29.10.08

CARL SANDBURG

Quem conhece o povo, os seareiros emigrantes e os apanhadores de fruta, as vítimas de empréstimos fraudulentos, os especuladores das casas a prestações,
Os malabaristas da areia e da madeira que amaciam as mãos passando-as pelo molde onde vai ser fundida a estrutura do motor do nosso carro,
Os pulidores de metais, os soldadores, e os pintores que aplicam os acabamentos ao automóvel,
Os rebitadores e os roscadores de parafusos, os cavaleiros de vigário na grande cidade, os vaqueiros das Grandes Planícies, os ex-condenados, os porteiros de hotel, os carregadores dos caminhos-de-ferro, os guardas das retretes –
O recrutador do sindicato com a lista daqueles que estão prontos a aderir e a dos hesitantes, os informadores pagos secretamente que denunciam qualquer movimento organizativo,
Os que andam de casa em casa procurando adesões, os que tocam às portas, os que dizem bom-dia-já-ouviu-dizer-que, os dos piquetes de greve, os fura-greves, os que são pagos para causar distúrbios, o pessoal da ambulância, os que vão atrás da ambulância, os que querem tirar fotografias, os que lêem os contadores, o pessoal dos barcos de pesca à ostra, os faroleiros –
quem conhece o povo?
Quem conhece tudo isto desde o fosso aos pináculos? É o povo, sim.

(tradução de Hélio Osvaldo Alves, in O escritor – Revista da Associação Portuguesa de Escritores, Nº 13/14 – Dezembro de 1999)

28.10.08

R. LINO

6.


Alguns saem para os exílios, mandam outros
que se lancem noutras águas os detritos...
O planeta sobrepõe-se ao planeta:
alguém se esqueceu de apascentar os países
dentro da pertença da terra e os seus nomes
não merecem os sacrifícios dos que mandados
por força sua obedeceram. Acreditamos
nas oferendas do espaço
como se o tempo explodisse sem as tomar
e a própria terra nos herdasse
com os sonhos sem os males.
Nunca poderei esquecer
como desliza a os lados
o chão daquela varanda
aberta ao calor do campo
na hora em que as ovelhas descansavam...

(de Paisagens de Além Tejo, edições Rolim, 1986)

27.10.08

JORGE ROQUE

Lado de fora

Vida ou lâmina este vinco por onde dobro dias agudos, rumino a frase, enquanto percorro com a língua a linha da cola e alongo entre os dedos a mortalha enrolada, e fumo, fumo, o mesmo já sempre fumado, cansado, repetido (lembro-me de ouvir dizer que os drogados se pareciam todos uns com os outros, fico a pensar nisso). Pela janela o mesmo olhar de nunca ter visto, a mesma procura de nunca o ter sido, a mesma esperança de nada esperar (aquela cor desbotada de criança cansada que já nas fotografias da infância reconhece). Entre olhar e olhar, os dias que morrem , a vida que passa, lado a lado com o charro que arde e o sorriso que fazes para não te verem. Mas talvez te vejam do lado de fora em que não tês vês. E talvez sejas igual aos que de fora viste, como tu julgando-se escondidos.

(de Broto Sofro, Averno, 2008)

