16.7.08

PAULO CASTILHO

No fim ficam os livros. De mim nunca ninguém saberá nada porque a escrita é um disfarce. Um labirinto de pistas falsas ao lado de verdadeiras. Eu próprio acabo por não saber o que realmente se passou e o que inventei. Foi uma das primeiras coisas que nele notei: a propensão para dizer frases destas. Como um sino anunciam coisas. Como o nome.

(de Por Outras Palavras, Contexto editora, 2000)

15.7.08




[a propósito
disto e disto – e basta ir à base de dados da Biblioteca Nacional para perceber que há montes de livros com nomes iguais a outros livros]

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


O meu livro As (E)vocações Literárias, dado à estampa em 1980, incluía, pela primeira vez, nas obras a editar, um volume de traduções de poesia, sob o título Por Outras Palavras.
Os livros que se lhe seguiram (doze de poesia e três de estudos e memórias) mencionavam, também, esse conjunto de traduções, na bibliografia dos inéditos, conservando o mesmo nome, que me pareceu original e adequado (opinião partilhada por David Mourão-Ferreira).
No texto que me é dedicado, na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo), ele figura na lista dos meus livros a aparecer.
Todavia, em 1990, o poeta Joaquim Pessoa, talvez ignorando os, até então, dez anos de divulgação de tal título, resolve publicar um volume de poesia a que chamou, precisamente, Por Outras Palavras!
E, do mesmo modo, procede Ivone de Moura, tempos depois, atribuindo idêntico nome a um trabalho didáctico da sua autoria.
Devo confessar que nenhum dos dois livros mencionados, quanto a mim, merece assim intitular-se.
Creio que somente este meu tem o direito de nomear-se Por Outras Palavras.
E já não me refiro ao argumento (sério) da antiguidade; aos quinze anos em que o fui anunciando.
Mas porque, realmente, traduzir Poesia é interpretar, por outras palavras, de determinada língua, os pensamentos, os sentimentos, servidos pelo ritmo, a métrica, a rima, que foram transmitidos por uma inspiração em língua alheia.
Daí que, embora estranhando as coincidências (que não vou classificar de plágios), mantenha o meu título na presente obra.
[…]

(in Por Outras Palavras, Vega, 1997)

[...entretanto, em 2000, foi publicado um romance também intitulado Por Outras Palavras, da autoria da Paulo Castilho, Autor da particular preferência da Autora que acaba de publicar um livro com o mesmo título de um outro de Joaquim Pessoa]



13.7.08

[a propósito de uma carta datada de há 50 anos]

[Porto, Agosto de 2007]


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

D. António Ferreira Gomes


Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida – mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões
Assim quando eu entrava no Paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os limites de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem – o Bispo –
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância.

(não incluído em nenhum livro – publicado em vários locais; por exemplo aqui)

12.7.08

GIOVANNI BELLINI

Sacra Conversazione, 1505
óleo sobre madeira
500x235 cm
Veneza, San Zaccaria


MANUEL SIMÕES


SACRA CONVERSAZIONE
(Giovanni Bellini)

A luz anuncia a cor
de ouro e púrpura, a incrível
simetria das figuras.
Estão assim só imóveis
ao olhar de êxtase, breve,
da aparência; o movimento,
esse, desenha-se no secreto
diálogo, no canto intuível
e na leitura: palavra e música
de uma textura quem sabe se
de coesão traduzível
no aparente enigma da pintura.

(de Micromundos, edições Colibri, 2005)

11.7.08

VASKO POPA

Ao ladrão de rosas


Um faz de roseira
Alguns de filhas do vento
Outros de ladrões de rosas

Os ladrões de rosas aproximam-se da roseira
Um deles apodera-se de uma rosa
E no coração a esconde.

Aparecem as filhas do vento
Vêem a beleza violada
E põem-se a perseguir os ladrões

A cada um deles abrem o peito
Nuns encontram um coração
Noutros palavra de honra que não

Elas começam a abrir-lhes o peito
Até lhes descobrirem o coração
E nesse coração a rosa roubada


Às escondidas

Um esconde-se do outro
Sob a língua dele se escondeu
Busca o outro debaixo da terra

Ele escondeu-se na fronte do outro
O outro procura-o no céu

Escondeu-se no próprio esquecimento
O outro vai procurá-lo nas ervas

Ele procura-o, procura-o em vão
Procura-o sabe-se lá onde
À força de procurar ele próprio se perde


Ao jogo do agarra

Uns arrancam aos outros
O braço o pé seja o que for

Agarram aquilo entre os dentes
Fogem o mais depressa possível
E enterram-no em qualquer parte
Os outros dispersam-se pelos quatro cantos
Buscam cheiram buscam cheiram
Revolvem a terra toda

Se por sorte descobrem os braços
Ou antes um pé ou seja o que for
São eles então, que têm de morder

O jogo prossegue com animação

Enquanto houver braços
Enquanto houver pés
Enquanto houver seja o que for


Depois do jogo

Por fim as mãos agarram o ventre
Para que não rebente a rir
Mas o ventre já lá não está

Uma das mãos mal pode levantar-se
Para enxugar o suor da fronte
A fronte já lá não está

