12.7.08
MANUEL SIMÕES
SACRA CONVERSAZIONE
(Giovanni Bellini)
A luz anuncia a cor
de ouro e púrpura, a incrível
simetria das figuras.
Estão assim só imóveis
ao olhar de êxtase, breve,
da aparência; o movimento,
esse, desenha-se no secreto
diálogo, no canto intuível
e na leitura: palavra e música
de uma textura quem sabe se
de coesão traduzível
no aparente enigma da pintura.
(de Micromundos, edições Colibri, 2005)
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Manuel Simões,
Portuguesa
11.7.08
VASKO POPA
Ao ladrão de rosas
Um faz de roseira
Alguns de filhas do vento
Outros de ladrões de rosas
Os ladrões de rosas aproximam-se da roseira
Um deles apodera-se de uma rosa
E no coração a esconde.
Aparecem as filhas do vento
Vêem a beleza violada
E põem-se a perseguir os ladrões
A cada um deles abrem o peito
Nuns encontram um coração
Noutros palavra de honra que não
Elas começam a abrir-lhes o peito
Até lhes descobrirem o coração
E nesse coração a rosa roubada
Às escondidas
Um esconde-se do outro
Sob a língua dele se escondeu
Busca o outro debaixo da terra
Ele escondeu-se na fronte do outro
O outro procura-o no céu
Escondeu-se no próprio esquecimento
O outro vai procurá-lo nas ervas
Ele procura-o, procura-o em vão
Procura-o sabe-se lá onde
À força de procurar ele próprio se perde
Ao jogo do agarra
Uns arrancam aos outros
O braço o pé seja o que for
Agarram aquilo entre os dentes
Fogem o mais depressa possível
E enterram-no em qualquer parte
Os outros dispersam-se pelos quatro cantos
Buscam cheiram buscam cheiram
Revolvem a terra toda
Se por sorte descobrem os braços
Ou antes um pé ou seja o que for
São eles então, que têm de morder
O jogo prossegue com animação
Enquanto houver braços
Enquanto houver pés
Enquanto houver seja o que for
Depois do jogo
Por fim as mãos agarram o ventre
Para que não rebente a rir
Mas o ventre já lá não está
Uma das mãos mal pode levantar-se
Para enxugar o suor da fronte
A fronte já lá não está
A outra mão agarra o coração
Para evitar que o coração salte do peito
O coração já lá não está
As duas mãos tornam a cair
Caem ociosas sobre o colo
Mas já não há colo
Sobre uma das palmas está chover
Sobre a outra palma rebentam ervas
Não me perguntem mais nada
(traduções de António Ramos Rosa, in Voz Consonante: traduções de poesia, edições Quasi, 2006 – O Barco Ébrio)
Ao ladrão de rosas
Um faz de roseira
Alguns de filhas do vento
Outros de ladrões de rosas
Os ladrões de rosas aproximam-se da roseira
Um deles apodera-se de uma rosa
E no coração a esconde.
Aparecem as filhas do vento
Vêem a beleza violada
E põem-se a perseguir os ladrões
A cada um deles abrem o peito
Nuns encontram um coração
Noutros palavra de honra que não
Elas começam a abrir-lhes o peito
Até lhes descobrirem o coração
E nesse coração a rosa roubada
Às escondidas
Um esconde-se do outro
Sob a língua dele se escondeu
Busca o outro debaixo da terra
Ele escondeu-se na fronte do outro
O outro procura-o no céu
Escondeu-se no próprio esquecimento
O outro vai procurá-lo nas ervas
Ele procura-o, procura-o em vão
Procura-o sabe-se lá onde
À força de procurar ele próprio se perde
Ao jogo do agarra
Uns arrancam aos outros
O braço o pé seja o que for
Agarram aquilo entre os dentes
Fogem o mais depressa possível
E enterram-no em qualquer parte
Os outros dispersam-se pelos quatro cantos
Buscam cheiram buscam cheiram
Revolvem a terra toda
Se por sorte descobrem os braços
Ou antes um pé ou seja o que for
São eles então, que têm de morder
O jogo prossegue com animação
Enquanto houver braços
Enquanto houver pés
Enquanto houver seja o que for
Depois do jogo
Por fim as mãos agarram o ventre
Para que não rebente a rir
Mas o ventre já lá não está
Uma das mãos mal pode levantar-se
Para enxugar o suor da fronte
A fronte já lá não está
A outra mão agarra o coração
Para evitar que o coração salte do peito
O coração já lá não está
As duas mãos tornam a cair
Caem ociosas sobre o colo
Mas já não há colo
Sobre uma das palmas está chover
Sobre a outra palma rebentam ervas
Não me perguntem mais nada
(traduções de António Ramos Rosa, in Voz Consonante: traduções de poesia, edições Quasi, 2006 – O Barco Ébrio)
[ao editar este post, ocorreu-me, sem razão específica, que este poemas seriam particularmente do agrado da minha Amiga Ana Salomé]
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10.7.08
EMILY DICKINSON
A Rotina ser Estímulo?
