempo pára, pára um pouco,
e um assassino mata e transforma-se noutro
e um ai de amor ficou suspenso
um pouco eterno na memória

algo fica sempre por fazer ou foi feito de mais
no passo de hélice que o relógio corre,
o giro, a esfera, o sol azteca
que é de todos o mais sol, todos o sabem,
o mais redondo e doirado, o que está
nos girassóis, nas lages de arenito,
nas ondas concêntricas dos lagos lamacentos
na alegria pulcra de um domingo de Páscoa

tantas e tantas flores enleiam esse tempo,
aquele sol, que está para além de tudo o que é visível;
e assim o tempo escorre
no seu labirinto penugento e mátrio, numa rotação
de língua que nos saboreia

(de A Roda do Olhar, editorial Caminho, 1994)

25.3.08

SOFIA CRESPO

1


oh noite faroleira

descansa no colo do meu olhar
esse teu pranto tão cansado

e atormentada voz que te assiste
desolação de mares arrebentados

inquietos sonos que construíste
nessa pedra que erosa até ao céu
à sombra dos que lá poisam

porque se de mim me fui
já tenho mar que me chegue

e sempre de noite rouca
inquieto o desejo dos passos

em vigílias de coisas que não vês
para além dos horizontes
corpolados entre céus e águas

e se te alcanço a densidade
sei voar ao silêncio

não vês tu que infinita ideia?

(da sequência outros poemas para descansar, in Anunciada Embarcação na Histeria, &etc, 1997)

19.3.08

[Depois jamais palavra dele]

HUGO CLAUS

IRMÃO


«É um osso duro de roer», disse ele, «duro como o diabo.
E uma injustiça, ando pela primeira vez a emagrecer.»

Ainda Outono lá fora, um campo de milho até ao infinito,
palavra aí está, infinito, finito.
Depois jamais palavra dele.

No esófago o tubo de plástico.
Dão-lhe soluços horas e horas. Não consegue engolir.

Ainda há vida na mão direita
que carrega a esquerda como um espesso lírio.
A mão ergue o polegar no ar.
Ele continua a dar recados até ao limite do declínio.

Ficou com a pele branca de criança.
E aperta a minha mão angustiada.

Ainda estou à procura duma semelhança, a nossa,
a inquietude dela,
a impaciência dele (não dar tempo ao tempo),
de ambos a desconfiança e a ingenuidade
e vou parar ao nosso passado inicial,
o de um mundo como um prado de rãs,
como um fosso de enguias
e mais tarde apostas, ténis de mesa,
leis domésticas, as 52 cartas,
os três dados
e a fome imoderada e fora de horas.
(Eu envelheço em vez de ti.
Alimento-me a faisão e cheira-me a mata.)

Agora o seu alojamento é comedido.
A máquina respira por ele.
Um aspirador chupa-lhe a expectoração.
Um estertor sai do diafragma,
e aí o seu último gesto: um arrastado piscar de olho.

Transmigração de alma. Um arrumar. Uma dose cortada.
O corpo ainda a minguar
e de repente na sua cara que estava morta
um franzido e um espasmo
e depois um olhar esbugalhado, desvairado,
insuportavelmente nítido, a fúria e o susto
de um tirano. Que verá ele? A mim, um homem
que vira a cabeça, com cobarde espanto das suas lágrimas?
Depois é dia e desatam-lhe os cintos.
E ele então para sempre

(tradução de Catherine Barel, in Uma migalha na saia do universo – Antologia da Poesia Neerlandesa do Século Vinte, selecção e introdução de Gerrit Komrij, Assírio & Alvim, 1997 – documenta poetica)

12.3.08

JOSÉ GOMES FERREIRA

XI


Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestades das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…

(de Poeta Militante II, 1978)

11.3.08

Vale a pena revisitar esta entrevista de Sarah Adamopoulos.
AMADEU BAPTISTA

ROGÉRIO RIBEIRO: COMPANHIA DOS ANJOS


O que é anterior às coisas está na alma
para prevalecer. Não é só uma questão
da memória, um sulco a atravessar
esse travejamento sombrio e cintilante, talvez
tudo tenha apenas a ver com o silêncio,
o silêncio agudo que sobe ao ouvido
e faz vibrar o corpo num êxtase imperceptível,
o instante de beleza que transita na pele
e desce à boca para afirmar e interrogar.
Há também a sala, com os seus cantos inóspitos,
os diademas translúcidos que as aranhas teceram,
o epicentro de um cismo neste lado do fogo,
onde a prega de um lenço revela a sombra
indescritível. São indícios de formas, sinais,
grãos finíssimos de areia púrpura que flutuam
no ar, um traço oblíquo de luz que une a nuca
às mãos, a tristeza, a perdurável tristeza
de quem passou pela vida nesse motor regressivo,
essa turbina que tocou outras vidas à volta,
outras almas que se perderam porque alguém ocultou
sob a pedra o fascínio e o arrebatamento de uma escuna branca
que secretamente aguarda o momento de zarpar
à descoberta de algum mar na terra, alguma estrela
de água. Ah, a lágrima, também a lágrima
há-de ser um desses indizíveis detalhes
que marcam o rosto, ferve nos lábios
quando o coração se concentra sobre o peito, num ritmo
onde tudo acontece como num filme lento de cores
saturadas, o ocre do mundo a diluir as recordações
porque sempre se institui algum abandono nessa forma sublime
de amar, prudente e imprudente, sob a gardénia azul e a aveleira intensíssima.
Um rio espraia-se ante o olhar coberto de escuridão,
as mãos abrem-se e afeiçoam as lâminas
que sulcam a carne, o sangue mistura-se nessa amálgama
de espaços brilhantes e fitas coloridas, um ramo de violetas
cresce sobre esse nevão, além de um limite e outro,
onde as forças há muito diluíram as dúvidas
que por um simples contacto com a realidade desabam por essa bátega
ardente, imaculados clarões que mancharam os dedos
e sabemos juntar ao que jamais esperamos, uma asa,
uma porção de éter, um golpe no céu para que alguém
acredite nos anjos, para sempre acredite. O universo expande-se
em múltiplas alusões a esses arcos antigos, a cabeça quase não as suporta,
há um juízo inteligível que nos toca para que nada se possa entender,
tudo se possa entender,
de um mistério a outro os dedos tocam esse pó reversível
que adere aos olhos e arde num rastro de pura energia que o despojamento
calcina, uma criança preenche com a claridade
envolvente, serpente e predestinação
aproximando-se do frágil ponto de luz
que desoculta o visível, sortilégio, volume, ascensão,
suporte onde todos os sedimentos
se reúnem, todas as tentativas de destruição
se transfiguram. E mais que visão, casa, mais que memória, índice,
mergulho onde o rosto aguarda o princípio e o fim de um incêndio esperado,
essa forma soberba de comunicar o amor, implacável, eterno,
fulcro e ressonância a transitar pelo tempo,
medida e desmedida, meticuloso alvoroço impondo ao firmamento
um círculo, uma trama, um desenho de luzes.

(de Desenho de Luzes, Amigos de Azertyuiop, 1997)

10.3.08

DÓRDIO GUIMARÃES

35.


a graça traçou a hipérbole da nação
rosto a rosto ruga a ruga o olhar
que deitou à rua o destino e o perdeu
nos calcanhares dos desperdícios do dia

como se se cortassem os dedos um a um
e faltasse a mão que os descreveu em gesto

(de Ubéria, editora Arcádia, 1978)