24.4.08

Ainda há quem se acanhe
Com a pronúncia que tem

Sérgio Godinho

O que nos põe de acordo é o que dizemos
E se negamos à palavra o risco de a dizer
Anulamos a marca do que nos une.

Se, acanhados, nos rendemos ao lucro
Do vocábulo premeditadamente correcto,
Cingido por uma técnica limpa e pela lei,

Então recusamos a delicadeza,
Morosa de séculos e paciente,
Que remói cada sílaba e a transporta

Em vasos rústicos e desprezados,
Alheios a ortodoxias gráficas
Ou a gramaticais exigências postuladas.

Como ia dizendo, transportamos cada sílaba
Até um outro rigor – inconsciente, é certo,
Mas marcado pela melodia de que nasceu

E pelo sabor do que pais dizem a filhos,
Do que filhos a pais respondem
Ou do que em locais obscuros se aprende.

O que nos põe de acordo é a vontade
Com que nos dispomos a perceber
O acento de cada vogal em que divergimos

E também o deslumbramento da dispersão
Provocada pelos lugares de origem da fala
Que vão do latim até ao kimbundo,

Passando pelo tétum, pelo tupi-guarani,
Pelo papiá ou pelo castelhano.
Ou até (porque não?) por esse rumor denso

Da mecânica ultra-pop que nos enche os ouvidos
E que nos alimenta da inconsciência tão útil
Aos que por nós decidem o como mas também o porquê.

O que nos põe de acordo são os momentos de esforço
Em que procuramos perceber o sentido,
A regra íntima com que cada um se diz.


(Este poema foi uma das respostas a um desafio do Henrique: "enviem-me poemas, narrativas breves, aforismos, labirintos, etc., em desacordo com o Acordo Ortográfico".

Também no blog da Frenesi se vai fazendo a resistência, na série "Com acordo ou sem acordo...", na qual Paulo da Costa Domingos lembra o que algumas vozes sensatas disseram sobre o assunto. Por minha sugestão, estão lá Ruben A., Mário Cesariny e Ruy Belo. [entretanto retirados])

20.4.08

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

EDEN MAR HOTEL


Anoitece.
No promontório a oeste,
as aves do mar parecem adormecidas.
Uma única estrela acende a sua luz sobre o
horizonte,
sobre as lanternas brancas e azuis,
sobre a inquietação dos peixes vermelhos.
Mas nada se ouve.
Ninguém bate à porta,
os amigos são apenas uma palavra vazia,
sepultada para sempre.
Silenciosamente,
duas lágrimas descem o meu rosto,
na varanda deste hotel,
entre as árvores do fogo e a noite em ruínas.
Fecho os olhos.
Dói, às vezes docemente, dói a vida.

(de Quatro Luas, Assírio & Alvim, 2006)

19.4.08

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

TELEFONIA III


Esta música leve e valsitante
Ondula-me a monotonia
Como vejo passar aos sábados
As raparigas da fábrica para o baile.
É doce esta melodia fácil
Simplifica a minha incerteza
E na resolução prevista pela teoria
Deixa-me a poesia simples
Das quadraturas, sete sílabas,
Em que dor se salva rimando com amor.
Esta música leve e valsitante
Leva ao baile fim de semana
Os meus desejos duma vida burguesa
E areja, ou procura fazê-lo,
A minha ciência inútil.
1939

(in Cadernos de Poesia 1, 1940 – edição fac-similada, Campo das Letras, 2004)

16.4.08

PEDRO BANDEIRA FREIRE

TRAVESSA DA ESPERA


- Diz-me de quê.
Depressa.
Ou porquê. Ou por quem.

- Não tenhas pressa.
É tarde. Já não vem ninguém.

(de Lisboa: Retalhos e Lugares (uma sitiografia), Universitária editora, 1999)

7.4.08

FERNANDO GUERREIRO

A campanha da Rússia


Sempre as mesmas imagens, recorrentes, a cair do suplício
de a elas ter assistido. Presos da infalibilidade da sua vinda,
interrogamo-nos sobre o que as mantém vivas e lhes comunica
uma palidez de que toda a memória do sentimento parece
ter sido excluída. De onde terão saído? Que glaciares, opacos,
conservam ainda uma esperança tão traída da vida? Mamutes
cansados, contudo, atravessam sem se ver as landes do espírito.
Na esperança, talvez, de encontrar algum caçador furtivo.
Porque a caça, neste continente, onde os homens permanecem
imersos nos sentimentos, continua a ser um rudimentar
exercício de estilo. Doente de ser, quase sem artificio.
Daí que mal abordam as palavras, nelas reconheçam
um destino solar de exílio. Os pensamentos adensam-se
no sentimento e caem nas palavras como pedras
do absoluto. Todos desaprenderam de escrever
e a poesia tende a confundir-se com uma forma
aplicada de sarar as feridas. Que debaixo dos cobertores
homens com unguentos estendem até que, atraindo a si
a natureza no seu tremor, sob a flanela das calças se indistingam os rios.