Lembrai-vos de como cessa –
Ser-se capaz de Acabar
É uma Específica Graça –
Do Retrospecto a Flecha
O poder de recompor
Partido com o Tormento
Devém, ah, mais formoso
c. 1871
(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas de Emily Dickinson, Edições 70, 1979)
A Rotina ser Estímulo?
Lembrai-vos de como cessa –
Ser-se capaz de Acabar
É uma Específica Graça –
Do Retrospecto a Flecha
O poder de recompor
Partido com o Tormento
Devém, ah, mais formoso
c. 1871
(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas de Emily Dickinson, Edições 70, 1979)
9.7.08
VITORINO NEMÉSIO
NOMEIO O MUNDO
Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.
Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.
(de O Verbo e a Morte, 1959)
NOMEIO O MUNDO
Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.
Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.
14.9.59
(de O Verbo e a Morte, 1959)
8.7.08
JOSÉ JORGE LETRIA
O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.
(de Os Achados da Noite, Concellería de Cultura do Concello de Ourense, 1992)
O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.
(de Os Achados da Noite, Concellería de Cultura do Concello de Ourense, 1992)
7.7.08
[outros melros LIII]
LEONARDO DA VINCI
A ALFENA E O MELRO
(de Bestiário, Fábulas e outros escritos, tradução de José Colaço Barreiros, 1995)
LEONARDO DA VINCI
A ALFENA E O MELRO
A alfena, sendo picada nos seus finos ramos, cobertos de novos frutos, pelos pungentes bicos dos importunos melros, lamentava-se com piedosos queixumes ao melro, pedindo-lhe, já que lhe tirava os seus frutos dilectos, que ao menos não a privasse das folhas, que a defendiam dos escaldantes raios de sol, e que com as suas aceradas unhas não lhe arrancasse a casca despindo-a da sua tenra pele. Ao que o melro, com rudeza respondeu: - Ora cala-te, bravio galho! Não sabes que a natureza te fez dar estes frutos para meu alimento? Não vês que estás no mundo para me servires desta comida? Não sabes, bruto campónio, que no próximo inverno vais ser alimento do fogo? – Ouvidas pacientemente pela árvore estas palavras, não sem lágrimas, daí a pouco tempo foi o melro apanhado pela rede, e servindo ramos para fazer de gaiola para encarcerar o melro, calhou, entre outros ramos, à delicada alfena dar as grades para a gaiola; a árvore, vendo-se ser causa de tirar a liberdade ao melro, alegrando-se, dirigiu-lhe estas palavras: - Ó melro, eu aqui estou, ainda não consumada, como tu dizias, pelo fogo; vejo-te na prisão antes que me vejas queimada!
(de Bestiário, Fábulas e outros escritos, tradução de José Colaço Barreiros, 1995)
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14.6.08
Não é vulgar um poeta publicar quatro livros de poesia num só ano, muito menos vulgar tratando-se de quatro livros premiados. Aconteceu já este ano, e ainda vamos a meio, com o poeta Amadeu Baptista (n. 1953), que após Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca) – Prémio Literário Florbela Espanca, 2007 -, publicou recentemente, em belas edições da Cosmorama, os títulos O Bosque Cintilante - Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007 -, Sobre as Imagens - Prémio Nacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008 - e Poemas de Caravaggio - Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007.