26.10.08

PAUL GAUGUIN

(excerto de) NOA NOA

[...]
Nessa noite fumei um cigarro na areia, à beira-mar. O sol chegava rapidamente ao horizonte e começava a esconder-se atrás da ilha de Moorea, à minha direita. Opostas à luz, as montanhas desenhavam-se negras e poderosas no céu incendiado. Como velhos castelos de ameias. Enquanto todas estas terras sucumbem no dilúvio, de tanta feudalidade desaparecida para sempre e respeitada pelas ondas (murmúrio de uma multidão imensa) resta a cimeira protectora mais próxima dos céus, que olha majestosamente para as águas fundas, a ironia ou a altivez condoída. Esta multidão talvez submersa por ter tocado na árvore da ciência, opondo-se à cabeça. – Esfinge.
A noite chegou depressa. Desta vez ainda Moorea dormia. Mais tarde adormeci na minha cama. Silêncio de uma noite tahitiana. Só se ouviam as batidas do meu coração. Da cama viam-se os caniços alinhados e espaçados da cabana, com filtragens de lua, como um instrumento de música. Entre os nossos antepassados, chama-se pipo*, entre eles vivo – mas silencioso – (de noite fala a recordar). Adormeci com esta música. Por cima de mim, o grande telhado alto de folhas de pandanus com os lagartos que nele moram. No sono eu podia imaginar o espaço acima da minha cabeça, a abobada celeste, nenhuma prisão que nos fizesse sufocar. A minha cabana era o espaço, a liberdade.
Eu estava completamente só e olhávamos um para o outro.
Dois dias depois, esgotei as minhas provisões. Com dinheiro, eu tinha imaginado que encontrava o necessário para me alimentar. Ora a comida existe é nas árvores, na montanha, no mar, mas tem de saber-se trepar a uma árvore alta, ir à montanha e voltar carregado, apanhar peixe, mergulhar e no fundo das águas arrancar conchas solidamente coladas à rocha. Eu, homem civilizado, por ali andava e naquele instante muito abaixo do selvagem; e como o estômago vazio me obrigava a pensar tristemente na situação, um indígena fez-me sinais e gritou na sua língua: «Vem comer». Compreendi mas senti vergonha. Abanando a cabeça, recusei. Minutos depois uma criança veio em silêncio abandonar-me à porta alguns alimentos embrulhados muito asseadamente em folhas verdes recém-colhidas, e retirou-se. Como eu sentia fome foi em silêncio, também, que aceitei. Um pouco mais tarde o homem passou. Sem parar, só disse com ar amável uma palavra: «Paiá»? Estás satisfeito, percebi vagamente.
No chão, debaixo de tufos de largas folhas de abóbora, descobri uma cabeça pequena e escura, de olhar tranquilo. Estava a ser examinado por uma criança que fugiu amedrontada, quando os meus olhos encontraram os seus. Estas criaturas, estes dentes de canibal faziam subir-me à boca a palavra «selvagens». Para eles eu também era «o selvagem». E talvez com razão.
[...]
*Nota do Tradutor: Escrevendo «pipo», Gauguin deve talvez querer referir-se a pipeau, ou seja, uma gaita pastoril que pode realmente sugerir os caniços paralelos da sua cabana.
(in Noa Noa, precedido de Homenagem a Gauguin, de Victor Segalen, tradução de Aníbal Fernandes, Assírio & Alvim, 1985 - Arte e produção)
VICTOR SEGALEN

(excerto de) HOMENAGEM A GAUGUIN

[...]
Outra desgraça nos reserva a intimidade do Sr. Gauguin, empregado bancário – e desgraça ainda mais estéril. Porque se Huysmans andava a procurar-se com volúpia desde novo e através do lodaçal da sua própria alma, se Rimbaud escrevia à profeta antes de atingir a verdadeira mocidade – Paul Gauguin, que a vida empurrava, não queria saber de pinturas. Consinta o leitor em espantar-se: nesta crónica de um grande pintor que logo ao princípio tem mais de vinte e oito anos, não estava em causa a pintura.
E com um paradoxo duplo, oposto aos exemplos anteriores, pode mesmo acreditar-se que as funções do dia-a-dia é que levaram Gauguin a contactar com as tintas. Huysmans explica isto chamando-lhe manifestação do Maligno que costuma meter-se na alma por todos os transpirantes poros da nossa pele... Pode supor-se que o demónio das Visões penetrou na presa ao Domingo, esse vazio que uma semana em cheio provoca no bom empregado. Um belo domingo, para matar o tempo, Gauguin pôs-se a pintar. Vai objectar-se que uma fatalidade idêntica poderia tê-lo feito pescar à linha; ou ainda que o gosto de pintar fica a dever-se como em Taine, esse bom examinador, a uma influência do meio (mas o próprio Gauguin regista que Taine falou de tudo, excepto de pintura) e pode dizer-se, com Jean de Rotonchamp [Um dos primeiros, se não o primeiro, biógrafo de Gauguin. (N. do T.)], que «em casa de Gustave Arosa, seu tutor, o futuro artista do Cristo amarelo talvez tenha adquirido um amor latente e não pressentido pela obra pintada, pois esse Gustave Arosa... dotado de fino gosto, reunira em sua casa um certo número de telas da escola moderna...». Mais valerá reconhecermos a geradora virtude do Domingo num bom empregado, e a sua maleficiosa virtude, pois nesse mesmo dia, descanso do Criador, é que o Maligno actua e dá febre aos amaldiçoados entre os homens, seus filhos de orgulho e revolta: os artistas, os Foras-da-lei. Em tudo isto quero ver uma predestinação autêntica!
[...]

