MARIA ÂNGELA ALVIM
ESPERA
Espera. Palavra espera
não escrita, não contada
às coisas abstraídas
da tortura de entender,
e espera sendo, contudo,
espalhada, diluída
como é a primavera
na superfície de tudo.
Espera não sei de quê,
- já que não tem artifício
não pode ser traduzida, -
espera não sei de onde vem
ou se vai a alguma parte.
(Se a folha tenra é memória,
guardando a chuva caída,
de um gosto talvez das raízes,
sabe se é fim ou retorno?)
Espera não sei de onde vem,
mas nessa espera floresço,
sou planta e não me disperso
somando à só substância
um tempo de justo acréscimo
que é de essência e epiderme.
- E, presa desta forma libertária
esqueço o que fui em vida
de tantas mortes sofrida...
(de Superfície / toda poesia, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)
2.12.08
1.12.08
ALEJANDRA PIZARNIK
ANÉIS DE CINZA
São as minhas vozes cantando
para que não cantem eles,
os amordaçados tristemente na aurora
os vestidos de pássaro desolado na chuva.
Há, na espera,
um rumor de lilás rompendo-se.
E há, quando vem o dia,
uma partição do sol em pequenos sóis negros.
E quando é de noite, sempre
uma tribo de palavras mutiladas
procura asilo na minha garganta
para que não cantem eles,
os funestos, os donos do silêncio
(de Antologia Poética, tradução de Alberto Augusto Miranda, O Correio dos Navios, 2002 – original de Los Trabajos y las Noches, 1965)
ANÉIS DE CINZA
A Cristina Campo
São as minhas vozes cantando
para que não cantem eles,
os amordaçados tristemente na aurora
os vestidos de pássaro desolado na chuva.
Há, na espera,
um rumor de lilás rompendo-se.
E há, quando vem o dia,
uma partição do sol em pequenos sóis negros.
E quando é de noite, sempre
uma tribo de palavras mutiladas
procura asilo na minha garganta
para que não cantem eles,
os funestos, os donos do silêncio
(de Antologia Poética, tradução de Alberto Augusto Miranda, O Correio dos Navios, 2002 – original de Los Trabajos y las Noches, 1965)
Efemérides deste ano II
Fez, no dia 25 de Setembro, 36 anos que morreu Alejandra Pizarnik, aos 36 anos.
29.11.08
WILLIAM SAROYAN
(excerto de O Génio, in O Índio do Packard: antologia, selecção e tradução de Alexandre Pinheiro Torres, Guimarães editores, 1961)
(…) O mundo está cheio de pessoas que sabem histórias que darão filmes formidáveis, histórias que nunca foram escritas. O que parece é que os indivíduos que fazem os filmes nunca dão de cara com esta gente, ou, se dão, não estão para lhe dar ouvidos, por isso, é que a maioria dos filmes é uma autêntica porcaria, mesmo que tenham por estrelas Clark Gable, John Barrymore, Norma Shearer, ou outras do género. Os indivíduos que fazem filmes não se preocupam em fazê-los bons.
Só no bar do Izzy surgem, todas as noites, oitenta e sete argumentos para filmes magníficos. Todavia, jamais qualquer deles foi aproveitado para o cinema.
(…)(excerto de O Génio, in O Índio do Packard: antologia, selecção e tradução de Alexandre Pinheiro Torres, Guimarães editores, 1961)
Efemérides deste ano I
Descobri há pouco tempo um livrinho com alguns contos de um Autor de quem nunca tinha ouvido falar: William Saroyan.
Após pesquisa, fiquei a saber que passaram este ano 100 anos sobre o seu nascimento.
Vale a pena ficar a conhecer.