A outra mão agarra o coração
Para evitar que o coração salte do peito
O coração já lá não está

As duas mãos tornam a cair
Caem ociosas sobre o colo
Mas já não há colo

Sobre uma das palmas está chover
Sobre a outra palma rebentam ervas
Não me perguntem mais nada


(traduções de António Ramos Rosa, in Voz Consonante: traduções de poesia, edições Quasi, 2006 – O Barco Ébrio)


[ao editar este post, ocorreu-me, sem razão específica, que este poemas seriam particularmente do agrado da minha Amiga Ana Salomé]

10.7.08

EMILY DICKINSON

A Rotina ser Estímulo?
Lembrai-vos de como cessa –
Ser-se capaz de Acabar
É uma Específica Graça –
Do Retrospecto a Flecha
O poder de recompor
Partido com o Tormento
Devém, ah, mais formoso


c. 1871

(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas de Emily Dickinson, Edições 70, 1979)

9.7.08

VITORINO NEMÉSIO

NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.

14.9.59

(de O Verbo e a Morte, 1959)

8.7.08

JOSÉ JORGE LETRIA

O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.

(de Os Achados da Noite, Concellería de Cultura do Concello de Ourense, 1992)

7.7.08

[outros melros LIII]

LEONARDO DA VINCI

A ALFENA E O MELRO


A alfena, sendo picada nos seus finos ramos, cobertos de novos frutos, pelos pungentes bicos dos importunos melros, lamentava-se com piedosos queixumes ao melro, pedindo-lhe, já que lhe tirava os seus frutos dilectos, que ao menos não a privasse das folhas, que a defendiam dos escaldantes raios de sol, e que com as suas aceradas unhas não lhe arrancasse a casca despindo-a da sua tenra pele. Ao que o melro, com rudeza respondeu: - Ora cala-te, bravio galho! Não sabes que a natureza te fez dar estes frutos para meu alimento? Não vês que estás no mundo para me servires desta comida? Não sabes, bruto campónio, que no próximo inverno vais ser alimento do fogo? – Ouvidas pacientemente pela árvore estas palavras, não sem lágrimas, daí a pouco tempo foi o melro apanhado pela rede, e servindo ramos para fazer de gaiola para encarcerar o melro, calhou, entre outros ramos, à delicada alfena dar as grades para a gaiola; a árvore, vendo-se ser causa de tirar a liberdade ao melro, alegrando-se, dirigiu-lhe estas palavras: - Ó melro, eu aqui estou, ainda não consumada, como tu dizias, pelo fogo; vejo-te na prisão antes que me vejas queimada!

(de Bestiário, Fábulas e outros escritos, tradução de José Colaço Barreiros, 1995)

12.6.08

[para juntar a estes]

ARTHUR RIMBAUD

Vogais


A negro, É branco, I vermelho, U verde, Ó azul: vogais,
Direi um dia destes vossas ocultas origens:
A, negro colete peludo das moscas infernais
Voltejando em volta de fedores que dão vertigens,

Golfos de sombra. É, canduras de tendas e vapores evanescentes,
Lanças de glaciares orgulhosos, reis brancos, arrepios de umbelas,
I, púrpuras, sangue cuspido, riso de bocas belas
Em plena cólera ou bebedeiras penitentes.

U, ciclos, vibrações divinas dos mares malcheirosos
Paz dos pastos cheios de animais, paz das rugas
Por alquimia impressas na fronte dos grandes estudiosos;

Ó, clarim supremo, cheio de ruídos e estranhas fugas,
Silêncios atravessados pelos Anjos e pelos Mundos:
- Ó Ómega, raio violeta dos seus olhos fundos!

(“subvertido para português” por Manuel Alegre, em Rouxinol do Mundo, publicações Dom Quixote, 1998)

10.6.08

[outros melros LII]

MANUEL ALEGRE

Que porque


Estou diante do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao cimo da Calçada de Santana, em Lisboa. Aqui houve outrora o mosteiro do Convento de Santa Ana, destruído pelo terramoto. Não há nenhuma placa, nenhum sinal. Mas Camões foi enterrado aqui, da parte de fora do Convento. Olho o terreno ao lado do Instituto. Ia jurar que é o mesmo onde, embrulhado num lençol, foi sepultado aquele a quem, numa lápide ali mandada colocar mais tarde, D. Gonçalo Coutinho chamaria “o príncipe dos poetas do seu tempo”.
Há um melro a cantar. Ocorre-me um extraordinário livrinho de Philippe Soupault sobre Lisboa, intitulado Carte Postale. Começa assim : “Lisboa é a aurora”. Mais adiante diz que “...cada um dos pássaros de Lisboa sabe de cor um verso dos Lusíadas”.
Talvez haja uma toada de Camões no trinado deste melro. Uma toada. Foi o que para sempre ficou dentro de mim ao ouvir meu pai ler em voz alta versos de Camões. Digo ouvir. Eu ainda não sabia ler, não percebia o sentido, mas ficava fascinado com o ritmo, a toada, a cadência, chame-se-lhe o que se quiser. Digo ouvir porque foi assim que tive a revelação da poesia e da música que há dentro da língua. E porque foi ouvindo o som daquelas vogais e consoantes que aprendi de cor, antes de saber ler, algumas estrofes de Os Lusíadas e alguns sonetos de Camões, além de “Perdigão perdeu a pena”. Uma toada, um ritmo, uma outra forma de música. Que é, ninguém me convence do contrário, a que se ouve no marulhar do Atlântico. As ondas rolam em decassílabos, às vezes em versos de sete sílabas.
Pode acontecer que, sem se dar por isso, comece a dedilhar-se uma guitarra invisível tocando as cordas da sexta e da décima ou, mais raramente, da quarta, da oitava e décima sílabas. Ou então que, de repente, comece a falar-se assim. Ou até a dançar. Camões decassilaba-se em nós. Está no sangue, bate no pulso.
Depois há o “que porque” da Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
Que outro poeta seria capaz de juntar estas duas terríveis e rudes palavras e pô-las a cantar? Que porque. Música. Um acto fundador, momento primordial da poesia de língua portuguesa. Que porque.
Meu pai costumava dizer que a poesia de Camões se pode assobiar. Se calhar é o que o melro está ali a fazer.