(in Noa Noa, de Paul Gauguin, precedido de Homenagem a Gauguin, tradução de Aníbal Fernandes, Assírio & Alvim, 1985 - Arte e produção)

25.10.08

PAUL GAUGUIN


Autoportait au Christ jaune, 1889-1890
óleo sobre tela
Paris, Musée d'Orsay

24.10.08

PAUL GAUGUIN


Le Christ jaune, 1889
óleo sobre tela
92x73cm
Buffalo, Albright-Knox Museum



AMADEU BAPTISTA

PAUL GAUGUIN: O CRISTO AMARELO (1889)


E sabíamos todos que a hora
era chegada e tudo em volta
escurecia,

e que, em Pont-Aven,
era chegado o tempo da colheita
e os campos estavam todos amarelos.

E aconteceu que as mulheres da Bretanha
ajoelharam,
e vinha eu no caminho
e vi a luz,

e os meus olhos cegaram para que visse
a roda do martírio
e o escárnio.

E aconteceu que as cores se saturaram,
e a paleta recebeu,
vindas do céu,
as cores

– e eu enchi a tela de perguntas,
e, pelo esplendor,
atirei-me ao chão
e em mim senti um som sombrio.

E vi, então, que as mulheres
choravam
e que os homens
não se compadeciam
de quem sofria,

e tudo tinha um brilho
esplêndido,
um brilho sobrenatural,
à minha volta.

E aconteceu que se ouviu cantar
o galo,
e que toda a terra se abriu para aquele brilho,

e os camponeses vieram,
e choraram.

E vi que preparavam varas novas,
e que as varas eram só espinhos,
e que o homem caía,

caía mesmo em frente aos nossos olhos,
que nada mais fazíamos do que o ver caído.

E eu tomei a tela e preparei-a,

e sangrava o homem
abundantemente,
e eu perguntei ‘quem somos?’
e nada se ouviu.

E chegou o crepúsculo
e, em volta, era só amarelo o que se via,

e o rosto do homem inundava-se de lágrimas e de sangue,
e arquejava-Lhe o dorso,
e puseram-Lhe aos ombros o madeiro.

E as mulheres da Bretanha
irromperam em choro,
e a multidão
adensou-se no lugar,
e suplicou o pão,
e os peixes,

e seguiram-No.

E vi as minhas cores queimadas pelo fogo,

e que os meus pincéis vibravam,
e misturei ao óleo terebentina,
enquanto o homem subia pelo monte
onde reinava o silêncio
e a abominação.

E perguntei:
‘quem somos, de onde vimos?’,

e em volta levantou-se um grande incêndio,
e as labaredas tomaram o lugar,

e era tudo amarelo nesse sítio.

E houve uma mulher que trouxe
água,
e com a água trouxe um pano branco,
e limpou-Lhe o rosto,
e o Seu rosto estava iluminado.

E eram amarelos os Seus cabelos,
e amarela era a Sua barba,
e a cruz, nos ombros,
era amarela,
como um topázio.

E, então, caiu o homem
pela segunda vez,
e as mulheres da Bretanha
arrancaram os cabelos,

e olharam em redor
para que chegasse algum socorro,
de onde quer que fosse.

E os campos em volta permaneciam amarelos,
e eu prendi aos dedos o pincel
porque toda a terra tremia

e o coração
saltava-me do peito,
e a cabeça doía-me
e pesava-me.