Logo à noite, pelas 22 horas, no Clube Literário do Porto,
Jorge Velhote apresenta os livros
O bosque cintilante,
Sobre as imagens e
Poemas de Caravaggio.
Jorge Velhote apresenta os livros
O bosque cintilante,
Sobre as imagens e
Poemas de Caravaggio.
12.6.08
[para juntar a estes]
ARTHUR RIMBAUD
Vogais
A negro, É branco, I vermelho, U verde, Ó azul: vogais,
Direi um dia destes vossas ocultas origens:
A, negro colete peludo das moscas infernais
Voltejando em volta de fedores que dão vertigens,
Golfos de sombra. É, canduras de tendas e vapores evanescentes,
Lanças de glaciares orgulhosos, reis brancos, arrepios de umbelas,
I, púrpuras, sangue cuspido, riso de bocas belas
Em plena cólera ou bebedeiras penitentes.
U, ciclos, vibrações divinas dos mares malcheirosos
Paz dos pastos cheios de animais, paz das rugas
Por alquimia impressas na fronte dos grandes estudiosos;
Ó, clarim supremo, cheio de ruídos e estranhas fugas,
Silêncios atravessados pelos Anjos e pelos Mundos:
- Ó Ómega, raio violeta dos seus olhos fundos!
(“subvertido para português” por Manuel Alegre, em Rouxinol do Mundo, publicações Dom Quixote, 1998)
ARTHUR RIMBAUD
Vogais
A negro, É branco, I vermelho, U verde, Ó azul: vogais,
Direi um dia destes vossas ocultas origens:
A, negro colete peludo das moscas infernais
Voltejando em volta de fedores que dão vertigens,
Golfos de sombra. É, canduras de tendas e vapores evanescentes,
Lanças de glaciares orgulhosos, reis brancos, arrepios de umbelas,
I, púrpuras, sangue cuspido, riso de bocas belas
Em plena cólera ou bebedeiras penitentes.
U, ciclos, vibrações divinas dos mares malcheirosos
Paz dos pastos cheios de animais, paz das rugas
Por alquimia impressas na fronte dos grandes estudiosos;
Ó, clarim supremo, cheio de ruídos e estranhas fugas,
Silêncios atravessados pelos Anjos e pelos Mundos:
- Ó Ómega, raio violeta dos seus olhos fundos!
(“subvertido para português” por Manuel Alegre, em Rouxinol do Mundo, publicações Dom Quixote, 1998)
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10.6.08
[outros melros LII]
MANUEL ALEGRE
Que porque
(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)
MANUEL ALEGRE
Que porque
Estou diante do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao cimo da Calçada de Santana, em Lisboa. Aqui houve outrora o mosteiro do Convento de Santa Ana, destruído pelo terramoto. Não há nenhuma placa, nenhum sinal. Mas Camões foi enterrado aqui, da parte de fora do Convento. Olho o terreno ao lado do Instituto. Ia jurar que é o mesmo onde, embrulhado num lençol, foi sepultado aquele a quem, numa lápide ali mandada colocar mais tarde, D. Gonçalo Coutinho chamaria “o príncipe dos poetas do seu tempo”.
Há um melro a cantar. Ocorre-me um extraordinário livrinho de Philippe Soupault sobre Lisboa, intitulado Carte Postale. Começa assim : “Lisboa é a aurora”. Mais adiante diz que “...cada um dos pássaros de Lisboa sabe de cor um verso dos Lusíadas”.
Talvez haja uma toada de Camões no trinado deste melro. Uma toada. Foi o que para sempre ficou dentro de mim ao ouvir meu pai ler em voz alta versos de Camões. Digo ouvir. Eu ainda não sabia ler, não percebia o sentido, mas ficava fascinado com o ritmo, a toada, a cadência, chame-se-lhe o que se quiser. Digo ouvir porque foi assim que tive a revelação da poesia e da música que há dentro da língua. E porque foi ouvindo o som daquelas vogais e consoantes que aprendi de cor, antes de saber ler, algumas estrofes de Os Lusíadas e alguns sonetos de Camões, além de “Perdigão perdeu a pena”. Uma toada, um ritmo, uma outra forma de música. Que é, ninguém me convence do contrário, a que se ouve no marulhar do Atlântico. As ondas rolam em decassílabos, às vezes em versos de sete sílabas.