(de Teoria da Revolução, Angelus Novus editora, 2000 – Política dos Autores)

4.4.08

[bem… é mesmo só uma fábula]

AMBROSE BIERCE

O TEMOR E O ORGULHO


- Bom-dia, amigo – disse o Temor ao Orgulho – então que tal se sente esta manhã?
- Muito cansado – respondeu o Orgulho, sentando-se à beira da estrada, e enxugando a testa coberta de suor. – Os políticos extenuam-me, à força de se servirem de mim para exporem as suas ignóbeis acusações, quando podiam, muito bem, recorrer a um cacete.
E o Temor respondeu, soltando um suspiro de simpatia:
- Pois eu estou numa situação bastante igual à sua. Em vez de utilizarem uns binóculos, é por meu intermédio que observam os actos dos seus adversários.
E iam os dois resignados escravos juntar as lágrimas, quando lhes chegou ordem de retomarem o serviço, porque um dos partidos políticos acabava de eleger um gatuno para seu chefe, e preparava-se para celebrar um reunião comemorativa do acontecimento.

(de Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral, editorial Estampa, 1971)

3.4.08

ANA DE AMSTERDAM

(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)

(daqui)

2.4.08

HELENA CARVALHÃO BUESCU

O QUE DE NAVEGAR SE DESCOBRE


O mar abre as janelas em que
ao romper do dia pousou a noite, a acabar.
Pelas dunas se ergue a febre, nesse inquieto instante,
cavalgam equinócios e marés,
despejando quadrantes, bússolas
e coisas mais de navegar, cartas, mapas e globos,
e tão depressa é tão longe,
mas tão lento é o curso dos naufrágios,
tão próxima a mão que corta os nós
e agreste só serena.
Foi de ventos e tumultos,
gritos, machos e machados,
ora por vezes este amado caminho,
ora por vezes procurando a morte,
ora por vezes amando o que dela se compraz.

Tão alto gritamos que só os pássaros
ouviram; e esses, por vezes, já sabiam.

(de De onde Nascem os Rios, editorial Presença, 1998)

1.4.08

["A espessura da palavra poética"... ora aqui está uma bela ideia]



(daqui)

29.3.08

Hoje, às 18 horas, na Fábrica de Braço de Prata, é apresentado o livro Pôr a Escrita em Noite, da autoria de Davi Reis, um dos membros da banda Baby Jane, autor do blogue Caderno de Corda e do "hino" da Associação Porta 65 fechada. Além disso, dá-me a honra de ser meu Amigo.

28.3.08

RUI COSTA

Rafaela é bela e nenhum livro consegue disfarçar a beleza. Podemos negá-la, torcê-la, podemos amputá-la, esquecê-la, podemos nunca falar nela. Mas ela surge do avesso, põe-se atrás de portas que no momento seguinte são abertas. Transmuta-se na nossa negação e quando julgamos que o assassínio é possível é ela que se ergue das cinzas fumegantes do cadáver. O poeta nega a lírica e falha completamente, escreve um poema que não lhe sustenta os passos e eis que ela aparece sentada e sorridente e então é o tempo que pára e nós a inventar a forma de lhe pedirmos desculpa. Claro que essa desculpa é traiçoeira, claro que queremos a destruição sem vestígios, claro que sofremos com isso e temos medo que o nosso medo a volte a profanar. Inventamos fugas ao ritmo, dissonâncias, criamos martírios impossíveis de escrever. Insultamos a ginga das mulheres, sua melodiosa elipse, inventamos metonímias como forma de as surpreendermos em tudo. Mas em tudo é em nossa própria pele que caímos.

(excerto de A Resistência dos Materiais, exodus, 2008)

26.3.08

ISABEL CRISTINA PIRES

O TEMPO


Há um relógio,
um sol redondo onde giram as horas com vagar
dentro do covo infinito de um náutilo de vidro,
por onde o tempo se esvai;
o tempo das catedrais, das horas mortas,
das ciganas que lêem a sina com sobranceria,
o tempo nocturno das aves que repentinamente matam,
e bicam e estorcem e vasculham, esse tempo,
escorrega também no labirinto,
no caracol nacarado que enrola e se enrola,
as voltas, as valsas que ficam no mesmo lugar,
a música que ressoa numa parte da cabeça e que nos doma
o coração, alguma coisa aquilo significa

pulsam as horas na espiral, no nevoeiro de ondas,
arquivoltas e abóbadas de um tempo
redondo e respeitador.
Agora o tempo pára, pára um pouco,
e um assassino mata e transforma-se noutro
e um ai de amor ficou suspenso
um pouco eterno na memória

algo fica sempre por fazer ou foi feito de mais
no passo de hélice que o relógio corre,
o giro, a esfera, o sol azteca
que é de todos o mais sol, todos o sabem,
o mais redondo e doirado, o que está
nos girassóis, nas lages de arenito,
nas ondas concêntricas dos lagos lamacentos
na alegria pulcra de um domingo de Páscoa

tantas e tantas flores enleiam esse tempo,
aquele sol, que está para além de tudo o que é visível;
e assim o tempo escorre
no seu labirinto penugento e mátrio, numa rotação
de língua que nos saboreia

(de A Roda do Olhar, editorial Caminho, 1994)

25.3.08

SOFIA CRESPO

1


oh noite faroleira

descansa no colo do meu olhar
esse teu pranto tão cansado

e atormentada voz que te assiste
desolação de mares arrebentados

inquietos sonos que construíste
nessa pedra que erosa até ao céu
à sombra dos que lá poisam

porque se de mim me fui
já tenho mar que me chegue

e sempre de noite rouca
inquieto o desejo dos passos

em vigílias de coisas que não vês
para além dos horizontes
corpolados entre céus e águas

e se te alcanço a densidade
sei voar ao silêncio

não vês tu que infinita ideia?

(da sequência outros poemas para descansar, in Anunciada Embarcação na Histeria, &etc, 1997)