E o homem seguiu, arrebatado
pela dor,
e um outro homem veio em Seu auxílio,
e eram grandes as feridas,
e deitavam muito sangue.

E as mulheres da Bretanha
seguiram com Ele,
e vacilavam-Lhe os passos,
e o Seu corpo
era todo amarelo,

a boca,
as mãos,
os pés.

E assim se acercou do cume da montanha,
com as mulheres da Bretanha sempre atrás,

e havia soldados
e outros condenados,
que o viram cair pela terceira vez.

E Ele levantou-se,
e a multidão exultou nesse momento,
e eu, com o pincel, fiz o esboço
daquele quadro de grande sofrimento.

E uma das mulheres chamou-Lhe ‘filho’,
e outra ‘amado’,

e a elas se juntou outra mulher
que Lhe chamou ‘irmão’,

e, nos seus vestidos,
caíram lágrimas de sangue e de estupor.

Do meu pincel só o amarelo
permitia
estender-se na tela,
e tudo era amarelo,

os campos em volta,
o rosto de quem estava,
e a cruz.

E cravaram-Lhe as mãos e os pés
àquela cruz,

e tudo em volta foi um só silêncio,
e parecia que a terra dimanava
um odor amarelo,
que só as mulheres da Bretanha compreendiam.

E um soldado
veio com a esponja
embebida em vinagre,
e prendeu-a a um ramo,
e deu-Lhe de beber, porque a sede
o martirizava.

E eu executava a minha obra,

e tudo era amarelo à minha volta,
as árvores,
as colinas,
as casas que se viam do ponto onde estava.

E o tempo passou,
e olhei o homem,

e olhar a Sua face pacificou-me,

porque o homem sorria
por ver a multidão
a partilhar o pão
e os peixes
que Ele lhes entregava.

E a terra tremeu,

e vi tudo amarelo à minha volta,
e as mulheres da Bretanha olhavam-No
a sorrir,
enquanto eu perguntava:
‘quem somos, de onde vimos, para onde vamos’?

E na linha do horizonte vi os anjos,

e as asas dos anjos
cintilavam,

e cintilava, também, esta pintura
onde, em silêncio, pus
as mulheres da Bretanha,

e o Cristo amarelo
com o meu rosto.

(de Doze Cantos do Mundo, inédito, vencedor do Prémio Literário Oliva Guerra 2008)

Outros inéditos deste livro em da poética e Estrada do Alicerce.

Ponto da situação IV

Acaba de ser anunciado que Amadeu Baptista, com o original Doze Cantos do Mundo, é o vencedor deste anodo Prémio Literário Oliva Guerra, promovido pela Câmara Municipal de Sintra. É o 14º prémio atribuído ao Autor e o 8º nos últimos dois anos.

O Amadeu está de parabéns, não tanto pelos prémios, que lhe vão permitindo viver, mas sobretudo pela ousadia que coloca nos seus poemas e pela força que sabe transmitir aos que o lêem. De parabéns está também o Júri, que soube reconhecer essa força, no meio do anonimato dos concorrentes, contribuindo para a divulgação de uma extensa obra já com 26 anos, que merece ser conhecida.

Por sinal, o Jornal de Letras que saiu anteontem traz uma página inteira com uma bela e interessante crónica de Fernando Guimarães, dedicada aos três mais recentes livros de Amadeu Baptista.

Ponto da situação III

Já está anunciado publicamente o novo livro da Ana Salomé, Odes. Pessoas bonitas fazem coisas bonitas.

A edição é do Canto Escuro do Vitor Vicente, que anuncia também Grafipoesis, de Rui Carlos Souto, autor já antes publicado sob esta chancela.

Ponto da situação II


Ontem, na Casa Fernando pessoa, foi apresentado o número 2 da revista Criatura.
Falaram Fernando Pinto do Amaral e Tiago de Oliveira Cavaco, cada um no seu registo próprio.
Gostei de os ouvir e gosto da revista.

Ponto da situação I

Recentemente fiquei a conhecer alguns bons blogues, que valem mesmo a pena serem vistos:
- A única real tradição viva;
- Café Central;
- Casa dos Poetas;
- Do trapézio sem rede;
- Hospedaria Camões;
- Last Breath;
- Memento;
- Poesia dos Dias Úteis (dedicado ao poeta Vasco Costa Marques).