Pode acontecer que, sem se dar por isso, comece a dedilhar-se uma guitarra invisível tocando as cordas da sexta e da décima ou, mais raramente, da quarta, da oitava e décima sílabas. Ou então que, de repente, comece a falar-se assim. Ou até a dançar. Camões decassilaba-se em nós. Está no sangue, bate no pulso.
Depois há o “que porque” da Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
Que outro poeta seria capaz de juntar estas duas terríveis e rudes palavras e pô-las a cantar? Que porque. Música. Um acto fundador, momento primordial da poesia de língua portuguesa. Que porque.
Meu pai costumava dizer que a poesia de Camões se pode assobiar. Se calhar é o que o melro está ali a fazer.
(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)
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[da raça III]
FERNANDO SYLVAN
PORTUGAL
Portugal não é só o povo de oitocentos anos vividos
mas também o de oitocentos e oitocentos para viver.
É o que se busca finalmente em fronteiras espirituais mais largas
entre os povos do novo milénio.
O seu estandarte não é já só a Cruz de Cristo
nem o seu missal a biografia do Infante.
Portugal é agora o de novas rotas
para além das de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral
e o de novas esperanças para além do Quinto Império.
Portugal é agora o que despreza o desprezo de Mouzinho pelos pretos
e o dos homens que se erguem na defesa da liberdade em toda a Terra.
Portugal será maior menosr
e pátria das nações de língua portuguesa
que já não cabem n'Os Lusíadas.
CORRIGENDA
Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,
Mas pelas liberdades que souber viver
E pelo amor que tiver para dar.
(de Tempo Teimoso, 1974)
FERNANDO SYLVAN
janeiro 72
PORTUGAL
Portugal não é só o povo de oitocentos anos vividos
mas também o de oitocentos e oitocentos para viver.
É o que se busca finalmente em fronteiras espirituais mais largas
entre os povos do novo milénio.
O seu estandarte não é já só a Cruz de Cristo
nem o seu missal a biografia do Infante.
Portugal é agora o de novas rotas
para além das de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral
e o de novas esperanças para além do Quinto Império.
Portugal é agora o que despreza o desprezo de Mouzinho pelos pretos
e o dos homens que se erguem na defesa da liberdade em toda a Terra.
Portugal será maior menosr
e pátria das nações de língua portuguesa
que já não cabem n'Os Lusíadas.
lisboa dia da raça junho 72
CORRIGENDA
Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,
Mas pelas liberdades que souber viver
E pelo amor que tiver para dar.
(de Tempo Teimoso, 1974)
[da raça II]
CASIMIRO DE BRITO
Em Portugal nascido católico me quiseram, ad
Vitam aeternam, com duas gotas de sal e algumas
Moedas. Português porém não sou nem pátria nem
Deuses além do corpo e da língua onde agora me
Concentro tenho. Antes de mim outros o disseram.