(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)
[da raça III]

FERNANDO SYLVAN


janeiro 72



PORTUGAL

Portugal não é só o povo de oitocentos anos vividos
mas também o de oitocentos e oitocentos para viver.
É o que se busca finalmente em fronteiras espirituais mais largas
entre os povos do novo milénio.
O seu estandarte não é já só a Cruz de Cristo
nem o seu missal a biografia do Infante.
Portugal é agora o de novas rotas
para além das de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral
e o de novas esperanças para além do Quinto Império.
Portugal é agora o que despreza o desprezo de Mouzinho pelos pretos
e o dos homens que se erguem na defesa da liberdade em toda a Terra.

Portugal será maior menosr

e pátria das nações de língua portuguesa
que já não cabem n'Os Lusíadas.





lisboa dia da raça junho 72



CORRIGENDA

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que souber viver
E pelo amor que tiver para dar.


(de Tempo Teimoso, 1974)
[da raça II]

CASIMIRO DE BRITO

OS SIGNOS DA CAÇA
«Fraqueza da humana sorte:
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!»
CAMÕES


Em Portugal nascido católico me quiseram, ad
Vitam aeternam, com duas gotas de sal e algumas
Moedas. Português porém não sou nem pátria nem
Deuses além do corpo e da língua onde agora me
Concentro tenho. Antes de mim outros o disseram.

Embora português me descrevam papéis oficiais
Como se rugas severas e velhas cicatrizes de família
Me tivessem transformado em surdas informações
Estatísticas. Português & católico (em minha semi-
Obscuridade) não fui nem sou. Nem essas nem outras

Mutilações incrustadas no tempo que faz de mim
Um cadáver mas onde uma fenda subitamente se
Abre! Húmida fissura entre o meu corpo
E o vosso de cidades desmoronadas. Resposta porém
Não sei para nada. Os mitos da pátria

Renego. E deuses. E amigos e tábuas de lei
Se com pátrias e deuses me limitam ou com outras
Filomitias me limitam o corpo, incêndio reconstruído
À sombra dos ossos. Pátria (se pátria ouso
A meus sinais de som chamar) é este canto devastado,

Esta carnívora linguagem por acaso portuguesa
Em que me lavro e gasto e mato – são estes
Pobres e poucos movimentos derramados
Na pedra do sangue; a memória dos mortos, grandes
E pequenos; a febre e o chão macerado

Do meu país de míldio e alcatruzes; e mais a indústria
Do ódio e do ócio – mas também a filha em seu sono
Deitada; e águas distantes, cerimónias de Eros,
Onde me distendo e uma certa vertigem luminosa
Invento. Como se à morte a vida eu pudesse vender

Tropeço em palavras alucinadas, ar espesso através
Da noite mais canina. Neste pulsar de ruínas
Acumulam-se as cinzas do meu retrato: sangue transfigurado
E sem ogiva! Ávidos dedos, ávida vida que não sabe
De símbolos definitivos, obras de magia

Onde se inscreva o tempo, a morte administrada
Por máquinas incompreensíveis, surdas, subcutâneas
Como ter nascido aqui, praias de Portugal, e não
Onde canto a cal dos ventos, o vazio e o mais seco
Sal. Que dizer porém da luz cicatrizada

Em árvores de cimento? As origens da morte lusitana
Canto: as origens do corpo em seu exercício de salto
Para um sol mais alto. Esse é o lavrar tão débil
Que te mata! Com palavras entaladas na garganta
Canto a morte que me lavra, e nem morte se chama.

(de Labyrinthus, 1981)

[hoje, este poeta, que “Os mitos da pátria / Reneg[a]”, aceitou ser distinguido pelo Estado português como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. A poesia é inconsequente?]
[da raça I]

SÉRGIO GODINHO

DE CORAÇÃO E RAÇA


"Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça"
(De um conhecido hino)

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário prá despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento prá morte
vou pró leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte.

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

(do álbum À queima-roupa, 1974)