10.6.08

[outros melros LII]

MANUEL ALEGRE

Que porque


Estou diante do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao cimo da Calçada de Santana, em Lisboa. Aqui houve outrora o mosteiro do Convento de Santa Ana, destruído pelo terramoto. Não há nenhuma placa, nenhum sinal. Mas Camões foi enterrado aqui, da parte de fora do Convento. Olho o terreno ao lado do Instituto. Ia jurar que é o mesmo onde, embrulhado num lençol, foi sepultado aquele a quem, numa lápide ali mandada colocar mais tarde, D. Gonçalo Coutinho chamaria “o príncipe dos poetas do seu tempo”.
Há um melro a cantar. Ocorre-me um extraordinário livrinho de Philippe Soupault sobre Lisboa, intitulado Carte Postale. Começa assim : “Lisboa é a aurora”. Mais adiante diz que “...cada um dos pássaros de Lisboa sabe de cor um verso dos Lusíadas”.
Talvez haja uma toada de Camões no trinado deste melro. Uma toada. Foi o que para sempre ficou dentro de mim ao ouvir meu pai ler em voz alta versos de Camões. Digo ouvir. Eu ainda não sabia ler, não percebia o sentido, mas ficava fascinado com o ritmo, a toada, a cadência, chame-se-lhe o que se quiser. Digo ouvir porque foi assim que tive a revelação da poesia e da música que há dentro da língua. E porque foi ouvindo o som daquelas vogais e consoantes que aprendi de cor, antes de saber ler, algumas estrofes de Os Lusíadas e alguns sonetos de Camões, além de “Perdigão perdeu a pena”. Uma toada, um ritmo, uma outra forma de música. Que é, ninguém me convence do contrário, a que se ouve no marulhar do Atlântico. As ondas rolam em decassílabos, às vezes em versos de sete sílabas.
Pode acontecer que, sem se dar por isso, comece a dedilhar-se uma guitarra invisível tocando as cordas da sexta e da décima ou, mais raramente, da quarta, da oitava e décima sílabas. Ou então que, de repente, comece a falar-se assim. Ou até a dançar. Camões decassilaba-se em nós. Está no sangue, bate no pulso.
Depois há o “que porque” da Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
Que outro poeta seria capaz de juntar estas duas terríveis e rudes palavras e pô-las a cantar? Que porque. Música. Um acto fundador, momento primordial da poesia de língua portuguesa. Que porque.
Meu pai costumava dizer que a poesia de Camões se pode assobiar. Se calhar é o que o melro está ali a fazer.

(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)
[da raça III]

FERNANDO SYLVAN


janeiro 72



PORTUGAL

Portugal não é só o povo de oitocentos anos vividos
mas também o de oitocentos e oitocentos para viver.
É o que se busca finalmente em fronteiras espirituais mais largas
entre os povos do novo milénio.
O seu estandarte não é já só a Cruz de Cristo
nem o seu missal a biografia do Infante.
Portugal é agora o de novas rotas
para além das de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral
e o de novas esperanças para além do Quinto Império.
Portugal é agora o que despreza o desprezo de Mouzinho pelos pretos
e o dos homens que se erguem na defesa da liberdade em toda a Terra.

Portugal será maior menosr

e pátria das nações de língua portuguesa
que já não cabem n'Os Lusíadas.





lisboa dia da raça junho 72



CORRIGENDA

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que souber viver
E pelo amor que tiver para dar.


(de Tempo Teimoso, 1974)
[da raça II]

CASIMIRO DE BRITO

OS SIGNOS DA CAÇA
«Fraqueza da humana sorte:
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!»
CAMÕES


Em Portugal nascido católico me quiseram, ad
Vitam aeternam, com duas gotas de sal e algumas
Moedas. Português porém não sou nem pátria nem
Deuses além do corpo e da língua onde agora me
Concentro tenho. Antes de mim outros o disseram.

Embora português me descrevam papéis oficiais
Como se rugas severas e velhas cicatrizes de família
Me tivessem transformado em surdas informações
Estatísticas. Português & católico (em minha semi-
Obscuridade) não fui nem sou. Nem essas nem outras

Mutilações incrustadas no tempo que faz de mim
Um cadáver mas onde uma fenda subitamente se
Abre! Húmida fissura entre o meu corpo
E o vosso de cidades desmoronadas. Resposta porém
Não sei para nada. Os mitos da pátria

Renego. E deuses. E amigos e tábuas de lei
Se com pátrias e deuses me limitam ou com outras
Filomitias me limitam o corpo, incêndio reconstruído
À sombra dos ossos. Pátria (se pátria ouso
A meus sinais de som chamar) é este canto devastado,