Embora português me descrevam papéis oficiais
Como se rugas severas e velhas cicatrizes de família
Me tivessem transformado em surdas informações
Estatísticas. Português & católico (em minha semi-
Obscuridade) não fui nem sou. Nem essas nem outras
Mutilações incrustadas no tempo que faz de mim
Um cadáver mas onde uma fenda subitamente se
Abre! Húmida fissura entre o meu corpo
E o vosso de cidades desmoronadas. Resposta porém
Não sei para nada. Os mitos da pátria
Renego. E deuses. E amigos e tábuas de lei
Se com pátrias e deuses me limitam ou com outras
Filomitias me limitam o corpo, incêndio reconstruído
À sombra dos ossos. Pátria (se pátria ouso
A meus sinais de som chamar) é este canto devastado,
Esta carnívora linguagem por acaso portuguesa
Em que me lavro e gasto e mato – são estes
Pobres e poucos movimentos derramados
Na pedra do sangue; a memória dos mortos, grandes
E pequenos; a febre e o chão macerado
Do meu país de míldio e alcatruzes; e mais a indústria
Do ódio e do ócio – mas também a filha em seu sono
Deitada; e águas distantes, cerimónias de Eros,
Onde me distendo e uma certa vertigem luminosa
Invento. Como se à morte a vida eu pudesse vender
Tropeço em palavras alucinadas, ar espesso através
Da noite mais canina. Neste pulsar de ruínas
Acumulam-se as cinzas do meu retrato: sangue transfigurado
E sem ogiva! Ávidos dedos, ávida vida que não sabe
De símbolos definitivos, obras de magia
Onde se inscreva o tempo, a morte administrada
Por máquinas incompreensíveis, surdas, subcutâneas
Como ter nascido aqui, praias de Portugal, e não
Onde canto a cal dos ventos, o vazio e o mais seco
Sal. Que dizer porém da luz cicatrizada
Em árvores de cimento? As origens da morte lusitana
Canto: as origens do corpo em seu exercício de salto
Para um sol mais alto. Esse é o lavrar tão débil
Que te mata! Com palavras entaladas na garganta
Canto a morte que me lavra, e nem morte se chama.
(de Labyrinthus, 1981)
CASIMIRO DE BRITO
OS SIGNOS DA CAÇA
«Fraqueza da humana sorte:
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!»
CAMÕES
«Fraqueza da humana sorte:
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!»
CAMÕES
Em Portugal nascido católico me quiseram, ad
Vitam aeternam, com duas gotas de sal e algumas
Moedas. Português porém não sou nem pátria nem
Deuses além do corpo e da língua onde agora me
Concentro tenho. Antes de mim outros o disseram.
Embora português me descrevam papéis oficiais
Como se rugas severas e velhas cicatrizes de família
Me tivessem transformado em surdas informações
Estatísticas. Português & católico (em minha semi-
Obscuridade) não fui nem sou. Nem essas nem outras
Mutilações incrustadas no tempo que faz de mim
Um cadáver mas onde uma fenda subitamente se
Abre! Húmida fissura entre o meu corpo
E o vosso de cidades desmoronadas. Resposta porém
Não sei para nada. Os mitos da pátria
Renego. E deuses. E amigos e tábuas de lei
Se com pátrias e deuses me limitam ou com outras
Filomitias me limitam o corpo, incêndio reconstruído
À sombra dos ossos. Pátria (se pátria ouso
A meus sinais de som chamar) é este canto devastado,
Esta carnívora linguagem por acaso portuguesa
Em que me lavro e gasto e mato – são estes
Pobres e poucos movimentos derramados
Na pedra do sangue; a memória dos mortos, grandes
E pequenos; a febre e o chão macerado
Do meu país de míldio e alcatruzes; e mais a indústria
Do ódio e do ócio – mas também a filha em seu sono
Deitada; e águas distantes, cerimónias de Eros,
Onde me distendo e uma certa vertigem luminosa
Invento. Como se à morte a vida eu pudesse vender
Tropeço em palavras alucinadas, ar espesso através
Da noite mais canina. Neste pulsar de ruínas
Acumulam-se as cinzas do meu retrato: sangue transfigurado
E sem ogiva! Ávidos dedos, ávida vida que não sabe
De símbolos definitivos, obras de magia
Onde se inscreva o tempo, a morte administrada
Por máquinas incompreensíveis, surdas, subcutâneas
Como ter nascido aqui, praias de Portugal, e não
Onde canto a cal dos ventos, o vazio e o mais seco
Sal. Que dizer porém da luz cicatrizada
Em árvores de cimento? As origens da morte lusitana
Canto: as origens do corpo em seu exercício de salto
Para um sol mais alto. Esse é o lavrar tão débil
Que te mata! Com palavras entaladas na garganta
Canto a morte que me lavra, e nem morte se chama.
(de Labyrinthus, 1981)
[hoje, este poeta, que “Os mitos da pátria / Reneg[a]”, aceitou ser distinguido pelo Estado português como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. A poesia é inconsequente?]