(com particular referência ao André Simões e ao João Gaspar que tive o gosto de conhecer pessoalmente.)

22.10.08

FERNANDO CABRITA

FALEMOS


Falemos então de todas essas coisas a que nunca soubemos dar um nome.
Coisas como café e cerejas,
coisas como memórias do verão de ontem
e de tudo o que repousa já no ónix frio dos dias.
falemos não porque as vejamos,
porque as sentimos à vaga luz dos crepúsculos que morrem
e são para nós as florestas que passam velozes nos vidros do carro
e os silêncios dos faunos que atravessam os bosques e as ilusões
e as pequenas ondas que vêm desmaiar à praia
e as vozes antigas que ainda nos falam na alma coisas despercebidas
e as luas que havia no final do verão.
Falemos, para que de novo sejam
e de novo vivam.

Falemos, para que estejamos vivos.

(de Doze Poemas de Saudade, 4 Águas editora, 2008)

21.10.08


NICOLAU SAIÃO

HOMENAGEM A JACK, O ESTRIPADOR


O teu sorriso fugaz ocupa o espaço
na aresta furtiva, no lance bem ritmado
e liga infinitamente
alma e sombra de
criatura.

Um deus em que tudo
é distante. Vivemos, bem verdade é
sempre a despedir-nos: basta apenas
exagerar um bocadinho
- e aí está ela, a rica melancolia

Com fato de cheviote? Talvez. Onde se lê futuro
deve ler-se presente: vísceras, uma árvore, o olhar
triunfante do anjo. O nosso ser é para nós
um vivo que a nostalgia transformou
gravemente em seus braços
calmos e perturbados.

Há centenas de bolsos. E navalhinhas mil. Cruzando
o ar uma loira, uma ruiva, uma morena
confundem as linhas e os meredianos.
Serenos são os séculos, como insectos
no limiar da oculta porta: e por dentro
cabeças abanando e um que outro odor
de um doce ovário atónito.

O viandante traz dos tempos velhas coisas
até que o som de um violino faz estalar
anos e falangetas. Saibamos
deixar-nos descansar, que o Mundo
morre para ser objecto
ou silêncio.

Entre as crustas da carne subsistem
antebraços, continentes, colhões – os desígnios
que nem tu – surpresa! – descascar poderias
em qualquer viela esconsa

Pobre animal liberto
e indiferente

eternamente exposto a fulgores e ilusões.

(de Flauta de Pan, edições Colibri, 1998)

20.10.08

MARIA ALBERTA MENÉRES

Aqui posso medir tudo o que digo
pelo eco em montanhas indomáveis:
toco a crosta da terra e de repente
logo um som me anuncia em claridade.
Ouvir fica para lá de qualquer voz
junto à fonte mais triste onde se guarde
uma pequena lágrima que esqueça
o que de mim se lembra em tenra idade.

(de O Jogo dos Silêncios, Huguin editores, 1996

19.10.08

ANTÓNIO MEGA FERREIRA

(excerto de) O Maior Espectáculo do Mundo

(…)
A memória não é uma caixa de imagens, isso ao menos sabe Maria Ausenda. A memória, diz para si própria, é apenas uma moldura que delimita o espaço de um quadro, mas que lhe ignora o tempo, que mistura as cores e as formas numa espécie de cadinho adormecido sobre o aparador da infância. E depois, um dia, a necessidade ou a imaginação despertam-na, e ela transforma-se em fábrica de sonhos e de ilusões, um pouco mais de emoção aqui, um diálogo retocado acolá, bruscamente as imagens todas rodopiam sobre si próprias e, quando de novo se aquietam, quando se tornam suficientemente nítidas para poderem ser evocadas, quem pode dizer que foi esse o lugar que elas ocupavam quando tudo se passou, quem se atreve a garantir que tudo se passou assim mesmo, quem ousaria jurar que alguma coisa se passou?
(…)

(in As Caixas Chinesas, 1988)