Esta carnívora linguagem por acaso portuguesa
Em que me lavro e gasto e mato – são estes
Pobres e poucos movimentos derramados
Na pedra do sangue; a memória dos mortos, grandes
E pequenos; a febre e o chão macerado

Do meu país de míldio e alcatruzes; e mais a indústria
Do ódio e do ócio – mas também a filha em seu sono
Deitada; e águas distantes, cerimónias de Eros,
Onde me distendo e uma certa vertigem luminosa
Invento. Como se à morte a vida eu pudesse vender

Tropeço em palavras alucinadas, ar espesso através
Da noite mais canina. Neste pulsar de ruínas
Acumulam-se as cinzas do meu retrato: sangue transfigurado
E sem ogiva! Ávidos dedos, ávida vida que não sabe
De símbolos definitivos, obras de magia

Onde se inscreva o tempo, a morte administrada
Por máquinas incompreensíveis, surdas, subcutâneas
Como ter nascido aqui, praias de Portugal, e não
Onde canto a cal dos ventos, o vazio e o mais seco
Sal. Que dizer porém da luz cicatrizada

Em árvores de cimento? As origens da morte lusitana
Canto: as origens do corpo em seu exercício de salto
Para um sol mais alto. Esse é o lavrar tão débil
Que te mata! Com palavras entaladas na garganta
Canto a morte que me lavra, e nem morte se chama.

(de Labyrinthus, 1981)

[hoje, este poeta, que “Os mitos da pátria / Reneg[a]”, aceitou ser distinguido pelo Estado português como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. A poesia é inconsequente?]
[da raça I]

SÉRGIO GODINHO

DE CORAÇÃO E RAÇA


"Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça"
(De um conhecido hino)

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário prá despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento prá morte
vou pró leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte.

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

(do álbum À queima-roupa, 1974)

7.6.08

PEDRO TAMEN

VERDES ANOS


Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(1963)

(da secção Esparsos de Retábulo das Matérias (1956-2001), Gótica, 2001)




(excerto de Verdes anos, de Paulo Rocha, 1963)

4.6.08

RUI MANUEL AMARAL

História do homem que perdeu a alma num café


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.
Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.
De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.
José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.
Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.

(de Caravana, Angelus Novus, 2008 – Microcosmos)


PAULO KELLERMAN

Lixo


Era uma vez um homem que passava uma parte considerável dos seus dias a mexer no lixo alheio.
Explicava, a quem desejasse saber, que procurava uma alma. Perdera a sua e, por isso, precisava encontrar outra com urgência.
Acrescentava que o local mais óbvio para procurar era entre o lixo dos outros. Pois se a bondade apenas se destaca quando contraposta à maldade, se a virtude apenas o é em relação ao pecado, se a verdade apenas existe enquanto a mentira existir, em que outro local procurar a pureza senão entre a impureza?
Sorria e continuava a revolver o lixo.

(de Miniaturas, edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão, 2001)


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ALMA PERDIDA


Sigefredo botou anúncio classificado, dizendo que perdera sua alma, com promessa de gratificar quem a encontrasse. Não explicou - nem podia - como a tinha perdido.
Apareceram algumas pessoas trazendo pacotes com almas, e nenhuma era a dele. Não se ajustavam a seu corpo, e mesmo que ele quisesse fazer experiência, era evidente que não combinavam com o jeito de Sigefredo. E ele era muito ocupado. Não tinha tempo a perder.
Já se resignara a viver mesmo sem alma, quando uma noite encontrou a desaparecida, à porta de um bar, com aparência de pobreza, mas tranquila.
Seu primeiro impulso foi recolhê-la, mas pensando melhor achou que não valia a pena. A alma de Sigefredo também não manifestou interesse em voltar para ele. Dir-se-ia que aprendera a viver por conta própria, e mesmo naquele estado era independente.
Sigefredo passou por sua alma sem cumprimentá-la, entrou no bar e pediu o drink habitual. Ao sair, viu a alma, a pequena distância, dar alguns passos e saírem dos ombros duas asas, com que ela se alteou, voando para a Zona Norte.

(de Contos Plausíveis, José Olympio editora, 1981)

19.5.08

CRISTOVAM PAVIA

O rouxinol gotejando vidro matinal e embaciado
No meio da noite,
No meio da planície, que é o meu corpo,
Ao relento da noite escura...
A queimadura fria do pirilampo no musgo,
Guardando debilmente a infância
Sob os ventos livres dormindo sob a abóbada levíssima.

(de Poesia, Moraes editores, 1982 – Círculo de Poesia)
Revistas...

Uma boa notícia (que podia ser melhor) e uma má notícia.