27.11.08
[outros melros LIV]
RUI CAEIRO
ROLAS, MELROS
Descem do céu, de parte nenhuma, para debicarem
ora um ora outro, os restos de comida
no prato do gato
(de O Carnaval dos Animais, livraria Letra Livre, 2008 – honrosa oferta do Changuito, aquando da minha primeira visita à Poesia Incompleta)
RUI CAEIRO
ROLAS, MELROS
Descem do céu, de parte nenhuma, para debicarem
ora um ora outro, os restos de comida
no prato do gato
(de O Carnaval dos Animais, livraria Letra Livre, 2008 – honrosa oferta do Changuito, aquando da minha primeira visita à Poesia Incompleta)
marcadores:
melros,
Portuguesa,
Rui Caeiro
RUI CAEIRO
Na minha terra tomei gosto pelas palavras. As que ouvia, as que lia, as que dizia, as que não podia dizer. Tenho que reconhecer que algumas davam mesmo um prazer muito especial. Como um rebuçado que lentamente se dilui na boca, em contacto com a língua.
(de Pranto por Vila Viçosa, edição do Autor, 2007 – adquirido na livraria Poesia Incompleta, o local mais indicado para encontrar obras deste Autor)
Na minha terra travei conhecimento com as palavras. Primeiro, aquelas que os meus pais me ensinavam. Depois as outras, que estavam em volta. Depois as que eu trazia da rua, sempre mais apetecíveis e que brilhavam como uma moeda nova. Destas últimas, as mais interessantes eram sem dúvida as que tinham o cunho de proibidas.
A meu ver, todas elas, sem excepção, tinham direito à vida. Todas, mesmo as proibidas – principalmente as proibidas.
Todas eram, por igual, fruto da situação que as vira nascer. Todas eram imprescindíveis.A meu ver, todas elas, sem excepção, tinham direito à vida. Todas, mesmo as proibidas – principalmente as proibidas.
****
Na minha terra tomei gosto pelas palavras. As que ouvia, as que lia, as que dizia, as que não podia dizer. Tenho que reconhecer que algumas davam mesmo um prazer muito especial. Como um rebuçado que lentamente se dilui na boca, em contacto com a língua.
(de Pranto por Vila Viçosa, edição do Autor, 2007 – adquirido na livraria Poesia Incompleta, o local mais indicado para encontrar obras deste Autor)
Como não podia deixar de ser, lá fui à Poesia Incompleta, a nova livraria do Changuito.
"Livros novos e esgotados, portugueses e estrangeiros, edições deluxe ou mais baratinhas" e muita, muita diversidade. Além disso, um belo sofá onde nos podemos sentar e conversar com o proprietário.
Trouxe dois Caeiros e dois Gatos e o número zero da revista Índice.
Enfim, já vi que vai haver paragem obrigatória, de tempos a tempos, no n.º 11 da Rua Cecílio de Sousa.
Dos muitos que já se pronunciaram, destaco o Zé Mário Silva, que também incluiu umas fotos no seu post.
26.11.08
Entretanto...
A Rita, que aposto que atravessa sempre nas passadeiras mais por razões estéticas do que de segurança, criou a Rua da Abadia.
Muito interessante e muito bem escrito.
Muito interessante e muito bem escrito.
Entretanto...
O André Simões, mostra-nos as suas traduções de poetas árabes contemporâneos, no Pausa sobre as ruínas - الوقوف على الأطل
24.11.08
ITALO CALVINO
(excerto de) O Rei à escuta
(in Sob o Sol Jaguar, Tradução de José Colaço Barreiros, editorial Teorema, 1992)
(excerto de) O Rei à escuta
(…) Somos reis, tudo o que desejamos é já nosso. Basta levantar um dedo e trazem-nos de comer, de beber, pastilhas elásticas, palitos, cigarros de todas as marcas, tudo numa bandeja de prata; quando nos dá o sono, o trono é cómodo, bem forrado, basta-nos semicerrar os olhos e abandonar-nos contra o espaldar mantendo na aparência a posição de sempre: o facto de estarmos acordados ou a dormir não altera nada, ninguém dá por isso. Quanto às necessidades corporais não é segredo para ninguém que o trono tem um buraco no assento, como todos os tronos decentes; duas vezes por dia vêm mudar o bacio; e até com maior frequência se cheirar mal.
