31.7.08

VICTOR OLIVEIRA MATEUS

19


Nunca cuidei da minha vida
mas dos meus sonhos sim, que são leais e verdadeiros
e trazem a ousadia dos grandes rasgos, quando, no desnorte que
me guia, põem a tenaz luminosidade, que suaviza e alimenta


Nunca zelei, por mais necessário que fosse, por um qualquer desacerto. E da areia para o sol insisto a Luz, ao contrário do habitual. Insisto e tu ficas, ó memória inconsolada; farol a refulgir no negrume ácido da terra – irredutível solidão de todos os Viandantes


Nunca cuidei da minha vida
mas dos meus sonhos sim, que são belos e insubmissos, ante a desordem que hoje reina

(de Pelo Deserto as Minhas Mãos, Coisas de Ler, 2004)

28.7.08

CEES NOOTEBOOM

ENGODO


A poesia não pode tratar de mim,
nem eu da poesia.
Estou só, o poema está só,
o resto é dos vermes.
Estava à beira das ruas onde moram as palavras,
livros, cartas, notícias,
e esperava.
Sempre esperei.

As palavras, em formas claras ou escuras,
transformaram-se em alguém escuro ou mais claro.
Poemas passam por mim
e reconheciam-se como coisa.
Via-o o via-me.

Esta escravidão não tem fim.
Esquadrões de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o engodo da sua forma
feita, perfeita, fechada,
concentrada e

intangível.

(in Um Mundo Claro, Um dia escuro – Oito Poetas Holandeses, tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves, Limiar, 1988 – Os olhos e a memória / original de Aas / Engodo, 1982)

27.7.08

[Tomar, Convento de Cristo - 26/07/2008]


FIRMINO MENDES

TOMAR


Com o livro da pedra oculta, visito as linhas do templo.
Saúdo a espiral da ascensão e paro o pensamento, junto
dos que esperam a redenção dos tempos. A tranquilidade
atravessa a aragem do Convento e, obscura, entra no coração.

Alguém diz que esta fonte tem água de mil anos ou que a voz
permanece para além da janela e do jardim. o ar aquece.
Ao lado da lanterna apagada, passa a utopia, o fogo de Hermes.

(de A Terra e os Dias, Pedra Formosa, 2000)

18.7.08

[da série eu gosto é de letrinhas pequenas entre parêntesis ou dá cá Leiria que eu te dou Moura]



NUNO MOURA

1


é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delirias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por Paranhos Bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(de Nova Asmática Portuguesa, Mariposa Azual, 1998 – em itálico no original)

16.7.08

PABLO NERUDA

XVI


Eis a árvore aqui na pura pedra,
na evidencia, na dura formosura
por cem milhões de anos construída.

Ágata e cornalina e luminária
substituíram seivas e madeira
até que o tronco do gigante
recusou a molhada podridão
e moldou uma estatua paralela:
a folhagem vivente
se desfez
e quando o vertical foi derrubado,
queimado o bosque, a ígnea poeirada,
a celestial cinza o envolveu
até que tempo e lava lhe outorgaram
um galardão de pedra transparente.

(tradução de António Manuel Couto Viana, in Por Outras Palavras, Vega, 1997 - original de Las piedras del cielo, 1970)
JOAQUIM PESSOA

Há uma loucura pobre,
essa que se esmaga apenas no
desejo, a mais impenetrável, a
mais harmoniosa. Essa é
a loucura mais próxima
do segredo das árvores, dos
enigmas, do corpo. um
lúcido delírio, dor
inicial.

(de Por Outras Palavras, Litexa, 1990)
PAULO CASTILHO

No fim ficam os livros. De mim nunca ninguém saberá nada porque a escrita é um disfarce. Um labirinto de pistas falsas ao lado de verdadeiras. Eu próprio acabo por não saber o que realmente se passou e o que inventei. Foi uma das primeiras coisas que nele notei: a propensão para dizer frases destas. Como um sino anunciam coisas. Como o nome.

(de Por Outras Palavras, Contexto editora, 2000)

15.7.08




[a propósito
disto e disto – e basta ir à base de dados da Biblioteca Nacional para perceber que há montes de livros com nomes iguais a outros livros]

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


O meu livro As (E)vocações Literárias, dado à estampa em 1980, incluía, pela primeira vez, nas obras a editar, um volume de traduções de poesia, sob o título Por Outras Palavras.
Os livros que se lhe seguiram (doze de poesia e três de estudos e memórias) mencionavam, também, esse conjunto de traduções, na bibliografia dos inéditos, conservando o mesmo nome, que me pareceu original e adequado (opinião partilhada por David Mourão-Ferreira).
No texto que me é dedicado, na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo), ele figura na lista dos meus livros a aparecer.
Todavia, em 1990, o poeta Joaquim Pessoa, talvez ignorando os, até então, dez anos de divulgação de tal título, resolve publicar um volume de poesia a que chamou, precisamente, Por Outras Palavras!
E, do mesmo modo, procede Ivone de Moura, tempos depois, atribuindo idêntico nome a um trabalho didáctico da sua autoria.
Devo confessar que nenhum dos dois livros mencionados, quanto a mim, merece assim intitular-se.
Creio que somente este meu tem o direito de nomear-se Por Outras Palavras.
E já não me refiro ao argumento (sério) da antiguidade; aos quinze anos em que o fui anunciando.
Mas porque, realmente, traduzir Poesia é interpretar, por outras palavras, de determinada língua, os pensamentos, os sentimentos, servidos pelo ritmo, a métrica, a rima, que foram transmitidos por uma inspiração em língua alheia.
Daí que, embora estranhando as coincidências (que não vou classificar de plágios), mantenha o meu título na presente obra.
[…]