18.5.08

ANA HATHERLY

A DESCOLOCAÇÃO NO ESPAÇO OU NO TEMPO

O acaso é uma noção científica.
O uso do acaso é um acaso como a utilização humana dos seres humanos.
A utilização dos seres humanos é um acaso usual como os seres humanos são acaso.
O acaso é cientificamente ocasional e como tal é usado.
E tudo o que é usado é ocasional
como o não usado
enquanto tudo é acaso, noção cientifica do instante em série.
O acaso é uma progressão serialmente ordenada e harmonicamente conjugada e como tal ocasional e uso.
Cientificamente o acaso é o que é constantemente recolocado no seu ser não estando
E constantemente se deslocando finalmente se coloca fora do seu ser em tudo estando e não
Serialmente acontecendo e não sendo
Pela sua deslocação constante no espaço ou no tempo ou no acontecimento.
A utilização humana do acaso é a consequência do acontecimento do acaso humano
que utiliza
e por ele é utilizado.
O acontecimento humano é um acaso que a todo o instante necessita colocação no espaço ou no tempo ou no próprio acontecimento do acaso em sua fronteira.
E buscando a sempre descolocada fronteira do acaso a si próprio se descoloca.
Se descolocando se desloca e desse modo sempre procura colocar-se paralelamente ou do outro lado do acaso que acaso se chamará passar para o outro lado
Ou cruzar a fronteira do acaso é buscar o uso da colocação a utilidade intrínseca do acontecimento.
O viajante que a todo o instante tenta cruzar a fronteira do espaço ou do tempo ou do acontecimento arde na intensa pira do acontecimento perseguido e no espaço ou no tempo ou no movimento ocasiona o núcleo invisível da fronteira que separa um, acontecimento do outro e tudo reúne sob a forma de deslocação.
O acaso está sempre em estado de ser colocado e a todo o instante procurado se recoloca no acontecimento instante do seu ser entretanto
acaso único e usual utente.
E no desfazamento entre o que é acaso e o que ocasionalmente é ocasionado está o acaso permanentemente descolocado.

(de Estruturas Poéticas – Operação 2, 1967)

17.5.08

JOSÉ BENTO

[...]
Há os que fazem da sua poesia um processo de afirmação social, uma carreira com sucessivas fases para se alcançar a glória, um meio de obter aplausos e prémios, para o que usam uma estratégia que na verdade é tão necessária como para qualquer outra acção bélica. E não só hoje e aqui, embora os fins e os processos de alcançar tenham variado e actualmente revistam aspectos próprios do «marketing» literário contemporâneo. É conhecida a imagem do mundo antigo dos poetas coroados de louros, protegidos pelos senhores cujas glórias celebravam, conselheiros ou meros adornos de reis, associados a um governo temporal ou espiritual, participando dos mesteres dos astrólogos e dos bobos, ajudando a puxar o carro do poder ou passeando-se nele.
Não se pode assinalar uma função ao poeta, que nenhuma tem senão o sê-lo, mas essa sem dúvida que não é a sua.
Há os gestores de cultura, que é hoje um ornamento para qualquer poder que pretende instituir-se, mas os poetas estão para além da sua gestão. Não porque não sejam deste mundo, porque o são, e o provam ao escrever, mas porque são poetas; estão à margem de qualquer forma regulamentada de vida e devem assumir a sua marginalização com todas as consequências: independência total, rejeição de todas as espécies de consolo ou de compensação. E porque devem estar à margem e isentos de possibilidade de aliciamento ou suborno, são inacessíveis aos gestores de cultura, pois gerir a cultura tem sido actuar sobre (quase sempre manipular) o passado, e os poetas enraízam-se no passado não para avançar no futuro, pois não há avanço neste campo, mas para conhecer um presente sempre incerto e mudável, cujo sentido têm de auscultar continuamente, duma forma inapreensível para quem o poder invista como gestor e, assim, torne seu agente. Aliás, actuar sobre o passado pode ser incómodo e inquietante, por aí poder existir a imagem já clarificada do presente (ainda obscuro) e, portanto, a lição (leitura) desse presente. Não se esqueça que um poeta como Camões, que dir-se-ia ser de passadas e gloriosas epopeias e de desvairados amores, resultou há pouco impossível de comemorar.
[...]

(excerto de Sobre a poesia de Cristovam Pavia, in Poesia, Moraes editores, 1982 – Círculo de Poesia)

16.5.08

Que novas festas, novos cantos pedes?

Estreou ontem, no Convento dos Capuchos (Almada) a peça de António Ferreira (1528-1569), A Castro, levada à cena pelo Teatro de Papel.
Estará naquele espaço até dia 31, às sextas e sábados e percorrerá vários monumentos pelo país, conforme programa disponível.