[da raça I]
SÉRGIO GODINHO
DE CORAÇÃO E RAÇA
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário prá despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento prá morte
vou pró leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte.
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
(do álbum À queima-roupa, 1974)
SÉRGIO GODINHO
DE CORAÇÃO E RAÇA
"Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça"
(De um conhecido hino)
Não há talvez maior fortuna e graça"
(De um conhecido hino)
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário prá despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento prá morte
vou pró leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte.
Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha
(do álbum À queima-roupa, 1974)
7.6.08
PEDRO TAMEN
VERDES ANOS
Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...
Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.
Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!
No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…
O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.
(1963)
(da secção Esparsos de Retábulo das Matérias (1956-2001), Gótica, 2001)
(excerto de Verdes anos, de Paulo Rocha, 1963)
VERDES ANOS
Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...
Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.
Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!
No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…
O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.
(1963)
(da secção Esparsos de Retábulo das Matérias (1956-2001), Gótica, 2001)
(excerto de Verdes anos, de Paulo Rocha, 1963)
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4.6.08
RUI MANUEL AMARAL
História do homem que perdeu a alma num café
(de Caravana, Angelus Novus, 2008 – Microcosmos)
PAULO KELLERMAN
Lixo
(de Miniaturas, edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão, 2001)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ALMA PERDIDA
(de Contos Plausíveis, José Olympio editora, 1981)
História do homem que perdeu a alma num café
Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.
Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.
De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.
José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.
Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.
(de Caravana, Angelus Novus, 2008 – Microcosmos)
PAULO KELLERMAN
Lixo
Era uma vez um homem que passava uma parte considerável dos seus dias a mexer no lixo alheio.
Explicava, a quem desejasse saber, que procurava uma alma. Perdera a sua e, por isso, precisava encontrar outra com urgência.
Acrescentava que o local mais óbvio para procurar era entre o lixo dos outros. Pois se a bondade apenas se destaca quando contraposta à maldade, se a virtude apenas o é em relação ao pecado, se a verdade apenas existe enquanto a mentira existir, em que outro local procurar a pureza senão entre a impureza?
Sorria e continuava a revolver o lixo.
(de Miniaturas, edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão, 2001)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ALMA PERDIDA
Sigefredo botou anúncio classificado, dizendo que perdera sua alma, com promessa de gratificar quem a encontrasse. Não explicou - nem podia - como a tinha perdido.
Apareceram algumas pessoas trazendo pacotes com almas, e nenhuma era a dele. Não se ajustavam a seu corpo, e mesmo que ele quisesse fazer experiência, era evidente que não combinavam com o jeito de Sigefredo. E ele era muito ocupado. Não tinha tempo a perder.
Já se resignara a viver mesmo sem alma, quando uma noite encontrou a desaparecida, à porta de um bar, com aparência de pobreza, mas tranquila.
Seu primeiro impulso foi recolhê-la, mas pensando melhor achou que não valia a pena. A alma de Sigefredo também não manifestou interesse em voltar para ele. Dir-se-ia que aprendera a viver por conta própria, e mesmo naquele estado era independente.
Sigefredo passou por sua alma sem cumprimentá-la, entrou no bar e pediu o drink habitual. Ao sair, viu a alma, a pequena distância, dar alguns passos e saírem dos ombros duas asas, com que ela se alteou, voando para a Zona Norte.
(de Contos Plausíveis, José Olympio editora, 1981)
19.5.08
CRISTOVAM PAVIA
O rouxinol gotejando vidro matinal e embaciado
No meio da noite,
No meio da planície, que é o meu corpo,
Ao relento da noite escura...
A queimadura fria do pirilampo no musgo,
Guardando debilmente a infância
Sob os ventos livres dormindo sob a abóbada levíssima.
(de Poesia, Moraes editores, 1982 – Círculo de Poesia)
O rouxinol gotejando vidro matinal e embaciado
No meio da noite,
No meio da planície, que é o meu corpo,
Ao relento da noite escura...
A queimadura fria do pirilampo no musgo,
Guardando debilmente a infância
Sob os ventos livres dormindo sob a abóbada levíssima.
(de Poesia, Moraes editores, 1982 – Círculo de Poesia)
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