Em resumo, tudo foi predisposto para evitarmos a menor deslocação. Não teríamos nada a ganhar movendo-nos, e tudo a perder. Se nos levantarmos, se nos afastarmos nem que seja um passo, se perdermos de vista o trono nem que seja por um instante, quem nos garante que ao voltarmos não encontramos outro qualquer sentado nele? Se calhar alguém parecido connosco, igualzinho. Vamos lá depois demonstrar que o rei somos nós e não ele! Um rei distingue-se pelo facto de se sentar no trono, usar a coroa e o ceptro. Ora quando estes atributos são nossos, o melhor é não nos separarmos deles nem por um instante.
(…)(in Sob o Sol Jaguar, Tradução de José Colaço Barreiros, editorial Teorema, 1992)
21.11.08
LÍDIA JORGE
(excerto de O Dia dos Prodígios, 1980)
(...) E o cantoneiro disse. Às vezes costumo dizer. Amo as palavras bonitas, mas quando ouço certas coisas, ah punhão, apetece-me ir buscá-las ao fundo das tripas e do buraco que se chama recto. Ninguém. Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se. E ainda disse. Mas aqui. Aqui ficam todos pelo desejo das coisas. Ah traição. (...)
(excerto de O Dia dos Prodígios, 1980)
16.11.08
[para lá de todas as razões. para cá de toda a Amizade]
ANA SALOMÉ
Ode da rapariga no quarto
aqueles corações honestos corta-se pelo frio
não têm o beneplácito do sol nem a solução
da ferocidade da lua e moram em corpos tristíssimos
peões incapazes de saltarem para o cavalo
que os levasse à torre. moram em mentes
de artistas da rua da amargura
em filhos únicos que morrerão sem descendência
em poetas que não têm Shelley como advogado
e que a idade começa a pesar no de outrora ouro esbanjado.
a honestidade da impenetrável neve
a descer num balão de ar frio sobre o quatro de rapariga
com a decoração da adolescência
o urso em cima do guarda-roupa
a secretária com os dicionários
aquele lugar que a torna inabitante
incapaz de adequar um corpo que cresceu com formas
e sem forma de ser de novo expelido.
a beleza do cheiro que há nas flores
que há no recôndito calor do corpo às sombras consigo
a acumular o pó que seria só dos móveis
aquele corpo deitado como se pousasse para Matisse
num fim de tarde e meticulosamente
retirasse o coração e o pusesse na cabeceira
alegando o descanso cinco minutos só
que a acordasse no fim do quadro
ou no fim da vida cinco minutos só
de absoluta nudez.
(de odes, editora Canto Escuro, 2008)
ANA SALOMÉ
Ode da rapariga no quarto
aqueles corações honestos corta-se pelo frio
não têm o beneplácito do sol nem a solução
da ferocidade da lua e moram em corpos tristíssimos
peões incapazes de saltarem para o cavalo
que os levasse à torre. moram em mentes
de artistas da rua da amargura
em filhos únicos que morrerão sem descendência
em poetas que não têm Shelley como advogado
e que a idade começa a pesar no de outrora ouro esbanjado.
a honestidade da impenetrável neve
a descer num balão de ar frio sobre o quatro de rapariga
com a decoração da adolescência
o urso em cima do guarda-roupa
a secretária com os dicionários
aquele lugar que a torna inabitante
incapaz de adequar um corpo que cresceu com formas
e sem forma de ser de novo expelido.
a beleza do cheiro que há nas flores
que há no recôndito calor do corpo às sombras consigo
a acumular o pó que seria só dos móveis
aquele corpo deitado como se pousasse para Matisse
num fim de tarde e meticulosamente
retirasse o coração e o pusesse na cabeceira
alegando o descanso cinco minutos só
que a acordasse no fim do quadro
ou no fim da vida cinco minutos só
de absoluta nudez.
(de odes, editora Canto Escuro, 2008)
Subscrever:
Mensagens (Atom)