15.5.08

MARGARITA ALIGER

LÁGRIMAS DOS OLHOS, COMO CENTELHAS DE SÍLEX


Lágrimas dos olhos, como centelhas de sílex,
como uma palavra justa, arrancar para que serve?
Nada há de especial. A palavra é como fogo,
e o coração do homem não vive de soluços.
Não é absolutamente isso que me atormenta.
Mas levantarmo-nos de madrugada, à chegada do dia,
a dizer a quem vai à frente:
- Felicidades! –
Dar-lhes uma canção, com toda a alegria,
que proteja como uma autêntica armadura,
das palavras que soam vãs e falsas.
Queremos do homem não a centelha mas o fogo.

(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, editorial Futura, 1973)

14.5.08

RUI DINIZ

DO EXÍLIO


Os anos ecoavam suavíssimos. Um vento escuro
furava as escarpas. Nos olhos azulados do tempo
o desgosto alastrava. Era
como o tactear de um cego silêncio, um livro
indecifrável, som repetido pela chuva, humedecendo
o cérebro. Do quarto onde me tinham posto eu via
o mar. Quando me fatigavam podia contemplar as
tapeçarias. Eram velhas cenas de caça, veados
desfalecendo sob as furiosas matilhas. E, montados
nos seus fogosos cavalos, senhores impassíveis,
contemplando...

Alguns, principalmente à noite, pousavam em
mim os olhos consumidos na interminável
melancolia.
Enquanto ouvia Chopin, brilhavam-me nos lábios
as terríveis lágrimas do regresso. A leste da casa
o mar devorava.
O aborrecimento tomou-me a maior parte desses
dias.
Ah, pudesse eu estar em Espanha, nas vilas quentes.
Ou no sul, nas ardentes praias do mediterrâneo.
Pouco a pouco fui pensando na morte, na afinal
inútil persistência desses dias e noites cheias de tédio.
Uma manhã acordei sobressaltado por estranhas
profecias: vira o meu corpo rolando, alucinado,
pelas escarpas da costa e as aguas estremecendo
quando me recebiam…

Uma noite, por fim, quando me suicidei, vi, por
entre as mãos, como o poema se desfazia,
ameaçando...

(de Ossuário (ou: A Vida de James Whistler), &etc, 1977)

13.5.08

VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA

Uma particularidade distingue, em suma, a subliteratura da literatura: enquanto esta nasce, cresce e morre, aquela nasce e morre, apenasmente.

(de Destino de Orfeu, Livros do Bolso, 1987)
MANUEL GUSMÃO

FÁTIMA


Reconto o teu conto largo e extensível; e escuto o seu poema que se põe a devorar a propria vida e a tecer a verdade no corpo a corpo das suas almas com as várias Línguas do vivo tumultuoso. Maravilha fatal da nossa Idade! Idade maior, Idade de Ouro, tu, irmã maior das ondas e das vozes.

O estropiado – um toco de dedos em cunha faz-lhe de mão direita e desse lado o quadril rebaixado tem suspensas as pernas atrofiadas – contempla estarrecido o esplendor ardido do anjo há pouco resplandecente branco, agora esturricado negro, como um tição desfazendo-se em cinza, o anjo que trocara o mandado do seu senhor pela promessa não dita que o obrigara ao pedido da criatura terrestre, mortal e ferida sem remédio, que não quisera o céu.

«Bailai lá!» dissera eu,
«E eu bailei i, criatura angélica que da dor fiz
a insuportável alegria daquela dança do mundo»
– luxo da luxúria e ascese
da ascensão – Pierrot lunaire e
pequena Columbine na onda
e no voo de dois em um
só corpo: o terceiro1.


A criatura estremece – se em virtude do espectáculo, se do modo como terminou, ou se por razão simples do mal que a tolhe – qual a causa não a sabemos. Ri-se de embevecida ainda mas é já um espanto a entristecer que se lhe espalha desde a boca que se baba. Como ele, estremecia também a aura vermelha que o nimbava e ao cordeiro preto, e o halo de água marinha virando roxo-enegrecendo que tremeluzia rodeando o anjo suicida: i/ a manhã vem vindo/ nos braços d'aurora.

Deu-se então a bradar em altas vozes a ver se as gentes se amotinavam, a ver se alguém vinha e o ajudava a suportar aquela tão violenta e inédita mistura de dor e alegria que o anjo diante dele executara, como quem sua própria morte em glória executa.

Sentindo-se chamado em alta grita, eis que acorre o jardineiro comum daqueles lugares. O estropiado diz-lhe «Disto tudo – e em dizendo, um gesto da mão esquerda fazia, que mais que o seu palheiro abrangia – poderá vossemecê fazer um jardim?»



1 aqui, o do anjo.


(de A Terceira Mão, editorial Caminho, 2008)