(in Por Outras Palavras, Vega, 1997)

[...entretanto, em 2000, foi publicado um romance também intitulado Por Outras Palavras, da autoria da Paulo Castilho, Autor da particular preferência da Autora que acaba de publicar um livro com o mesmo título de um outro de Joaquim Pessoa]



13.7.08

[a propósito de uma carta datada de há 50 anos]

[Porto, Agosto de 2007]


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

D. António Ferreira Gomes


Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida – mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões
Assim quando eu entrava no Paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os limites de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem – o Bispo –
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância.

(não incluído em nenhum livro – publicado em vários locais; por exemplo aqui)

12.7.08

GIOVANNI BELLINI

Sacra Conversazione, 1505
óleo sobre madeira
500x235 cm
Veneza, San Zaccaria


MANUEL SIMÕES


SACRA CONVERSAZIONE
(Giovanni Bellini)

A luz anuncia a cor
de ouro e púrpura, a incrível
simetria das figuras.
Estão assim só imóveis
ao olhar de êxtase, breve,
da aparência; o movimento,
esse, desenha-se no secreto
diálogo, no canto intuível
e na leitura: palavra e música
de uma textura quem sabe se
de coesão traduzível
no aparente enigma da pintura.

(de Micromundos, edições Colibri, 2005)

11.7.08

VASKO POPA

Ao ladrão de rosas


Um faz de roseira
Alguns de filhas do vento
Outros de ladrões de rosas

Os ladrões de rosas aproximam-se da roseira
Um deles apodera-se de uma rosa
E no coração a esconde.

Aparecem as filhas do vento
Vêem a beleza violada
E põem-se a perseguir os ladrões

A cada um deles abrem o peito
Nuns encontram um coração
Noutros palavra de honra que não

Elas começam a abrir-lhes o peito
Até lhes descobrirem o coração
E nesse coração a rosa roubada


Às escondidas

Um esconde-se do outro
Sob a língua dele se escondeu
Busca o outro debaixo da terra

Ele escondeu-se na fronte do outro
O outro procura-o no céu

Escondeu-se no próprio esquecimento
O outro vai procurá-lo nas ervas

Ele procura-o, procura-o em vão
Procura-o sabe-se lá onde
À força de procurar ele próprio se perde


Ao jogo do agarra

Uns arrancam aos outros
O braço o pé seja o que for

Agarram aquilo entre os dentes
Fogem o mais depressa possível
E enterram-no em qualquer parte
Os outros dispersam-se pelos quatro cantos
Buscam cheiram buscam cheiram
Revolvem a terra toda

Se por sorte descobrem os braços
Ou antes um pé ou seja o que for
São eles então, que têm de morder

O jogo prossegue com animação

Enquanto houver braços
Enquanto houver pés
Enquanto houver seja o que for


Depois do jogo

Por fim as mãos agarram o ventre
Para que não rebente a rir
Mas o ventre já lá não está

Uma das mãos mal pode levantar-se
Para enxugar o suor da fronte
A fronte já lá não está

A outra mão agarra o coração
Para evitar que o coração salte do peito
O coração já lá não está

As duas mãos tornam a cair
Caem ociosas sobre o colo
Mas já não há colo

Sobre uma das palmas está chover
Sobre a outra palma rebentam ervas
Não me perguntem mais nada


(traduções de António Ramos Rosa, in Voz Consonante: traduções de poesia, edições Quasi, 2006 – O Barco Ébrio)


[ao editar este post, ocorreu-me, sem razão específica, que este poemas seriam particularmente do agrado da minha Amiga Ana Salomé]

10.7.08

EMILY DICKINSON

A Rotina ser Estímulo?
Lembrai-vos de como cessa –
Ser-se capaz de Acabar
É uma Específica Graça –
Do Retrospecto a Flecha
O poder de recompor
Partido com o Tormento
Devém, ah, mais formoso


c. 1871

(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas de Emily Dickinson, Edições 70, 1979)

9.7.08

VITORINO NEMÉSIO

NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.

14.9.59

(de O Verbo e a Morte, 1959)

8.7.08

JOSÉ JORGE LETRIA

O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.

(de Os Achados da Noite, Concellería de Cultura do Concello de Ourense, 1992)